Caminhos e descaminhos
No começo de 2014, a Revide deu início a uma importante iniciativa, a implantação do projeto Reeducom — Revide, Educação e Comunicação — em escolas da Rede Pública de Ensino de Ribeirão Preto.
Baseado em estudos de Educomunicação e articulado junto às secretarias de Educação do Estado e do Município, com a proposta de abordagem teórica e prática de conteúdos do cotidiano, o projeto foi desenvolvido em encontros semanais, realizados com alunos de oitavas séries. O objetivo do projeto era despertar nos alunos a consciência crítica para a leitura dos meios de comunicação, estimulando o protagonismo no processo de recepção de informação. “A Educomunicação é um campo de intervenção que propõe o uso de recursos tecnológicos e técnicas de comunicação na aprendizagem através de mídias. Acredito neste caminho colaborativo do exercício de pensar. O frenesi cotidiano tem nos distanciado desta capacidade e nos relegado a meros espectadores da vida. Sentimos os impactos nocivos desta letargia nos índices crescentes de violência, corrupção, dano ambiental, etc, mas não avançamos na reflexão de sua origem ou na busca por soluções, muito além dos bate-papos em mesas de bar ou dos comentários nas redes sociais. O Reeducom é a mudança dessa realidade”, avalia a idealizadora do projeto, a jornalista Yara Racy.
Para o diretor de redação da Revide, Murilo Pinheiro, a experiência inicial do projeto trouxe alguns resultados importantes. “Os dois benefícios mais visíveis do Reeducom foram o aperfeiçoamento da leitura e a melhoria da expressão oral dos alunos. A partir da leitura da revista em sala de aula, os alunos ficaram mais desinibidos para apresentar suas ideias”, observa o jornalista, que acompanhou algumas aulas do projeto nas escolas. Outro aspecto importante, mencionado por Murilo Pinheiro, foi o diferencial das aulas, que fugiram um pouco do conteúdo tradicional, apresentando filmes, vídeos e textos que estimulam a reflexão.
“As crianças e os adolescentes de hoje estão muitos ligados à internet, condicionados a darem respostas rápidas, sem muita reflexão. As aulas de leitura, a produção de reportagens e as discussões em sala de aula fizeram com que os alunos pensassem sobre os temas propostos. Nos depoimentos, no encerramento do semestre, muitos destacaram a própria evolução no decorrer das aulas”, analisa Murilo Pinheiro, acrescentando que esse tipo de formação será muito importante para o amadurecimento pessoal e profissional dos estudantes.
Para Yara Racy, mais do que uma ação de “responsabilidade social”, o Reeducom representa uma atitude de oposição àquilo que alguns consideram a raiz dos problemas humanos: a desinformação. “A falta de conhecimentos, principalmente de autoconhecimento, é o nosso descaminho. A pretensão do projeto reside justamente nisso, em almejar a transformação por meio do pensamento, sem imposição ou doutrinamento, apenas incentivando nestes jovens a autonomia do pensar, que conduz naturalmente à evolução. Há uma frase, atribuída a Santo Agostinho, que para mim explica a iniciativa da Revide com o Reeducom: A esperança tem duas filhas lindas: a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão e a coragem a mudá-las”, avalia a jornalista.
No meio do caminho
Sete escolas participaram do projeto em 2014. Da rede municipal de ensino foram a Paulo Monte Serrat (no bairro Cândido Portinari), a Anísio Teixeira (no Iguatemi) e a Elisa Duboc (no João Rossi). Da rede estadual foram a Irene Dias (no Geraldo de Carvalho), a Pedreira de Freitas (na Vila Virgínia), a Guimarães Júnior (no Centro) e a Expedicionários Brasileiros (no Jardim São José). Além delas, o projeto também foi realizado na instituição filantrópica Casinha Azul (no Parque dos Servidores). Cerca de 600 adolescentes participaram dos encontros semanais.
O programa foi dividido em módulos com a elaboração de uma apostila para dar suporte aos encontros realizados dentro da grade curricular. Gravadores digitais e máquinas fotográficas foram disponibilizados aos alunos e um site (www.reeducom.com.br) e fanpage do projeto foram produzidos. As atividades tiveram início em fevereiro e terminaram em novembro. Nas férias de julho, o projeto foi readequado para a realidade encontrada em sala de aula. “No meio do caminho tinha uma pedra”, já dizia Carlos Drummond de Andrade...
