Bate-papo musical

Bate-papo musical

Em um encontro harmônico, o diretor artístico e tecladista da banda Sambô, Ricardo Gama, entrevistou Pedro Grili, vocalista da Banda PlayVinil

É sempre interessante o que pode emergir do encontro de duas gerações.  Principalmente quando o tema principal é a música, linguagem universal que fala tão alto às emoções. De um lado, o tecladista Ricardo Gama, da banda Sambô, que apesar de jovem, formada em 2006, já se projetou no cenário musical brasileiro com seu rock-samba. De outro, Pedro Grili, vocalista da PlayVinil, montada em 2008, que mistura pop music com levadas de rock’n’roll. A banda começou a se projetar em 2011, com a participação em eventos como a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, o Carnabeirão, o Skol Folia, o João Rock e o Jaguariúna Country Festival.

Ao contrário de sua banda, Ricardo tem um longo tempo de estrada: é músico profissional desde os 15 anos. Pedro, em contrapartida, começou a vivenciar esse universo há cinco anos, justamente com o início da PlayVinil. Como seus colegas de palco — Ezio Jemma (guitarras); Felipe Ribeiro (teclados); Victor Grili (bateria) e Davi Lima (contrabaixo) — demonstra total envolvimento e muita seriedade: a banda já lançou um DVD ao vivo, gravado em um show apresentado no Theatro Pedro II, em 2012, e Cardioruído, o segundo álbum que, entre ensaios, sessões de gravação, pós-produção, mixagem e masterização, exigiu 10 meses de trabalho. É neste contexto, no encontro entre duas gerações musicais com diferentes influências, que se desenvolveu a entrevista.

Ricardo: Com quantos anos você começou a cantar?
Pedro: Meu pai é músico e, por isso, a música sempre esteve presente na minha casa. Nem lembro quando foi que comecei a cantar com meu pai tocando violão. Meu irmão tinha uma banda de jazz instrumental e, conforme os componentes foram saindo da escola de música e vindo mais constantemente para Ribeirão Preto, sentiram a vontade de dizer mais o que estava dentro deles. Então surgiu a necessidade de ter um vocalista, e eu estava por perto, já que os ensaios aconteciam na minha casa. Em abril de 2008, no aniversário do Ezio, eu subi ao palco, cantei duas músicas e, de lá para cá, minha vida mudou completamente.

Ricardo: A banda já tinha a mesma formação?
Pedro: O Felipe, o Ezio e o Victor sempre estiveram na banda, o Davi entrou mais tarde. Na fase de experimentação de jazz, a formação era outra.

Ricardo: Vocês ensaiam com frequência?
Pedro: No começo, eram ensaios pontuais, depois foi ficando mais sério e, por volta de 2010, quando produzimos nosso primeiro CD, pensamos: é isso que queremos, é disso que gostamos e é para esse lado que seguiremos. Nessa época, assumimos o compromisso e, nos fins de semana à tarde, nossa agenda está fechada para a banda. Desde que lançamos o CD, estamos encarando a PlayVinil de forma bem séria.

Ricardo: É legal observar o apoio e o incentivo que recebem dos pais de vocês, que faz até com que levem  mais a sério o trabalho com a banda. Como encaram esse apoio?
Pedro: Estamos em quatro famílias na banda. Dessas quatro, três são compostas por músicos: o meu pai, Evandro; o Robson, que é violonista, toca com a Alessandra Freire; o pai do Davi, o Gordo Lima, que é músico profissional, e Antônio Jemma, pai do Ezio, que é médico, fascinado por música e, desde a primeira vez que subimos ao palco, os olhos dele brilharam. Viu que estávamos felizes e que aquilo poderia ser um trabalho. Nenhum dos integrantes abandonou os estudos, todos temos projetos, é natural ser formado em outra profissão e seguir com a música, uma coisa não exclui a outra. Continuamos estudando, só precisamos definir, com o passar do tempo, qual será o plano A e qual será o plano B.

Ricardo: Algum de vocês pensa em direcionar o estudo para a música?
Pedro: O Victor tem maior interesse, acaba estudando mais, tanto ele quanto o Ezio. O Felipe está prestando  Odontologia, mas disse que balançou na hora da inscrição, pensando se fazia música ou não. Não sei o que ele escolheu, é um cara muito apaixonado pelo estudo da música, não só pelo tocar.

