Caminhos para a felicidade

Caminhos para a felicidade

Sempre vale a reflexão sobre as conquistas obtidas até o momento e sobre os planos futuros; segundo a psicóloga Teresinha Pavanello, é importante estipular as metas almejadas

Um novo carro, uma viagem, emagrecer ou começar a fazer exercícios. Essas são promessas típicas da virada do ano, mas que acabam se repetindo — ou se renovando — no decorrer dos 365 dias. Ao longo do ano, vão surgindo outras metas e, geralmente, elas vêm simbolizando o encerramento de um ciclo, mesmo que isso, a priori, não seja notado. Para a psicóloga e doutora em Educação Teresinha Pavanello, não importa o tamanho da meta, desde que se avalie se aquele objetivo visa apenas a um prazer momentâneo.

Na hora de elaborar um novo plano, na verdade, o que se almeja é chegar um pouco mais perto da realização e da felicidade. A psicóloga destaca que é preciso discernir desejos de reais objetivos, e, principalmente, saber aonde se quer chegar para traçar o caminho ideal. Para a especialista, o “ser” deve importar mais do que o “ter” em qualquer planejamento.

Por que as pessoas sentem essa necessidade de elaborar metas, principalmente, ao iniciar um novo ciclo? Trata-se de um hábito, algo que já faz parte da cultura, associado, claro, ao próprio fim do ano. As celebrações do Natal e do Ano Novo nos convidam a pensar. Só que as pessoas confundem um pouco o desejo e o plano de vida. Uma coisa é desejar: ficar rico, emagrecer, fazer exercício físico ou viajar. O que importa, na verdade, é o que se fará para atingir esses objetivos. Esse planejamento não pode focar em um objetivo irrealista, porque, se assim for, gerará frustração. Então, mais sensato seria avaliar o que realmente se gosta e quer para, aí sim, dividir esses objetivos em pequenas metas ou tarefas. Afinal, não dá para atingir uma grande conquista de uma hora para outra. O bebê, aprendendo a andar, primeiro senta, depois engatinha, depois anda de uma forma diferente. Temos que dar um passo de cada vez, ir construindo e aprendendo aos poucos.

Estipular metas ajuda?

A literatura diz que ajuda, mas há um problema muito grande: as pessoas, às vezes, não se conhecem. Portanto, elas não sabem aonde querem chegar. Estabelecer um bom plano de vida tem muito a ver com o autoconhecimento. Sem ele, não dá para planejar muito. Há, também, certa confusão em torno disso. O que é comum a todos os planos de vida? O desejo de encontrar a felicidade, mas as pessoas também confundem felicidade com prazer imediato. Novas aquisições trazem, geralmente, um prazer imediato, mas isso não é um sentimento pleno, necessariamente. Há uma nova ciência dentro da Psicologia, chamada Psicologia Positiva, que procura estudar as virtudes e as qualidades do homem. Ela estuda também como podemos fazer para alcançar a felicidade. Diz-se que a forma mais tranquila de alcançar a felicidade é cultivar as emoções positivas, como amor, alegria, esperança, perseverança, otimismo, perdão, gratidão, coragem e paciência. Já as emoções negativas, que também acontecem, como ódio, raiva, vingança, ciúme e inveja — afinal, somos humanos —, não devem ser guardadas. Se algo ruim acontece, o esforço deve ser para jogar aquele sentimento fora. Devemos caminhar com as emoções positivas, que darão muito mais condições de alcançar a felicidade.

Como as pessoas podem, na prática, cultivar mais atitudes positivas?

Precisamos tomar decisões todo dia, quando acordamos. Devemos decidir sermos felizes hoje. Se eu quero ser feliz, nada — ou quase nada — que acontecer vai me atrapalhar. Se cultivarmos o pensamento de que o nosso trabalho, por exemplo, é o melhor do mundo, exatamente aquele que gostaríamos de ter, guardaremos essas emoções. Será possível se sentir otimista e grato por cada oportunidade. Isso não tem nada a ver com condição socioeconômica; trata-se de um bem-estar subjetivo constante. Fica mais fácil perdoar, ser otimista, ter gratidão e esperança. Tudo isso pode vir de uma questão espiritual ou de outras áreas. Quando tiver uma emoção muito ruim, ela deverá ser superada como qualquer outro obstáculo. Isso é o que essa nova teoria fala. Vemos isso como prevenção e promoção de saúde mental. Para ter saúde mental, as pessoas precisam ser felizes. Outra questão importante também é a resiliência. Mesmo que eu tenha alguma experiência ruim, devo tentar unir forças para levantar e seguir em frente. Quem tem pouca ou nenhuma resiliência precisa aprender. Desta forma, não basta desejar sem fazer algum esforço, sem se organizar e pensar no que priorizar. Os planos não se concretizam sozinhos. Esta é a diferença entre desejo e meta.

Renovar-se e estabelecer metas é uma característica do ser humano?

