Casa: novo endereço de trabalho
Os especialistas apostam que o home office será a realidade de milhões de brasileiros nos próximos anos, principalmente, em cidades com grande fluxo de veículos
Para muitas pessoas, a segunda- feira é o dia oficial de acordar mais cedo, encarar o trânsito e iniciar a rotina de mais uma semana de trabalho. No entanto, essa cena já não representa a realidade de todos. Com o avanço da tecnologia, a presença física nas empresas tem se tornado cada vez menos essencial. Mais do que isso: em busca de qualidade de vida, diversos profissionais têm optado por montar o escritório em casa. O escritor e futurista Alvin Toffler já previa que esse modelo de trabalho seria necessário em épocas em que a mobilidade se tornasse uma das principais queixas entre os colaboradores.
Em uma de suas publicações, Toffler destacou que “em um país que vive reclamando da baixa produtividade e está sempre buscando novas maneiras de aumentá-la, a coisa mais antiprodutiva que existe é o ‘ir e vir’ para o trabalho de milhões de pessoas nas cidades todas as manhãs e tardes”. Partindo desse ponto, é fácil notar que a disseminação do home office — modalidade de trabalho em que o profissional não precisa sair de casa para desenvolver suas atividades — está conquistando adeptos no mundo inteiro, incluindo no Brasil. Segundo uma pesquisa realizada pela empresa Catho, 37% dos brasileiros dizem trabalhar em home office em algum momento, enquanto 62% não costumam cumprir a jornada de trabalho de casa.
Apesar do aumento no número de empresas e/ou pessoas que instituíram o home office, a pesquisa realizada pela empresa Top Employers Institute revela que, no Brasil, a taxa ainda fica abaixo da verificada em outros países. O Reino Unido, por exemplo, tem o maior índice: 65% das companhias britânicas adotaram o home office. O país é seguido de perto pela Holanda, com 60%, e pela Alemanha com 58% de adesão.
Para a psicóloga Danielle Zeoti, essa é uma realidade do mercado de trabalho mundial que, agora, está atingindo o Brasil justamente pela situação econômica atual do país. “Com o home office, ganha tanto a empresa quanto o colaborador, pois ambos conseguem economizar em diversos itens, como gasolina, energia elétrica, vestuário e alimentação fora de casa”, lista.
Muitas empresas aderiram ao home office para aumentar a produtividade ou poupar dinheiro. Um dos exemplos citados em diversas discussões sobre o tema é a experiência-piloto do teletrabalho na Receita Federal, regulamentada pela Portaria RFB nº 947, de 20 de abril de 2012. Em nota, a assessoria de comunicação da Receita Federal em São Paulo explica que esta é uma iniciativa embrionária aplicada às atividades de análise e de julgamento de processos administrativos fiscais e desenvolvimento de sistemas corporativos na área de tecnologia da informação. Nesse caso, o teletrabalho, ou home office, é condicionado ao cumprimento de um plano de gestão e ao atendimento de métricas de produtividade, com metas no mínimo 15% superiores àquelas previstas para os servidores não participantes da experiência.
Danielle pontua que, a partir de um olhar superficial, o modelo é uma opção vantajosa, pois um colaborador motivado, com boa qualidade de vida, melhor saúde mental e física produz mais, características já percebidas por grandes empresas. “Entretanto, existem os meandros de ser humano que, muitas vezes, não faz ou age como o planejado. É fato que, estando em casa, o colaborador está sujeito a diversas tentações do lar”, alerta a psicóloga.
Segundo a especialista, para conquistar o sucesso trabalhando em casa três pontos são fundamentais: disciplina, organização e gerenciamento do tempo. Também é preciso estar atento às armadilhas desse método de trabalho como, por exemplo, não cumprir as atividades programadas ao se envolver com os assuntos domésticos, ou, ao contrário, trabalhar exageradamente, tornando-se um verdadeiro workaholic, o que também gera improdutividade. Para a psicóloga, é importante separar o momento de trabalho e de lazer. “Outra questão importante e pouco comentada é o isolamento social. Quando o profissional está atuando em uma empresa, tem contato com a equipe, as dificuldades diárias e a movimentação.Essa realidade não dá para substituir”, declara a psicóloga.
