As verdades sobre a mentira
A proximidade do Dia da Mentira, em 1º de abril, propõe uma reflexão sobre as causas, os efeitos e os comportamentos provocados pela mentira
“Não há uma única coisa que não seja verdade. Tudo é verdade”. A frase é do escritor norte-americano Ernest Hemingway, que certamente era muito otimista ou se referia a uma situação específica ou, ainda, com a licença do adjetivo atribuído a quem já não pode mais se defender, era um mentiroso. Nem tudo é verdade. Aliás, a mentira anda em voga. E isso não é de hoje. Quando Hemingway nasceu, no fim do século XIX, o mundo já era assim, cheio de mentiras, um recurso que, de tão comum, ganhou um dia de celebração.
Ter um dia dedicado à mentira não pressupõe que seja uma forma de enaltecê-la, mas, no mínimo, além das brincadeiras, pode provocar uma reflexão sobre suas causas e efeitos, e, no plano individual, a frequência que tem sido usada. Estudos apontam que a psicologia explica a mentira pelo mecanismo de defesa, a sociologia pela busca do poder, a filosofia pela imperfeição humana e a religião pela compulsão ao pecado. Embora tenha uma explicação, a mentira não tem justificativa. “As explicações não justificam e nem desculpam o mentiroso, a não ser que ele admita a mentira como atitude errônea. Neste caso, merece ser perdoado. Mentira é mentira e verdade é verdade”, afirma o padre Gilberto Kasper, reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto, mestre em Teologia Moral e especialista em Bioética, Ética e Cidadania.
O padre concorda que a mentira seja uma compulsão ao pecado e alerta que ela desestrutura qualquer relação humana, já que a base das relações é a confiança. “A mentira é pecado grave, embora a atual geração tenha perdido tal noção por pensar que uma mentirinha daqui e outra dali não são ofensivas e não ferem a dignidade das relações humanas”, observa Kasper.
Já o sociólogo Delson Ferreira não concorda totalmente com a afirmação atribuída à sua área, pois acredita que não seja apenas pela busca ou manutenção do poder que se mente. “Claro que a mentira é um dos recursos mais utilizados na política. Basta observar o volume absurdo de promessas que são feitas para os eleitores nas campanhas eleitorais e que não são cumpridas. Mas, antes da política, a mentira é um comportamento presente em todas as searas da vida humana individual e social”, avalia Delson, acrescentando que o mentir começa para si próprio e chega para os outros, afirmando-se, assim, como um dos grandes mistérios da conduta humana.
O médico e filósofo Reginaldo Silva Ferreira Vianna diz que o ser humano sempre discute a mentira como necessidade social e, assim, minimiza as suas consequências. “A mentira prejudica a todos, e, às vezes, principalmente, o mentiroso. O homem quer fazer parecer que a mentira está incluída no arsenal para sobrevivência”, comenta. Segundo o médico, a filosofia tem visões extremas sobre o assunto. Kant, por exemplo, não admite a mentira e a considera um mal desnecessário porque a verdade é um dever que o homem não pode abrir mão em nenhuma circunstância. Já para Schopenhauer, a mentira pode ser dita a qualquer momento quando o indivíduo se sente agredido pelo outro, ou seja, o filósofo praticamente considera a mentira uma arma de uso em casos nobres ou de autodefesa. Essas visões extremas mostram a dificuldade na discussão do assunto, principalmente porque sempre haverá, em um primeiro momento, a tese de que a mentira é um desvio moral, para em seguida se discutir detalhes que justificariam para cada caso. Assim, Reginaldo considera que a necessidade de justificativa explica a ideia de que a mentira é sim um ato falho lesivo para o ser humano moral.
Fernanda Sivaldi Roberti Passalacqua, psicóloga e psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, afirma que os mecanismos de defesa são diversos tipos de operações inconscientes, utilizadas contra vivências carregadas de ansiedade e dor mental, portanto, difíceis de serem toleradas. As mentiras são afirmações contrárias à verdade e, portanto, diferem dos mecanismos de defesa porque são mantidas conscientemente pela pessoa que mente e usadas para impedir o conhecimento e a verdade. Ela até pode ser considerada uma defesa em diferentes níveis, como, por exemplo, quando uma criança mente para a mãe para não decepcioná-la ou então um adolescente mente sobre as notas da escola pelo medo de um castigo dos pais. “Essas ações representam uma defesa para evitar o contato com a realidade. Porém, sempre é um ataque, pois, quando a pessoa mente, ela ataca inevitavelmente sua capacidade de tolerar a verdade, de tolerar frustrações, de assumir responsabilidades pelos seus atos e, principalmente, a sua capacidade de pensar”, declara.
