Até que o amor separe

O amor não vem com a opção de “ligar” ou “desligar”, mas é um sentimento construído num compasso duplo

No relacionamento amoroso, a rotina é considerada uma das piores inimigas. Contudo, ela também pode ser entendida como resultado de pura intimidade — em algumas ocasiões, um verdadeiro elogio. Portanto, dá para afirmar que não há receita a seguir em matéria de amor. Para que ele continue existindo, é preciso renovar as expectativas, relançando-se em uma nova aposta num encontro sinestésico. Assim, o amor faz parte do desenrolar de muitas histórias. Entretanto, nem todos têm paciência e coragem na hora de enfrentar as complicações da vida a dois, como se a expressão “e viveram felizes para sempre” fosse uma conquista tão natural na vida real quanto é nos contos de fada. 

O casamento pode trazer embutida a ideia de que deve a relação vai durar para sempre, o que demanda uma enorme responsabilidade. Mas ninguém é dono do amor, e ele pode durar ou não. A psicoterapeuta e terapeuta familiar em Constelação Sistêmica, Fátima de Oliveira, acredita que a frase típica dos finais dos contos de fada é exclusiva do mundo das fantasias. Para a terapeuta, um casamento deve ser construído, destruído e reconstruído o tempo inteiro. “Muitas vezes, no momento do caos, as pessoas deixam de dar um grande passo no crescimento do amor. Com a falsa perspectiva que se deve ser feliz a qualquer custo, não enxergam a possibilidade da mudança. Ao mesmo tempo, a frase ‘felizes para sempre’ pode produzir em quem está encerrando um relacionamento a sensação de desespero, já que não corresponderam às expectativas, nem tiveram suas necessidades supridas. Desta forma, muitos casais arrastam relacionamentos mortos para não lidar com a sensação do fracasso”, explica. 


A publicitária Chris Carolo é uma das inúmeras pessoas que guarda histórias de amor bem-sucedidas para contar — mesmo aquelas que tiveram um fim. “Acredito que amor mesmo, não  paixão, não acaba. Ele se modifica e essa é a parte mais difícil de um relacionamento: entender cada fase e dar vivacidade a ela. Temos uma tendência de entrar na zona de conforto que pode ser fatal na vida de um casal”, comenta Chris.

Como diria o escritor e jornalista, Paulo Mendes Campos, “em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba...”. É preciso estar preparado para quando isso acontece, afinal, as reações são individuais e podem ser surpreendentes. Na hora do término, um turbilhão de sentimentos, como carência, dor, desprezo e insegurança, misturam-se a todo tempo. Nesse momento, algumas pessoas se expõem, enquanto outras se recolhem. Entretanto, qualquer que seja a reação, escapar do sofrimento é impossível.

Fátima revela que todos já vivenciaram um sofrimento em algum momento da vida. Quando as pessoas não buscam o autoconhecimento para lidar de forma saudável com suas questões mais profundas, principalmente, com os traumas da infância, muitas vezes, enxergam no outro a tábua de salvação. “Alguns deixam de enxergar o parceiro como um ser humano, com defeitos e qualidades, e o transforma em super-heróis, capazes de proporcionar a felicidade eterna. Essa dinâmica de relacionamento causa grande dor, tanto para quem recebe a carga de expectativa, quanto ao parceiro cobrador”, define a psicoterapeuta. 

Assim como Chris, a jornalista Gisele Ratuchinski vivenciou algumas separações, porém, mantém uma visão racional sobre o fim de uma relação. A jornalista afirma que sempre soube que qualquer namoro não será um mar de rosas eterno, então, dificilmente se frustrava com qualquer situação. “Descobrir o que cada um gosta ou não, exige muitos erros e acertos. No meu último relacionamento, o começo foi ótimo, parecia a sintonia perfeita, mas é aí que o perigo se encontra. Aquele mundo de sonhos colocado a minha disposição me deixou fascinada. Mas aprendi que tomar decisões guiada apenas pela emoção pode causar vários danos”, acrescenta a jornalista. Após enfrentar o fim de um relacionamento de seis anos, Chris confirma que o término foi vivido como um luto. “O fim de uma relação remete às piores perdas. É uma espécie de luto por alguém que está vivo, que eventualmente pode encontrar, mas não terá mais ao seu lado”, ilustra a publicitária.

