Ativando o modo férias
No mês das férias, pais e crianças optam por desligar os celulares e realizar atividades de lazer diferenciadas, tanto ao ar livre quanto em espaços de entretenimento
Julho é mês de recessos escolares e as crianças e os adolescentes aproveitam para desfrutar de bons e merecidos descansos até a volta às aulas. Entretanto, em muitas ocasiões, em vez de atividades de descontração, como passeios fora de casa e atividades com brinquedos e outros jogos, a atenção dos pequenos neste período de lazer acaba se voltando aos celulares e computadores. Segundo dados atualizados da 30ª Pesquisa Anual do Uso de Tecnologia da Informação, fornecidos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), em maio de 2019, foram registrados 230 milhões de smartphones ativos no Brasil, o que representa 1,1 smartphone por habitante no país. De acordo com informações do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), 44% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos utilizaram exclusivamente o telefone celular para acessar a internet em 2017.
Com o avanço da tecnologia e do mundo digital, parece ser uma tarefa impossível impor limites a esses aparelhos. Smartphones e tablets, quando usados de forma moderada, são aliados das famílias ao propor novas experiências e, por vezes, educar e entreter crianças. O problema surge quando elas são expostas de forma prolongada aos aparelhos eletrônicos: especialistas alertam para riscos consideráveis de surgimento de problemas de saúde e disfunção de atividades corporais essenciais para os humanos, como o sono diário, importante para crianças e adolescentes em pleno desenvolvimento.
De modo a contribuir para a formação cultural e intelectual das crianças e dos adolescentes, muitos pais optam por desligar os telefones por um período e promover atividades de lazer diferentes para seus filhos. Em Ribeirão Preto, famílias e organizadores de eventos de entretenimento e diversão para os jovens ponderam que, sem os celulares, o tempo passa devagar e há maior possibilidade de aproveitar os exercícios propostos. Essas ações se mostram efetivas quando colocadas em prática, agregando conhecimentos e estimulando o processo de aprendizado dos jovens.
Importantes para a saúde
Para o neurologista Dr. Alan Luiz Eckeli, responsável pelo Centro de Medicina do Sono da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), é necessário reduzir o tempo de exposição dos jovens a telas planas, de modo a evitar prejuízos à saúde. “O uso de tela plana é algo muito recente do ponto de vista do ser humano. A Academia Americana de Pediatria limita o tempo de tela, de maneira geral, na primeira para a segunda infância, em no máximo duas horas por dia. Através de alguns estudos, eles acreditam que, a partir disso, pode ser prejudicial à saúde. O limite ainda é discutível, mas sabemos que o uso excessivo pode causar algum problema”, afirma o médico.

Ressaltando a importância da promoção de atividades diferentes dentro e fora de casa, para que as crianças desliguem dos aparelhos momentaneamente, Alan ainda destaca que é dever dos pais propor novos exercícios para os filhos. “No momento em que a criança está na tela, ela não está fazendo outra atividade. Sabemos que hoje, quando você oferece um aparelho eletrônico como exercício, ele está competindo com possibilidades de interação social e atividade física, essenciais para a vida. Uma criança de primeira infância, por muitas vezes, não consegue criar sozinha essas outras atividades. Por isso, é importante que os pais ou responsáveis criem essas oportunidades para os filhos”, pontua Alan.
O professor de Neurologia e Medicina do Sono também alerta para possíveis consequências para o corpo e a mente das crianças, causadas pelo uso prolongado dos aparelhos, como a diminuição do tempo de sono, por exemplo. Dormindo menos, a criança pode ter consequências como impulsividade e hiperatividade, o que, em épocas de aulas, pode levar a baixos desempenhos escolares. Alan ainda recomenda alguns cuidados aos pais, para que mantenham o uso ideal dos celulares por parte das crianças. “Os pais têm que estar atentos a dois aspectos. O primeiro, quanto ao conteúdo a que a criança está sendo exposta, avaliando se está adequado para a idade e se é algo construtivo. O outro aspecto é relacionado à interação social, pensando que o uso desse equipamento não deve impossibilitar ou mesmo comprometer as atividades físicas e sociais da criança”, detalha.
Expectativa de diversão
Mesmo com curta duração, os recessos de meio de ano prometem grande diversão nas atividades de lazer dedicadas às crianças e aos adolescentes em Ribeirão Preto. O setor de lazer e de entretenimento está confiante de que mais famílias se interessarão por cursos de férias e outras ações relacionadas. Flávio Fernandes, orientador de esporte e coordenador do Super Férias em Família, curso de férias do SESI Ribeirão Preto, espera atender em torno de 360 crianças de 6 a 12 anos durante todo o projeto, que será dividido ao longo de três semanas (8 a 12 de julho, 15 a 19 de julho, e 22 a 26 de julho). “As crianças são divididas por faixas etárias. Desse modo, podemos trabalhar conteúdos que mais interessem para elas”, afirma Flávio.