QUANDO A MENTIRA COMEÇA
As pessoas começam a mentir desde a infância, dependendo do meio familiar e social em que vivem e com quem e como convivem. Fernanda lembra que as fantasias existem desde o início da vida e são componentes essenciais para aprender com a experiência, uma vez que um dos principais meios pelos quais se conhece a realidade é fazendo hipóteses sobre ela, na forma de fantasias, testando-as depois por meio da percepção. Na medida que a criança vai crescendo, torna-se mais capaz de diferenciar a fantasia da realidade. Com isso, estará sempre sujeita a se deparar com novos conflitos, devido à percepção mais próxima da realidade externa e interna e, assim, aproximadamente por volta dos 3 ou 4 anos, pode fazer uso da mentira como um modo de lidar com tais conflitos.
Padre Gilberto considera que se as mentiras em tempo de criança não forem superadas, passam a se tornar frequentes, comuns ou o que se costuma chamar de “normal” já na vida adolescente e, posteriormente, adulta. O sacerdote defende que a mentira, para a criança, é um recurso, principalmente quando ela é educada sob pressão. Ela então mente para se defender. Para o adolescente, a mentira se torna um hábito porque não é definido ou compreendido: por vezes, é criança demais e, por outras vezes, vem a cobrança de atitudes de responsabilidade mais adultas. Assim, a mentira, na maioria das vezes, é a saída mais hábil para sua sobrevivência. Quando a mentira persiste e acompanha a pessoa na vida adulta, torna-se, provavelmente, um desvio de caráter. Essa ideia é compartilhada por Delson: “a mentira é um recurso antiético de defesa de interesses ou posições pessoais e políticas. Como recurso utilizado de forma estratégica e conforme a situação de momento, torna-se um hábito por meio do qual a resolução de situações complexas fica, aparentemente e de imediato, favorável para o mentiroso. Em função desses pressupostos, a sua prática contumaz leva, por repetição, ao desvio comportamental de caráter”, define o sociólogo.
Reginaldo comenta que o cientista social Erving Goffman dizia que o homem social se traveste de “máscaras” a cada momento para enfrentar situações. Em casa, pode expressar um lado paterno, cuidador, benevolente, atento aos filhos, dócil e amoroso com a mulher. No trânsito, esse mesmo indivíduo pode se expressar como agressivo, intolerante, desatento, mas que cobra atenção dos outros, enquanto no trabalho talvez se expresse como alguém rígido, formal, frio, calculista e indiferente aos problemas dos funcionários. Aos domingos, frequenta a sua igreja e promete a Deus e aos homens todo o seu amor para a humanidade e praticamente assina a sua promessa abraçando, às vezes em lágrimas, o seu vizinho de cadeira que sequer conhece. “A sociedade, de certa maneira, privilegia alguém assim, capaz de se expressar com tamanha desenvoltura a cada momento. Ela geralmente consegue sucesso social. As críticas a posturas como essas sempre partem do individuo isolado e não do grupo social. Com o tempo, ficamos acostumados a viver como parte de uma grande mentira, aceitando aquelas que nos interessam a cada momento”, afirma o filósofo.
PORQUE AS PESSOAS MENTEM
Para manter, a qualquer custo, uma situação qualquer que seja de fato ou pareça favorável, as pessoas recorrem à mentira. “Isso significa que não se leva em conta o dano que o ato de mentir possa causar aos outros, desde que a situação seja mantida favorável para quem mente”, avalia Delson. Assim, entendendo que o comportamento ético é aquele que se pauta por não causar quaisquer danos ao outros, é possível considerar a mentira como um dos maiores atos antiéticos de que o ser humano é capaz. Padre Gilberto complementa que as pessoas mentem porque perdem as características próprias ao caráter e à personalidade.
Nem todas as mentiras são conscientes, segundo o sacerdote. Na medida em que a pessoa amadurece sua capacidade de discernimento, adquire o uso da razão e conhece as consequências de suas mentiras, tende a corrigir-se. Quanto melhor for a educação desde o berço, maior será a consciência do que é mentira e do que é verdade. Aí, entra o dom da liberdade e da escolha. A pessoa pode escolher entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira. Por ter o livre arbítrio, deverá ela mesma assumir as consequências de sua escolha. “Penso que não mentir se trata de um esforço pessoal diário. Se conseguirmos ou não, é menos importante. O que importa é o esforço empreendido por viver sempre à luz da verdade”, aponta Padre Gilberto.
