Atos que envergonham

Atos que envergonham

Apesar de exigir o fim da corrupção no país, os ribeirãopretanos ainda cometem pequenos delitos e desvios éticos com o famoso “jeitinho brasileiro”. Apesar disso, o hábito traz reflexos no cotidiano

No início da Revide, nos anos 80 e 90, quem quisesse comentar algo sobre alguma matéria tinha poucas opções: ou o fazia na roda de amigos ou ligava para a redação da revista. Com o passar do tempo e o avanço da internet, ficou muito mais prático entender as opiniões e os descontentamentos dos leitores. Comentar em postagens nas redes sociais se tornou um hábito tão comum quanto tantos outros que marcam o cotidiano, como dar bom dia. Às vezes, no entanto, perde-se o bom dia, mas não se perde o comentário. Diariamente, a página no Facebook do Portal Revide, por exemplo, recebe uma infinidade de comentários.  Alguns elogiando as matérias, outros pedindo mais informações e também, comentários dos indignados com “tudo isso aí”. 

No quesito “tudo isso aí”, entre outros assuntos, uma parcela dos leitores inclui violência, insegurança, crise, política e corrupção. Esta última deixa os leitores de cabelo em pé. Discussões acaloradas são travadas para denunciar os corruptos do país. Guardadas as devidas proporções, até que ponto o cidadão também não se comporta como corrupto do dia a dia? Pequenos delitos, o chamado “jeitinho brasileiro”, já estão presentes no cotidiano que, muitas vezes, nem consideramos uma forma de corrupção. Os argumentos utilizados por quem comete estes delitos corriqueiros são, novamente, guardadas as devidas proporções, muito semelhantes aos dos políticos acusados de corrupção. Precisam fazer, porque é assim que o sistema funciona. Se não fizer, outro fará em seu lugar.  

Um jovem que pretende cursar carreira na segurança pública admitiu à reportagem que comprou o diploma em uma instituição de ensino sem registro no Ministério da Educação (MEC). Segundo R.C, como era difícil concluir o ensino médio, preferiu pagar para a empresa que entregava diplomas em prazo recorde. Um profissional da área da informática admite outro desvio: fez carteirinhas falsas para ele e amigos. “O arquivo em CorelDraw [programa de edição de imagens] para fazer a carteirinha correu muito entre o pessoal”, revela F.C, 31 anos. Segundo ele, os preços altos dos ingressos “obrigavam” as pessoas a falsificarem o documento. Além disso, ele e os amigos, que eram familiarizados com a edição de imagens, confirmam a infração mais cometida. “O que a molecada queria mesmo era RG falso para entrar em casa noturna”, revela.

Apesar disso, o estagiário reconhece o erro e admite que isso faz parte do passado. “Antigamente, eu usava porque não via problema nisso, agora eu sei que é errado e, independente de qualquer coisa, mesmo que o preço seja abusivo, o certo é procurar outros meios e não desrespeitar a lei”, responde F.C.

Conversando com ex-funcionários de empresas de TV a cabo, também foi possível conhecer outro crime “corriqueiro”. S.S, 24 anos, é técnico em elétrica, e revela o esquema. Funcionários da empresa vendiam cartões para desbloqueio de aparelhos receptores. O cliente assinava um pacote de TV básico e comprava o cartão “por fora”, por um “preço camarada”, do profissional. Perguntado se a empresa não notava a falta dos cartões, o técnico respondeu: “se eles desviam milhões em obras, um cartão não é nada”. Por fim, o técnico entende que a venda dos cartões é uma forma de corrupção. “Eu sei que é errado, mas a questão começa errada desde o princípio. Se fosse um preço realmente justo e acessível, não precisaríamos fazer isso. Ou que, pelo menos, deveria ser oferecida uma qualidade compatível com o preço pago”, comenta S.S. Além da TV, S.S também tem uma ligação clandestina de energia em casa. “Sei que não é certo, mas pagamos muito caro por um serviço que era para ser acessível. O Brasil é um grande produtor de energia, o preço devia ser menor”, completa.

Posto isso, a coordenadora do Núcleo de Direitos Humanos e professora de Direito Civil do Moura Lacerda, Ana Carolina Pedrosa Massaro, considera que o “jeitinho brasileiro” é uma prática enraizada na sociedade. “Infelizmente, mais do que um traço cultural, esse desvio ético-comportamental está relacionado à escassez — ou até mesmo ausência — de instrução quanto a valores éticos”, conclui.

