(Bom) comportamento na internet

(Bom) comportamento na internet

Graças às redes sociais, compartilhar informações com as pessoas é fácil e rápido; no entanto, esses espaços de convivência on-line também servem para a proliferação de gafes e erros

Quando Luis XIV — rei da França no século XVII — passou a adotar normas de etiqueta, não poderia imaginar que, algumas centenas de anos depois, haveria, também, um mundo virtual com infinitas possibilidades. Como qualquer ambiente de convivência entre pessoas — caso das redes sociais — esse universo também possui regras de comportamento a serem seguidas. Respeitar a etiqueta virtual é, como também acontece na vida real, uma maneira de manter a boa convivência.

Aliás, criar um ambiente respeitoso é apenas um dos desafios da vida digital. Pelo menos é assim que entende o professor, publicitário e doutorando em Análise do Discurso e Filosofia da Arte, pela UFSCar, João Flávio de Almeida. “Todos os usuários das redes sociais se sentem, de certo modo, especialistas em detectar quais são esses desafios. É mais ou menos como o sentimento do fã de futebol que, às vezes, coloca-se no papel do técnico. Isso acontece porque esse é nosso novo habitat, portanto, parece natural”, brinca.

Segundo o professor, a internet tomou conta da totalidade do tempo e do espaço do sujeito pós-moderno. “Não existe começo e fim quando o assunto é o universo on-line, tampouco um espaço determinado com pessoas determinadas. Assim, a boa educação se dilui em um espaço e tempo completamente heterogêneos”, analisa João Flávio. 

Conectividade sem educação: segundo Sandra, os brasileiros acessam muito a internet pelo celular e pouco as escolas de qualidadeParte deste comportamento, segundo a historiadora Sandra Rita Molina, vem sendo construído desde o início do processo de globalização, na década de 90, que, teoricamente, propunha uma revolução de costumes. No entanto, é possível observar alguns resultados antagônicos. “O que todo mundo esperava era que a tecnologia fosse aproximar as pessoas. Milton Santos chegou a referir-se à criação de uma ‘aldeia global’. No entanto, o que se vê, muitas vezes, a tecnologia também pode afastar”, analisa a historiadora.

Isso vem ocorrendo, de acordo com a professora, porque as pessoas estão se tornando mais intolerantes, parcialmente em função da internet. “No mundo virtual, eu escolho com quem quero conviver, o que é determinante no desenvolvimento de um comportamento mais mimado, por exemplo. Além disso, quando passo a conversar apenas com meu grupo e da maneira que desejo, deixo de conviver com a diversidade de opiniões e vou me tornando menos tolerante. É importante lembrar que não calçamos o sapato do outro para saber como dói. Quando tomo minhas verdades como absolutas, é natural desenvolver certa arrogância, comum a quem acha que possui competência para falar sobre o que quiser. O problema é que isso transforma a sociedade, criando um espaço com pouca alteridade, compaixão e tolerância”, explica. 

Essa conduta leva muitos indivíduos a um comportamento extremo, abrindo espaço para postagens e compartilhamentos ofensivos e até discriminatórios nas redes sociais. “Não acho que a tecnologia seja ruim, muito pelo contrário, uma vez que permite o contato com quem está do outro lado do globo ao toque do celular. O problema é que a sensibilidade humana está ficando entorpecida. Penso que a tecnologia, muitas vezes, isola. Não é raro ver as pessoas sentadas na mesma mesa de bar conversando por meio de aplicativos de celular. Elas deveriam falar mais umas com as outras, olhando nos olhos. É a isso que me refiro quando digo que estamos gerando uma sociedade solitária e superficial”, acrescenta Sandra.

A historiadora afirma que parte da culpa por essa conduta está na falta de acesso à educação de qualidade no Brasil. “Nosso país está entre os que mais acessam a internet pelo celular no mundo. Ao mesmo tempo, temos uma dificuldade imensa de acesso à educação de qualidade. Esse fator impede os brasileiros de desenvolverem conceitos básicos de cidadania e sociabilidade, o que envolve olhar o outro, tolerar e respeitar outras opiniões. Resumidamente, ao mesmo tempo em que a tecnologia amplia a possibilidade de estabelecer relacionamentos com outras pessoas, dificulta o aprofundamento dessas relações”, aponta a especialista. 

Boas maneiras 

O comportamento online pode refletir diretamente na vida off-line. Por conta disso, é sempre importante estar atento às postagens e a tudo aquilo que é veiculado nas redes sociais — antes de qualquer movimento, lembre-se de que o conteúdo virtual poderá permanecer disponível para sempre e trazer consequências não muito agradáveis. 
Para João Flávio de Almeida, a primeira regra é não expor virtualmente aquilo que você não faria no mundo real. “Se você imagina que ficará envergonhado de ter dito aquilo na internet se encontrar determinado indivíduo pessoalmente, não diga nada. Seguindo o mesmo raciocínio, evite contendas políticas, respeite a opinião do outro, não exponha demais sua vida pessoal — felicidades ou tragédias —, seja bonzinho e, principalmente, tome cuidado com a malha fina do ‘politicamente correto’”, recomenda o professor.

