Atenção com o verde

Atenção com o verde

Algumas regiões da cidade vivem realidades verdes antagônicas

Que o verde das folhas e as diversas cores das flores e frutos deixam a paisagem de Ribeirão Preto mais bonita todo mundo sabe. O que alguns desconhecem é que esse não é o único benefício que as árvores trazem para a cidade e para a população. A arborização contribui para melhorar a qualidade do ar, deixando-o mais puro e úmido; auxilia no controle da temperatura, absorvendo os raios solares, proporcionando sombra e deixando o clima mais ameno; reduz a poluição sonora; atrai aves e pequenos insetos para enriquecer a biodiversidade e evita o risco de enchentes, pois facilita a entrada da água no solo. Por tudo isso, as árvores são fundamentais no ambiente urbano.

O município conta com alguns pontos privilegiados. Sem contar os parques, as praças e as Áreas de Preservação Permanente (APP), algumas vias servem como exemplo positivo: a avenida Nove de Julho, a avenida Treze de Maio e a avenida Costábile Romano são algumas delas. Porém, a situação fica crítica se esse cenário for comparado a outros locais, como as ruas da região central, onde não há nem vestígio de verde em meio ao concreto.

Marcelo Pereira de Souza, professor de Política Pública Ambiental da Faculdade de Filosofia e Letras da USP de Ribeirão Preto, acredita que esse índice negativo é reflexo da falta de empenho do governo. “O que vemos são iniciativas individuais e pontuais em bairros específicos. Grande parte delas ocorre devido à mobilização da população. Apesar de importantes, as ações são uma contribuição pequena perto do todo. É preciso estabelecer uma política pública de arborização, elaborar campanhas de conscientização e desenvolver um trabalho complexo em favor dessa causa”, comenta Marcelo.

Segundo o professor, não existe um planejamento para a composição do paisagismo da cidade. O especialista explica que antes de plantar deve haver um estudo para constatar se a espécie escolhida está de acordo com as características do local. Além disso, a preocupação com a diversidade e com a harmonia são essenciais. Aprofundando um pouco mais a questão, Marcelo ressalta que não basta plantar novas árvores. “Faz-se muita propaganda quando se realiza um plantio significativo. Fazer isso é muito fácil. Mas ninguém fala em manutenção porque é caro, exige tempo e dedicação. Temos muitas árvores mutiladas, e não podadas. De que adianta plantar se não cuidamos nem do pouco que já temos”, questiona.

Cláudia Perencin, arquiteta paisagista, ativista socioambiental e vice-presidente da Associação Cultural e Ecológica Pau Brasil, concorda com o professor e aborda outro aspecto do problema. “Há um registro expressivo de extrações. As licenças são concedidas mesmo por motivos fúteis, sem nem considerar outras alternativas para solucionar o problema. A Prefeitura só autoriza a retirada de uma espécie mediante uma compensação. Porém, na maioria das vezes, essas determinações ficam só no papel, já que não há fiscalização do cumprimento”, aponta. A ativista ainda destaca que esse é um projeto que exige constante comprometimento, que deve ser pensado a médio e longo prazo. Ela acredita que, por essa razão, até hoje não tenha sido concretizado o Plano Diretor de Arborização, conforme consta no Código do Meio Ambiente, de 2004, peça legislativa do Plano Diretor Municipal.

Do outro lado, a secretária do Meio Ambiente Mariel Silvestre lista ações ja promovidas pelo governo municipal. Em 2010, por exemplo, foi criado o programa “Vamos Arborizar Ribeirão Preto” para revitalizar as áreas verdes públicas e as APPs, promovendo, também, a arborização viária. “Priorizamos as regiões mais carentes, considerando os anseios da população”, afirma Mariel. Uma delas é o bairro Parque Industrial Tanquinho. Foram cadastradas 820 árvores de diversas espécies e tamanhos nas calçadas. Houve um plantio de 362 mudas, que significou um aumento de 14% nas áreas verdes.

Mariel comenta que a Secretaria do Meio Ambiente também fornece assistência técnica e mudas para empresas, associações e pessoas físicas que querem contribuir. Os projetos são realizados perante a assinatura de um Termo de Colaboração. “No Horto Municipal, as pessoas recebem as orientações para o plantio. Os pedidos de até três mudas podem ser retirados diretamente no local. Acima desse número é necessária a apresentação de um projeto na secretaria”, indica.

Em busca de aprimoramento, há um estudo sendo realizado pelo Prof. Dr. Demóstenes Ferreira da Silva Filho, da ESALQ/USP de Piracicaba, para analisar o estabelecimento de áreas prioritárias para arborização por meio de imagens de alta resolução. “A finalidade da pesquisa é extrair e quantificar a cobertura arbórea dos bairros da cidade de Ribeirão Preto; elaborar índices de vegetação; elaborar o modelo digital do terreno e mapear as áreas prioritárias para arborização na cidade. Com isso, poderemos fazer um trabalho mais efetivo”, conclui.

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