Ricardo: Gostaria que falasse um pouco sobre o “Cardioruído”, o novo trabalho de vocês. O fato de ser composto por músicas autorais chamou minha atenção. Como o público recebe esse tipo de música?
Pedro: Desde o começo, quando a banda se apresentou para o público de Ribeirão Preto de forma mais incisiva, em 2011, com o CD, todo mundo soube que nosso trabalho era autoral. Então, sempre que aparecemos com uma música autoral, as pessoas estão abertas a ouvir, a entender o que estamos querendo dizer com a música e isso se refletiu no DVD. A faixa principal do primeiro CD, “O tal sorriso”, foi inacreditável: quando estava no palco, tirei o microfone e vi a plateia do Theatro Pedro II cantando comigo e pensei: ‘cara onde eu estou? Como isso aconteceu?’. Esse sentimento de estar pronto para produzir de novo surgiu durante a gravação do DVD e nos motivou a fazer um álbum em 2013, a mostrar para o público que acompanha a banda o que é o PlayVinil hoje. As canções do CD de 2011 foram produzidas em 2010, quando eu tinha 14 anos, então, a cabeça é completamente diferente. Há novas mensagens para dizer, hoje a banda olha as mesmas coisas sob outras perspectivas. Foi isso que quisemos trazer neste novo disco: tentar falar a linguagem do nosso público, que é a galera dos 14 aos 25 anos.

Ricardo: Vocês mesmos fazem os arranjos, entram no estúdio e gravam. Aonde pretendem chegar e que público pretendem atingir com esse trabalho tão sólido?
Pedro: Desde as músicas até todo o conceito que tem por trás dos CDs é nosso, não faria sentido nenhum contratar alguém para fazer esse trabalho. Estávamos com vontade: vontade de ir para o estúdio, de gravar as músicas que fizemos. O sonho de toda banda é atingir as pessoas, é colocar a sua música para tocar no CD, ouvir a canção no rádio e, de alguma forma, ver aquela música fazer um paralelo com a vida do público. Esse é o grande objetivo do PlayVinl: tocar a vida das pessoas através da música. Se você tiver 60 ou 15 anos, se entender nossa linguagem e achar que temos alguma coisa válida a acrescentar com nossas ideias, com nosso som, com nossa animação, pode fazer parte do nosso público.

Ricardo: Vocês pretendem fazer muito show ou o trabalho é mais voltado para produzir conteúdo? Pretendem cair na estrada?
Pedro: A estrada é o objetivo. O show é um momento indescritível para o músico. Passar a sua mensagem para as pessoas cara a cara, olho no olho, é uma experiência muito legal, é onde nos divertimos e saímos do palco com aquele sorriso estampado na cara que vai durar duas semanas.

Ricardo: Pensam em traçar essa estrada, mesmo tendo objetivos profissionais diferentes? A estrada consome boa parte da vida do músico.
Pedro: Claro, e o objetivo que é ela consuma a maior parte de nossa vida. Em 2012, fizemos vários shows fora de Ribeirão Preto e, no ano passado, voltamos mais para a produção do álbum. Foi preciso esse tempo para produzir o CD e os ensaios ficaram mais focados nisso. Então, surgiu a possibilidade de tocar no João Rock, no camarote em Barretos e não tinha como perder essas grandes oportunidades. Mas não era a hora de sair para a estrada vendendo show. A estratégia da PlayVinil é fazer isso para divulgar o álbum que acabamos de lançar nos shows da Fnac e do Sesc. A partir deste ano, o projeto de divulgação nas cidades da região será colocado em prática.

Ricardo: Vocês fazem parte da faixa etária e da classe socioeconômica que mais movimentam as redes sociais. Qual é a importância dessas ferramentas para o PlayVinil?
Pedro: As redes sociais eram um desafio para a banda até o ano passado, pois precisávamos encontrar uma linguagem eficaz para nos comunicar com o público. Há dois anos, nossa página contava com 800 curtidas, hoje, alcançamos 6 mil, um avanço muito bacana. No começo do ano passado, fiz um curso de administração de mídias sociais, foi aí que aprendemos o que dava resultado e o que não servia para alcançar esse diálogo. As redes sociais dependem muito da experiência, agora, já estamos mais habituados com esse tipo de divulgação e esperamos que as pessoas curtam cada vez mais e passem nossas músicas para frente. Pode fazer cover, pode fazer o que quiser, estamos felizes com os resultados.

