Chope com garapa
Em uma combinação inusitada, como as inúmeras possibilidades que a região oferece, o empresário Paulo Ferreira e o garapeiro João Peroni discutem temas que têm a ver com seus locais de trabalho
Sem dúvida, pode-se dizer que a diversidade é uma das marcas registradas do centro de Ribeirão Preto. Na região, convivem estabelecimentos destinados aos mais variados públicos e segmentos: lojas, prestadores de serviços, bares, restaurantes e muito mais. A cada novo quarteirão, uma infinidade de possibilidades se apresenta aos frequentadores do lugar. Foi no mais famoso dos quadriláteros centrais, o Quarteirão Paulista, que estiveram reunidos dois homens acostumados com a paisagem urbana da área central. O empresário Paulo Ferreira recebeu, no salão de eventos de sua Choperia Pinguim, João José Peroni, ou João Garapeiro, que herdou do pai o nome e a profissão que o tornaram figura certa no centro — mais especificamente na esquina das ruas Álvarez Cabral e São Sebastião. Como não poderia deixar de ser, o assunto principal do bate-papo foi, justamente, o bairro onde os dois estabeleceram seus negócios e que frequentam quase diariamente. Ninguém melhor do que eles, portanto, para avaliar, na prática, as inúmeras questões impostas ao bairro.
REALIDADE SOCIOECONÔMICA
João: Em minha opinião, a crise que afetou o Brasil inteiro também está refletida no Centro de Ribeirão. Dá para ver que as lojas do Calçadão estão sofrendo, mas esse não é o único motivo. Também há uma parcela de contribuição das obras no local que não terminam, da falta de segurança, entre outros fatores que geram transtorno para os comerciantes.
Paulo: Devido a atual situação econômica, centros comerciais como o nosso tendem a sentir mais, uma vez que a oferta, tanto de comércio quanto de serviços, costuma estar mais concentrada.
SEGURANÇA
João: Acredito que a situação do centro, no que diz respeito à segurança, é mais grave à noite. Fica complicado frequentar o bairro depois que escurece, o que é uma pena, porque aqui estão localizados restaurantes tradicionais — a própria Choperia Pinguim é bem frequentada à noite. As pessoas não deixam de vir, mas têm medo.
Paulo: Acredito que, mais uma vez, a crise econômica acaba afetando os índices de violência. Foram registrados assaltos recentes aqui no centro, o que não é tão comum quanto se imagina. Não estou falando de ocorrências graves, mas de celular e bolsa roubados em plena luz do dia, furto em lojas e outros episódios do gênero. Imagino que situações como essas se agravaram não apenas por aqui, mas em diversos lugares. As câmeras instaladas no bairro ajudam um pouco, mas não previnem totalmente a violência. Defendo que é preciso investir na presença mais ostensiva da polícia no centro.
CALÇADÃO
Paulo: Eu diria que o Calçadão está em obras desde que foi construído em 1992. Felizmente, tivemos uma recuperação do nível do comércio e de acessibilidade ao centro, mas, naquela época, sofremos muito com a vinda do Calçadão. Prometeram mundos e fundos. Eu mesmo acabei concordando, fui o último a aderir à construção. O mobiliário seria padronizado, o piso seria diferenciado, entre outras promessas que não foram cumpridas. Na implantação, acho que fui um dos únicos a comprar o mobiliário indicado pelo projeto, mas a maioria dos comerciantes não aderiu. Posso dizer que, desde aquele começo, foi criada uma ilusão em torno do Calçadão. Passados muitos anos, acredito que já dá para afirmar que o centro não estava preparado para receber o Calçadão. Não havia, por exemplo, estacionamentos suficientes para suprir as áreas azuis que foram perdidas. Por conta disso, muitos comércios grandes e de qualidade, que atraíam muita gente para o centro, fecharam. No lugar deles, vieram lojas especializadas em roupas por quilo ou produtos do gênero, além de ambulantes. Imagino que se tivesse sido feita, à época, uma legislação apropriada para a ocupação do centro, que assegurasse o comércio na região, a realidade teria sido outra.
João: Aliás, fica uma sensação de que está sempre faltando algo, que provavelmente ficou fora do planejamento. Uma das mudanças que eles estão implementando é o cabeamento subterrâneo da iluminação. Confesso que ainda não consegui imaginar de que maneira a Prefeitura ou a CPFL vão fazer para retirar esses postes do Calçadão.
Paulo: Não estou acompanhando muito de perto essa última etapa de reformas. Mesmo assim, acredito que vá melhorar em vários aspectos, como o visual e a circulação de pessoas, entre outros. Certamente, um piso de mais qualidade, com mobiliário instalado, só pode contribuir para melhorar o Calçadão. Mas é preciso saber até quando seguirá essa reforma, pois parece que está difícil finalizar essas obras.
João: Honestamente, sou contra o tipo de Calçadão planejado em Ribeirão Preto. Para mim, o calçadão da Praia Grande merecia ser imitado. Lá, as vias são mais largas, cobertas de um lado e de outro, mas com a possibilidade de passar carro no meio. Mesmo assim, o Calçadão vai trazer uma grande repercussão para a cidade, apesar da demora.
Paulo: Acredito que este modelo seja realmente melhor, pois a circulação de veículos, a sensação de insegurança aumenta. Lembro que, lá no começo, terminada a hora do expediente, o Calçadão esvaziava totalmente. Não tinha perigo nenhum, mas a falta de fluxo deixava a gente preocupado.
