Brincadeira de mau gosto
Para Anita Adas, as escolas precisam superar o modelo tradicional de educação e se conscientizar do seu papel formador
O termo bullying é a forma de violência mais conhecida atualmente. E não é uma simples briga que deve ser classificada como tal. A palavra deriva do verbo inglês ‘to bully’, que significa usar a superioridade física ou moral para intimidar alguém. Tendo como característica a agressão física ou psicológica, sendo repetitiva e intencional. O bullying fez-se presente, principalmente em escolas. A coordenadora pedagógica do Agora Sistema de Ensino e do Ético Sistema de Ensino da Editora Saraiva, Anita Adas, ministrou no mês de outubro, a palestra “Bullying: apenas brincadeira de mau gosto?” a educadores de Ribeirão Preto.
Anita lembra que o assunto tem sido amplamente discutido e que um Projeto de Lei (PLS 228/10) foi aprovado pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado no dia 14 de junho desse ano e irá para análise da Câmara dos Deputados e altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 que passará a vigorar acrescido do inciso IX, onde constará que as instituições de ensino deverão “promover ambiente escolar seguro, adotando estratégias de prevenção e combate a práticas de intimidação e agressão recorrentes entre os integrantes da comunidade escolar, conhecidas como bullying.
Em 2010 o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) lançou uma cartilha para ajudar pais e educadores a prevenir o problema do bullying em suas comunidades e escolas. O trabalho foi realizado pela médica psiquiatra Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva, autora do livro “Bullying: Mentes Perigosas nas Escolas". "O texto da cartilha é muito claro, objetivo e didático. Além disso, foi escrito pela psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, uma das pessoas mais estudiosas do assunto no Brasil. Considero que toda a iniciativa de debate, reflexão e análise a respeito do tema é interessante. Temos fugido e fingido que 'o mundo vai muito bem, obrigada', mas precisamos conversar sobre o que não está bom e nos indignar mais. A cartilha não pode ficar na gaveta, tem que ir a debate" opina a coordenadora.
Para Anita Adas a escola precisa ainda superar o modelo tradicional de educação escolar, se conscientizar do seu papel formador, trabalhando na construção de relações democráticas. “A escola é o primeiro contato dos pequenos com o âmbito público, sendo este um espaço plural por natureza. É nela que crianças e adolescentes conhecem um conjunto de valores muitas vezes diferentes daquele de sua família – o âmbito privado – e, assim, devem aprender a estar na coletividade de forma harmoniosa e democrática. Combater o bullying não é tarefa impossível, mas exige atenção, tempo e diálogo. É preciso vencer a conformidade. De início, é fundamental que toda a comunidade escolar – gestores, professores, funcionários em geral, alunos e pais – se conscientize de que o mundo tal como está é produto humano e que somos todos responsáveis por ele” explica Adas.
A coordenadora explica que um caminho interessante são as assembleias escolares, que são onde os alunos têm a oportunidade de se exercitarem como pessoas do e no mundo, a lidar com opiniões diferentes das suas, a buscar o consenso, a respeitar a decisão da maioria. “As assembleias contribuem com a construção de relações saudáveis” diz.
Dados
Um levantamento feito pelo IBGE revelou que um em cada três estudantes brasileiros afirma ter sofrido bullying alguma vez na vida escolar. O problema tem ocorrido em maior proporção em colégios particulares. Onde foram contabilizados 35,9% contra 29,5% em colégios públicos. O estudo faz parte da PENSE 2009 (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar) e foi realizada com alunos do 9º ano do ensino fundamental das 26 capitais brasileiras e do Distrito Federal.
A PENSE investigou a proporção de estudantes que deixaram de ir à escola por não se sentirem seguros no caminho de casa até a escola ou da escola para casa. Nos 30 dias anteriores à pesquisa, 6,4% afirmaram que se sentiam inseguros. Os maiores percentuais ocorreram em Belém (7,8%) e Maceió (7,7%), e o menor em Florianópolis (4,3%). Nos alunos de escolas públicas, em que 9,7% deles disseram sofrer com a insegurança, o percentual foi 76% superior aos alunos das escolas privadas, que foi de 5,5%. Já a proporção de alunos que deixaram de ir à escola porque não se sentiam seguros no estabelecimento escolar alcançou 5,5%, tendo variado de 3,4% (Porto Velho) a 7,3% (Macapá).