O coordenador do curso também observa que o projeto é planejado por uma equipe multidisciplinar para conter exercícios que alcancem a todos os públicos. Com uma gama de atividades interdisciplinares, o Super Férias trabalha com seis monitores específicos, além dos técnicos dos programas de esportes e educação física, culinária, cultura, informática e artesanato. Para julho, Flávio conta que o curso de férias terá uma novidade especial: nesta edição, o projeto aborda a temática dos super-heróis. “Com um mundo cada vez mais tecnológico, em que as crianças desde pequenas já interagem com aparelhos eletrônicos, proporcionar possibilidades de convívio com outras crianças, movimentar o corpo e aprender com o outro são os maiores ganhos com as atividades do Super Férias, além dos participantes fazerem novas amizades e adotarem hábitos saudáveis para a qualidade de vida”, pontua o orientador de esporte.
Novas atividades, novas ideias
Crianças e adolescentes realizam descobertas constantes e precisam explorar novas aventuras. As atividades de lazer nas férias, sejam elas em casa ou em outros espaços, podem estimular a criatividade e o desenvolvimento de habilidades físicas e intelectuais dos jovens. Para o casal Karen Kroll e Carlos Marland, a brincadeira é essencial para a formação e os resultados positivos são notáveis também nos adultos. “Poderíamos elencar inúmeros benefícios que o brincar proporciona, mas vamos optar por três deles: movimento, criatividade e significado. Eles são fundamentais para o estabelecimento e a manutenção da saúde física e mental, pois são alicerces para o desenvolvimento de competências para a vida e o bem-estar”, afirma Karen, que é gerente de desenvolvimento de produtos de educação socioemocional.
Mesmo assim, os pais avaliam que a tecnologia não deve ser extinta por completo para os pequenos. “Não acho que a tecnologia digital deva ser demonizada, afinal, eu e Karen nos conhecemos em uma rede social, há 15 anos. Pela internet, por exemplo, há conteúdo acessível para qualquer assunto: arte, história, música, diversão ou vários outros temas inapropriados, que, inclusive, não são restritos às mídias digitais. Cabe aos pais, o bom senso de ajudar a criança a construir autonomia e preservar um canal de comunicação aberto para falar sobre conteúdos que ela encontra on-line. Não podemos ser omissos no papel de educadores das crianças e transferir a culpa a um eletrônico por um comportamento de risco ou vício que é adquirido”, enfatiza Carlos, coordenador de planejamento de transportes.

Os pais comentam que optam por privilegiar atividades para o filho Raul, de 9 anos, que podem ser vivenciadas em família e que tornem o convívio mais leve, de modo a recarregar energias. Entre caminhadas por bairros e parques e visitas a teatros e galerias, a família participa de ambientes dedicados às brincadeiras, como o Espaço Criança, atração do Instituto SEB para crianças de 6 meses a 10 anos que oferece ações e oficinas voltadas à sustentabilidade e à recreação. “Conhecemos o Espaço Criança pela indicação de uma grande amiga, muito presente positivamente na educação de nosso filho e grande incentivadora de ações culturais: Vandreza Freiria. Tivemos várias oportunidades de estarmos todos juntos e desfrutarmos do ambiente da Fábrica, seja no Espaço Criança, nas exposições dos estúdios ou no acolhedor Recafé”, complementam os pais.
Para o pequeno Raul, a diversão é o que interessa, independentemente da atividade proposta. “O Espaço Criança é incrível, muito criativo, divertido, bem cuidado e muito legal. O que eu mais gostei foi o redário, porque parece que você vai cair, mas a rede é muito resistente. Dá uma adrenalina muito legal ficar lá em cima”, relata o menino. Quando perguntado sobre se escolhia retornar ao celular ou continuar brincando fora dele, Raul responde: “Eu gosto de brincar por aí, ler meus livros, inventar brinquedos, andar de patinete, jogar bola, fazer casinhas de caixa de papelão, mas também gosto de jogos eletrônicos. Não tenho uma escolha certa na cabeça. O que eu sei é que adoro brincar!”, finaliza.