TRÂNSITO E ESTACIONAMENTO
Paulo: Na minha opinião, falta um pouco de consciência do comerciante. Na frente de cada loja, há de uma a três vagas de área azul. Em vez de deixar o espaço livre para os clientes, muitos dos lojistas acabam estacionando o próprio veículo no local e passa o dia naquela vaga, impedindo outras pessoas de utilizar o espaço. Isso é um ponto. Além dele, o centro é feito de ruas estreitas, e isso não vai mudar. Uma maneira inteligente de lidar com tal realidade seria planejar o tráfego de carros, de ônibus e da área azul, para que eles acontecessem em vias diferentes.
João: Para mim, não adianta fazer um Calçadão bonito se as pessoas não tiverem acesso fácil ao centro. Além de bolsões de estacionamento na região, é preciso que a área azul funcione como um relógio, como era no início, garantindo rotatividade. Acontece que, atualmente, a fiscalização vem uma vez por mês, multa todo mundo e vai embora. Se os motoristas fossem mais conscientes sobre a importância de se respeitar o zoneamento para dar a oportunidade de outras pessoas também estacionarem seus carros, a fiscalização não seria tão necessária quanto é hoje.
Paulo: As vagas realmente são um problema. Em relação a esse bolsão de estacionamento em frente ao Theatro, por exemplo, muita gente pensa, como eu, que ele deveria ser aberto para circulação e estacionamento. Já consultei especialistas que pensam da mesma forma, mas não quiseram se comprometer. Ao longo desses anos, já promovi duas consultas aos lojistas da área e a maioria concorda com a abertura do local, mas isso só aconteceria se houvesse unanimidade, e não foi este o caso. Para mim, utilizar esse trecho faria fluir melhor o trânsito, desafogando as principais ruas da região, como a São Sebastião.
João: Isso certamente traria mais público para o centro. Outra saída seria dar ao transporte coletivo melhores condições, a ponto de estimular as pessoas a virem para o bairro de ônibus. Quem sabe, disponibilizar um ônibus especial, mesmo que a um custo diferente, para servir como incentivo.
INFRAESTRUTURA E LIMPEZA
João: Acredito que investir em estrutura é fundamental para garantir boa circulação no centro. Ao andar por aqui, é quase impossível encontrar um banheiro público, e os lojistas não têm obrigação de suprir essa falta para toda a população. Também faltam bancos, lixeiras e muito mais.
Paulo: Para mim, a pior situação é a do lixo no centro. Algumas esquinas que são passagem quase obrigatória para quem vêm ao coração da área central, como ao Quarteirão Paulista, não representam, nem de longe, o cartão de visitas que se desejaria, especialmente por causa do lixo que se acumula. Hoje, alguns locais já melhoraram, mas a situação geral ainda não é boa. Faltam lixeiras padronizadas, que valorizem o visual da região. Os sacos de lixo ficam no chão, já que há pouca alternativa.
João: Na chegada ao Calçadão a situação não é muito diferente. Por volta das 17h, o lixo acumulado impressiona. Uma caçamba poderia amenizar a cena.
Paulo: Espero que a administração municipal não esqueça de pensar nessa questão antes de finalizar a revitalização do centro.
PATRIMÔNIOS HISTÓRICOS
Paulo: Quando o Empório Pinguim, com uma minichoperia, foi montado, o pedaço ocupado no Edifício Diederichsen foi recuperado, com acompanhamento do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT). Posso dizer que, à época, não foi uma obra cara. Infelizmente, não vi outros empresários fazendo o mesmo.
João: Acho que recuperar esses prédios só vai contribuir para a beleza da cidade. O centro é um bairro rico em construções antigas, que contam a história, mas que estão feios e abandonados. Isso poderia mudar.
Paulo: Para mim, a Prefeitura deveria agir de maneira mais inteligente em relação a esse assunto. Não só aqui no centro de Ribeirão Preto, mas em todo o grupo. Ocupamos vários prédios tombados dos quais cuidamos com carinho. Além de ser parte do nosso negócio, fazemos questão de manter o que é antigo. Particularmente, considero-me uma pessoa saudosista, nostálgica, e tenho prazer em cuidar desses patrimônios. Quando digo que a administração municipal precisa ser mais inteligente quero dizer que ela poderia criar algumas facilidades — como uma lei, que já existe, mas foi vetada pelo prefeito da época, de isenção de IPTU — que estimulassem os proprietários a manter e restaurar esses patrimônios. Bem cuidadas, essas edificações podem virar renda para os proprietários e para o município, se este lugar for usado para fins comerciais, por exemplo. Degradados, esses endereços não agregam nenhum valor e não atraem público para o centro.
ÁREAS VERDES
Paulo: Apesar de suas praças pequenas ou grandes geralmente cheias de verde, as ruas da região central não são bem arborizadas. Não saberia dizer se isso acontece pela própria falta de espaço — as ruas são estreitas, o fluxo de pessoas e de carros é muito intenso — ou se por outro motivo qualquer, mas o fato é que faltam árvores pelas calçadas.
João: Só pela melhoria na qualidade do ar, investir em mais árvores já seria justificável. Fora isso, elas deixam o centro mais bonito também.
PÚBLICO
João: Desde o início das obras do Calçadão, sei que muitos comerciantes do centro estão praticamente pagando para manter seu negócio aberto. As vendas, infelizmente, estão paradas também por causa da crise em todo o país e pela dificuldade de circulação no centro.
Paulo: Para mim, a queda no fluxo de pessoas é geral, em toda a cidade, incluindo os grandes shopping centers. Para que essa realidade mude também aqui no centro, é preciso que cada um faça a sua parte — comerciantes, poder público e cidadãos. Só assim será possível trazer cada vez mais gente para a região central.
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Julio Sian