Ricardo: A banda pensa em fazer um show com o público mais à vontade, dançando?
Pedro: Com a gravação do DVD no Theatro Pedro II, por meio do projeto Amigos da Casa, a PlayVinil teve a oportunidade de tocar naquele lugar, de levar o público até lá: não dava para não fazer um registro. Já que pretendíamos registrar, decidimos gravar um DVD. Com uma resposta legal desse trabalho, podemos ir para um gramado, no pôr do sol e gravar um DVD com a galera ao lado do palco.

Ricardo: Quais são as influências musicais de vocês?
Pedro: Nos dois últimos álbuns que lançou, o Coldplay soube trabalhar bem o conceito do que é unir quinze ideias, ou seja, canções, em uma só ideia. No aspecto de conceito artístico, nós nos espelhamos muito nessa banda. Na parte sonora, tem um cara que é nosso grande ídolo, John Mayer — uma referência. Ele consegue, com composições de alto nível, trazer as guitarras de uma maneira que, durante um intervalo de tempo, ninguém conseguiu fazer.

Ricardo: Quando cita esse intervalo, o que você toma como referência?
Pedro: No começo dos anos 90, o rock começou a sair de cena e teve uma inclinação para a música mais pop, e muito do que era bom estava escondido. É mentira dizer que na década de 90 não teve nada que saltasse aos olhos porque muita gente fez sucesso. Mas não me recordo de ninguém com a qualidade de composições que ele tem: é formado em música pela Universidade de Berkeley, em Boston, e sabe demais, é uma referência ímpar.

Ricardo: The Beatles e The Rolling Stones tiveram um lado musical muito forte e também uma relação intensa com o público. Vocês pesquisam músicas da época em que o rock explodiu para as multidões?
Pedro: Já assisti várias vezes à turnê de The Beatles, gosto muito de conhecer a história por trás das coisas, fico fascinado ao entender o que os caras conseguiram: de onde surgiu a ideia que fez com que o mundo ficasse paralisado para escutar quatro vozes? É inevitável pesquisar sobre The Beatles, sobre a música dos anos 70, sobre o rock brasileiro dos anos 80. Procuramos sempre nos informar, ouvir o que esse pessoal tinha a dizer e aproveitar para aprimorar o trabalho.

Ricardo: Há influência de outros gêneros musicais?
Pedro: A PlayVinil tem muita diversidade nesse aspecto. O Victor escuta tudo o que há de melhor e o que não é tão legal assim. É um cara que consegue absorver muito a ideia do pop. Um ponto em comum entre o pagode, o rock e o sertanejo universitário de hoje é que todos usam elementos do pop, que nasceu com The Beatles e chega através de qualquer música que ouvimos. Mas é preciso saber identificar: essas bandas estão utilizando elementos com uma linguagem diferente da que os The Beatles usavam, com uma linguagem mais atual? Conseguir reconhecer tais elementos, perceber a maneira como são utilizados, identificar o que é bom e aproveitar isso para a banda é muito importante. Meu gosto musical não se inclina muito para esse lado, mas sempre que tenho a oportunidade de entrar em contato com esse tipo de música, tento ouvir com a cabeça aberta. Quem não teve a fase do Exaltasamba? Essa diversidade cultural e da música é bem brasileira. O cara não quer ouvir só rock, ele pode preferir o rock, mas ouvir só o rock ou só o pagode, isso não vai acontecer.

Ricardo: A partir do momento que encaram a música como profissão, ela se torna material de pesquisa. Como em qualquer área, a pessoa não pode escolher o que quer ler: se o livro fala de sua área, tem que ler e absorver alguma coisa daquilo. Pensam em usar um pouco dessa brasilidade no som de vocês?
Pedro: No “Cardioruído” tentamos transmitir a ideia de verdade do que é a banda. Isso ainda vai aparecer para nós, mas, nesse momento, não é uma verdade ainda. Acho que, se colocarmos esses elementos no meio, o resultado não refletiria o que somos.

MATURIDADE

“Quando a Revide me convidou para bater este papo com a PlayVinil fiquei muito feliz por ser uma banda que acompanho há algum tempo e gosto muito. Tive o prazer de ouvir esse recente trabalho logo que saiu do forno, com a missão de dar minha opinião sincera que, como já era esperado por mim, foi muito positiva. Nesse bate-papo, a banda foi representada pelo Pedro, vocalista que, apesar de ainda ser bem jovem, mostrou uma maturidade incrível, que é ponto comum entre todos eles. PlayVinil é música boa, é família, é atitude, é amizade e é orgulho da nossa cidade. Vida longa à PlayVinil!”Ricardo Gama, músico e tecladista do Sambô 


Texto: Carla Mimessi
Fotos: Julio Sian

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