A pesquisa investigou o bullying através da seguinte pergunta: “Nos últimos 30 dias, com que freqüência algum dos seus colegas de escola te esculachou, zoou, mangou, intimidou ou caçoou tanto que você ficou magoado/incomodado/aborrecido?”. O percentual dos que foram vítimas deste tipo de violência, raramente ou às vezes, foi de 25,4% e a proporção dos que disseram ter sofrido bullying na maior parte das vezes ou sempre foi de 5,4%.
O fenômeno atingia mais os estudantes do sexo masculino (32,6%) que os do sexo feminino (28,3%). No artigo “Bullying não é brincadeira”, escrito pela coordenadora Anita Adas, há um trecho em que é citado. “Esse (o bullying) é um fenômeno mundial e representa a violência moral velada – que também pode chegar a ser física e explícita –, imposta por meio de comportamentos desequilibrados, socialmente inadequados, intimidadores e repetitivos de uma pessoa ou de um grupo contra uma mesma vítima. Estudos indicam que o bullying produz consequências graves, que vão desde problemas de aprendizagem até sérios transtornos de comportamento, responsáveis por índices de suicídios e homicídios entre estudantes”.
Confira a entrevista com a Coordenadora Anita Adas
- Temos visto vítimas de bullying reagindo de diversas maneiras a seus agressores. Podemos dizer que atualmente o problema “evoluiu” a um status de “guerra” entre opressor e oprimido?
Anita Adas: "Eu não diria 'status de guerra', pois os casos de reação ao bullying com violência extrema, se comparados aos de vítimas que sofrem caladas, são graves, porém pontuais. É importante ressaltar que esses casos devem ser analisados com critérios rigorosos e servir como instrumento de superação do fenômeno. Eu diria, então, que vivemos em um mundo em que as relações humanas estão banalizadas, resumidas ao que se tem e não ao que se é, o que gera fragilidade e possibilidade para o desrespeito à vida. Exceto diante de uma personalidade transgressora, ninguém nasce agressor, nos construímos assim a partir das relações que estabelecemos durante a vida".
- Como você, na condição de educadora, analisaria a atual situação dos envolvidos em casos de bullying? (A escola, a família, o praticante de bullying e a vítima – como cada um deve reagir nesses casos?)
Anita Adas: "A escola precisa superar o modelo tradicional de educação escolar, conscientizar-se do seu papel formador (intelectual, cultural e social) e trabalhar na construção de relações democráticas. Um caminho interessante são as assembleias escolares, em que os alunos têm a oportunidade de exercitar-se como pessoa do e no mundo, a lidar com opiniões diferentes das suas, a buscar o consenso, a respeitar a decisão da maioria etc. As assembleias contribuem com a construção de relações saudáveis. Não estamos habituados a resolver conflitos e, sim, a inibi-los. Como, então, trabalhar, construir relações democráticas no universo escolar se nós educadores não aprendemos, não vivemos a escola assim? Exercitando-se no cotidiano, buscando construir um olhar tolerante e acolhedor em relação ao outro, compreendendo que não existe 'aluno padrão', que todos são pessoas únicas, com desejos, vontades e projetos próprios, e contribuindo para que se descubram assim.
Por exemplo, se duas crianças brigam e se agridem verbal e fisicamente, nossa tendência é separá-las, buscar a responsável pelo desentendimento e puni-la. Poderíamos agir diferente: poderíamos sim 'apartá-las', mas, em seguida, lhes propor a reflexão sobre o ocorrido, dando a cada uma delas de 3 a 5 minutos para que contassem a sua versão, sem intervenções. Lembrando que educar é um processo longo, então a cada momento de desentendimento, repetiríamos o procedimento de falar e pensar sobre o que aconteceu. Esse exercício – porque pensar é um exercício – com certeza ajudaria essas duas crianças a primeiro ouvir-se e a ouvir o outro; depois, a observar as razões do outro e a perceber-se em relação ao outro.
