Centenário na primeira
Depois de muita luta e vários jogos, no dia 24 de abril deste ano, o Comercial não poderia dar um presente melhor para seus torcedores: o acesso para a Série A1
Ano de 1986. Os amigos Tutty Mendes e Laura De Biase nem haviam nascido quando o Comercial Futebol Clube jogou pela última vez na Série A1. Mesmo assim, foi esse o time que os universitários escolheram para torcer e acompanhar os jogos com amor e fidelidade. Sem ver ao menos uma vez o Comercial na primeira divisão, os torcedores continuavam apoiando o tradicional time de Ribeirão Preto.
Com muita luta e e uma longa espera, no dia 24 de abril deste ano, o Comercial não poderia dar um presente melhor para os torcedores: o acesso à Série A1. Depois de ter acompanhado o jogo contra o São José, no estádio Palma Travassos, no sábado, Tutty não ficou tranquilo enquanto a classificação não foi confirmada, no dia seguinte, com o resultado decisivo: a vitória do Guarani sobre o Rio Preto, por 4 a 2, em Campinas, resultado que definiu matematicamente a classificação do Bafo. “Ver meu time conquistar o acesso na semana do meu aniversário e no ano em que completa 100 anos é algo para se guardar na memória para sempre. É uma sensação impagável; não senti nada igual até hoje”, recorda o torcedor fanático, que após o jogo de acesso comemorou bastante. “A ficha não tinha caído direito. Somente no dia seguinte, percebi que um dos meus sonhos havia sido realizado! Desde então, minha vida é só alegria e festa, fora a ansiedade para a estreia do Comercial no Paulistão de 2012”, conta o estudante de Rádio e TV.
Invicto em 14 jogos, o Comercial fez a festa dos ribeirãopretanos. Sob o comando do técnico Márcio Fernandes, o time fez bonito no primeiro semestre de 2011. De acordo com o treinador, a conquista só foi possível por conta de muito trabalho e da união de toda a equipe. “Quando cheguei, todos estavam cabisbaixos, com o sentimento de derrota. Percebemos que era necessário reverter o lado psicológico para melhorar o desempenho em campo. Foi o que fizemos”, lembra o treinador. Um estudo dos problemas técnicos do time, que, segundo Márcio, tinha falhas na defesa e no meio de campo, também ajudou no sucesso do Leão.
Outra estratégia bem empregada pelo técnico foi assistir aos jogos anteriores e, junto com os jogadores, analisar quais eram os problemas da equipe. “O time tomava muitos gols. Percebi que era importante eles entenderem a marcação de ataque dos outros times para melhorar a nossa também”, recorda Márcio. Com as vitórias, o técnico percebia que a confiança dos jogadores aumentava. Para manter o time em atividade, o Comercial participará, no segundo semestre de 2011, da Copinha Paulista, concorrendo a uma vaga à Copa Brasil. A participação nesse torneio permitirá que o Clube forme um time base para o ano que vem.
Jogador do time há mais de cinco anos, Márcio Luiz de Souza estava presente quando o Clube passou por muitas dificuldades, em 2005. “Conseguimos algo que era esperado há anos. A conquista é ainda mais gostosa por se tratar do ano do centenário do Clube.
Tudo isso só foi possível com muito esforço”, explica o jogador. A escolha criteriosa de cada jogador e a união deles em um único objetivo também são mencionadas pelo lateral esquerdo como pontos fundamentais a conquista do Clube.
A direção do Comercial estima que o Bafo tenha uma torcida numerosa que agora precisa ajudar o time a se manter na primeira divisão e a participar de outros campeonatos. Laura é uma dessas torcedoras que querem ajudar o Clube a ingressar em uma nova fase. Para ela, o amor pelo alvinegro começou cedo, aos seis anos. A estudante vem de uma família comercialina e a escolha não poderia ser diferente. Desde pequena, torcer pelo Comercial era uma paixão em comum com seu pai. “Era um momento compartilhado por nós. Somos tão fissurados pelo Comercial que até a minha mãe acabou se rendendo à paixão”, conta a torcedora, que com 15 anos passou a acompanhar os jogos com o Grêmio Recreativo Torcida Mancha Alvinegra.
Para a estudante, o amor não tem limite. Choros em derrotas, medo do time fechar e até faxinas nos momentos de crise do Comercial fazem parte da trajetória de Laura como torcedora. “Quando o Clube estava mal, criamos um grupo chamado ‘Amor ao Comercial’. Nos jogos, comprávamos vários ingressos extras só para ajudar e também fizemos mutirão de limpeza, entre outras ações para manter o Leão vivo”, explica a jovem.
