Cinema de poesia

Cinema de poesia

O cinema é o melhor instrumento para exprimir os sonhos, emoções e instintos

“... porque o isola,
graças ao silêncio e a escuridão,
do que podemos chamar de seu
habitat psíquico, o cinema
é capaz de pôr o espectador
em êxtase melhor do que
qualquer outra
expressão humana.”
 Luis Bañuel, A poesia do cinema, 1955.

Já dizia o poeta, o cinema é o melhor instrumento para exprimir os sonhos, emoções e instintos. Seja o filme bom ou mau, nele a poesia cinematográfica luta para vir à tona e se manifestar.

Algumas pessoas acreditam que a poesia, pelo seu requinte e linguagem “envelhecida” está fadada ao desuso entre as novas gerações, mas o poder de se reinventar mantém o vigor poético ao longo dos séculos e o cinema se transforma em uma forma de expressar a poesia.

Para o jornalista e professor universitário Eduardo Soares, a linguagem poética é aquela em que se sente a câmera. “O cinema constrói a poesia com imagens e sons. No cinema, a poesia e o texto se transformam pelo olhar do diretor que compartilha isso com os demais, com o uso de imagens, efeitos, músicas e sons. Se a poesia nos livros é o substantivo, no cinema ela é o adjetivo. A poesia no cinema contribui para que o ser humano se torne um sujeito melhor. Mais sensível e menos duro”, comenta.

Mas para poder compreender a relação entre a poesia e o cinema, o espectador precisa separar alguns detalhes, como os gêneros dos filmes. “Existem filmes mais “cults”, que utilizam de textos poéticos na sua narrativa, e assim levam a poesia em sua essência para a telona, mas são poucos e para um público seleto, que admira esse tipo de construção. Na minha opinião, contudo, a poesia está presente sim em muitos filmes. Na construção de cenas inesquecíveis e poéticas. O cinema é a sétima arte, e consegue ser poético com uma boa luz, ação dramática dos personagens, diálogos, atuações e uma boa trilha sonora. Afinal, poesia também é sentimento e estética”, acrescenta Eduardo.

Para a fisioterapeuta Ana Luiza Franco, o cinema tem o poder de transformar a poesia. “Acho que o cinema tem o poder de tornar visual todos os detalhes da poesia, os filmes podem traduzir o que o poeta quis revelar de diferentes formas, drama, ação, comédia”.

Alguns filmes têm explorado a poesia em traços de realidade, atores declamam grandes obras com um sabor tecnológico e interativo, conquistando os desavisados.

“O filme ‘As horas’, é um bom exemplo de como uma narrativa pode ser poética. O filme ‘A Sociedade dos Poetas Mortos’ é lembrado até hoje pela narrativa bem construída e o personagem de Robin Willians. ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de Glauber Rocha, é de todo poético, baseado na literatura de cordel. Os filmes do Lars Von Trier dão liberdade para que o espectador se coloque dentro da cena, de forma mais que poética. ‘Dog Ville’ e ‘Melancolia’ são imperdíveis. Existem também os filmes baseados nas vidas de grandes poetas, como ‘O carteiro e o poeta’, ‘Contos do Marquês de Sade’, ‘Shakespeare Apaixonado’, entre outros. Seria ainda uma injustiça não citar aqui Woody Alen, que usa muito da literatura em seus filmes. Em ‘Match Point’, por exemplo, a sorte está sempre presente no filme, seja na imagem ou na narrativa, além do filme ser baseado no livro ‘rime e Castigo’, do russo Dostoievski. No último, ‘Meia Noite em Paris’, ele constrói cenas cheias de poesias e encantamentos, quando consegue nos transportar para a Paris dos anos 20 e proporciona o encontro do personagem de hoje com os escritores e artistas daquele século”, explica o jornalista.

De acordo com Ana Luiza, pensar na união dessas duas artes é uma forma de humanizar o cinema. “O cinema é tão importante quanto à leitura, não tem como comparar, cada qual tem a sua importância no crescimento pessoal, cultural e social da pessoa. Mas quando se une diversas formas de arte o indivíduo só pode sair ganhando”.

Em suma, a característica poética dos filmes não depende do seu objeto, no caso a poesia, mas da forma como ele é representado. O cinema não possui uma língua, não dispõe de uma estrutura articulada. Ao contrário da poesia, as imagens no cinema querem o tempo todo significar e significam infinitamente, de modo solto. “Existe sim a poesia, claro que transforma hora em prosa, hora em verso, hora em cenas e diálogos, luz e som. De alguma forma os filmes nunca deixaram, e nunca deixarão de ser poéticos”, conclui Eduardo.

Confira a lista dos filmes que possuem aspectos poéticos e merecem ser vistos

- Romeu e Julieta (Franco Zeffirelli)
- A Pele que Hábito (Pedro Almodóvar)
- O artista  (Michel Hazanavicius)
- A invenção de Hugo Cabret (Martin Scorsese)
- O Carteiro e o Poeta (Michael Radford)
- Melancolia (Lars von Trier)
- Outono em Nova York  (Joan Chen)
- O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (Jean-Pierre Jeunet)
- Lope (Andrucha Waddington)
- Poesia  (Lee Chang-Dong)
- A Sociedade dos Poetas Mortos (Peter Weir)
- Cisne Negro (Darren Aronofsky)
- Tempos Modernos (Charles Spencer Chaplin)

Revide On-line
Texto: Pâmela Silva
Fotos: Carolina Alves

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