O relato da professora, Valéria Rosana Delfino da Rocha Teixeira, que acompanhou as atividades na escola Irene Dias durante o primeiro semestre, explica a necessidade de ajustes. “Sabíamos que não seria fácil. Hoje, os alunos, em sua maioria, não são comprometidos, não tem responsabilidade, parece que não querem mudar os seus destinos, ter novos horizontes. Percebo que o maior desafio da educação está, justamente, em aproximar-se do aluno e fazer com que o mesmo realize as atividades com prazer. Foi difícil contornar essa falta de interesse, mas superamos juntos e foi válido. Devemos acreditar que tudo é possível, persistir, ir em frente, fazer acontecer, dando oportunidade a quem não tem sonhos, de sonhar”, avalia a professora.
Como os resultados almejados com a produção textual dos alunos não foram plenamente alcançados, houve uma readequação da proposta para o segundo semestre. Os encontros passaram a ser mais voltados à leitura e à interpretação de matérias publicadas pela revista, muitas vezes, associados a materiais audiovisuais. Foram abordados temas como autoconhecimento, preconceito, meio ambiente e a própria leitura. Entre os trabalhos produzidos na primeira etapa, importante ressaltar as entrevistas “Amor: importância e manifestação” e “A homofobia e o respeito às diferenças” (disponíveis para leitura no site Reeducom).
No segundo semestre, destaque também para entrevistas da escola Paulo Monte Serrat e da instituição Casinha Azul. Na entidade, os participantes criaram um blog (www.amigoscasinhazul.blogspot.com) e aproveitaram a visita do diretor da Revide, Murilo Pinheiro, para uma entrevista. “As experiências pedagógicas são desafiadoras. O projeto faz uma convergência interessante entre a educação e a comunicação e com um apoio maior pode ser aperfeiçoado para beneficiar mais alunos”, conclui Murilo Pinheiro.
Sujeitos do conhecimento
“Achei muito interessante o projeto Reeducom. As atividades desenvolvidas com os alunos são motivadoras e fornecem possibilidades de ampliação da capacidade leitora e escritora, tão fundamentais na vida do ser humano. Além do mais, despertam a consciência crítica dos alunos para a vida em sociedade. Acredito ser esse o caminho. O mundo da educação deve ser o universo da emancipação e da autonomia, em que os alunos passem a pensar e a agir por si mesmos, sendo sujeitos de seu conhecimento.”
Professora Ivana Marchesi Ramazzotto
Escola Expedicionários Brasileiros
Crença na juventude
“O projeto foi de extrema importância para ampliarmos a visão, a criticidade e a exposição de opinião dos alunos. O resultado não foi o esperado, mas com certeza não foi em vão. O vídeo “Mundo ao contrário” provocou muita discussão sobre o preconceito e o bullying, temas tão chocantes e atuais. Minhas aulas tornaram-se muito mais interessantes, pois aproveitei temas para reflexões. Todo projeto passa por adequações e espero que a Revide mantenha o Reeducom, pois ele ainda dará belos frutos. Nossos adolescentes precisam que acreditem neles.”
Tatiane Beneduzi
Profª Anísio Teixeira
O conhecimento transforma
“Na minha época era saliva, lousa e giz. Hoje, tentamos de várias formas sensibilizar o aluno. Por isso, gostei da iniciativa com o Reeducom. Foram utilizados vários vídeos e acho que esse tipo de aula prende mais a atenção do aluno. Gostei especialmente do filme ‘Minhas tardes com Margueritte’, que abordou como o conhecimento pode mudar a vida de uma pessoa. Acho muito válido qualquer projeto que ajude o aluno nas áreas da escrita, da leitura e da interpretação. Com algumas modificações, acho muito válido o Reeducom.”
Prof. Danilo Augusto Scatolini
Escola Irene Dias
A importância do vocabulário
“Foi gratificante participar do Reeducom. Nunca pensei que um dia entrevistaria e redigiria textos. Foi ótimo. Antes, eu nem me importava com meu vocabulário, mas agora adoro conhecer palavras novas e escrever um texto bom. Um dos trabalhos que adorei fazer foi criar um veículo de comunicação para Ribeirão Preto. Também marcou um vídeo que assistimos de um pássaro sem asas que foi atrás de seu sonho de voar. Esse filme me mostrou que temos que confiar mais em nós mesmos e batalhar para conseguir realizar nossos sonhos. Mesmo com o tempo curto valeu muito a pena!”
