Carinho à mesa
Além dos espumantes e dos pratos tradicionais de Natal, toda família guarda receitas que remetem às origens
Várias histórias tentam explicar a origem das celebrações de Natal em torno da ceia. Uma delas conta que a tradição foi sendo construída a partir do hábito europeu de deixar as portas das casas abertas no dia de Natal para receber viajantes e peregrinos. Outra revela que a ceia já era comum antes mesmo do nascimento de Jesus, e que os povos pagãos a celebravam em comemoração ao solstício de inverno. Hoje, a refeição é sinônimo de reuniões de família e bons momentos ao lado de quem se ama.
Para Márcia Spedicato, a ceia de Natal deve seguir a tradição para ter um sabor especial. “Comida de Natal é comida de Natal! Por isso mesmo, nossa ceia não muda há muitos anos: sirvo sempre o mesmo cardápio. Desde que me casei, o Natal acontece na minha casa, já há 30 anos. Este é, realmente, um momento muito especial”, revela Márcia. Apesar de seguir a tradição natalina, Márcia conta que há pratos especiais, com receitas exclusivas da família que fazem parte do cardápio da casa somente neste dia do ano. “Na nossa mesa marcam presença, logicamente, o peru assado e seus complementos, bem como o Tender acompanhado de frutas, mas nosso especial de Natal é o camarão empanado com coco ralado e molho de laranja agridoce, que é aguardado por todos durante o ano inteiro. São pratos que só entram no cardápio nessa época e, por esse motivo, são tão esperados”, conta Márcia.

Além dos caprichados pratos principais, a família Spedicato saboreia os tradicionais doces calabreses, receitas da bisavó de Márcia. “Nossa família carrega a tradição italiana nos doces. As sobremesas são grandes estrelas dos natais em casa! Preparamos receitas da minha bisavó guardadas a sete chaves e que fazem parte desse menu único e imutável”, pontua Márcia. A Pitta ‘Mpigliata e a Cartellate demandam um dia inteiro para ficarem prontas.
A primeira é recheada com nozes e uvas passas. Sua massa é recheada e enrolada no formato de um bolo. Na Calábria, a iguaria é conhecida como um tradicional bolo natalino. Também um doce típico de Natal, a Cartellate é parecida com biscoitos. Sua massa é enrolada no formato de pequenas flores e, depois de assada, mergulhada em uma calda de vinho ou mel.
Além das receitas que remetem às origens, Márcia revela que a reunião em família é regada, principalmente, a muita alegria. “Nossa reunião é sempre marcada por muita música, com o nosso famoso Especial de Natal, no qual meus filhos e meu marido se apresentam em um ‘pocket show’ musical para toda a família. Agora, com a chegada dos tão queridos netos, Papai Noel também terá lugar à nossa mesa”, alegra-se Márcia.
Já para Leonor Savarese, os pratos natalinos trazem à tona as lembranças cultivadas desde a infância nesta época do ano. “O espírito do Natal sempre foi vivido intensamente na minha trajetória, tenho a lembrança vívida, desde pequena: a casa muito enfeitada e minha mãe montando o presépio, sempre rezando e agradecendo pelo ano que se encerrava e pedindo bênçãos para o próximo que se iniciaria”, conta a médica. Para ela, as receitas que a família saboreava no Natal ainda quando criança, hoje, fazem com que ela sinta a união entre todos. “A mesa da ceia de Natal e o Tender todo enfeitado com frutas, feito pela minha mãe por todos os anos da minha vida, trazem a certeza de que estamos sempre unidos. Para mim, este é o verdadeiro espírito de Natal”, finaliza Leonor.