A família, seja da vítima ou do agressor, sofre também com o fenômeno. Há uma variedade de sentimentos que permeiam o ambiente familiar: raiva, culpa e indignação, entre outros. Primeiramente, a família precisa admitir que um de seus integrantes comete ou sofre bullying. A partir daí, buscar ajuda de profissionais que possam contribuir com a superação do fenômeno: os gestores da escola em que a criança estuda, um psicólogo, advogado etc. Diante de um modelo de sociedade materialista, temos perdido a oportunidade de nos relacionar com os nossos filhos de modo genuíno e de assumir nosso papel formador, orientador. É fundamental ficarmos atentos à qualidade dessas relações e ao comprometimento com a saúde física, emocional e social de nossas crianças e jovens.
Os agressores, ou praticantes de bullying, geralmente são pessoas que vêm de um sistema educacional sem limites, vivem a ausência de modelos ou referências estruturadas em princípios éticos (justiça, solidariedade, respeito etc.), estão passando por circunstâncias de vida que causam sofrimento (separação dos pais, doença ou perda de entes queridos) ou têm uma personalidade transgressora. Vale ressaltar que este último representa a minoria dos casos. Com frequência, essas pessoas são vistas pela sociedade, pelos educadores, como alguém que não tem jeito, como 'caso perdido'. Isso é um equívoco, o agressor é alguém que também precisa de ajuda. A sua agressividade, muitas vezes, é um pedido de ajuda.
Qualquer um de nós pode tornar-se vítima de bullying. Basta ter uma característica considerada pelo agressor - ou grupo agressor - como diferente, ser frágil ou fazer algo que o incomoda. Nós, adultos, família ou profissionais da educação, precisamos estar atentos para não validar relações negativas que ensaiam se consolidar nos grupos de crianças e jovens. Por exemplo, crianças muito inteligentes, que têm ideias que 'pipocam' o tempo todo, às vezes se tornam vítima de bullying, uma vez que estão sempre interrompendo a aula, adiantando-se e não deixando o colega falar. Ora, essa criança não nasceu sabendo que precisa exercitar a sua capacidade de estar no grupo, que ela precisa esperar a sua vez e dar a vez ao outro, nós adultos é que temos que lhe ensinar isso. A vítima também deve procurar ajuda, se abrindo com uma pessoa de sua confiança para que ela tome providências e a situação seja superada".
- Qual a sua opinião com relação ao projeto que pretende alterar a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996?
Anita Adas: "Esse projeto de Lei ainda está tramitando na Câmara dos Deputados. Pesquisei na LDB/1996 e não encontrei como as escolas serão responsabilizadas pela ausência de trabalho com a prevenção do bullying.
Aproveito aqui para comentar que outro dia um psicólogo conhecido aqui em Ribeirão Preto mencionou que especula-se introduzir aulas antibullying nas escolas e disse que isso faz parte do projeto de Lei mencionado. Isso é um equívoco, pois como coloquei anteriormente, aprendemos a ser éticos no exercício diário de nossas relações. A consciência ética e, consequentemente, a postura ética devem sim ser ensinadas em casa e na escola. Porém, isso deve ser feito na relação que nós adultos estabelecemos com nossas crianças e jovens, sejam filhos ou alunos.
O diálogo, o respeito e a solidariedade não são ensinadas somente por meio de palavras, mas sobretudo pela maneira como nós adultos nos colocamos no mundo, pensamos o mundo e sobre ele agimos. A orientação da família é essencial, mas é na escola que nos construímos e nos exercitamos como sujeito social. Lá é espaço público, palco privilegiado para o exercício da cidadania (no seu sentido mais profundo e democrático, não reducionista e esvaziado). Ressalto que o ensino da filosofia e da sociologia e o trabalho com temas transversais são importantes para que se tenha fundamentação e se possam construir as capacidades reflexiva e analítica, mas contribuir para a formação ética de nossos filhos ou nossos alunos vai além disso. Aula antibullying é mais um tapa buraco! É urgente criar espaços na escola e na família para o diálogo e a reflexão a respeito de como nos relacionamos. Precisamos superar as relações fast-food... Como dizia Paulo Freire, precisamos aprender a pensar certo para podermos ensinar a pensar certo".
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Texto: Bruno Silva (colaborador)
Fotos: Arquivo