Foram muitas mensagens pelo celular, declarações em redes sociais, fotos e filmes compartilhados lado a lado. Durante o relacionamento, um foi o centro da vida do outro e, de repente, é cada um para o seu lado. Com a separação, surge uma questão: se era bom, por que acabou? “No início do amor, ambos fantasiam. Não veem um ao outro, apenas buscam um espelho perfeito. Com o passar do tempo, a convivência estreita e o vínculo sendo estabelecido, deparam-se com o outro da vida real, e vice-versa. Somente nesse momento é possível começar uma grande escola de desenvolvimento humano, onde ambos crescem, ou terminam”, pontua a terapeuta Fátima.

Gisele revela que, por alguns conflitos motivados por ciúme, possessividade e, principalmente, falta de compreensão, seu relacionamento chegou ao fim. “Esfriou demais, o encanto acabou e, com ele, a normalidade veio à tona. Grandes expectativas podem gerar também grandes quedas”, argumenta, acrescentando que, como em qualquer ruptura, o recomeço foi difícil. “Todo término remete à certa dose de fracasso, e quem gosta de se sentir assim? O fracasso era meu, pois minhas expectativas eram altas. Além disso, todos deixam cicatrizes. A diferença de um para o outro é o ‘como’ acabou e como essas ‘cicatrizes’, benéficas ou não, farão parte da evolução”, declara a jornalista.

Chris lembra que passar por essa fase trouxe uma avalanche de sensações, que oscilaram entre a dor e a solidariedade, o carinho e o cuidado dos familiares e amigos. Por isso, foi possível manter o equilíbrio necessário para lidar com a situação. “Nos dias mais difíceis, meu blog foi meu grande companheiro. Escrevi muito, desabafei, desnudei minha alma e percebi que muitas pessoas se identificaram. Aprendi com um grande amigo que, quando trocamos expectativas por possibilidades, a vida fica mais leve. Foi o que procurei fazer e acabei descobrindo que há vida após uma separação, por mais traumática que ela tenha sido. Basta voltar o olhar para aquilo que é importante: nós mesmos”, expressa Chris.

Já Gisele garante que, além dos cuidados recebidos pela família e pelos amigos, buscou olhar para dentro de si para manter o autocontrole e voltar a se reconhecer. “Saber que não é só com você que isso acontece e entender como outras pessoas fizeram para sair de momentos parecidos também ajuda muito”, acrescenta a jornalista.

A psicologia do amor
O amor merece destaque entre os inúmeros sentimentos despertados pelo outro. Tal emoção varia de acordo com a intensidade da experiência, sendo suave ou profunda. Mas algo é certo: o amor já foi, ou será, experimentado em algum momento da vida. Mais do que isso: na maioria das vezes, aquele começo lindo terá um fim. Este ponto final de um relacionamento afetivo costuma provocar uma revolução no cotidiano emocional das pessoas, principalmente quando o término vem da outra parte. 

O professor de psicologia, José Aparecido da Silva, ressalta que todas as pessoas podem encontrar, em outros níveis elevados de intimidade, o que se caracteriza como amor. Na opinião do professor, isso significa gostar fortemente da outra pessoa. “Entendo que o amor é uma relação de troca com vários componentes, como carinho,  comportamento sexual e intimidade. Quando essas relações não se sustentam, quando não há equilíbrio, a relação tende a acabar”, explica. 

