Batalha contra a Covid-19
Pandemia evidenciou a capacitação, o empenho e o comprometimento dos profissionais que atuam na área da saúde

Batalha contra a Covid-19

Profissionais da área da saúde compartilham vivências e destacam a importância do trabalho multidisciplinar para vencer a doença

Texto: Paula Zuliani


O surgimento do novo coronavírus colocou o setor da saúde em pauta. Desde março, é quase impossível não ler ou escutar nada sobre o assunto. Por mais que possa parecer excessiva, a atenção em torno da Covid-19 é justificável e necessária. Mesmo sabendo que a doença tem alto poder de disseminação e que não existe um protocolo de tratamento definido para combatê-la, muitas pessoas ainda não se conscientizaram dos riscos a que estão expostas. Com isso, o número de casos confirmados continua aumentando, assim como a taxa de ocupação de leitos e o temor de que o Sistema de Saúde entre em colapso. 

Esse cenário adverso vem evidenciando a capacitação, o empenho e o comprometimento dos profissionais que atuam no meio. São gestores, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, nutricionistas, socorristas e colaboradores de várias áreas — como administrativo, recepção, segurança, suprimentos, cozinha e limpeza, entre outras — que saem de suas casas todos os dias por um bem maior e um propósito em comum. Eles unem forças e formam uma ampla rede de cuidados para, de diferentes maneiras, minimizar os efeitos do vírus e, com isso, preservar vidas. Confira, a seguir, relatos que mostram a realidade da pandemia sob a perspectiva de alguns desses especialistas.

Médico e paciente

Médico infectologista, Lucas foi contaminado e passou 12 dias internado no HCO infectologista Lucas Agra atua como supervisor médico da Unidade de Emergência (UE) do Hospital das Clínicas (HC) e é o médico do controle de infecção da UE e da Unidade Especial de Tratamento de Doenças Infecciosas (UETDI), no HC Campus. Em janeiro, esteve em São Paulo na primeira reunião realizada pelo Centro de Controle de Doenças (CCD) para definir o plano de combate ao vírus no Estado. Desde que a Covid-19 chegou à cidade, tem trabalhado diretamente com os pacientes. O atendimento, no entanto, teve de ser temporariamente interrompido. “No dia 29 de junho, senti um cansaço extremo, mas associei com o estresse do trabalho. De madrugada, acordei com febre alta. Fiz os exames e, no dia 3 de julho, recebi o diagnóstico positivo. Mesmo tendo cuidado de tantas pessoas, não tinha ideia do que podia fazer para me ajudar”, lembra Lucas. 

Com a saturação — que mede a oxigenação no sangue — caindo e falta de ar, o médico foi internado justamente no setor onde trilhou toda a sua trajetória profissional. “O pior de me tornar paciente foi saber o desfecho de alguns casos da doença, já que não existem tratamentos específicos para a cura. Estar no HC me trouxe paz. Tinha a certeza de que seria cuidado com carinho, com amor, com humanismo e com respeito à ciência”, afirma. Foram 12 dias de internação, precisando do oxigênio e passando por alguns momentos críticos. 


Com a saturação caindo e falta de ar, Lucas foi internado justamente no setor onde trilhou toda a trajetória profissional


Já em casa, o especialista comenta que a experiência provocou uma transformação profunda em sua vida. “Em meio a tantas fake news que cercam essa doença, saí do hospital disposto a batalhar pela verdade. É importante que as pessoas e as forças públicas compreendam que é preciso fazer muito mais para frear a disseminação. Temos de controlar a doença e garantir que os pacientes sejam tratados da forma que as evidências científicas respaldam, sem fórmulas mágicas milagrosas e mentirosas”, alerta o médico. 