Sim. Como nossa vida tem limite, precisamos da ideia de continuidade. Vamos usar como exemplo um curso superior. A duração é de quatro ou cinco anos, na companhia de um grupo de amigos. Quando aquele período termina, todo mundo chora e sofre pela separação. Só que, naquele momento, começa também outro ciclo, o da atividade profissional, que traz outras experiências e pessoas. Assim é a cada virada de ano também: devemos imaginar que tudo será melhor. A evolução é positiva. A conclusão a que se pode chegar é a de que não basta ter planos no sentido de trabalhar e ganhar dinheiro, mas no sentido de ter uma boa saúde física e mental, boas relações íntimas e familiares. Quando existe um bom relacionamento familiar, uma boa rede de relações, tudo fica mais fácil. A felicidade pode vir exatamente daí, pois o homem não nasceu para ficar sozinho. Infelizmente, por conta da contemporaneidade, as pessoas estão vivendo cada vez mais isoladas. 

Fatores culturais influenciam na necessidade de traçar planos?

Bastante, porque, desde que nascemos, iniciamos um processo de desenvolvimento com base também no que vemos e ouvimos. De certa forma, isso vai sendo passado, o que não é ruim, mas bom. O que é preciso fazer, apenas, é avaliar quem somos, o que queremos e para onde vamos. Atualmente, vale mais o “ter” do que o “ser”. Isso sim precisa ser avaliado.

O que pode influenciar no não cumprimento das metas?

O fato de, talvez, não ser bem uma meta, mas um desejo, pode ser determinante. Quer se fazer isso ou aquilo, mas sem profundidade. Nesse caso, não tem a ver com autoconhecimento. Outras vezes, não se trata nem de um desejo, mas de algo que todos estão fazendo. Mas se é algo que realmente tem grande importância pessoal é preciso estipular pequenos objetivos na direção da meta. Quando conversamos com pessoas que mudaram mesmo — de vida, de valores — percebemos que é possível fazer acontecer. Independentemente se o objetivo era emagrecer ou conseguir atingir determinado patamar em uma profissão, a pessoa não desiste fácil.

Psicologicamente, o que pode levar a pessoa a desistir?

Além da questão já colocada — de que não se trata de uma meta, mas de um desejo — outros fatores podem se tornar prioritários. Isso acontece muito com as mulheres, especialmente as mães, que se planejam, mas, de repente, deparam-se com um filho doente ou que precisa de uma assistência escolar mais intensa, situações que ganham status de prioridade. Às vezes, um casamento que se desfaz e leva com ele determinada meta. São inúmeras as possibilidades.

O que pode ajudar as pessoas a manter o foco?

Se a pessoa tem, realmente, um plano, uma meta alicerçada em concreto, deverá manter o nível de prioridade relativa àquele objetivo. Problemas podem surgir e tentar atrapalhar, mas, se nada estiver acontecendo de mais fundamental, a pessoa tem que pensar: “meu foco é esse, vou fazer isso primeiro e, se sobrar tempo, parto para outra”. Estabelecer um ponto de chegada e vislumbrar a conquista são atitudes que podem ajudar. Você não pode olhar para a meta como um sacrifício, mas como algo positivo, que quer mesmo. Assim, é possível se empenhar cada vez mais e chegar lá. Na Psicologia, chamamos isso de “modelagem”: conseguir, aos poucos, o que se quer, passo a passo. Não se pode dar um salto de dois metros.

Assim, o indivíduo se sente cada vez mais motivado?

Sem dúvida, ir conseguindo aos poucos e recebendo elogios pelo progresso, reforçando a si mesmo, faz com que o indivíduo tenha cada vez mais vontade de atingir seu objetivo. Chamamos isso, dentro da Psicologia, de “reforço positivo”: quando desejamos uma mudança no comportamento, devemos reforçar esse sentimento quando ele acontece. É preciso entender o que é possível conquistar a cada passo e comemorar cada vitória.

Esse reforço pode contribuir para compor a personalidade?

Sim, a Psicologia trabalha com tudo isso. Essa história de “deixa a vida me levar” faz com que as pessoas deixem de realizar muitos planos. Se ainda sou um estudante de Ensino Fundamental e quero, em pouco tempo, ser um profissional gabaritado, tenho que entender que preciso, antes, concluir o Ensino Médio, ingressar na faculdade e me formar. É importante ter essa noção e saber vencer as frustrações. Às vezes, um planejamento pode não dar certo, o que deve levar a uma avaliação sobre os fatores que contribuíram para isso. Depois desse planejamento revisto, com certeza, as chances de chegar à meta aumentarão. O próprio comportamento vai reforçar o sentimento positivo, pois, ao conseguir, a pessoa irá querer fazer melhor, o que só é possível, mais uma vez, com muito autoconhecimento. 

O que pode ser trabalhado para estimular a resiliência?

O indivíduo deve se agarrar ao que tem de melhor e distribuir para as pessoas ao seu redor essas emoções positivas. Quando pensamos que não há nada de bom, é mais difícil ser feliz. Quanto mais pessoas tiverem conhecimento do que podem fazer para alcançar a felicidade, mais contribuirão para um mundo melhor.



Texto: Tainá Colafemina  | Fotos: Ibraim Leão

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