Aula de Cidadania
Os “rondonistas” realizam atividades que promovem inclusão social
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Imagine um lugar em que muitas pessoas vivem sem assistência por parte do poder público, onde as noções de cidadania são raras e o futuro de uma vida mais digna se torna apenas um sonho. É exatamente em locais com esse perfil que o Projeto Rondon atua. Coordenado pelo Ministério da Defesa, em parceria com as universidades do Brasil e os municípios, o projeto Rondon visa à integração social e envolve a participação voluntária de estudantes universitários na busca de soluções que contribuam para o desenvolvimento sustentável de comunidades carentes e ampliem o bem-estar da população. “O foco do projeto é o estudante de graduação, que representa o profissional do futuro e tem nas mãos a possibilidade de mudar a realidade atual para um futuro promissor a partir a consciência e do exercício de sua atividade”, explica o Prof. Dr. Luis Henrique Souza Guimarães do Departamento de Biologia da FFCLRP-USP e diretor executivo do I Congresso Nacional do Projeto Rondon (foto à esquerda).
O professor acrescenta que o projeto é uma ótima oportunidade para auxiliar a formação do universitário como cidadão e conscientizar sobre a responsabilidade social e a cidadania. “O Projeto Rondon trabalha dois lados importantes: o universitário, que tem uma lição de vida e de cidadania. O estudante torna-se um agente transformador e os moradores do município atendido recebem ajuda desses alunos”, explica.
Os “rondonistas”, como são chamados os professores e estudantes que participam do Projeto, realizam atividades concentradas nas áreas de comunicação, cultura, direitos humanos, justiça, educação, meio ambiente, agropecuária, saúde e tecnologia. Em cada município escolhido, são selecionados, através de edital, instituições de ensino superior para desenvolver as atividades propostas pelas equipes. Os integrantes dos projetos passam por treinamentos e trabalham no município durante o período estipulado no edital.
De acordo com o coronel José Paulo da Cunha Victorio, é feito um levantamento prévio das regiões do país, considerando as necessidades de cada localidade. “Cada operação envolve duas universidades de estados diferentes, que podem escolher entre algumas opções de atividades a serem desenvolvidas no município”, continua. O projeto Rondon já esteve presente em 22 estados do Brasil. “Conforme solicitado pela presidência da República, priorizamos as regiões Norte e Nordeste, mas já realizamos operações em inúmeros estados brasileiros”, argumenta José Paulo.
A partir da interação com a comunidade, os rondonistas retornam à universidade com uma nova visão sobre sua rotina como estudante, cidadão e futuro profissional, comprometido com a busca por soluções para os problemas nacionais.
Para a pedagoga Tatiane San Martino, sua participação em uma operação do Projeto Rondon representa a realização de um sonho universitário. “Participei do projeto em 2012. Foi uma experiência marcante em minha vida. A extensão universitária é a grande chance de saber o que acontece fora do mundo que escolhemos para passar quatro ou cinco anos de nossas vidas. Hoje, tenho a certeza de que voltei à minha rotina com mais força de vontade profissional”, avalia a pedagoga.
Para o coronel, o Rondon objetiva desenvolver as habilidades acadêmicas dos estudantes universitários. “Mais do que isso, o Projeto faz com que esses alunos exercitem a cidadania, a possibilidade de se doar. Assim, começam a perceber que aquelas pessoas carentes têm muito a ensinar. Acredito que isso torna o Projeto Rondon fundamental na vida dos envolvidos”, frisa.
O foco nas comunidades visitadas está voltado, principalmente, às lideranças comunitárias locais, como servidores públicos, agentes multiplicadores, professores, agentes de saúde e organizações da sociedade civil. O trabalho dos universitários soma esforços com as autoridades municipais e lideranças da comunidade, contribuindo para a construção da cidadania e para o desenvolvimento local sustentável, por meio da melhoria de qualidade de vida da população. “Boa parte da população ainda está longe daquilo que chamamos de condição ideal para viver. Eles precisam de atenção especial de todo o Brasil. A troca de experiência que acontece a cada operação é importante para o crescimento e desenvolvimento de todos os envolvidos”, finaliza Luiz Henrique.