Aprendizado diário

Como responsável pelo Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital da Unimed, Karen Mirna Loro Morejón foi a escolhida para coordenar o Comitê de Contingência Coronavírus da Unimed Ribeirão Preto. A infectologista lembra que já vislumbrava o que estava por vir desde dezembro de 2019. “Vivenciei a pandemia de Influenza e atuo, há anos, no enfrentamento do HIV. Pela experiência, logo identifiquei que teríamos um sério desafio a ser enfrentado, mas essa pandemia é diferente de tudo o que já vi na minha trajetória profissional”, relata a especialista. 

Segundo Karen, o trabalho em equipe é fundamental para garantir a segurança e a assistência de qualidade | Foto: Lidia Muradas e Henrique PaciAinda no início de janeiro, junto do comitê, a médica traçou os primeiros protocolos de conduta e de atendimento. “Cada pessoa da unidade hospitalar é fundamental para garantir a segurança e a assistência de qualidade. Felizmente, temos uma equipe unida e proativa, o que facilita o desenrolar do trabalho”, enfatiza. O compartilhamento de conhecimento, inclusive, tem sido um grande diferencial para Karen. “Diariamente, aprendemos com as experiências de outros países e com os colegas de todo o Brasil. Apesar da ansiedade, a cada novo atendimento, vemos que estamos no caminho certo”, finaliza.

Na linha de frente

Estar orientada sobre as condutas a serem tomadas e resguardada pelos Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s) faz com que Paula Righi Cardoso se sinta segura para cumprir sua missão no Hospital Ribeirânia, unidade do Grupo São Lucas que foi destinada para o atendimento dos pacientes com a Covid-19. “Os primeiros casos ainda nem tinham surgido por aqui e nós já estávamos sendo preparados para esse momento. Cada detalhe foi bem planejado, explicado e implementado. Temos de preservar a nossa saúde para continuarmos trabalhando na linha de frente”, pontua a médica, especialista em Clínica Geral e Oncologia.

“Devemos tratar o paciente, não a doença”, pontua Paula | Foto: Luan Porto Isso não quer dizer, no entanto, que seguir os novos hábitos seja simples. “Os equipamentos são incômodos. Colocá-los e tirá-los, várias vezes, é trabalhoso e demanda um tempo extra, mas isso já faz parte da nossa rotina”, revela. Além da paramentação, a atenção dada a esses pacientes também precisa ser diferente. “Eles estão vulneráveis, com medo do desconhecido e isolados do mundo. Então, minha função não se restringe a auscultar os pulmões. Converso sobre o dia, escuto as angústias, ligo para a família e compartilho informações. Devemos tratar o paciente, não a doença”, finaliza.

Atendimento humanizado

Desde o dia 1º de abril deste ano, a Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) da Av. 13 de Maio passou a funcionar como Polo Covid-19. Alterações estruturais e organizacionais foram implementadas, impactando a rotina de profissionais como Alessandra Paula Silva Soares Medeiros. “Trabalhar em um Pronto Atendimento já demanda um estado de vigília constante. Com a inauguração do Polo, eu me vi diante da maior responsabilidade que tive na minha vida profissional. Tenho administrado esse ofício, entremeado ao medo de adoecer e de transmitir a doença à minha família”, revela a coordenadora de Enfermagem. 

Alessandra ressalta que o profissional da saúde precisa ser reconhecido, em primeiro lugar, como um ser humano | Foto: Luan PortoA cada plantão, Alessandra esclarece dúvidas, coleta críticas e sugestões e promove atualizações. “O Polo é um ambiente naturalmente estressante. Estou sempre atenta à equipe, garantindo que o profissional seja reconhecido como um ser humano em primeiro lugar. Só assim ele executará uma assistência de qualidade e humanizada, dentro dos valores éticos e técnicos. Esse é o nosso compromisso”, destaca. Segundo a coordenadora, apesar dos obstáculos, a capacidade de ajudar as pessoas e de despertar o orgulho da família pelo posto que ocupa é uma grande realização.

