Aventura em duas rodas

Ribeirãopretano percorre 740 quilômetros de bicicleta na Interoceánica Sur

 

Há tempos que a Cordilheira dos Andes encanta viajantes de todo mundo. E por isso, realizar expedições se tornou um desejo cada vez maior. Entre 1994 e 1995, Leonardo Persi, consultor na área de ecoturismo e turismo de aventura e, antes de tudo, um amante da natureza e da vida ao ar livre, realizou uma travessia de cicloturismo com mais três amigos dentistas de Ribeirão Preto.

Acompanhado de Márcio Silva, Joubert Magalhães e Luís Fernando Rabatone, ele foi de Mendoza, na Argentina, ao Chile, passando pelos Caracoles e depois, percorreu várias regiões até o Pacífico e a mágica Isla de Chiloé, onde Charles Darwin realizou estudos sobre a Teoria da Evolução.

Leonardo retornou pela Argentina, com final da viagem em San Martín de Los Andes, nas estradas em que Che Guevara passou em seus caminhos de moto – retratado pelo belo filme “Diários de motocicleta”, de Walter Salles.

Após quase vinte anos, Persi idealizou uma nova travessia, agora pela Amazônia e a Cordilheira dos Andes, no Peru – país que viveu em 2008, com atuação em projeto de responsabilidade social no turismo, a Iniciativa Interoceánica Sur – nome de uma das mais novas rodovias do continente –, que conecta o Brasil ao Pacífico.

Essa obra foi realizada por um consórcio, liderado pela Odebrecht (hoje responsável pela manutenção da rodovia por meio do consórcio Conirsa, com outras três construtoras peruanas), onde Leonardo trabalhou em um projeto de ecoturismo.

Desde quando viveu na região de grande interesse biológico, ele pedalava por alguns trechos e sonhava em percorrer a estrada quando estivesse pronta, saindo do Brasil e chegando a Cusco, lugar que seus habitantes incas chamam de “Umbligo del Mundo”. E no final de 2013 sua mountain bike começou a rodar.

A viagem teve início na cidade de Assis Brasil, já na fronteira entre o Brasil e o Peru. Segundo Persi, uma viagem como esta, solo, autônoma, exige que o cicloturista se prepare fisicamente meses antes.

Também deve ter organizado todos os equipamentos e outros itens essenciais, como barraca, sleeping bag, roupas apropriadas para pedalar, tanto para o calor como para o frio, já que em boa parte do percurso também havia clima com vento e chuva, além de comida e água, muita água.

Ao decidir pela rota, o cicloturista tinha como objetivo a cada dia chegar ao próximo destino planejado, pois o longo percurso traz uma necessidade de controle psicológico constante, já que o “combustível” é o próprio cicloturista, e aí, além da força física, a cabeça ajuda muito nesse tipo de viagem.

E na fronteira, em Iñapari, o primeiro pernoite foi essencial para descansar e se preparar para o que vinha pela frente. “O povo peruano é muito receptivo com os turistas e os tratam bem, adoram brasileiros e são têm forte personalidade. Curiosos, se assemelham muito a nós pela persistência e interesse em cuidar de seu povo”, disse Persi

Os três primeiros dias da expedição foram pela região amazônica, pelo hotspot ambiental Vilcabamba – Amboró, onde há grande visitação de turistas de todo o mundo. “Um dos lugares por onde passei se chama Alegría, onde pude dormir e fiquei realmente feliz por ali chegar, após o segundo dia”, comentou.

O maior número de turistas que visita a região chega principalmente por Puerto Maldonado, onde Persi passou o réveillon. Há muitos hotéis de selva na região, com roteiros organizados e rotas bem estabelecidas para o turismo de natureza.

Com calor foi intenso, nessa região o sol nasce antes das cinco da manhã, quando tinham início as pedaladas diárias. “Pelo menos uma hora antes precisava acordar para me preparar, tomar um bom e reforçado café da manhã, ajeitar as tralhas na bike, realizar um aquecimento e partir”.

O sol forte exigia que o cicloturista encerrasse a jornada da Manhã no máximo às 10h30. O retorno ocorria por volta de 16h, para fugir do calor intenso da floresta. “A Amazônia foi uma das mais difíceis regiões por onde pedalei, ainda mais quando se está com a bike carregada, com pouco mais de quarenta quilos”.

Persi contou que teve de enfrentar dias de chuva, o que eixigiu a utilização de todos os equipamentos. Foram oito dias de pedaladas e 740 quilômetros percorridos, com média de 92 quilômetros por dia, muitas vezes com percursos de até dez horas.

“Foram seis anos pensando nesta realização. Para conhecer belos lugares, precisamos de desafios novos a cada dia. E o Peru, bem como seu povo, seus costumes e os visuais dessa bela terra, valem muito conhecer. Um agradecimento especial à minha família, aos amigos de lá, aos brasileiros com quem trabalhei e aos bikers companheiros das jornadas de pedal! ¡Kausachun! Viva!”, comemorou Leonardo Persi.

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Fotos: Arquivo pessoal

* Publicado em 17/04/2014

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