Bate-bola
Ex-jogador e médico conversaram sobre profissão, qualidade de vida e muitos outros assuntos
Com agendas apertadas e bem diferentes, Marcelo Bordon e Omar Feres encontraram um tempo em comum para um jogo rápido. O bate-bola entre o ex-jogador de futebol e empresário e o proctologista passou por assuntos como a vocação pela medicina, os novos profissionais que ingressam na área, até chegar ao tempo ideal em que ele deve encerrar suas atividades.
O encontro aconteceu no escritório da Acahdre, a academia comandada por Bordon e que serve de cenário para uma amizade que está dando seus primeiros passos.
Se, num primeiro momento, pode parecer que eles não têm nada em comum, essa impressão desaparece nos momentos iniciais da entrevista. Bordon foi jogador de futebol, passou por grandes times como o São Paulo e o Stuttgart, da Alemanha.
Depois de 11 anos fora do país, abandonou as chuteiras há três anos e voltou para Ribeirão Preto, onde, além de outras iniciativas, decidiu abrir uma academia.
Já Omar escolheu Ribeirão Preto como a sua cidade, lugar selecionado inicialmente apenas para estudar. Formou-se em Medicina pela Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, onde também tornou-se mestre e doutor e ainda atua como professor.
Com trabalhos relacionados à qualidade de vida, os assuntos afins mostram que há muito mais além de atuações profissionais semelhantes. No tom da conversa entre eles, já é possível perceber que essa amizade vai longe.
Bordon: Como você descobriu a vocação para ser médico?
Omar: Na época de prestar vestibular, eu tinha dúvidas se queria fazer arquitetura ou medicina. Também fui músico, minha família sempre tocava e eu até pensei em seguir essa carreira. Porém, na hora de decidir o vestibular, não tendo muita aptidão para o desenho, resolvi abraçar a medicina. Mas essa não era uma vocação desde criança, como acontece com muita gente. Eu decidi pela medicina e me dei muito bem porque acredito que, para ser médico, é preciso ter duas características: gostar do ser humano e gostar das pessoas. A medicina é uma ciência biológica, mas é uma ciência humana também. Eu fui vendo isso com o tempo, frequentando a faculdade e me aprimorando, e me encontrei muito na USP Ribeirão Preto, tanto é que vim para a cidade em 1980 como estudante e nunca mais saí daqui. Ribeirão Preto é hoje a minha cidade. Fiz seis anos de faculdade, mais dois de residência, depois mestrado, doutorado, até a livre-docência e minha carreira universitária.
Bordon: Como se tornou empresário?
Omar: Assim que me formei, comecei a trabalhar e sempre fui muito entusiasmado, bem relacionado com as pessoas e aproveitei as oportunidades que apareceram. No ano 2000, com o Hospital São Paulo em uma fase econômica e financeira difícil, surgiu a possibilidade de assumi-lo. Ao lado de três sócios, comecei a fazer uma nova gestão. Nunca imaginei que seria um empresário, muito menos que gerenciaria um hospital, mas, como surgiu a oportunidade e tínhamos uma administradora muito competente — que, por sinal, hoje é minha esposa —, aceitamos o desafio. Nesses 14 anos, conquistamos um bom status na cidade. Transformarmos o Hospital São Paulo em um estabelecimento de bom nível em Ribeirão Preto. Eu já visitei hospitais em outros lugares, inclusive em outros países, e, fazendo uma comparação, fico bastante satisfeito com o nosso desempenho. Ainda há muito para ser feito, temos vários projetos, mas estamos no caminho certo.
Bordon: Como funciona o Hospital São Paulo?
Omar: Hoje, o São Paulo é comandado por quatro sócios e é um hospital geral, que faz cirurgias, internações clínicas, pediatria, um pouco de maternidade, ou seja, não é um hospital específico. Para crescer na medicina, é preciso ter uma certa complexidade. Então, temos uma UTI de adulto, uma UTI infantil, realizamos cirurgias cardíacas, hemodinâmica, entre outros serviços. Em relação aos equipamentos, procuramos manter a modernidade. Todos os sócios são ligados à Universidade, estamos bem atualizados, viajamos todos os anos e, assim, mantemos o Hospital com uma boa complexidade e um bom porte na cidade.
Bordon: Qual o segredo para gerir um hospital do tamanho do São Paulo?