José Aparecido ainda lembra que, com o passar do tempo, o amor muda. “Algumas teorias mostram que certos aspectos mudam com a idade. Geralmente, quando se é jovem, necessidades fisiológicas, como o sexo, são prioridade; já na maturidade, o importante é ter alguém para conversar, ser seu companheiro”, explica o professor.

Fátima salienta que, no atendimento a casais, observa muito amor entre os indivíduos, mesmo quando falta disponibilidade para estar junto de fato. “Vejo que os emaranhamentos familiares, por exemplo, podem ser fatais. Muitas vezes, adquirimos crenças e padrões de funcionamento da nossa família de origem que vão além da nossa própria vontade. Enquanto não trouxermos para a consciência o que deve ser deixado para trás, mudaremos de parceiros e teremos os mesmos sofrimentos”, afirma a especialista.

Pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, realizaram estudos cujos dados indicam que a rejeição pode causar dor física nas pessoas. A pesquisa demonstrou, com o auxílio de aparelho de ressonância magnética, que, embora não haja uma interação física direta, a rejeição ativa as mesmas regiões do cérebro que uma experiência física dolorosa. “Há uma homologia entre dor física e dor social. Exemplos típicos são os fatores usados para descrever tanto um tipo de dor quanto o outro: as pessoas usam as mesmas palavras para dizer que estão sentindo dor física e dor social, como ‘dói como se fosse uma flechada, sufoca, fere’”, ensina José Aparecido. 

O professor frisa que estudos envolvendo ressonância magnética funcional mostram que os substratos neurais responsáveis por ambas as dores, física e social, são similares. “O mais interessante é que os fatores que aumentam a dor social também tornam a dor física mais intensa. E, claro, intervenções terapêuticas apropriadas podem aliviar as duas”, destaca.

Muitas questões psicológicas estão envolvidas quando o assunto é a dor, como a necessidade do luto e do processamento do aprendizado emocional. Para os profissionais, o luto acompanha toda a dinâmica da separação. É um processo intenso necessário e fundamental para a recuperação plena de qualquer pessoa. Esse processo se divide em cinco fases: negação, raiva, barganha,  depressão, não patológica, e, por último, a aceitação. “Somente depois de passar por todas essas fases, estaremos prontos para construir uma nova relação”, afirma a psicoterapeuta.

Está chegando ao fim?
Infelizmente, nenhuma pesquisa apresentou (ainda) os fatores que demonstram que um relacionamento está chegando ao fim. Mas a psicoterapeuta Fátima de Oliveira aponta algumas atitudes a serem observadas.

  • Um dos parceiros se julga maior e melhor do que o outro
  • O desrespeito impera
  • O prazer cede lugar para o desprazer
  • As máscaras ocupam o lugar do rosto lavado
  • Esgotam-se as possibilidades de mudança

Eles e elas
Há quem diga que as mulheres sofrem mais com as dores do amor do que os homens. O fato é que homens e mulheres têm dinâmicas diferentes: ambos sofrem, entretanto, o homem tem uma tendência maior para a introspecção. “Atualmente, os homens estão quebrando grandes barreiras, frequentando terapias, buscando o processo de autodesenvolvimento e tratando suas dores emocionais sem culpa. Isso é um grande avanço. A dinâmica da mulher pode favorecer sua recuperação, já que é mais fácil para o clã feminino procurar ajuda e falar abertamente sobre suas dores”, expõe Fátima.

Grande parte do sofrimento no fim de um relacionamento advém da despedida das expectativas e dos sonhos criados acerca do assunto. Muitas vezes, o casal estava infeliz mas, mesmo assim, no término do romance, um saudosismo melancólico toma conta. Na partida do outro, é necessário que ambos olhem para o seu “vazio interno” que, muitas vezes, era preenchido por brigas e desentendimentos. “A mídia também promove um ‘estímulo’ para a dor, com seus filmes e novelas cheios de dramas amorosos, que mostram casais sofrendo até o fim para permanecerem juntos. Há, também, muitas músicas que favorecem a crença no amor a qualquer custo, evidenciando a separação como sinônimo de sofrimento”, alega Fátima.