Para Ane, os consultórios de psicólogos, analistas e psiquiatras podem ajudar quem exagera na exposição em busca de reconhecimento  e atençãoO internauta também pode escolher se portar nas redes sociais com total liberdade, uma conduta mais complexa, segundo Almeida. “Em geral, as pessoas não sabem como agir na internet porque estão mergulhadas em convenções que automatizam o uso da rede de forma inconsciente. Isso significa que, ao mesmo tempo em que o ser humano programa a internet, ela o programa. Enquanto operamos os aparatos digitais, eles também nos operam, moldam e condicionam nossas ações. Por isso, quando digo que uma pessoa deve usar as redes sociais como ela bem quiser, estou instigando os usuários a tomarem consciência de si mesmos naquele ambiente digital. Pergunte-se: este é você mesmo? Se a resposta for positiva, esta é uma faceta que você realmente precisa mostrar? Todos estão criando imitações baratas de si mesmo na internet, o que não quer dizer que você precisa fazer o mesmo”, instiga o especialista.
 
Para a psicóloga Ane Ribeiro Patti, tudo o que soar exagerado, perigoso ou provocativo, deve ser pensado e repensado antes de ser compartilhado, seja nas redes sociais virtuais ou na vida real. “Quanto mais aberta ao público for a rede social, mais cuidado é preciso ter e menos íntimas as postagens devem ser. O desafio, hoje, é buscar uma nova sensibilidade para evitarmos a barbárie, lidar com a ambivalência própria à linguagem e correr o risco de se arriscar com mais juízo e cuidado”, diz Anne. Para a especialista, as pessoas devem duvidar um pouco mais das aparências e olhar menos para fora. “Não acredite tanto no ditado ‘tenho likes, logo existo’, nem leve tão a sério a própria imagem, pois a vida é dinâmica, as pessoas mudam e os espaços virtuais também”, acrescenta a psicóloga. 
 
Gafes on-line

De acordo com Almeida, a internet mostra uma representação de quem se é. O problema é que, muitas vezes, simulações mal-acabadas se tornam evidentes demais. Este é o indício de que os fiascos podem acontecer a qualquer momento. “Há pessoas que simulam viagens, outras que só sorriem diante das câmeras e são infinitamente mais bonitas nas redes do que no mundo real”, exemplifica. 

Existem, também, as gafes ofensivas, que, para o professor, são as mais problemáticas. “Tudo aquilo que tem cunho político, social ou religioso, por exemplo, vai ultrajar alguém. Isso acontece não necessariamente porque sua frase foi ofensiva, mas porque sentir-se ofendido por grupos opositores vem se tornando outro imperativo da internet”, comenta o professor.

A liberdade de postar o que quiser acaba trazendo aos usuários a sensação de um ambiente livre, sem leis ou consequências. Para Almeida, esse comportamento é reforçado pelo anonimato que a internet permite. “O filósofo francês Michel Foucault apresenta uma analogia interessante, a do panóptico, uma espécie de prisão circular onde todos os presos podem ser vigiados ininterruptamente. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman expande esse conceito e afirma que, hoje, a sociedade atingiu a era do pós-panóptico, em que ninguém mais precisa ser vigiado, pois as pessoas se expõem livremente. Sendo assim, a vigilância, como ferramenta de punição, foi substituída pela punição do anonimato: todos querem ter os próprios programas de televisão e serem, eles mesmos, as estrelas principais. Nestes programas digitais, corpo, tempo e ações se tornam a própria mídia. A programação dessas ‘nanomídias’ é simples, o cotidiano, e a audiência, curiosamente, cresce todos os dias”, diz Almeida.

Na atualidade, os usuários das plataformas digitais têm experimentado uma liberdade de expressão que fascina. Segundo a psicóloga Ane, basta pensar, por exemplo, nos imigrantes digitais — pessoas que nasceram e se construíram antes da internet: hoje, eles podem falar e se expressar como jamais poderiam na adolescência, o que produz alguns efeitos. Já os nativos digitais — que já nasceram conectados — parecem não estranhar o “microfone coletivo” que caracteriza as redes. “Para eles, a exposição da palavra e da imagem é natural e, por isso, têm menos pudores em relação a isso”, explica a especialista. 

Ane afirma que esses comportamentos impulsivos são uma tendência humana. “Já nascemos com um circuito curto na busca por satisfações. Os seres humanos precisam exercitar a reflexão e o adiamento dessas satisfações de desejos imediatos desde o início da vida social. É aos poucos que o sujeito se dá conta dos riscos de falar, de escrever, de se expor física e intelectualmente de forma inadvertida, ingênua e espontânea demais”, explica a psicóloga.