Omar: Não tem segredo; é muito trabalho. Eu, apesar de ser um dos responsáveis pelo Hospital, de exercer o papel de empresário, continuo médico. Vou ao hospital todos os dias, opero meus pacientes, faço visitas, se me chamam à noite, eu vou. E ainda tenho as funções administrativas, participo de reuniões, faço planejamentos, entre outras tarefas. Às vezes, é natural se afastar um pouco da clínica e pender mais para o lado administrativo. Isso não aconteceu comigo ainda. Não tem muita regra. Eu faço com o coração e as coisas vão fluindo.
Bordon: Hoje, o Hospital São Paulo atende usuários de uma série de convênios médicos. Como você vê a saúde pública em geral e a necessidade de adesão a um plano particular?
Omar: Essa é uma realidade um pouco difícil no Brasil. Em Ribeirão Preto, temos uma particularidade: é uma cidade de bom nível em relação ao Brasil. Praticamente, cerca de 60% dos ribeirãopretanos têm plano de saúde. No país, essa média não chega a 20%, 25% da população. O nosso Hospital só atende quem tem plano de saúde particular. Ele não tem convênio com o SUS. É um hospital privado. Hoje, quem não tem condições de ter um plano de saúde, tem muita dificuldade. O Hospital das Clínicas, onde eu também trabalho pela USP, só atende pacientes do SUS. Aqui em Ribeirão Preto, pelo fato de termos a USP, essa realidade é um pouco melhor. No Brasil, em muitas regiões, essa situação chega a ser caótica. Realmente, as pessoas não têm como solucionar os seus problemas de saúde.
Bordon: Os primeiros médicos do programa “Mais Médicos” chegaram a Ribeirão Preto em março. O programa trará benefícios?
Omar: Esse programa foi bastante polêmico. Como tudo na vida, ele tem duas vertentes. O lado positivo é que, em regiões com poucos médicos, o profissional pode chegar, mesmo com uma formação um pouco inferior, e ajudar a população carente. Tem gente que não tem ninguém, então um médico, ainda que com uma formação mais simples, pode contribuir. O que criticamos é a maneira como isso foi feito. Nós, como médicos, defendemos a classe. Há uma exploração muito grande da classe médica, principalmente em relação aos cubanos. O que houve com eles foi muito ruim. Eles ganham um salário próximo de R$ 10 mil, ficam com 10% ou 15% e o resto vai para o país. Isso é contra as normas brasileiras. A maneira como o programa foi feito, muito política, na minha opinião, poderia ter sido diferente.
Bordon: Qual a sua opinião sobre o ensino na formação de novos médicos? Essa formação realmente resulta em bons profissionais, pessoas, com o coração voltado para exercer esse papel?
Omar: Existe um paradoxo no Brasil. Pensam em abrir faculdade de medicina porque faltam médicos. Por outro lado, há necessidade de médicos capacitados. Formam-se profissionais de qualidade técnica ruim. A parte humanista vem do berço; não é a faculdade que ensina. O que acontece é que proliferaram inúmeras faculdades de qualidade ruim. Aí, o aluno se forma no sexto ano e não tem onde fazer a residência médica. No Brasil, 20% dos médicos estão sem residência. Aqui na USP é uma beleza, tem muitos residentes, mas no Brasil afora se hipertrofia a faculdade e o médico, só com a graduação, fica com uma formação precária. Ele vai trabalhar num posto de saúde, numa medicina primária. Ele não tem condições de trabalhar num hospital, fazer uma especialização. Esse é o grande problema. Eu recebi notícias de que serão abertas 17 novas faculdades de medicina no Estado de São Paulo. Acho ótimo abrir faculdades de medicina, mas desde que abram com condições. Eu trabalho em uma faculdade de excelência, que é uma das melhores do país — senão a melhor —, com anos de tradição, é estruturada e, mesmo assim, há falhas. Imagine uma faculdade que abre da noite para o dia e sem a mínima estrutura.
Bordon: O que pode ser feito para mudar essa situação?
Omar: Para se ter uma ideia, estão querendo implantar um exame para o CRM, similar ao da OAB. Nos médicos do Estado de São Paulo, o índice de reprovação chega a 70%. Só que o exame ainda não está valendo. Entre as faculdades públicas, como a USP, a UNESP, a Unicamp, a aprovação é de 80%, 90%. Então, existe esse paradoxo, esse contrassenso: precisa aumentar o número de faculdades, precisa de mais médicos, só que eles devem ter boa qualidade. Senão, o resultado não vai ser o que se espera.
