Cidadania: projetos que transformam
Com o apoio a projetos em diversas áreas, empresas ajudam a promover a inclusão social e conquistam mais reconhecimento
Há sete anos, a lei de nº 11.438 permite que as empresas destinem parte do Imposto de Renda para projetos esportivos aprovados pelo Ministério do Esporte. Entretanto, além do investimento permitido pela lei, empresas e instituições apoiam o desenvolvimento de projetos esportivos, de cultura ou de arte, como agentes de transformação social. Esses investimentos permitem o pagamento das despesas com materiais e a contratação da equipe de profissionais para o desenvolvimento das atividades. A lei, por sua vez, viabiliza a construção, a reforma ou a ampliação de estrutura física, custeio de treinamento, promoção de estudos ligados às atividades, entre outros aspectos.
Em Ribeirão Preto, a parceria entre o São Francisco Resgate e Associação de Deficientes Visuais de Ribeirão Preto (ADEVIRP) permite o investimento na qualificação profissional de deficientes visuais. Nesta parceria, os jovens são contratados pela empresa e participam do curso de assistente administrativo, totalmente gratuito, com duração de dois anos. O projeto, registrado no Ministério do Trabalho (MTE), proporciona aos alunos aulas teóricas e práticas de informática, telemarketing e administração básica. Em contato com a tecnologia, os alunos utilizam computadores adaptados e contam com uma equipe especializada de professores que ajuda os jovens a descobrirem novas possibilidades.
A São Francisco Resgate financia o projeto e destina quase R$ 200 mil. Os jovens recebem salários e benefícios compatíveis com o mercado. Para Paulo Gabriel, diretor de relações institucionais do Grupo, o apoio é uma via de mão dupla. Este ano, foram 12 projetos sociais em andamento que, somados a outros projetos, ultrapassaram R$ 15 milhões em investimentos. “O apoio aos projetos sociais diminui as desigualdades e incentiva o desenvolvimento da comunidade em que estamos inseridos, gerando mais qualidade de vida para todos”, observa o diretor.
Os projetos sociais, segundo o diretor, objetivam estabelecer uma situação de equilíbrio estrutural e financeiro a médio e longo prazo. Para tanto, a iniciativa privada deve participar em parceria com o poder público, que detém as diretrizes públicas e o orçamento para ajudar na manutenção das atividades. “Quando a empresa se compromete em não apenas oferecer produtos ou serviços de qualidade, mas se mostra disponível a exercer uma ação social com atitudes diferenciadas, prova que possui uma postura de responsabilidade diante da sociedade. As vantagens econômicas, mesmo que aparentemente pequenas, podem amenizar os impactos sociais e ambientais”, afirma Paulo Gabriel.
De acordo com a presidente da ADEVIRP, Marlene Taveira Cintra, a participação no mercado de trabalho das pessoas que têm alguma deficiência ainda está muito abaixo do esperado. “As empresas investem pouco e precisam enxergar que os cegos, por exemplo, têm potencial. Não precisamos de dó ou compaixão, precisamos de oportunidades. Fazemos a nossa parte qualificando essas pessoas para que usem os recursos tecnológicos e tenham autonomia. O que falta mesmo é que as empresas façam a parte delas”, cobra Marlene.
Outro projeto que estimula a ação social é o Bom de Nota, Bom de Bola. Eduardo Zanello, diretor da Associação Pró-Esporte e Cultura, entidade realizadora do projeto, afirma que essas ações contribuem para o fortalecimento econômico das entidades e viabilizam a execução das atividades. “Por sua vez, as empresas parceiras divulgam as marcas e formam uma geração de empresários, comprometidos não somente com o lucro, mas também com as questões sociais do país, contribuindo para uma nação mais justa, mais competitiva e, sobretudo mais humana”, destaca Zanello. Além das vantagens para ambas as partes, o empresário ressalta que a visibilidade da marca perante a sociedade é item importante para a empresa decidir apoiar um projeto social. Outro ponto importante nessa parceria é a disseminação das leis de incentivo fiscal junto aos contabilistas. “Investir no social passou a ser um caminho sem volta para as empresas, virou questão de sobrevivência. Entre as inúmeras vantagens, destacamos que o apoio de uma empresa viabiliza a execução dos projetos e o atendimento de centenas de crianças e jovens”, avalia Zanello.
Danilo Terra, consultor em incentivos fiscais da LS Nogueira, afirma que a responsabilidade social, prática adotada pela maioria das empresas, atualmente, é a principal fonte de renda para que as instituições possam realizar o trabalho. “Só com o apoio da iniciativa privada é possível realizar bons projetos. É necessário que as instituições façam um planejamento para que o objetivo social seja cumprido sem ônus à sociedade. Em Ribeirão Preto e região, temos diversos clientes que doam há algum tempo e incentivam muitos projetos nas áreas cultural, esportiva e de saúde, tanto empresas de pequeno quanto de médio e grande porte. É fácil ajudar. Basta ter vontade e um bom projeto para incentivar”, comenta Danilo.
Por muito tempo, a arte de rua denominada de Grafite, que surgiu nos anos 70, em Nova Iorque, quando jovens começaram a deixar marcas nas paredes da cidade para chamar a atenção para problemas sociais, tinha uma forma equivocada de ser vista. Hoje, ligado a vários outros movimentos — entre eles, o Hip Hop —, o Grafite evoluiu com técnicas e novos desenhos.
Jean Denizard Machado, conhecido como Biu, pratica essa arte há mais de 15 anos levando em conta as necessidades sociais. Segundo o grafiteiro, antes as oficinas eram realizadas a céu aberto em praças ou em garagens dos praticantes. “O grafite era pouco divulgado. O trabalho era o de difundir a prática na sociedade como arte”, conta Jean. O projeto é desenvolvido em conjunto com outros grafiteiros em comunidades, centros culturais e igrejas em Ribeirão Preto, com foco na formação de novos adeptos e conteúdos sociais agregados à cultura hip hop. “Já contamos com parcerias de empresas privadas onde foi possível dialogar com alunos sobre os problemas sociais, apontando o grafite como manifestação artística e revertendo o histórico de vandalismo nas escolas”, destaca o grafiteiro.
Para Jean, a estrutura física e os materiais utilizados em aula são as vantagens de contar com apoio financeiro. “Já trabalhamos com a Fundação Feira do Livro e o SESC. São instituições que sempre nos dão estrutura necessária para realizarmos oficinas que geram um grande aprendizado, tanto para aqueles que participam para conhecer o grafite, quanto para os que já possuem conhecimento de técnicas de pintura”, explica.
Jean observa ainda que o apoio aos projetos sociais deve vir de ambas as partes, da empresa e da sociedade. “E preciso entender que ambos se completam dentro do espaço social é o mais importante. A arte e suas manifestações sobrevivem sem a iniciativa privada, mas para nós, seria um sonho que os projetos obtenham com o apoio privado. Criar esta mentalidade é um processo e estamos dispostos a mudar a realidade atual”, enfatiza.