Agora, resta esperar, em 2012, o clássico Come-Fogo, um dos mais famosos confrontos do interior. “A fama desse jogo abrange não só o Estado de São Paulo, mas todo o Brasil. Qualquer fã do futebol brasileiro conhece ou tem alguma história boa para contar sobre os dois times. Tomara que essa disputa aumente o interesse dos ribeirãopretanos pelos clubes locais”, conta Tutty, ressaltando que os torcedores do Comercial nunca abandonaram o time; apenas deixaram de acompanhar devido à fase ruim que o Comercial passou.
Novos planos
Apesar de ser natural de Salvador, na Bahia, Nelson Lacerda é mais ribeirãopretano do que muitos conterrâneos. Mesmo com muita gente não acreditando no reerguimento do Leão, o empresário resolveu assumir a área jurídica e patrocinar o Comercial. Assim, o primeiro passo foi auxiliar legalmente o Clube, que passava por uma situação difícil. “O Bafo estava correndo o risco de fechar, sem dinheiro e com muitos problemas jurídicos”, lembra Lacerda. Com essa ajuda, o time conseguiu se inscrever para a Copa Paulista de 2009 e passou a se preparar para lutar pela vaga na Série A1.
Com um preparo de 15 meses, em conjunto com a presidência, gestores e uma equipe bem montada e financiada, o empresário conseguiu atingir o objetivo. “É uma ótima sensação ver o resultado positivo de um árduo trabalho. O meu maior foco é resgatar essa torcida maravilhosa, que há 25 anos estava descrente do time ribeirãopretano”, declara Nelson. Além disso, ele ressalta que manter um estádio no meio da cidade aumenta a vontade de ajudar o Comercial a crescer. “A tendência em todas os municípios é transformar os estádios em fontes de renda. Temos um estádio no coração de Ribeirão Preto e não deixaremos isso acontecer com o Palma Travassos”, acrescenta o empreendedor. Para isso, Lacerda tem como projeto modificar mais uma vez o campo, com previsão para terminar a nova obra, em 2014, mesmo ano da Copa do Mundo no Brasil.
Após uma grande reforma anterior, o Palma Travassos foi transformado em um Centro de Convivência e vários eventos já foram realizados no espaço. Hoje, o estádio conta com uma área de 12.750 metros. “Temos um sambódromo no Comercial, maior que a Sapucaí, pois o espaço é circular, permitindo mais movimentação”, acrescenta Lacerda. O objetivo da mudança é atrair a população para o estádio, incentivando a participação em atividades conjuntas. Entre as programações, já estão previstos corrida de kart, encontro religioso, festa sertaneja, show de axé, além dos jogos de futebol.
Saiba mais sobre o Leão
O Comercial foi fundado, em 1911, quando um grupo de comerciantes reuniu-se com a finalidade de formar um time de futebol da cidade. Os fundadores foram os comerciantes Antonio Maniero, Guilherme Nunes, Argemiro Arantes, entre outros. Antídio de Almeida foi eleito o primeiro presidente. Com o investimento dos comerciantes, o Commercial Football Club ganhou destaque na região e caiu no gosto dos “Coronéis do Café”, que passaram a apoiar a equipe.
Veja o caminho que o Comercial percorreu até conquistar a vaga na primeira divisão:
1987 – O time estreou na segunda divisão com empate contra o Fernandópolis
1988 – O Leão ficou em primeiro lugar no Grupo C
1989 – Venceu oito jogos, empatou dez e perdeu oito
1990 – Chegou ao hexagonal final, mas foi eliminado na reta decisiva
1991 – Sem sucesso no acesso
1992 – 11 derrotas em 26 jogos
1993 – O Bafo conquistou o lugar na elite no mesmo ano em que foi
criada a Série A2, ou seja, o time perdeu o acesso
1994 – Quarta colocação do campeonato
1995 – O time ficou em 7º lugar na A2
1996 – Comercial nem chegou à final
1997 – Com sete derrotas, o Clube mantém-se longe da elite
1998 – O time teve uma atuação ruim, escapando no “Torneio da Morte”
1999 – Bafo terminou em 11º lugar
2000 – Comercial chegou às quartas de final, mas caiu
2001 – Devido à criação do torneio Rio-São Paulo,
o Bafo não caiu para a Série A3
2002 – O Leão terminou em 8º lugar
2003 – O Clube ficou em 7º lugar na chave de oito times
2004 – Comercial acabou em quinto lugar, perdendo a chance de ir à fase final
2005 – Permaneceu na A2, em terceiro lugar
2006 – O Bafo terminou em 15º lugar
2007 – O comercial ficou novamente em 13º lugar
2008 – O Leão passou por um sufoco, escapando da queda por pouco
2009 – O time foi rebaixado para a Série A3
2010 – Voltou à Série A2
2011 – Conquistou o retorno à Série A1 (Fonte: Jornal A Cidade)
Texto: Mariana Secaf
Fotos: Júlio Sian e Carolina Alves