A visão da psicóloga é diferente, pois ela acredita que a pessoa sabe conscientemente que está distorcendo uma experiência verdadeira e é capaz de sustentar a mentira para disfarçar a verdade tão temida. “Penso que, de modo geral, as pessoas não gostam da mentira, exatamente porque têm a noção de que quando mentem, revelam verdades difíceis de serem aceitas, tais como a falta de confiança em si mesmo, uma autoestima debilitada, medos e inseguranças. Mas ela é uma aptidão do ser humano. Não há quem não minta uma vez ou outra, mentiras consideradas socialmente como ‘aceitáveis’, inocentes, sem teor de maldade”, analisa.
Quando mente, o indivíduo procura obter alguma vantagem para si ou para alguém, mas sempre terá aquele que perderá alguma coisa, ainda que seja a liberdade de ter agido de outra forma, naquela situação, se ele tivesse ouvido a verdade. Reginaldo analisa que o homem, quando mente, busca uma vantagem individual, induzindo no outro atitudes que ele não teria naquela situação. “As guerras têm exemplos de mentiras fantásticas que levaram a vitórias e derrotas conhecidas universalmente. O dia D, na Segunda Guerra, foi precedido de inúmeros dados que o inimigo, ao tomar conhecimento, foi induzido a acreditar que a invasão seria em outro lugar. O inimigo foi enganado e perdeu a guerra”, exemplifica o filósofo.
Fernanda conta que, ao mentir, o sentimento inicial é de alívio e conforto, por ter conseguido se livrar de uma certa situação difícil, mas, posteriormente, esse alívio é substituído pelo sentimento de culpa e de perseguição. Nos casos considerados desvios de caráter, em que há o predomínio de inveja intensa, o sentimento é de triunfo, por acreditar onipotentemente que é capaz de enganar, provocar dano em alguém, agindo com má fé. Nos casos mais graves, a pessoa mostra-se insensível, expressa frieza, pois não tem consideração e respeito pelo outro e por si mesmo. Quando a pessoa incorpora a mentira no seu modo de relacionar-se, muitas vezes chega a tal ponto que tem convicção plena da sua nova versão da verdade. Neste sentido, a pessoa não deseja conhecer a verdade. Sua luta é para evadir-se deste conhecimento, custe o que custar. Nestes casos, Freud destacou o fato ilusório, de que “a repetição da mentira a tornaria uma verdade”.
QUANDO A MENTIRA SE TORNA UM HÁBITO
O problema central que envolve a mentira não pode ser ocultado por sua aceitação social como algo necessário em determinadas situações difíceis, uma vez que ele deve ser visto e compreendido no campo das condutas antiéticas. Assim, é impossível dimensionar se as pequenas mentiras cotidianas são mais ou menos devastadoras do que as maiores e esporádicas. O sociólogo Delson frisa que não existe mentira pior do que outra, uma vez que sua medida, sua métrica, não se refere ao seu tamanho, se pequena ou grande, seja para justificar um pequeno atraso na chegada ao trabalho ou para desviar milhões em recursos públicos. Reginaldo completa dizendo que para o homem, como ser moral, a discussão da mentira sempre será considerada no aspecto de ser uma oportunidade e não exatamente um ato falho, um artifício de astúcia, de esperteza e até de humanidade, como no caso da mentira piedosa. Nessas situações, segundo ele, a mentira é aquela que não foi dita como mentira, mas apenas na forma de omissão da verdade.
Aliás, a igualdade ou a diferença entre mentir e omitir também sempre gera discussões. Para o Padre Gilberto, nem sempre omitir é mentir, pois há coisas que não se dizem, principalmente quando colocam a moral dos outros em risco. “Nem tudo que digo, faço ou penso devo dizer a quem quer que seja. O Papa Paulo VI afirmava que a consciência é o sacrário da pessoa que guarda os maiores tesouros e segredos”, parafraseia. O que o preocupa, é que as pessoas, perdendo a noção do pecado, pensando que mentir não é pecado por que todos mentem, omitem suas mentiras até mesmo quando buscam o sacramento da reconciliação. Dificilmente, as pessoas confessam que mentiram, mesmo sendo o que elas consideram “mentiras necessárias”. “Se a mentira desarmoniza e divide as relações humanas, é pecado. Logo, deve ser reconhecida como tal, confessada e deve haver um esforço para não mentir mais”, aconselha Gilberto.