Bordon: Você é a favor dessa avaliação?
Omar: Essa avalição foi uma ação que o órgão de classe tentou implantar para regulamentar a profissão de médico, mas ela deve ser feita pelo Ministério da Educação e Cultura, pois eles têm condições de fazer isso. Esse tipo de regulamentação é inevitável, senão teremos oferta de médicos, mas poucos habilitados a exercer a profissão.
Bordon: Um dia, percebi que já tinha chegado a minha hora de parar. Mesmo sendo o que eu gostava, o que sabia fazer, chegou a hora em que tive que parar. Como zagueiro, percebi isso através do meu rendimento, das minhas condições. Como o médico sabe que chegou a hora de parar?
Omar: O médico se forma jovem, cheio de energia e com pouca experiência. Com o passar do tempo, ele vai ganhando experiência e perdendo energia, até chegar uma hora em que o quadro inicial se inverte completamente. Então, ele precisa parar um pouco antes disso. Eu acredito, de uma maneira geral, que o médico que trabalha em consultório e o professor podem trabalhar até 70 anos. Um cirurgião, que tem uma atividade mais específica, que depende da habilidade manual, da concentração, deve parar um pouco mais cedo. Um cirurgião está no ponto entre 40 e 60 anos. Depois dos 65, ele começa a perder a destreza. Então, penso que ele deveria continuar como médico, mas diminuir a atividade cirúrgica e continuar como clínico, como professor.
Bordon: Hoje, as pessoas estão mais atentas à qualidade de vida. Mesmo que elas saibam que devem de ter uma alimentação equilibrada, aliada à uma rotina de esporte, gostaria que o senhor salientasse a importância disso para a saúde.
Omar: Como profissional da área de saúde, posso dizer: da mesma forma que você se alimenta, que trabalha, que dorme, deve se exercitar. O nosso corpo foi feito para isso. Até como exemplo pessoal, já tive sobrepeso, um peso muito mais alto do que tenho hoje, e, depois que incorporei o exercício físico à prática diária, mudei a minha vida e a minha qualidade de vida. Na especialidade que pratico como cirurgião, que é a coloproctologia, que compreende intestino, reto, entre outros, orientamos as pessoas a fazer atividade física da mesma maneira que o cardiologista. Sempre lembro o que ouvi um professor dizer, em um congresso internacional: “o que faz bem para o coração faz bem para o intestino”. Inúmeros trabalhos científicos apontam que quem pratica exercícios físicos diminui de maneira acentuada a incidência de câncer colo retal, que é o câncer de intestino, o segundo em frequência. O primeiro que atinge o homem é o câncer de próstata e a mulher, o câncer de mama. Nos últimos quinze anos, essa frequência aumentou muito, devido aos hábitos, ao estilo de vida, à ingestão excessiva de alimentos gordurosos. Tanto é que os Estados Unidos lideram a lista de incidência de câncer colo retal. Isso por causa do tipo de alimentação, do tipo de vida que as pessoas têm lá. Eu posso dizer que uma boa alimentação, rica em fibras, com pouca gordura, aliada à prática de exercícios físicos diária faz bem como um todo, tanto para o coração, quanto para o intestino e a mente. Vejo isso de uma maneira muito clara e prescrevo para todo mundo.
Bordon: Já fizeram uma pergunta várias vezes para mim e hoje vou fazê-la para você: qual foi o seu melhor lance? Qual o momento inesquecível da sua carreira?