Rondonistas em Ribeirão Preto
Nos dias 31 de agosto, 1º e 2 de setembro, Ribeirão Preto receberá o 1º Congresso Nacional do Projeto Rondon. O evento pretende criar mecanismos para a melhoria das operações, além de instrumentos de aperfeiçoamento dos docentes na condução e na coordenação das operações. O Congresso também servirá para sistematizar o conhecimento e divulgar o Projeto Rondon. “Este encontro é voltado, principalmente, a alunos da graduação, ex-rondonistas ou não, para discutir diversos aspectos relacionados às atividades promovidas no próprio projeto e nas cidades visitadas”, explica professor Luiz Henrique. Além de novas propostas para difundir o Projeto, o congresso propõe uma reflexão sobre os 46 anos de operações realizadas pelo Brasil. O evento terá mais de cem painéis, elaborados pelos participantes, que serão exibidos durante todo o congresso.
O envolvimento com o Projeto Rondon foi tanto que Tatiane enviou uma sugestão para o concurso que iria definir a logomarca do evento, que foi selecionada. “Vencer o processo seletivo e ver a logo inspirada na minha ideia sendo utilizada em um projeto tão sério e grandioso é mais uma confirmação da felicidade e da saudade que sinto quando lembro dos meus dias no Tocantins”, diz entusiasmada.
Durante o evento, os alunos também poderão conhecer as histórias de outros projetos como do Instituto Ayrton Senna, da Fundação Roberto Marinho, da Fundação Votorantim, entre outros. “Temos diferentes ações pelo Brasil afora que trabalham com essas populações. Traremos vários idealizadores para trocar experiências e analisar como esse trabalho vem sendo feito”, revela.
Atualmente, o Projeto encontra-se em processo de consolidação, com uma procura cada vez maior pelas instituições de ensino superior e pelos universitários. O Rondon é mais do que um projeto educacional e social, é uma poderosa ferramenta de transformação social, na medida em que conscientiza jovens que terão nas mãos o destino do país sobre importância do seu papel de protagonista na busca de uma sociedade mais justa. “O Rondon possibilita que esses estudantes participem do desenvolvimento sustentável e do fortalecimento da cidadania em municípios carentes do Brasil”, conclui Coronel Victório.
Diário de Bordo
“O Projeto Rondon foi uma vivência incrível que tive. Tenho vários amigos e veteranos que participaram de operações passadas e me tornei cada vez mais interessada, principalmente por ouvir desses universitários que se tratava de uma experiência indescritível. Conheci o Projeto já no primeiro ano de faculdade e a participação era almejada por quase todos os alunos da USP de Ribeirão Preto. Durante o curso me candidatei para as equipes de dois professores e fui selecionada por um deles. Foi a realização do meu maior sonho universitário.
Os dias parecem poucos, mas se tornam suficientes para criarmos verdadeiros laços de amizade e companheirismo, seja com a equipe ou com os moradores da cidade. Participar da operação foi minha maior experiência como ser humano, ao me aproximar de uma realidade tão distinta, o que me proporcionou grande crescimento em todos os aspectos. No Tocantins, vivenciei outra realidade, muito acolhedora, e vi um outro Brasil. Voltei com mais força de vontade profissional e valorizando ainda mais as oportunidades que possuo. Durante a operação, meu espírito patriota, minha vontade de conhecer e trabalhar pelo país foi despertada de uma forma singular. Hoje, quando vejo as fotos da operação que participei posso dizer que foi, e sempre será, uma das maiores e melhores experiências da minha vida.” Tatiane San Martino (foto ao lado) é formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo e participou da Operação Capim Dourado, em Aparecida do Rio Negro, no Tocantins, em 2012, quando ainda era estudante.
O despertar da juventude universitária
• O Projeto Rondon foi criado por alunos da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, no Rio de Janeiro, em 1966
• Em 1967, aconteceu a primeira expedição, denominada “Operação Zero”, que levou 30 estudantes e dois professores do Rio de Janeiro para Rondônia. Os estudantes envolvidos retornaram com o slogan “Integrar para não entregar”
• Com essa primeira experiência os alunos sugeriram o nome “Projeto Rondon”, em alusão ao bandeirante do século XX, pioneiro da integração nacional, Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon
• Em 1970, o projeto foi organizado como órgão autônomo da administração direta
• Em 1975, foi transformado em Fundação Projeto Rondon
• A iniciativa seguiu até 1989, quando foi extinta
• Em 2003, a União Nacional dos Estudantes pediu ao então presidente Lula o relançamento do Projeto Rondon
• Em janeiro de 2005, foi iniciada uma nova fase da ação. No mesmo ano, a coordenação do projeto foi atribuída ao Ministério da Defesa
• Em sua história, o Rondon já levou mais de 15.300 rondonistas a cerca de 900 municípios