Ana Julia Chiuzzi Oliveira Campos da Escola Irene Dias
Vencendo limitações
“O projeto foi muito diferente, trouxe muito conhecimento. Achei interessante o vídeo que nos remeteu à ideia do que há para fora e para dentro de nós mesmos, do quanto somos pequenos diante do Universo. Aquele vídeo do passarinho também me tocou, achei emocionante. Ensina a vencer nossas limitações e buscar nossos objetivos. Melhorei um pouquinho meu português e aprendi a ler números, que eu não sabia. Se tivesse o projeto novamente faria diferente, porque foi muito vergonhoso não ter terminado o trabalho. Até isso foi válido, ensinou a aproveitar melhor as oportunidades.”
Rômulo Júnior Rodrigues Marin da Escola Expedicionários Brasileiros
Aprendendo a interpretar
“Aprendi bastante com o Reeducom. Gostei de interpretar vídeos que assistimos na internet. Mudou meu pensamento, fiquei mais positiva. Um dia lemos o artigo sobre a morte do ator Robin Williams, que aguentou a pressão, e tem hora que a gente pensa assim também, que não aguenta e quer desistir... A Yara pediu para nos expressarmos escrevendo um poema, assim como no filme dos poetas mortos. No meu texto disse que o mundo não era perfeito. Ela leu e me perguntou: “Como não?” e disse para eu observar a natureza e encarar cada dia como uma nova oportunidade de ser diferente. Isso me fez pensar mais positivo e ficar mais confiante em mim mesma.”
Kauany Borborema Conceição da Casinha Azul
Reeducação
“Em primeiro lugar, o Reeducom para mim significa ‘reeducação’. Com o projeto, aprendi como devemos fazer uma entrevista e pronunciar as palavras. Também melhorei minha ortografia. Ele incentiva os alunos a lerem mais e refletirem sobre o que realmente pensam em ser no futuro. Gostei de ter participado do curso, não só porque ele é legal, mas porque a professora explica e fala de assuntos diferentes, corrige o que está errado, cobra as atividades dadas e, além de tudo isso, é gratuito!”
Jaqueline Aparecida da Silva da Escola Paulo Monte Serrat
Visão mais crítica
“O Reeducom mudou meus pensamentos, passei a ver tudo com um olhar mais crítico e a não ter uma única opinião. Agora, quando leio um artigo, vejo o lado bom e o ruim do assunto. Diversos temas me marcaram, como a palestra do Mário Sérgio Cortella sobre nossa insignificância diante do Universo e o filme “Minhas Tardes Com Margueritte”, sobre um homem que mudou através da leitura. De pouquinho em pouquinho, o curso me fez mudar de ideia e pensar em fazer jornalismo. Quando fui fazer a entrevista solicitada foi fácil formular perguntas. Só posso dizer obrigada.”
Giovanna Bega da Escola Anísio Teixeira
Desinibição
“O Reeducom me ajudou a superar o medo de ler em voz alta. Não conseguia, entrava em pânico, mas agora estou indo em frente e melhorando cada vez mais. A Yara me ajudou dizendo que eu conseguia, que era capaz. Insistia para eu tentar e agora até peço para ler. Também aprendi o significado de palavras que não conhecia e a escrever um pouco melhor, mas acho que o que mais me marcou foi aprender a me expressar. Perdi um pouco da vergonha, comecei a conversar mais, principalmente, em casa e agora meus pais me entendem melhor. Através dessas aulas consegui evoluir.”
Monike Santos da Casinha Azul
Iniciação ao jornalismo
“Uma ótima experiência. É assim que eu defino a iniciação em jornalismo proporcionada pelo Reeducom. Com regras básicas e reflexões importantes, dadas de uma maneira simples e eficiente, mostrou-me que o jornalismo é muito mais que uma notícia de morte, acidente ou trânsito engarrafado. Os temas que tive a sorte de ver estão guardados em minha memória. Como um vídeo onde visualizávamos uma folha e íamos subindo até não poder ver mais a Terra e nossa galáxia e, depois, voltávamos para dentro da folha, até os limites da ciência molecular. Passou-me a mensagem do quão somos pequenos. Ah, e não posso esquecer da palestra do Mário Sérgio Cortella: ‘Você sabe com quem está falando?’. São pequenas coisas como essas que marcam e que desencadeiam muitas outras...”
