Captando Vidas

Captação e Distribuição de Órgãos amplia as chances de sobrevida de centenas de pacientes

Criadas e regulamentadas pelo Ministério da Saúde, as Centrais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDOs) são unidades executivas das atividades do Sistema Nacional de Transplante, com objetivo de captar potenciais doadores para a realização de transplantes. O Estado de São Paulo optou por delegar as tarefas relativas à captação de órgãos de pessoas falecidas a dez hospitais públicos universitários, que criaram as suas Organizações de Procura de Órgãos (OPOs). A medida permitiu melhor estruturação regional de atendimento e agilização no tempo de resposta ao receptor do órgão.

A iniciativa beneficiou diretamente os pacientes da região que antes enfrentavam longos períodos na lista nacional de espera pela cirurgia e agora, na fila regional, têm o tempo de espera reduzido. Outra vantagem do sistema regionalizado é o fator locomoção. Hoje, um paciente que vai receber um órgão não precisa se locomover para São Paulo, por exemplo, para realização do transplante, que geralmente é feito em Ribeirão Preto mesmo.

Na região, o Hospital das Clínicas, ligado à Faculdade de Medicina da USP (HCFMRP-USP), sedia a Central de Notificação da Regional 2, do Sistema Estadual de Transplantes (SET), que engloba 593 municípios. A unidade funciona como uma OPO com abrangência em cidades num raio de 100 quilômetros de Ribeirão Preto. O HC está capacitado para realizar transplantes de fígado, rins, córneas e pâncreas, além de manter um banco de pele e ossos. A Santa Casa também realiza transplantes de rins.

Já a regulação da lista de espera e transplante de órgãos entre vivos, como medula óssea, é coordenada pelo Hemocentro. O Hospital São Lucas também mantém um Serviço de Transplante de Medula Óssea (TMO). Além da medula, um rim, o pâncreas, partes do fígado e do pulmão podem ser retirados de doadores em vida. Sob a responsabilidade do urologista Jeová Nina Rocha, a equipe da Central da OPO de Ribeirão Preto é composta pelas enfermeiras Margarida Chiaretti, Judite dos Santos Silva e Eliana Carla de Souza. Munidos da lista de receptores regionais, diariamente realizam a busca ativa em busca de possíveis doadores nos hospitais públicos e privados, entre outros segmentos da área de saúde. Para maior segurança e tranquilidade dos parentes, todo o processo de retirada dos órgãos pode ser acompanhado por um médico de confiança da família.

Fechado o diagnóstico de morte cerebral, o hospital comunica a Central, que entra em contato com a família para que autorize ou não a doação. Se a decisão for positiva, a pessoa responsável assina um termo de doação e só a partir daí o setor fará a distribuição dos órgãos para captação, de acordo com a lista de espera regional. Em seguida, começam uma bateria de exames para saber a viabilidade dos órgãos a serem transplantados e também para identificar a compatibilidade deles com o receptor.

Jeová explica que as equipes médicas envolvidas no processo têm até seis horas entre a retirada, o preparo dos órgãos, o transporte e o transplante. Cada doação pode beneficiar diretamente até oito pessoas, mas a família pode autorizar a remoção de todos os órgãos ou apenas um deles. A decisão deve ser tomada o mais rápido possível para que os órgãos não sofram muito fora do corpo. Esta resolução faz a diferença entre a vida e a morte para dezenas de pessoas todos os dias, nas mais diferentes faixas etárias.

Nova chance
Para Diaulas Dornelas de Oliveira, de 30 anos, a doação de um rim acabou com as intermináveis sessões de diálise que realizava desde 2009. O pastor evangélico recebeu o órgão da esposa, Marcelina de Jesus Santos de Oliveira. A mesma sorte teve Eduardo Guimarães Large Neto, que, aos 60 anos, recebeu um rim novo. Nascido com apenas um órgão, há 20 anos ele sofria de pressão alta e diabetes, problemas que acabaram prejudicando o único rim. Enquanto esperava por um doador, Eduardo passava quatro horas por dia ligado à máquina de diálise, três vezes por semana.

Walmir Gonçalves de Barros, aos 52 anos, também ganhou um rim novo, aumentando as chances de sobrevida. Apesar de ter insuficiência renal desde 2009, somente em dezembro de 2013 entrou na fila do transplante. A falência do órgão foi decorrente de hipertensão, diabetes e infecção urinária. Depois da alta, os transplantados terão acompanhamento médico periódico e farão uso de medicamentos imunossupressores para o resto da vida. Infelizmente, somente no HC, mais de 120 pessoas ainda não tiveram a sorte de serem chamados para a cirurgia e, semanalmente, passam pelo procedimento mecânico de filtragem do sangue, função que seus rins já não executam mais.

