Ativismo internacional

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A índia Artemisa, do povo Xakriabá, radicada em Ribeirão Preto, teve a oportunidade de discursar em favor do meio ambiente na Organização das Nações Unidas (ONU), nos Estados Unidos

Artemisa Xakriabá tem 19 anos e é uma índia radicada em Ribeirão Preto, onde vive desde 2016. Natural do povo Xakriabá, do Estado de Minas Gerais, ela esteve, recentemente, nos Estados Unidos, onde participou de ações em favor do Meio Ambiente nas cidades de Nova Iorque e Washington D.C.

Estudante que sonha em cursar Psicologia, Artemisa vive em Ribeirão Preto com a mãe, mas afirma que tem o objetivo de voltar para onde nasceu. “Eu quero terminar a faculdade e voltar para a aldeia, pois o índice de suicídio em meu território é muito grande. Formada em Psicologia, espero poder ajudar essas pessoas que têm passado por esses momentos difíceis, dentro no meu território. Esse é o meu principal objetivo, além da luta constante em prol da natureza”, afirma.

Na entrevista abaixo, Artemisa conta detalhes da viagem à América do Norte, das experiências que vivenciou em setembro de 2019 e discorre sobre ameaças climáticas. 

Por que você decidiu deixar a aldeia em que nasceu?

Eu sou natural do povo Xakriabá, próximo à cidade de São João das Missões, em Minas Gerais. Os Xakriabá são um grupo indígena que habita a margem esquerda do rio São Francisco (na Área Indígena Xacriabá), a cerca de 100 quilômetros do rio, no estado de Minas Gerais. Nasci na aldeia, mas senti a necessidade de sair por um tempo para estudar. Tenho lutado desde os sete anos em prol do meio ambiente, quando comecei a fazer o reflorestamento de nascentes junto do povo de minha aldeia. Isso tem repercutido com maior frequência agora.


"O importante é que unimos forças. Nossas vozes têm de ser ouvidas"


E qual o motivo de ter se mudado para Ribeirão Preto?

Eu vim para a cidade em fevereiro de 2016, pois tenho sonho de fazer um curso universitário. Atualmente, vivo com minha mãe, que tem me acompanhado no município. Eu tenho estudado e feito cursinho pré-vestibular para conquistar esses objetivos. Pretendo ir para o Rio Grande do Sul e continuar nessa luta até o fim. Tenho o objetivo de ir para a cidade de Santa Maria, pois lá há pessoas que já conheço e isso facilita a adaptação. Minha irmã estuda na cidade.

Foi difícil se adaptar a Ribeirão Preto?

No começo foi um pouco, pois eu nunca tinha ido para uma cidade grande. Mesmo depois de um tempo, como eu era muito reservada e tinha dificuldade em conversar com as pessoas, foi complicado para ser acolhida aqui. As pessoas tentavam me ajudar, mas eu tinha medo. Com o passar dos dias, fui me adaptando, comecei a estudar, a trabalhar e me desenvolvi. Eu gosto daqui, porém ainda prefiro minha casa, em Minas. Sofro muito em relação ao ambiente — ao ar e ao clima. Sinto-me asfixiada dentro da cidade, mas não por ser Ribeirão Preto e, sim, por estar longe do local de onde vim.

Como surgiu a oportunidade de ir aos Estados Unidos para conversar com senadores e discursar diante da Organização das Nações Unidas (ONU)?

O convite para entrar na ONU foi uma coisa inesperada. Penso que isso vem desde a primeira marcha das mulheres indígenas, que aconteceu entre os dias 9 e 14 de agosto, lá em Brasília. Acredito que, com isso, tive reconhecimento e recebi esse convite. Também foi por meio da música, que é uma das formas que tenho de me expressar: eu fiz uma canção que representava as mulheres e minha trajetória. Foi assim que tudo começou.

Como foi o a sua viagem pelos Estados Unidos?

O primeiro discurso foi em Washington, nos dias 16 e 17 de setembro. Lá, nós entregamos as cartas com nossas reivindicações e objetivos para alguns senadores norte-americanos. Na quarta-feira, dia 18, eu voltei para Nova Iorque, onde estava no começo. Em seguida, na quinta-feira, dia 19, eu tive uma conversa na ONU, com algumas participações e conferências. Pude discursar para imprensa nacional e minha fala apareceu em vários lugares do mundo. Na sexta-feira, dia 20, nós participamos da marcha da cúpula do clima. Tudo o que fui fazer lá foi lutar pela existência não só do meu povo, mas de todo o mundo. Nos Estados Unidos as cidades são bonitas, mas há até pouco tempo eu nem sabia que existia. O importante é que unimos forças. Nossas vozes têm de ser ouvidas.