A receita especial da mãe de Leonor começa na antevéspera do Natal. Neste dia, coloca-se o Tender de molho para começar as preparações na véspera. Em uma marinada com cravo-da-Índia, casca de laranja, rapadura e vinho branco seco, a peça é preparada para assar. Segundo a receita, para cada quilo de tender, soma-se 40 minutos no tempo ao forno. A receita é finalizada com abacaxi, ameixas recheadas com bacon, pêssego e cerejas.
A tradição de incluir o Tender entre as receitas no fim de ano vem, originalmente, dos Estados Unidos. Na década de 1950, o país começou a exportar os conhecidos pernis de porco para o Brasil, que vinham embalados com a expressão “tender made”, ou “feito com carinho”. Logo, os brasileiros rebatizaram a iguaria e o costume foi se consolidando.
Outra tradição norte-americana, o peru é a estrela da ceia de Natal de Carol Felício. “Os Natais na nossa família sempre foram muito festivos, cheios de aromas, teatro, músicas e família unida. O peru sempre foi uma lembrança porque tenho uma foto de quando era pequena comendo uma coxa maior do que eu”, ri a jornalista.

Carol conta que quando o peru era assado, toda a casa anunciava que o Natal havia, de fato, chegado. A ceia reunia toda a família: avós, tios e primos encontravam-se na casa de Carol para comemorar a data. Entre um fim de ano e outro, foram muitas idas e vindas. Alguns familiares permanecem na memória, enquanto os filhos vão chegando para perpetuar a casa cheia nas festas. “Nunca soube ao certo qual era a comida que fazia a casa cheirar a Natal porque não era ligada em culinária. Fui gostar de cozinhar já bem mais velha, mas, há alguns anos, os Natais mudaram de novo. Nesses tempos modernos, às vezes, as tradições são quebradas e temos que reformulá-las. Por isso, para tentar juntar todos e festejar, começamos a fazer alguns Natais. Foi quando passei a preparar uma ceia em casa”, conta Carol. A pedido da filha, Julia, ela se aventurou a cozinhar o peru.
O início da experiência foi marcada pelo pânico, uma vez que não tinha familiaridade com a tarefa. “Nesse momento, pude contar com uma grande e melhor amiga, Roberta Morais, que tem uma famosa e desejada receita de Peru de Natal Laqueado. Foi a minha salvação! Quando o peru assou pela primeira vez, nossa casa se encheu de histórias e memórias. Foi muito emocionante. Nas fotos da noite, quando fui ver, lá estava a foto da Ju comendo a coxa, igualzinha a que estava na minha mão quando eu era criança”, observa Carol. Desde então, o Peru Laqueado da Rô se tornou indispensável na ceia dos Felício. “Neste ano vamos estar fora do Brasil para estar com nossos filhos que moram no exterior. Então, promovemos uma reunião no dia 17 de dezembro com a família por aqui, enchendo nossa casa de aromas, cor, sabor e histórias”, conclui Carol.
O mundo em confraternização
Repleta de significados, a ceia é a parte do Natal responsável por reunir gregos e troianos diante da mesa. Apesar dos pratos típicos, vindos de diversos costumes e que estão entre as primeiras memórias quando se trata do feriado, as refeições podem variar bastante ao redor do mundo. Peixes, massas, bolos confeitados e outras iguarias não tão comuns entre os brasileiros podem ser os destaques do cardápio ao redor do mundo.
Nos Estados Unidos, é comum que a ceia seja semelhante à servida no Dia de Ação de Graças, com peru ao molho de cranberry, torta de abóbora e legumes. Uma receita tipicamente natalina para os norte-americanos é o Eggnog, uma bebida quente feita com ovos, açúcar, leite, rum e polvilhada com canela.

O peru recheado também é o prato principal da ceia inglesa, mas o toque regional fica por conta do Pudim de Natal. A receita leva gengibre, noz-moscada, uvas passas, cerejas, amêndoas e outras frutas cristalizadas. O pudim também faz parte de um jogo: dentro da massa, é colocada uma moeda de chocolate. Antes de comer, os membros da família fazem um pedido, e aquele que encontrar a moeda em seu pedaço terá o pedido realizado.

Já na Itália, os peixes e os vinhos não podem faltar, ao lado dos queijos, das frutas e do famoso Panetone.

No Japão, a data tem um maior sentido comercial, já que, no país, há poucos católicos. Apesar disso, o Natal no Oriente também é comemorado com um prato principal pouco comum: um bolo confeitado de morangos com creme.

Texto: Tainá Colafemina
Fotos: Roberto Galhardo
Agradecimento: Renato Aguiar Festas