João Gabriel Dias da Escola Elisa Duboc
Desafios da Educação
Em conversa de aluno para diretora, Maria das Graças Martins, responde perguntas sobre Educação e Literatura.
Nascida em Ilicínea-MG, Maria das Graças Vilela Martins é diretora de escola desde 2001. Ainda criança, já sonhava em ser professora. Está no ramo da Educação há 40 anos, 13 deles dedicados à escola Paulo Monte Serrat, no bairro Cândido Portinari, em Ribeirão Preto.
João Guilherme: Desde cedo você gostava de ler?
Graça: Sim. Lia quando era criança, mas não havia muitos livros e bibliotecas para empréstimo como hoje. Pedíamos livros emprestados e, quando dava, comprávamos.
João Guilherme: Como você e a escola incentivam os alunos a ler?
Graça: Tendo em vista a importância da leitura e da escrita para o pleno desenvolvimento do indivíduo, contribuímos para a formação de leitores autônomos adquirindo livros para emprestar aos alunos, visitando a Feira do Livro, participando de concursos, levando os alunos ao teatro ou trazendo peças para conhecerem diferentes gêneros textuais. Além disso, as melhores redações são publicadas no jornal “A Tribuna”, para mostrar aos alunos que eles são capazes, basta o empenho de cada um. Tudo isso faz parte do nosso projeto “Formação de Leitores”.
João Guilherme: Já pensou em abandonar a Educação e seguir outro rumo de sua vida?
Graça: Em casa, eu brincava muito de professora. Faço o que gosto e nunca pensei em abandonar essa profissão. Acredito muito que com a educação, podemos mudar as pessoas, o nosso país.
João Guilherme: Como se sente ao ver antigos alunos passando em vestibulares?
Graça: Sinto-me feliz por ter feito parte desse processo. Feliz em ver uma semente que ajudei a plantar transformando-se em planta, flor. E quando esses alunos terminam a faculdade, no emprego, transformando tudo isso em frutos.
João Guilherme: Como é tomar conta de uma escola?
Graça: Não é fácil. Neste espaço, convivem pessoas diferentes, que tem sonhos e carências. É necessário muito diálogo para manter a ordem e gerenciar os conflitos. Cada pessoa tem uma história particular e única. A escola é um lugar onde as crianças e adolescentes devem ter as mesmas oportunidades.
João Guilherme: O que precisa melhorar na escola Paulo Monte Serrat?
Graça: Avançamos tanto na estrutura física como na aprendizagem, que é o nosso foco — nosso último IDEB dos anos iniciais foi 6,3 —, mas há muito a melhorar ainda. Almejamos uma escola onde os pais se sintam parceiros, os alunos com ideia de pertencimento, todos com responsabilidade compartilhada e valorizando o conhecimento. É um trabalho coletivo envolvendo todas as instâncias: governo federal, estadual e municipal.
João Guilherme: O que tem a dizer sobre o Reeducom?
Graça: É um excelente projeto, que propõe o uso de recursos tecnológicos e técnicas de comunicação na aprendizagem. Podemos aprender a escrever corretamente, tirar os vícios da linguagem e nos expressar melhor. Nossa escola ganhou de presente esse projeto. Essas são pessoas que acreditam que pela Educação teremos uma cidade melhor, assim preparam nossos alunos para enfrentar a vida, que é um constante aprendizado.
João Guilherme: Você sempre diz que o século XXI será o século do conhecimento. O que você espera para o futuro de seus alunos?
Graça: Que bom que quando disse isso, os alunos memorizaram. Um americano, Lester Therrow, diz que o século XXI será o século do conhecimento e a diferenciação entre as sociedades será pela instrução. Por isso, insistimos na construção e na valorização do conhecimento. Nada acontece do nada, é preciso praticar. Aprendemos a ler, lendo, a escrever, escrevendo.
A entrevista, feita pelo aluno da escola Paulo Monte Serrat, integrou as atividades do projeto Reeducom
Autor: João Guilherme Camargo
Foto: Julio Sian