Omar: O fato mais marcante na minha profissão aconteceu um ano antes de me formar. Eu estava no quinto ano de medicina, já tinha tido algumas aulas de atendimento de trauma, e estava voltando num fim de semana para Ribeirão Preto, quando vi um acidente na estrada. O carro capotou e eu parei para socorrer. Isso aconteceu há uns 30 anos e não tinha resgate na estrada. Parei para atender. Tinha uma senhora e duas crianças chorando do lado de fora do carro mais outra menina, de uns 12 anos, embaixo dele. Ela estava prensada e respirava com muita dificuldade. Estava toda roxa, com sangue na boca, machucada e com a respiração agonizante. Nessa hora, acho que tive uma iluminação divina. Eu tinha tido uma aula em que o professor havia explicado que, em situações de emergência, em que o paciente tem obstrução aérea, pode-se fazer uma cricotireoidostomia, conhecida no meio não-médico como traqueostomia, uma pequena abertura para desobstruir a via aérea e desafogar o paciente. O professor disse que poderíamos fazer isso até com uma tampa de caneta. Naquele momento, eu questionei e não tinha nenhum médico no local, o médico ali era eu e logo me lembrei desse procedimento. Foi tudo muito rápido: alguém segurou a menina e eu perfurei a cartilagem dela. Na mesma hora, a menina começou a reagir. Desta forma, conseguimos levá-la para o Hospital das Clínicas e salvá-la. Esse fato foi muito marcante na minha vida e eu fiquei até famoso na faculdade. Isso influenciou, inclusive, para que eu me tornasse cirurgião.
Bordon: Você tem esperança na cura do câncer? Como o Brasil tem colaborado na busca por essa descoberta?
Omar: A cura do câncer está cada vez mais próxima. Eu sou um médico otimista. Se analisarmos há 30 anos, um diagnóstico de câncer era quase uma sentença de morte. As pessoas nem chamavam o câncer pelo nome, referiam-se a ele como “doença ruim”. Primeiro que não existe doença boa, mas, hoje, existem muitos recursos à disposição. A medicina evoluiu demais. Atualmente, conseguimos detectar as doenças antes delas acontecerem. Vou citar dois exemplos: a mulher faz a mamografia todo ano. Se ela tiver alguma alteração no exame, já pode começar a ser tratada rapidamente. Na minha área, a proctologia, o câncer colo retal é um dos mais frequentes. Nos países de primeiro mundo, se faz colonoscopia em todas as pessoas acima dos 45 anos, independente de ter sintoma ou não. Isso antecipa muito o tratamento. Na Alemanha, nos Estados Unidos, a incidência do câncer de intestino está diminuindo. Isso acontece porque ele é tirado antes de virar doença. A técnica cirúrgica, a quimioterapia e a radioterapia melhoraram muito, então o controle está bem melhor. A pessoa tem grandes chances de se tratar. Infelizmente, essa é uma doença mundial, que podemos chamar de endêmica. É a segunda causa de morte no mundo e a incidência dela tende a aumentar. Isso tem a ver com os hábitos, a alimentação, o estilo de vida da modernidade. Porém, há chances de cura. Eu vejo com bons olhos. É feita muita pesquisa para isso. Na USP, na área em que trabalho, temos um banco de tumores, onde se estuda biologia molecular, gens, e tem bastante contribuição de pesquisa, tanto para prevenção quanto para remédios específicos. Hoje, existe a terapia-alvo, em que o tumor é mapeado e é feito um remédio específico para aquele tumor. Esse é o nosso caminho aqui.
Bordon: Para você, qual é o grande nome da medicina em Ribeirão Preto?
Omar: Eu sou professor da USP, graduado há 30 anos, então homenagearei o melhor cirurgião que eu conheci, que infelizmente já morreu: o professor Ferreira Santos. Ele foi fundador do departamento de cirurgia da nossa Faculdade, um dos homens mais disciplinados que já conheci. Tive a oportunidade de conviver um pouco com ele e ver que era um homem obstinado, o maior cirurgião que vi em Ribeirão Preto.
INÍCIO DE AMIZADE
“Foi a Acahdre que proporcionou os nossos primeiros contatos. De uma forma ou de outra, eu sempre vivi no meio da saúde porque cuido do meu corpo com muita determinação. Depois, quando decidi abrir a academia, percebi que isso poderia me proporcionar algo além do aspecto financeiro. A amizade, o contato, a aproximação com as pessoas e o respeito é o que tem mais valor pra mim. Conhecer pessoas novas, abertas a conversar e até a ajudar é o melhor retorno que estou tendo. Foi desta maneira que me aproximei do Omar. Não temos nem tanta intimidade, mas há verdade e leveza nesse início de amizade. Já me escolheram muitas vezes para ser entrevistado, mas eu nunca entrevistei alguém. Pela dedicação, por fazer parte da área da saúde, por estar na academia quase todos os dias, por ser alegre e bem disposto, eu admiro o Omar e foi isso que me fez decidir entrevistá-lo.”
Marcelo Bordon, empresário.
Texto: Máisa Valochi
Fotos: Carolina Alves