“Esse desvio ético-comportamental está relacionado à escassez, ou ausência, de instrução quanto a valores éticos”, Ana Carolina

“Mas todo mundo faz”

Em uma pesquisa informal realizada pela reportagem, foram ouvidas 27 pessoas de diversas faixas etárias. Do total, 26 afirmaram já ter cometido algum “pequeno crime”. Entre os mais jovens, colar em provas e furtar pequenos itens de lojas, como chocolates, canetas e balas, foram as atitudes mais recorrentes.  Falsificar a assinatura dos pais também apareceu como uma das infrações mais confessadas.

Um ponto mais perigoso do que simplesmente roubar balas é a combinação álcool e direção. Nesse sentido, 59,3% dos entrevistados admitiram já ter ingerido bebida alcoólica e dirigido na sequência. Outros 33,3% confirmam já ter se informado nas redes sociais sobre onde haveria Blitz da Lei Seca — ou seja, além de cometerem a infração, ainda agem deliberadamente para driblar a fiscalização. Em Ribeirão Preto não é raro encontrar grupos de WhatsApp que noticiam as blitzes pela cidade. Entrando em um desses grupos, a reportagem encontrou um local com regras rígidas e membros seletos. As leis do grupo — que burla a lei Federal — são claras: não é um bate-papo, então, nada de “bom dia, grupo”. Os membros devem constantemente apagar as mensagens sobre as blitzes e deixar somente as que falam sobre trânsito, como acidentes e congestionamentos. No grupo, há professores, comerciantes, pessoas com mensagem de fé no status ou com a foto dos filhos e da família. Todos assumindo o risco de dirigir alcoolizados e tirar a vida de outras pessoas.

A historiadora e professora da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), Sandra Molina, pondera que se deve desviar o olhar das pequenas corrupções, mas é preciso, acima de tudo, entender que o fenômeno da corrupção não pode ser tratado como caso isolado. “O maior equivoco é achar que a corrupção no Brasil começou há poucos anos, com o caso da Petrobrás. Isso é um erro atroz. O processo de corrupção data desde o Brasil Colônia”, esclarece. A professora e pesquisadora ainda reconhece que a corrupção não é uma mazela exclusiva de terras tupiniquins. “É um problema global e não tem a ver com o desenvolvimento de um país, já que ele também acontece em países considerados como desenvolvidos”, afirma Sandra. A diferença, para a historiadora é que o processo de transparência nestes países já é consolidado por instituições respeitadas e que funcionam. 

“O processo de corrupção data desde o Brasil Colônia”, destaca Sandra

A psicóloga escolar, professora, e coordenadora do Curso de Pedagogia do Barão de Mauá, Marlene de Cássia Trivellato Ferreira, parte de uma linha de raciocínio parecida com a de Sandra. A psicóloga ressalta que o jeitinho, apesar de ser designado como brasileiro, não está presente apenas na cultura verde e amarela. Segundo Marlene, toda vez que uma lei ou uma regra é subjugada, a ponto de ferir o interesse público, por exemplo, é possível identificar que o jeitinho pode caminhar pela via da criatividade contra a corrupção. “O polo da criatividade pode ser reconhecido quando enfrentarmos regras que não atendem ao bem comum. Cito Mahatma Gandhi que, indignado com regras impostas à Índia, utilizou a criatividade. Agindo pacificamente, conseguiu defender e proteger seu povo das regras coercitivas da Inglaterra”, analisa a psicóloga. 

Já a professora Ana Carolina observa que os pequenos delitos da população brasileira, tais como estacionar em vagas proibidas ou não devolver o troco, não são simplesmente um reflexo do cenário de corrupção política nacional, mas sim “o berço de todo desvio de conduta ética. Com efeito, os políticos são membros da sociedade brasileira e, por isso, comportam-se de acordo com o senso comum e os costumes desta comunidade”, esclarece a professora.

Raízes

Segundo a historiadora Sandra Molina, o problema do jeitinho é mais profundo, antigo e complexo. Analisando a história do Brasil colonial, a formação católica da sociedade e o caminho político do país, a historiadora traça um “lugar comum” do pensamento do pequeno corrupto. Sandra resgata que o povo brasileiro sempre “dependeu de que alguém cuidasse dele para conseguir algo”. Seja um ditador, um político populista, um senhor de terras ou de engenho. Isso acontece porque “no Brasil, a noção de Estado foi construída antes da noção de sociedade. Quando a família real portuguesa veio para o Brasil em 1808, trouxe consigo todo o aparato estatal para uma população, praticamente, rural. Não havia sociedade civil organizada. Engolimos uma formação de Estado que não foi criada por nós”, analisa.