Sonho de Artemisa é concluir a faculdade de Psicologia e prestar apoio a aldeia onde nasceu, que possui alta taxa de suicídiosO que discursou aos senadores?

Nós, povos indígenas, dependemos da natureza, que é nossa mãe e do nosso território, porque é isso que nos mantêm vivos. No entanto, estamos sendo perseguidos, ameaçados e assassinados. Só em 2018 foram 164 defensores da natureza mortos. Quase um a cada dois dias. Não podemos aceitar que seja derramada nenhuma gota a mais de sangue indígena. Essa foi a minha primeira vez nos Estados Unidos e agradeço a chance. Sei que aquele é o país mais rico do mundo, mas também é o que mais emitiu gases que causam as mudanças climáticas. Esses gases, uma vez que a atmosfera do planeta não tem fronteiras, causam impactos negativos no mundo todo, não só lá.

Foi uma experiência que lhe motivou?

Muito. Fiquei entusiasmada com o que aconteceu. Penso que não só a mim, mas a todos os jovens e também as pessoas que presenciaram tudo o que foi feito e falado, já que estávamos nos unindo por um só objetivo. Muitas pessoas lutam pela mesma causa, que é salvar o meio ambiente.

Ser jovem, de alguma forma, compromete a credibilidade de suas ações?

Estou em busca da união. Se adultos em política, negócios e economia não têm sido capazes de resolver a crise climática, unida, a juventude tem o poder de mudar o futuro. Também não existe diferença entre uma jovem indígena como eu e outras que lutam pelo mesmo que eu — o bem do planeta.

Qual seu pensamento sobre a Amazônia?

Nosso futuro está conectado pelas mesmas ameaças da crise climática. A Amazônia está em chamas. A floresta agoniza em fogo ano após ano. Isso se deve ao fato de haver irresponsabilidade do governo e políticas destrutivas que intensificam o desmatamento e secas, não só na Amazônia, mas nos outros cinco biomas brasileiros. Isso se reflete nas mudanças do clima e faz o fogo ficar mais forte, seguindo para outros países — há as florestas da Indonésia, da África e da Mesoamérica que sofrem e impactam na minha vida e na de todos. Nós, povos indígenas, somos filhos da natureza, por isso lutamos pela mãe terra. Essa é a mãe de todas as lutas. Lutamos por nossas e suas vidas, lutamos pelo nosso território sagrado. Como jovem, minha luta é pelos direitos indígenas, pelo meio ambiente e contra as mudanças do clima, mas é, também, por um futuro que mereço e com o qual sonho. Um futuro que todos nós merecemos.


"Como jovem, minha luta é pelos direitos indígenas, pelo meio ambiente e contra as mudanças do clima, mas é, também, por um futuro que mereço e com o qual sonho. Um futuro que todos nós merecemos"


E, nesse cenário, qual o papel do povo indígena?

Somos os Guardiões da Floresta e os guardiões do carbono, que está nesses locais. Se elas se forem, o futuro com o qual eu sonho não será possível. Povos indígenas, usando seu conhecimento tradicional, alertam o mundo há décadas sobre as mudanças que estão acontecendo no planeta, mas tem muita gente que não quer ver esse futuro acontecer e é por isso que precisamos nos unir. Não podemos perder um segundo para transformar em ação as palavras que têm o poder de fazer as mudanças acontecerem. Não há motivo para esperar.

Quais são seus objetivos agora?

Meu objetivo é de que essa luta seja ganha em valorização ao meio ambiente. Acredito que não é só o meu, mas de todos os jovens que eu conheci nessa oportunidade e em outros momentos de minha vida. Estamos otimistas para ter um futuro bom e na luta para reverter toda a situação. 

Quais são seus sonhos futuros?

Eu vim para Ribeirão Preto, onde estudo, fiz parte do Ensino Médio, fiz alguns cursos e também dei andamento a um tratamento, pois estava doente. Com tudo isso, meu sonho é entrar na Universidade cursando Psicologia para ajudar o meu povo. 

Você pensa em retornar ao seu povo?

Eu quero terminar a faculdade e voltar para a aldeia, pois o índice de suicídio dentro do meu território é muito grande. Então, formada em Psicologia, espero poder ajudar essas pessoas que têm passado por esses momentos difíceis, dentro no meu território. Esse é o meu principal objetivo, além da luta constante em prol da natureza. 
Em setembro, a estudante esteve nos Estados Unidos para discursar na Organização das Nações Unidas e para conversa com senadores

Texto: Pedro Gomes Fotos: Luan Porto

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