A capacidade de antecipação, de planejamento e de associação de hipóteses, fatos e consequências resulta em escolhas e posicionamentos que afetarão não só o indivíduo, mas o meio social em que ele está inserido. “Reconhecer o desejo de falar de si, de forma mais íntima e pessoal, pode ajudar o sujeito a se dar conta de que há espaços mais adequados para isso que não o coloquem em risco. Vale considerar, entre eles, os consultórios de psicólogos, psicanalistas e psiquiatras, profissionais que possuem ferramentas adequadas para auxiliar o sujeito em suas tomadas de posições, inclusive, no discurso”, afirma a psicóloga. Buscar recursos adequados pode ajudar a minimizar a necessidade de exposição nas redes sociais em busca de reconhecimento e de atenção. “O sujeito poderá se dar conta de seu posicionamento subjetivo e produzir, a partir daí, um cálculo das consequências da forma de ser e estar no mundo”, acrescenta Ane. 

Todo cuidado é pouco 

João Flávio: na era pós-panóptico, a punição da vigilância foi substituída pela do anonimatoDe acordo com Almeida, a ética foi substituída pela fiscalização do “politicamente correto”. Por isso, todo cuidado é pouco quando se trata de postar algo nas redes sociais. Veja algumas dicas: 

• Cuidado ao postar piadas, gozações e “tiradinhas inteligentes”.
• Não exponha o corpo e o cotidiano na internet, pois as fotos podem ser usadas para outros fins.
• Antes de compartilhar qualquer informação recebida, confirme sua veracidade, evitando a difusão das “fake news”.
• Especialmente em ano eleitoral, procure não misturar suas ideias e opiniões com as redes, evitando transtornos.
• Não crie perfis falsos para enganar as pessoas.
• Respeite a opinião dos demais usuários e não ofenda ninguém.
• Não use palavrões.
• Não desabafe sobre problemas pessoais e profissionais.
• Não poste conteúdo discriminatório ou racista.

Denúncias no Brasil

A Safernet Brasil oferece um serviço de recebimento de denúncias anônimas de crimes e violações contra os Direitos Humanos na Internet. Em 11 anos, a  ONG recebeu e processou 3.861.707 denúncias anônimas, envolvendo 668.288 páginas distintas escritas em nove idiomas e hospedadas em 86.143 hosts diferentes, conectados à internet por meio de 50.405 números de IPs, atribuídos para 98 países nos cinco continentes. Só em 2017, foram realizados mais de 300 pedidos de ajuda relacionados à intimidação, discriminação e ofensa, 299 a problemas com dados pessoais, 289 a sexting e exposição íntima, 140 a fraude, golpes e e-mails falsos e 116 a conteúdos de ódio e violentos. Em Ribeirão Preto, N.M, que não quis se identificar, sofre com a perseguição de um jovem, que ela acredita ter 20 anos, há mais de um ano. Segundo a vítima, as mensagens chegam pelo Facebook e pelo Instagram. “Ele diz que me achou no Tinder, mas, na época, eu estava namorando e não usava este tipo de aplicativo. É estranho porque a pessoa descreve meus gostos e sabe os locais que eu frequento, mas nunca o vi pessoalmente. Como sempre fui uma pessoa de reagir a assédios, assaltos e ações desse tipo, achei que as consequências seriam semelhantes, mas descobri que na internet é mais complicado. Não costumo colocar nas redes sociais quando estou indo a algum lugar diferente, deixo as postagens para depois. Além disso, meus perfis não são públicos. Mesmo assim, acho que todo cuidado é pouco quando se trata de redes sociais”, conta N.M. 

Futuras gerações

Ainda não há consequências estabelecidas para o mau comportamento nas redes. Segundo o professor, muitos estudos em andamento tentam medir os impactos de tantas transformações, mas a verdade é que ainda não se sabe quais serão os efeitos da intensa conectividade, especialmente em relação à geração que já nasceu na era digital. “Talvez estejamos falando de um novo mundo, um futuro em que, de fato, não precisaremos mais saber qual é a capital de um estado: o Google saberá por nós em poucos cliques. No entanto, ainda não dá para imaginar o que será de uma geração que conversa cada vez menos olhando nos olhos”, conclui Almeida.

Programador x programado

O comportamento on-line de um indivíduo influencia totalmente a vida off-line. Almeida explica que a programação da internet sobre os seres reais é cada vez mais intensa. “Ela modela hábitos e instaura uma realidade completamente nova, com novas leis físicas, fisiológicas, interpessoais, profissionais, etc. As pessoas estão cada vez mais sedentárias, corcundas e com problemas de visão.”, argumenta o professor. 

O expediente do trabalho por exemplo, que acabava às 18h, tornou-se ininterrupto com a tecnologia. A vida social está cada vez mais silenciosa, pois a tela touch não faz barulho. Além disso, ninguém mais precisa saber informações básicas, porque a internet fornece todas as informações na palma da mão.  “Também não precisamos mais nos lembrar de nada, pois terceirizamos nossa memória para os aparelhos eletrônicos. Nossos olhos, nossa capacidade de processar dados, nossas opiniões, nossos relacionamentos amorosos, nossas agendas, nossos segredos também estão lá registrados”, acrescenta o professor. 



Texto: Gabriela Maulim

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