Neste período, até o início do século XX, o brasileiro mal conhecia o Estado e o seu funcionamento. Era tudo muito distante e burocrático para uma população que mal escrevia o próprio nome. Apesar disso, sabiam quem eram os grandes senhores de terra ou o coronel local, por exemplo. “Com isso, o brasileiro aprendeu que se ele quiser algo, não deve esperar do Estado. É na troca de favores que se consegue”, explica Sandra. Começava a se desenhar, assim, os primeiros traços de atitudes “paralelas” à lei, mas que rendiam frutos. Este comportamento criou uma dicotomia que se segue até os dias de hoje: o mal são os outros. O brasileiro médio culpa o Estado pela corrupção, culpa o empresário, o patrão, o carro na outra pista ou o vizinho, mas, geralmente, nunca a si mesmo. “A única diferença entre o político corrupto e a pessoa que se vale do jeito é a proporção. A pessoa que desvia 50 folhas de sulfite no escritório também está cometendo um crime. Contudo, se é alguém que rouba no meio da rua, vai para a cadeia; se um político que faz isso, cadeia; mas, se sou eu, não. Eu sou uma pessoa de bem”, explica a historiadora Sandra Molina. 

Do jeitinho ao exemplo

Partindo do pressuposto destacado pela psicóloga Marlene Trivellato, de que o uso do jeitinho pode ser mobilizado e transformado em criatividade em benefício do bem comum, chegamos próximos de soluções para este estigma nacional.  A especialista destaca que, segundo o psicólogo Jean Piaget, ao estudar como o ser humano resolve seus dilemas, foi possível identificar que a moral — conjunto de regras que regulam uma sociedade — é construída a partir da razão e da afetividade.  

Nesse sentido, no processo educacional, é necessário criar condições para que a criança tenha contato com valores que justificam as regras e, ainda, que as pessoas que apresentam estes valores sejam confiáveis, demonstrando utilizá-los no seu cotidiano. “Pensemos em um pai que explica o valor de respeitar a ordem da fila da cantina na escola, mas, na viagem da família à praia, fura a fila do congestionamento de carros, passando pelo acostamento, o que é proibido. Como a criança vai compreender e regular seu comportamento frente a estes exemplos?”, questiona a psicóloga.

Assim, segundo Marlene, uma maneira efetiva de pais ensinarem  ética e cidadania aos filhos é dialogando com eles sobre os comportamentos humanos, delimitando os valores e mostrando indignação perante os acontecimentos que ferem os valores que deveriam ser praticados por uma sociedade justa. 

Marlene Trivellato

Na academia

Muitos estudiosos brasileiros tentaram explicar o jeitinho tupiniquim partindo de uma análise científica. O antropólogo Roberto DaMatta, autor de vários livros sobre o comportamento do brasileiro por décadas, em sua obra “O Que Faz o brasil, Brasil?”, compara a postura dos estadunidenses com a dos brasileiros em relação às leis. O antropólogo explica que a atitude respeitadora e zelosa dos estadunidenses causa admiração e espanto nos brasileiros, acostumados a desrespeitar e a ver desrespeitadas as próprias instituições. No entanto, afirma que é ingênuo creditar à postura brasileira apenas a ausência de educação adequada.

DaMatta justifica que, diferente dos Estados Unidos, as instituições brasileiras foram desenhadas para coagir e desarticular o indivíduo. O Estado nacional é naturalmente coercitivo. Ora, incapacitado pelas leis, descaracterizado por uma realidade opressora, o brasileiro utiliza recursos que driblam a dureza da formalidade para obter o que, muitas vezes, é necessário à mera sobrevivência. Diante de uma autoridade, utilizará termos emocionais. Tentará descobrir alguma coisa que possuam em comum: um conhecido, uma cidade da qual gostam ou o lugar onde passaram a infância, talvez.

Outro que se aventurou pelo jeitinho brasileiro foi o historiador Sérgio Buarque de Holanda. Em “Raízes do Brasil”, quando escreve o capítulo “O Homem Cordial”, Holanda destaca o brasileiro e uma característica presente no seu modo de ser: a cordialidade. Porém, cordial, ao contrário do que muitas pessoas pensam, vem da palavra latina cordis, que significa coração. Portanto, o homem cordial não é uma pessoa gentil, mas aquele que age movido pela emoção no lugar da razão. Dessa forma, ele não vê distinção entre o privado e o público, detesta formalidades, põe de lado a ética e a civilidade. Em consonância com os demais especialistas consultados pela reportagem, o historiador também confere ao fato de as instituições brasileiras terem sido concebidas de forma coercitiva e unilateral, o espírito informal e de desapego ao bem público do brasileiro. 



Texto: Paulo Apolinário
Diagramação: Marcelo Mantovani

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