Novas formas de cuidar

Por ser diretor técnico de saúde da Unidade Especial de Tratamento de Doenças Infecciosas (UETDI) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, o enfermeiro Edmar Porfírio de Oliveira está capacitado a prestar assistência a pacientes em isolamento, que demandam um atendimento diferenciado. “Mesmo com todo o preparo e a experiência, tivemos de nos adaptar. A Covid-19 é uma doença nova, com características particulares. É um desafio encontrar novas formas de cuidar. Estar inserido nesse contexto, permeado pelo medo e pela ansiedade, não tem sido fácil”, descreve. 

Edmar faz um alerta para a população sobre o sofrimento causado pela Covid-19 | Foto: Luan Porto Ainda segundo Edmar, com a quantidade de infectados crescendo, foi preciso montar uma força-tarefa: os horários foram alterados, as jornadas prolongadas e as férias suspensas. “A carga é pesada, mas entendemos que esse é um momento atípico e que os esforços são necessários. Se as pessoas tivessem a mínima noção do que vivenciamos aqui, do sofrimento dos pacientes e das famílias, levariam essa doença a sério. É triste saber que, enquanto nós batalhamos pela vida e nos afastamos de quem mais amamos para protegê-los, tem gente circulando pelas ruas sem propósito algum”, conclui.

A força do conjunto

Léia Pereira Ribeiro integra a equipe de Higienização/Limpeza da Nova Bene. O serviço, que normalmente já é bem rígido para cumprir o padrão de segurança exigido em um ambiente hospitalar, ficou ainda mais minucioso com a pandemia. “Os treinamentos foram intensificados e os cuidados redobrados. Nunca houve tanta preocupação nesse sentido”, explica. A colaboradora tem ciência da importância do papel que desempenha dentro da instituição e exalta o trabalho de todos que, direta ou indiretamente, estão envolvidos nessa batalha. “Cada um precisa fazer a sua parte. O conjunto é essencial para que o atendimento aconteça da melhor maneira possível”, comenta.

Sempre que o medo de se contaminar aparece, Léia se apega à fé em Deus para continuar ajudando | Foto: Luan Porto Para Léia, acompanhar a luta dos pacientes infectados pela vida tem sido uma tarefa árdua. “Essa doença provoca muito sofrimento. É difícil ver a situação e pensar que aquela pessoa tem uma história, tem uma família esperando por ela em casa. Por isso, as altas são tão comemoradas. O coração enche de alegria e transborda em lágrimas de emoção”, descreve. Sempre que o medo de se contaminar aparece, algo inerente à função que desempenha, Léia se apega à fé em Deus para continuar ajudando, como pode, quem precisa. 

Uma corrida contra o tempo

Matheus Luiz Tórtoro do Nascimento é socorrista e conduz pacientes em um dos veículos de emergência do Hospital São Francisco. A função o colocou na linha de frente do combate à Covid-19 em Ribeirão Preto. “Mesmo passando por diversos treinamentos sobre o novo coronavírus, sobre como colocar e retirar os equipamentos de proteção, sobre a desinfecção das ambulâncias e sobre os protocolos para o atendimento, minha ficha só caiu quando recebi o primeiro chamado de um caso suspeito. Foi um choque de realidade”, recorda. 

“É gratificante saber que o meu trabalho contribui para salvar vidas”, afirma Matheus | Foto: Luan PortoCiente da responsabilidade e dos riscos, Matheus procura manter a calma para executar suas tarefas. “No volante, é meu dever preservar a integridade do paciente, da equipe e das outras pessoas que estão nas ruas. No manejo, os cuidados são para evitar a contaminação e a disseminação do vírus”, explica. Apesar da rotina rigorosa, da tensão e da tristeza por ter que, por precaução, manter a distância física da família, Matheus se diz feliz em se sentir útil. “É gratificante saber que o meu trabalho contribui para salvar vidas”, afirma o socorrista, que atua há 12 anos na área e pretende, em breve, ingressar no curso de Enfermagem. 

 

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