Danielle frisa que, a médio e longo prazos, o isolamento social pode desencadear um transtorno depressivo ou aumentar o estresse. “Oriento as pessoas que adotam o home office a separar algumas horas do trabalho para atuar em uma biblioteca ou café. A flexibilidade que este formato traz é sensacional e um profissional maduro saberá usufruir desse método com presteza”, garante a psicóloga.
Fugir da agitação diária causada pelo trânsito, organizar os horários de acordo com a disponibilidade, cortar gastos, empreender em um negócio próprio ou, simplesmente, ter mais tempo para dar atenção à qualidade de vida e à família são apenas algumas das vantagens listadas por profissionais como Américo Fabricio Neto, Francine Fernanda Cassez Soriano, André Aparecido Candido Marangoni e Mariana Lellis Pizzi, que já atuaram no mercado de trabalho convencional e hoje aderiram ao home office.
Além da burocracia
O freelancer em design gráfico Américo Fabrício Neto nunca foi a favor de cumprir horários e demais burocracias corporativas, principalmente quando o trabalho em questão é criação. “Geralmente, a inspiração não vem durante o horário comercial, muitas vezes, ficava preso na empresa sem produzir exatamente nada. Como freelancer, eu faço meu horário”, comenta o empresário, que também atua em vertentes de publicidade, marketing e mídias sociais.
Américo trabalhou em uma grande agência de publicidade durante muitos anos. Todavia, com tantos compromissos profissionais, estava se sentindo encurralado, o que começou a comprometer a qualidade do trabalho e, principalmente, sua qualidade de vida, uma vez que o freelancer chegava a dormir cerca de quatro horas por dia. “Foi, então, que eu sentei, fiz as contas, coloquei tudo na balança e optei pelo home office”, explica.
O freelancer descartou a possibilidade de montar uma estrutura ao aderir a esse método. “Trabalho na mesa do meu quarto e, às vezes, vou para a sala. Dessa forma, consegui investir nas ferramentas, adquiri dois desktops, um tablet e um bom celular, claro”, revela Américo. Segundo designer, no início, organizar o tempo e cumprir prazos foram grandes desafios. “Parece que vai ser fácil, mas quando olhamos em volta e percebemos que temos que cumprir oito funções de uma vez, é preciso tomar cuidado para não ficar maluco. Separar atividades profissionais, sociais e domésticas também foi difícil”, conta Américo.
No entanto, é possível, ganhar disciplina e aprender a gerenciar os conflitos naturais em qualquer trabalho. “O home office me ajudou a desenvolver habilidades profissionais e pessoais que nunca teria adquirido em uma empresa”, garante Américo.
Em casa, trabalhando
A oportunidade de trabalhar com o que gosta despertou o dom empreendedor da jornalista Francine Fernanda Cassez Soriano, que atua como assessora de imprensa. Trabalhando em casa desde 2012, Francine revela que passou por outras empresas e chegou a ter sua própria agência de comunicação e marketing ao lado de outros sócios. No entanto, quando a jornalista e os sócios decidiram tomar rumos diferentes, enxergou a oportunidade de fazer somente aquilo que gostava. “Na época, uma das minhas preocupações foi com a forma como os clientes que decidiram me acompanhar enxergariam essa mudança de estrutura, já que, antes, mantínhamos um prédio de dois andares no centro da cidade”, lembra. Outro ponto em questão era que o modelo home office, embora cada vez mais comum em grandes centros, ainda poderia gerar dúvidas por aqui. “Porém, quando levei a ideia para os clientes, fui surpreendida. Muitos deles não tinham tempo de nos visitar na época da agência, e o que ouvi foi: Fran, para mim não tem problema algum, até porque infelizmente quase nunca tenho tempo para visitar sua estrutura, o que importa são os resultados”, recorda. Para a jornalista, este foi um grande incentivo, embora a profissional se considere privilegiada por saber que sempre teve clientes com uma visão de negócio muito contemporânea.
