Beleza controversa

Beleza controversa

Implante hormonal utilizado como contraceptivo pode gerar benefícios estéticos a pacientes, mas especialista alerta para efeitos colaterais


Texto: Tainá Colafemina


Batizado na mídia e nas redes sociais como “chip da beleza”, o implante hormonal subcutâneo tem gerado discussões entre especialistas. Além de benefícios como o maior tempo de contracepção garantida — que dura, em média, três anos —, fim das cólicas, menstruação e Tensão Pré-menstrual (TPM), algumas usuárias notaram benefícios estéticos com o uso do implante, como a redução de celulite e o ganho de massa magra. Atrizes e modelos como Letícia Birkheuer, Daniella Sarahyba e Mirella Santos estão entre as usuárias famosas que notaram esses benefícios. Com a fama adquirida pelo medicamento, não deixaram de surgir opções que prometessem benefícios exclusivamente estéticos (e rápidos) para as usuárias. 

Os implantes anticoncepcionais são pequenos tubos de silicone de cerca de quatro centímetros aplicados sob a pele, que podem transportar os hormônios estradiol, testosterona, elcometrina, nomegestrol, gestrinona e progesterona, conforme o que for indicado para a paciente. Entre os efeitos benéficos do implante estão a ajuda no tratamento da endometriose e de miomas, além da reposição hormonal durante a menopausa. Um dos médicos mais renomados do Brasil que popularizou o uso desse método é Malcolm Montgomery, que foi o responsável por implantar a medicação em Hebe Camargo. A apresentadora foi uma das primeiras famosas a cunhar o termo “chip da beleza”. 


Para que o uso do ‘chip da beleza’ exclusivamente para fins estéticos seja comprovado, segundo Tatiana, são necessários estudos sobre a composição hormonal, a dosagem e os efeitos


A ginecologista Tatiana Prandini, que atua no Departamento de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, alerta que cada paciente deve ser analisada individualmente e que os implantes oferecidos exclusivamente com a promessa de uma melhora estética não têm eficácia testada e comprovada. “É importante salientar a diferença entre o implante contraceptivo e o ‘chip da beleza’, que, além da função contraceptiva, promete outros benefícios, como o aumento da libido, emagrecimento e melhora da disposição. O implante contraceptivo é, hoje, o método disponível com maior eficácia no mercado. Falha dez vezes menos que a laqueadura e tem pouquíssimas contraindicações. Ele é um bastão do tamanho de um palito de fósforo, inserido no tecido subcutâneo do braço e tem validade de três anos”, explica a médica. 
A ginecologista Tatiana Prandini destaca que implantes oferecidos com a promessa de melhora estética não têm eficácia comprovada
O dispositivo utilizado apenas para fins estéticos, segundo Tatiana, não tem comprovação clínica acerca da garantia do efeito. “É uma composição hormonal cujas proporções não estão muito descritas. Enquanto a contracepção é garantida pela liberação de um hormônio feminino do tipo progestágeno, os outros efeitos, como emagrecimento e aumento da massa muscular, libido e disposição, estão associados aos hormônios masculinos, que podem apresentar efeitos adversos, como a queda de cabelo, o aumento da acne, o engrossamento da voz e o aumento do clitóris, sendo esses dois últimos irreversíveis, caso ocorram”, salienta.

Para que o uso do “chip da beleza” exclusivamente para fins estéticos seja comprovado, segundo Tatiana, são necessários estudos sobre a composição hormonal, a dosagem e os efeitos. “O que precisa ser comprovado em relação ao ‘chip da beleza’ é a composição hormonal que ele contém. Além disso, as dosagens devem ser padronizadas e ainda não são. Para garantir a segurança, devem ser feitos estudos sobre dosagem e efeito desses hormônios. Em relação à segurança, também não há estudos relacionados ao uso a médio e longo prazo para avaliação dos possíveis malefícios à saúde”, alerta. 
Implantes anticoncepcionais são pequenos tubos de silicone de cerca de quatro centímetros que transportam hormônios
Bem-estar em primeiro lugar

O implante hormonal pode ser a melhor opção entre tantos métodos contraceptivos para diversos tipos de condições. A estudante de Enfermagem Isadora Anezini teve o implante indicado por conta de uma cirurgia bariátrica. “Na cirurgia que fiz, foram retiradas três partes do estômago e a primeira parte do intestino, que é bem onde pílulas contraceptivas são absorvidas. Então, se eu tomasse, não ia fazer efeito algum. Eu precisava de algo injetável, ou com outra forma de absorção. Como há muitos casos de câncer de mama na minha família, as injeções não eram indicadas. Meu ginecologista sugeriu avaliar entre o DIU Mirena ou implante. Optei pelo implante e gostei”, comenta Isadora. Isadora Anezini teve o implante indicado por conta de uma cirurgia bariátrica

Quanto ao aspecto estético, a estudante, que não pratica exercícios físicos regularmente, diz nunca ter notado qualquer benefício, mas, sim, o aumento da oleosidade da pele e da acne. “Sempre tive muitos problemas com espinhas. Já era um problema meu, só que os outros anticoncepcionais que eu tomava, por conta dos hormônios, melhoravam a acne”, relata. Isadora também notou diferenças quanto ao humor, que se firmaram com o tempo. “No começo, eu me senti mais sensível, mas isso foi se estabilizando. Em relação a efeitos colaterais, comparado aos outros contraceptivos que eu já tinha usado, é um dos que eu menos senti. Nada de inchaço”, frisa. Entre os efeitos benéficos que percebeu, ela destaca a segurança contraceptiva do dispositivo, que influenciou na escolha, e a melhora dos sintomas de ovário policístico.


O implante pode ser uma boa opção para quem tem restrições quanto à pílula contraceptiva e um aliado na melhora dos sintomas de ovário policístico 


Já Lavínia Mitsugi, estudante de Psicologia, escolheu o implante contraceptivo em 2016, depois de não ter se adaptado à pílula, à injeção anticoncepcional e ao DIU. “Eu comecei a tomar pílula logo quando comecei a menstruar, porque meu ciclo era muito irregular, e minha ginecologista pediu para que eu tentasse a pílula para ver se melhorava. Não me adaptei bem, fui para a injeção e, conforme tomava e fazia exames, meus ovários começaram a apresentar problemas. Minha ginecologista pediu para que eu parasse e sugeriu o DIU, porque há uma validade maior. Também não me adaptei bem e, então, veio a sugestão para que eu colocasse o implante. Deu certo”, relata. 
Implanta contraceptivo foi o método a que Lavínia Mitsugi melhor se adaptou
No começo, o ciclo menstrual de Lavínia ficou irregular, o que melhorou com o tempo. Além disso, nenhum efeito colateral foi notado. “Quanto ao uso para fins estéticos, não notei nenhuma diferença, como ganho ou perda de peso”, conta. Ela destaca que o implante contraceptivo traz a segurança, para ela, de não ter de ingerir ou reaplicar a dose regularmente, e alerta que, mesmo com essa tranquilidade, é necessária, sempre, a prevenção. “Minha ginecologista sempre me lembra e é sempre bom passar isso para as pessoas: o implante é um contraceptivo, não substitui a camisinha. Quanto aos benefícios, sou muito feliz com eles”, finaliza Lavínia. 

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