O urologista lembra que, da sua implantação em 1998 até o dia 15 de julho, a Central captou órgãos de 8.357 doadores. Porém, a fila de espera é longa, com 10.671 pessoas aguardando um novo rim. Os números ficam ainda mais expressivos quando a lista engloba os demais órgãos esperados. Segundo o médico, as estatísticas poderiam ser menores se as pessoas já declarassem em vida o desejo de doar os órgãos depois da morte. “Desta forma, as famílias estariam melhor preparadas quando fossem abordadas pela equipe de captação”, frisa o coordenador da Central. 

Órgãos que podem ser doados

• Córneas: retiradas do doador até seis horas depois da parada cardíaca e mantidas fora do corpo por até sete dias

• Coração: retirado do doador antes da parada cardíaca e mantido fora do corpo por no máximo seis horas

• Pulmões: retirados do doador antes da parada cardíaca e mantidos fora do corpo por no máximo seis horas

• Rins: retirados do doador até 30 minutos após a parada cardíaca e mantidos fora do corpo até 48 horas

• Fígado: retirado do doador antes da parada cardíaca e mantido fora do corpo por no máximo 10 horas

• Pâncreas: retirado do doador antes da parada cardíaca e mantido fora do corpo por no máximo 10 horas

• Ossos: retirados do doador até seis horas depois da parada cardíaca e mantidos fora do corpo por até cinco anos

• Medula óssea: se compatível, feita por meio de aspiração óssea ou coleta de sangue

• Pele: retirada do doador até 12 horas depois da parada cardíaca e viáveis por cinco anos até o transplante

• Válvulas cardíacas: retirada do doador até 15 horas após a parada cardíaca e viáveis por cinco anos até o transplante

*Fonte Ministério da Saúde

Capacidade ampliada
O HC ganhará uma nova Unidade de Transplantes de Órgãos Sólidos, ampliando o número de vagas do Centro de Terapia Intensiva (CTI), de nove para 40 leitos. A iniciativa deve aumentar o número de transplantes e contribuir para melhorar o atendimento aos pacientes transplantados. Para isso, a atual Unidade de Transplante Renal (UTR) do Hospital será reformulada. O novo setor, denominado Unidade de Transplante de Órgãos Sólidos, será instalado no 10º andar do HC, onde hoje funciona a enfermaria de cirurgia. “Ali, ficarão todos os pacientes que passarão por transplantes de fígado, rim e também por transplantes duplos fígado/rim e pâncreas/rim”, esclarece um dos responsáveis pela unidade, o urologista Silvio Tucci Júnior. “Ofereceremos um trabalho multidisciplinar, envolvendo psicólogos, nutricionistas e assistentes sociais em um só lugar”, explica Silvio.

No local onde atualmente funciona a UTR será feita a ampliação do CTI, que, na primeira etapa, ganhará mais cinco leitos, com a reforma da Unidade Coronariana (UCO), que também será transferida e ampliada. Somente com a mudança da UTR é que os outros 26 leitos serão ativados, como explica o cirurgião, Anibal Basile Filho, coordenador da área. “A UTR terá localização estratégica, com fácil acesso a todas as enfermarias e o setor de Recuperação do Centro Cirúrgico”, frisa. Os investimentos, somente no CTI, segundo ele, devem passar dos R$ 22 milhões. Mais de R$ 6 milhões estão sendo aplicados na construção da nova UCO, que ocupará o antigo espaço do Arquivo Médico, que ganhou novo prédio. “A unidade passará de cinco para 15 leitos, todos com box individual e monitorização contínua, prescrição e prontuário eletrônicos”, ressalta André Schmidt.

Onde doar:
Central de Transplantes: atendimento 24 horas pelo tel.: (16) 3602.2777

Banco de Olhos:

Para captação de córneas, atendimento 24 horas (BIP), pelo tel.: (16) 4003.8200 cód. 4394900. O setor funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h, tel.: (16) 3633.1322 e 3602.2521.

Medula Óssea:
Informações diretas no Hemocentro pelo tel.: (16) 2101.9300 ou acessewww.hemocentro.fmrp.usp.br



Texto: Rose Rubini
Fotos: Carolina Alves e divulgação
Diagramação: Lucas Chaibub

* Publicado em 24/07/2014

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