A jornalista adaptou o escritório da sua casa — que não tinha porta — para que pudesse ter um espaço próprio e confortável. “Como meu espaço é pequeno, fiz uma pesquisa de modelos de escritórios em espaços reduzidos na internet e reuni algumas ideias. Levei para uma empresa especializada em móveis planejados e tornei o local mais agradável para o trabalho. Hoje, o espaço de casa, que era meu e do meu marido, tornou-se exclusivamente meu, com a minha cara e os meus toques pessoais”, esclarece.
Para Francine, o principal fator que leva à migração dos profissionais autônomos para o home office é a redução de custos. Para ela, manter uma estrutura física acaba inviabilizando o negócio. Outra questão é que, para algumas pessoas, esta é uma maneira de aproveitar melhor o tempo e ter mais qualidade de vida. Para a jornalista, disciplina, organização e foco são as três palavras fundamentais para quem sonha com esse modelo de trabalho. “É uma excelente forma de se trabalhar, mas nem tudo são flores. É preciso impor limites a si mesmo e a família, filhos, amigos e a quem trabalha na sua casa”, pontua. O profissional também precisa aprender a se colocar regras e se autodisciplinar. “Eu, por exemplo, acordo e me arrumo como se eu fosse trabalhar em um escritório convencional — nunca trabalho de pijamas. Também tenho dois telefones fixos, o de casa e o do escritório. Além disso, não atendo a porta enquanto estou no meu horário de trabalho”, argumenta. A profissional faz, ainda, uma hora e meia de almoço e procura não marcar compromissos pessoais em horário comercial. Essas pequenas regras devem ser criadas por cada profissional para ajudar no desempenho da sua função. “Embora atrativo, muitas pessoas acabam não se adaptando e voltam ao formato tradicional de trabalho. Eu, porém, consegui me adaptar bem e estou feliz trabalhando neste formato”, conta Francine.
Driblando a crise
Após concluir a faculdade de Direito e conquistar a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), André Aparecido Candido Marangoni fundou, ao lado de três sócios, um escritório de advocacia. A sociedade não prosseguiu por muito tempo e foi encerrada em 2009. Com o fechamento da empresa, André não demorou para decidir que seguiria sua carreira como profissional autônomo e montou uma estrutura de trabalho em sua residência. “Montei um escritório de acordo com meu gosto e minhas necessidades. Nessa adaptação, preparei um espaço onde minha filha, Lorena, pode brincar perto de mim de vez em quando”, conta o advogado.
Para André, a organização é primordial para quem opta pelo modelo home office. Com horários extremamente regrados, das 6h30 às 17h, alterados apenas em dias de audiência, André ainda consegue tempo para estar com a filha. Segundo ele, a implantação do sistema de processos digitais facilitou muito o trabalho, dando agilidade à rotina do advogado. O sistema ajuda a filtrar os casos que exigem a presença do advogado no balcão dos cartórios, diminuindo a necessidade de locomoção, reservada aos casos que precisam de consulta aos processos físicos. “Com esse sistema, posso trabalhar, acompanhar o crescimento da minha filha, almoçar com a minha esposa e agilizar o andamento dos processos”, explica André.
Para o advogado trabalhar em casa, além de significar contenção de despesas, o convívio familiar diminui o estresse e possibilita, dentro de um conteúdo organizacional, atender aos clientes em seus estabelecimentos comerciais, ou pessoalmente, para aqueles com dificuldade de locomoção. “Para esse atendimento diferenciado, trabalhando sozinho em um escritório, eu precisaria de uma secretária para que não ficasse fechado quando tivesse que sair”, acrescenta. André salienta, ainda, que o atendimento não é feito apenas de forma on-line, pois o contato com o cliente é fundamental e indispensável para a melhor defesa de seus interesses. “Assim, os clientes também se sentem mais seguros, tratando pessoalmente com seu advogado”, argumenta.