Apesar da possibilidade do sofrimento, tentar buscar o amor, ou a felicidade, é sempre a melhor opção. “Somos animais essencialmente sociais e precisamos de identidade social e afetiva. Uma maneira de alcançá-las é ter um relacionamento afetivo. Quando isso não ocorre, nós nos sentimos incompletos e sofremos. Mas vale reforçar: é melhor amar do que não amar”, completa José Aparecido.

Uma coisa é certa: os relacionamentos encarados são responsáveis por tornar o indivíduo em quem ele é. Há poucas experiências na vida que ensinam mais do que viver ao lado de alguém de um universo diferente. O fato é que o “ex” só é um tabu quando se permite, já que não há ninguém que passe pela vida de outra pessoa sem deixar ensinamentos, sejam eles bons ou ruins. Segundo os especialistas, o importante é aprender e, para aprender, é preciso vivenciar. 

Embalos do Coração
Todo amor que se preze tem uma trilha sonora para abrandar corações, dos mais raivosos aos que estão abertos a novos amores. Há trilhas sonoras para secar o pranto, completar os relacionamentos e prometer novos amores. Confira a seleção de músicas ouvidas frequentemente na hora, ou após, o fim da relação. 

TEMPO, PILEQUE E DEVANEIOS

Atrás da Porta, 

na voz de Elis Regina

“Quando olhaste bem nos olhos meus / E o teu olhar era de adeus, juro que não acreditei / Eu te estranhei, me debrucei / Sobre o teu corpo e duvidei”...

Meu Mundo Caiu, 
na voz de Maysa

“Meu mundo caiu / E me fez ficar assim / Você conseguiu / E agora diz que tem pena de mim”...

Devolva-me, 
na voz de Adriana Calcanhoto

“O retrato que eu te dei / Se ainda tens / Não sei! / Mas se tiver / Devolva-me”...

CHAMEGO, CERVEJA E NOVIDADES

Caminhos Cruzados, 

na voz de Tom Jobim

“ Vem, nós dois vamos tentar... / Só um novo amor pode a saudade apagar”...

Olhos nos Olhos, 
na voz de Chico Buarque

“Olhos nos olhos, quero ver o que você diz  / Quero ver como suporta me ver tão feliz”...

Vou Deitar e Rolar, 
na voz de Elis Regina

“Não venha querer se consolar / 
Que agora não dá mais pé / 
Nem nunca mais vai dar”...

A arte imita a vida
Das juras de amor eterno aos tapas e beijos. Das decepções às novas descobertas. Os clássicos do cinema são inspiração para todos os momentos do relacionamento, por isso confira os filmes que podem dizer muito sobre a vida compartilhada, ou não. 

BRIGADEIRO E SOFÁ X CINEMA E PIPOCA

500 Dias Com Ela (2009)
Assista: Porque é possível saber o que as pessoas querem dizer através dos sinais que elas emitem. Talvez o término não é uma surpresa.







Separados Pelo Casamento (2006)

Assista: Porque quando se pisa demais na bola, não tem volta. Por isso, todo relacionamento inspira cuidados. Afinal, até o amor tem limites. 








Amizade Colorida (2011)

Assista:  Porque uma amizade pode se transformar em algo mais. Às vezes o amor está ao lado, envolva-se e aproveite. 








Como se fosse a primeira vez (2004)

Assista: Porque o conceito “conquista diária” pode fazer muita diferença no relacionamento. E um pouco de diversão é sempre bem-vinda. 









Texto: Pâmela Silva
Fotos: Julio Sian e Ibraim Leão
Produção de moda: Marcela Versiani e Mel Cândido
Modelos: Igor Mussacredi e Caroline Vecchi (dotmarketing.com.br – tel.: 16 3446.5742)

* Publicado em 26/06/2014

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