Há pessoas que mentem como mecanismo de defesa e outras, de ataque. Ela é geralmente um instrumento destrutivo das relações humanas por causa de outros sentimentos, como o da preguiça, da omissão, da inveja, do ciúme, da avareza, da ganância e de tantos outros. O certo é que a mentira torna insuportável uma relação harmoniosa, que necessita da confiança como base. Não admitir um erro, por exemplo, implica na transferência da culpabilidade. Padre Gilberto utiliza o caso do pecado original para exemplificar. No diálogo de Deus com a mulher, ela transfere sua culpa ao homem e este, por sua vez, à serpente, símbolo da mentira, da traição e mestra da ilusão. O sacerdote salienta que isso é muito frequente na sociedade atual, pois a reação instantânea de alguém que comete um delito é negar ou transferir sua culpa a outros. Enquanto não se assume a própria culpa, não se encontra a verdade.
Confessar a mentira é muito difícil porque, uma vez admitida, ela revela fraqueza, falta de coragem de enfrentar a situação desfavorável de frente e com verdade. A mentira causa uma sensação de falta de paz, medo de ser descoberta, vergonha do que poderá acontecer ao ser descoberto e uma angústia profunda. “As pessoas pensam ser humilhante admitir a mentira, enquanto tal admissão é uma linda virtude e uma nobre humildade”, diz Padre Gilberto, observando que o tempo é inimigo da mentira. Logo, não há mentira que fique encoberta. A verdade pertence ao campo dos fatos, da realidade concreta e imediata que cerca as pessoas de modo inevitável.
Essa é a referência central do antigo provérbio que diz que a mentira tem pernas curtas. O ditado se sustenta porque, em algum momento, ela pode vir à tona e expor quem está mentindo. “O mentiroso tem consciência absoluta da sua mentira e por isso ele não acredita nela. Involuntariamente, ele emitirá alguns sinais de que não crê naquilo que transmite, ou seja, ele passa uma informação, mas também emite alguns sinais que são diretamente proporcionais àquilo que ele acredita, ou não”, esclarece Reginaldo. Essa emissão involuntária de sinais comprometedores pode expor o mentiroso. Na sociedade, os grandes atores são aqueles que conseguem esconder a maioria desses sinais emitidos e transmitem uma grande confiança na mentira que expressam. Eles mimetizam a crença na sua mentira, ou seja, fazem parecer que ela seja verdade.
Algumas pessoas parecem acreditar na própria mentira para ter condições internas de suportá-la. Porém, quem mente sempre sabe que está mentindo. Alguns tentam justificar a mentira para evitar danos maiores. Outros afirmam que pregaram uma mentirinha necessária, uma mentira para não ofender, outra mentira para se livrar de determinado constrangimento ou até mesmo para justificar atrasos ou algo do gênero. De pequenas mentiras surge o hábito de mentir frequentemente e mentira sobre mentira vira uma grande mentira. Porém, pessoas que buscam ser coerentes no que pensam e no que falam necessitam cada vez menos utilizar a mentira como recurso. Na medida que a pessoa acredita que é capaz de enfrentar suas dificuldades, limitações e frustrações, consegue se policiar para mentir menos. “Um importante psicanalista dizia que a verdade é o melhor alimento para nossa mente, enquanto a mentira é um veneno. É através da verdade que podemos estabelecer vínculos amorosos”, finaliza a psicóloga Fernanda.
PINÓQUIO, MENINO MENTIROSO
Em 1883, o italiano Carlo Collodio criou o mentiroso mais famoso da história: Pinóquio, o menino esculpido a partir de um tronco de madeira pelo velho Geppetto. Na ficção, ao ganhar vida, Pinóquio se envolveu em muitas aventuras e, sempre que mentia, seu nariz crescia. A história, que anos depois se transformou num longa-metragem de animação produzido pelos estúdios Disney, serve de inspiração para as mães do mundo todo intimidarem seus filhos em relação à mentira.
OS SINAIS DA MENTIRA
Na maioria das vezes, felizmente, o mentiroso emite sinais que comprometem o seu desempenho, como por exemplo, a sudorese, a gagueira, o desvio dos olhos do interlocutor, os movimentos nervosos das mãos, dificuldade de completar o assunto de forma natural e lógica e tantos outros sinais que podem ser percebidos e que fragilizam a credibilidade daquele que tenta se expressar. “Esses sinais são a expressão daquilo que se quer esconder. É como um alerta que cada um de nós, com maior ou menor sensibilidade, percebe como algo duvidoso”, explica Reginaldo.
Texto: Máisa Valochi
Fotos: Júlio Sian
Produção de moda: Marcela Versiani e Mel Cândido
Modelo: JP Trovó
Agradecimentos: Verde Rosa Aluguel de Fantasias — (16) 3877.1622 e Full Store — (16) 3421.5998.