Novo olhar para o mercado
A limitação do mercado na área de sua formação, o jornalismo, fez com que Mariana Lellis Pizzi descobrisse um novo dom e o transformasse em sua profissão: confeiteira. “Um dia, fiz alguns cupcakes e postei nas redes sociais. Imediatamente, meus amigos começaram a fazer encomendas. A partir desse momento, tudo o que eu fazia, postava na internet e, quando dei por mim, já estava com vários pedidos de bolos, tortas e outros itens de confeitaria. Eu não imaginava essa mudança em minha vida. Hoje, trabalho em casa apenas com isso”, revela.
A rotina de Mariana é bem variada e muda de acordo com os pedidos. Para a nova profissão, a confeiteira montou uma cozinha separada do ambiente que serve a casa, com seus ingredientes e itens de trabalho. “Esse setor exige muito rigor com a limpeza, a organização, o armazenamento de produtos, entre outros pontos”, esclarece Mariana. Para entregar todas as encomendas pontualmente, a jovem trabalha a noite ou, em algumas ocasiões, estende o horário até o último pedido.
Mariana destaca que a mudança de área trouxe diversas vantagens para a sua vida e ressalta que trabalhar em casa a ajuda a ter mais criatividade, vontade e ideias para seu empreendimento. “Hoje, sinto-me livre e sem pressão para trabalhar. Essa liberdade ajuda na minha rotina de trabalho, como horários, criatividade e vontades”, frisa. Todavia, a confeiteira deixa claro que o home office limita um pouco os compromissos pessoais, mas isso é uma opção de cada profissional.
Ao unir seu conhecimento na área de comunicação com a nova profissão, Mariana viu as encomendas aumentarem consideravelmente e, hoje, contabiliza mais de 200 clientes. Com o home office dando certo, solicitou a abertura de um CNPJ para a regularização de sua pequena empresa e decidiu contratar um contador para cuidar das finanças de sua Boutique dos Doces. “Há mais de um ano, abri o negócio seguindo o modelo de Microempreendedor Individual (MEI). Com ele, fico mais tranquila em relação aos encargos e tributos e com a administração da minha empresa de maneira geral”, completa.
Como empreendedora, Mariana destaca que quem deseja trabalhar em home office precisa se organizar, investir e gostar do seu ambiente de trabalho. “Trabalhar em casa me trouxe inúmeras vantagens. Aqui me alimento melhor, organizo minhas atividades de forma adequada, mas não sigo uma rotina rígida que me influencie de forma negativa psicologicamente. Em casa, sinto-me mais tranquila e confortável para trabalhar com o que gosto”, analisa.
HOME OFFICE NÃO É NOVIDADE
Após ter atuado em algumas empresas o arquiteto e urbanista, João Paulo Pinheiro se tornou um profissional autônomo instituindo sua própria empresa, em sociedade com o irmão, o engenheiro calculista Marco Antônio Pinheiro, em 1999. O arquiteto mostra que o modelo de home office não é uma grande novidade entre os profissionais, tanto que, quando decidiu por este formato, não quis soluções improvisadas, já que se tratava de uma ocupação residencial e comercial. “Comprei um terreno e desenvolvi um projeto com dois pavimentos: no andar inferior está a residência e no pavimento superior, o escritório. Os dois são integrados pelo mesmo acesso, preservando a privacidade de cada ocupação”, expõe.
Quando questionado sobre as vantagens e as desvantagens do modelo, que tem atraído muitos profissionais — principalmente os mais jovens — João ressalta que, atualmente, não vê desvantagens frente ao alto custo de manutenção de um imóvel ou sala em edifício comercial. “A troca de informações e dados, por meio da internet e de videoconferências, encurtaram as distâncias e diminuíram o tempo. Atualmente, minha equipe de trabalho é toda terceirizada, e não há necessidade de ocuparmos o mesmo espaço para desenvolver os trabalhos”, conclui.
Texto: Pâmela Silva
Fotos: Julio Sian e Ibraim Leão
Produção: Marcela Versiani