Bomba-relógio

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Conscientização sobre mudanças climáticas e desmatamento da floresta Amazônica, para o professor José Carlos Martins de Nóbrega, estão entre os maiores desafios atuais da população


Texto: Cristiane Araujo | Fotos: Julio Sian


Uma corrida contra o tempo. É essa a definição de José Carlos Martins de Nóbrega quando o assunto são as mudanças climáticas. Para o engenheiro agrônomo, com experiência na assistência técnica e no crédito rural, pós-graduado em Genética e Melhoramento de Plantas e professor do curso de Agronomia do Centro Universitário Moura Lacerda, é preciso estar atento às consequências do efeito estufa e do aquecimento global.

Segundo o professor, várias são as fontes, antropogênicas e naturais, de emissão de gases do efeito estufa, tais como a atividade industrial, agropecuária, transporte ou, ainda, todas as formas de utilização de combustíveis-fósseis, como petróleo e carvão mineral. “Contra essas várias fontes de emissões, temos o processo fotossintético como principal mecanismo de sequestro de carbono, nesse caso o dióxido de carbono (CO2), um dos gases causadores do efeito estufa”, comenta. 

Na entrevista a seguir, José Carlos explica o que é o efeito estufa, elenca as consequências mundiais e os principais agressores que contribuem para as mudanças climáticas, além dos riscos do desmatamento da Floresta Amazônica. 

Podemos dizer que os maiores desafios do planeta estão relacionados às mudanças climáticas?

Vários são os desafios para a humanidade, nas mais diferentes áreas. As mudanças climáticas afetarão a humanidade, tornando a vida mais difícil. O aumento da população e, consequentemente, das demandas por alimento, espaço, urbanização, transporte, energia e trabalho resultam numa maior atividade produtiva e em mais emissão de gases que afetam o efeito estufa. Essas necessidades estão atreladas a grandes interesses econômicos e políticos, tornando difícil um consenso na intensidade e nas medidas que devem ser tomadas para a mitigação deste problema, portanto, podemos dizer que, dentre os maiores desafios da sociedade, estão os relacionados às mudanças climáticas.

O que é o efeito estufa e quais as consequências para o planeta?

O efeito estufa é um processo natural e essencial para a vida no planeta. O sol emite radiações em todos os comprimentos de onda, mas a maior parte está dentro da faixa da luz visível (de 380 a 750 nm). Ao atingir a superfície do planeta, essas radiações são absorvidas por todos os materiais. Parte dessa energia é refletida como radiação infravermelha (de 4 a 40 µm), um espectro de ondas grandes. Gases como o gás carbônico (CO2), o metano (CH4) e o vapor d'água (H2O) e o óxido nitroso (N2O) funcionam como uma cortina de gás que vai da superfície da Terra em direção ao espaço, impedindo que a energia do sol absorvida pela Terra durante o dia seja emitida como onda grande de volta para o espaço. Portanto, parte do calor fica retida próximo à Terra, o que faz com que a temperatura média do nosso planeta seja em torno de 15°C. A esse processo, damos o nome de efeito estufa, importante para manter a água no estado líquido em boa parte do planeta, permitindo a origem e manutenção da vida, caso contrário, o planeta apresentaria uma temperatura média próxima a -15°C.

Então, onde estaria o problema na emissão dos gases de efeito estufa?

O problema ocorre quando a concentração destes gases aumenta, impedindo que parte do calor seja perdido, aumentando, assim, sistematicamente a temperatura do planeta. É como se pensássemos em um cobertor em dias frios. O cobertor sozinho não esquenta, ele impede que o calor do nosso corpo seja perdido para o ambiente, funcionando como um isolante térmico. Se um cobertor não é suficiente, colocamos outros, aumentando o isolamento térmico e a retenção de calor.


O desmatamento não ocorre apenas no Brasil, portanto, faltam políticas públicas que permitam que estas áreas possam produzir riqueza, melhorando as condições de vida dos seus habitantes, sem comprometer esse importante bioma


Quais os principais agressores que contribuem para as mudanças climáticas no Brasil e no mundo?

Os principais gases responsáveis pelo aumento da temperatura no Brasil e no planeta são o dióxido de carbono ou gás carbônico (CO2), contribuindo com cerca de 53 % do total dos gases de efeito estufa; o metano CH4, contribuindo com aproximadamente 17%; os Clorofluorcarbonetos CFCs ou compostos halogenado, com 12%; e o óxido nitroso (N2O), com 6%.

Segundo o relatório “Estado do Clima 2018”, a emissão de gases como dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) seguiu aumentando e, combinado com outros gases conhecidos como halogenados, já têm um efeito de aquecimento 43% maior do que em 1990. Qual o real impacto do aumento da temperatura do planeta para os seres humanos?

Entre as consequências do aquecimento global estão o degelo, o aumento do nível dos oceanos e comprometimento de parte da população costeira e das áreas abaixo do nível do mar, além da desertificação, da alteração do regime das chuvas, diminuindo a capacidade produtiva das culturas, da redução da biodiversidade e de eventos extremos cada vez mais frequentes, como inundações, secas prolongadas, furacões e tornados. Para uma população crescente, com previsão de 9 bilhões de pessoas em, no máximo 30 anos, a escassez de água e alimentos, o aumento da pobreza e da qualidade de vida, principalmente nos países da região tropical, é um prognóstico pouco animador para uma situação de aquecimento contínuo do planeta.

Em sua opinião, qual a responsabilidade do Brasil em relação ao aumento desses fenômenos?

Podemos abordar esta responsabilidade de duas formas:  se analisarmos o acúmulo de emissões ao longo da história, o Brasil não figura entre os principais emissores de gases do efeito estufa. Como este efeito é acumulativo, poderíamos nos isentar de responsabilidade. Mas, se analisarmos as últimas décadas, o Brasil passa a figurar entre os dez maiores emissores de gases do efeito estufa. Independente de ser ou não um grande emissor de gases do efeito estufa, o país não pode se isentar da responsabilidade com os destinos do planeta. No domínio do Brasil está a maior parte da Floresta Amazônica — aproximadamente 61% —, importante área para o Brasil, o continente e o mundo, com uma economia muito vinculada ao agronegócio, influenciada direta ou indiretamente pela manutenção desta floresta.

Faltam políticas públicas ou projetos de conscientização em relação à real importância da Floresta Amazônica?

A soberania sobre a Floresta Amazônica não pode ser discutida: ela é dos países que a compõem, sendo Brasil, Peru, Venezuela, Colômbia, Bolívia, Guiana, Suriname, Equador e Guiana Francesa. Esses países têm imensa responsabilidade em sua manutenção. O desmatamento não ocorre apenas no Brasil, portanto, faltam políticas públicas que permitam que estas áreas possam produzir riqueza, melhorando as condições de vida dos seus habitantes, sem comprometer esse importante bioma. O desenvolvimento não deve passar pela fórmula tradicional com o desmatamento como fonte de riqueza, mas, sim, a floresta ser a principal fator no agregador de riqueza. Para isso, necessitamos de muito investimento, muita pesquisa e politicas públicas nacionais e internacionais.

O que de fato está acontecendo com a Amazônia?

Está seguindo o mesmo destino de outras áreas pelo mundo: a exploração e a substituição da vegetação nativa por outra atividade que agregue valor econômico mais rápido, embora menos permanente. Atualmente, discutimos esse modelo, visto ser a maior floresta tropical no mundo, e sua influência ser global. As queimadas como forma de eliminação da mata nativa, reduzem a evapotranspiração da região, influenciando o ciclo das águas e liberando CO2 pela queima do material vegetal, agravando o efeito estufa. Não podemos deixar de ressaltar que o Brasil passa por períodos de estiagem e, neste período, pela menor precipitação, a vegetação fica mais suscetível ao fogo. Incêndios florestais são comuns nessa época do ano, portanto, um monitoramento maior e mais eficaz deve ser implantado para impedir o alastramento destes focos de incêndio, e esses incêndios, quando criminosos, devem ser apurados, com os culpados identificados e entregues à Justiça.

É possível traçar uma previsão de “vida” da floresta?

Segundo artigo publicado na revista Science Advances, assinado por Thomas Lovejoy, professor da George Mason University, nos Estados Unidos, e Carlos Nobre, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas, o desmatamento da Amazônia está prestes a atingir um determinado limite a partir do qual regiões da floresta tropical podem passar por mudanças irreversíveis, em que as paisagens podem se tornar semelhantes às de cerrado, com vegetação rala e esparsa e baixa biodiversidade. Segundo esse estudo, o ponto de inflexão a partir do qual ecossistemas na Amazônia Oriental, Sul e Central podem deixar de ser floresta seria atingido se o desmatamento alcançar entre 20% e 25% da floresta original. Os autores salientam ser difícil afirmar pelo modelo utilizado o exato ponto de inflexão. A estimativa atual é de que aproximadamente 20% da Floresta Amazônica está desmatada, embora, por outro lado, estime-se, também, que 15% dessa área esteja em recuperação.

Que impactos podemos esperar?

Com a degradação da Floresta Amazônica, podemos esperar um significativo aumento do efeito estufa, com redução de precipitação e aumento da temperatura, atingindo, não somente, mas, principalmente, os países amazônicos. Esses efeitos serão sentidos no planeta inteiro, independentemente dos esforços feitos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. 

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