Colecionadores
Histórias de quem começou a colecionar do zero e também de quem herdou uma coleção de familiares mostram uma vida de paixões
Colecionar. Do dicionário: reunir em coleção, acumular, coligir. Cada uma a seu modo e estilo, muitas pessoas colecionam de tudo o que se possa imaginar.
Mas isso é o de menos, uma vez que são histórias de quem começou a colecionar do zero e também de quem herdou uma coleção de familiares. De discos de vinil e itens da Coca-Cola a cartas de RPG e abadás de micareta, Ribeirão Preto e região têm todo tipo de colecionadores. E para cada um deles, o que vale é aumentar as coleções e nutrir o amor que se tem por elas.
O fotógrafo e professor universitário Jefferson Alves de Barcellos, coleciona discos de vinil desde os 15 anos de idade, quando ainda trabalhava como office boy em Ribeirão Preto. Jeff – como prefere ser chamado – herdou 400 discos do pai, que montava uma relíquia já na década de 1960. “E vários amigos me confiaram sua coleções depois que abandonaram os toca-discos. Eu nunca abandonei”, afirmou.
Hoje, aos 43 anos, o apaixonado por música guarda uma coleção de pouco mais de 2 mil discos. Segundo Jeff, a coleção de vinis é uma maneira de sempre manter o pé na música, além de tê-la como uma eterna referência para os trabalhos como fotógrafo. “Esse período é brilhante, era onde se pensava em como se produzir uma capa, tudo tinha outra dinâmica. Associo os discos à minha história”, conta.
Quando o pai de Bruno Grillo, 31 anos, fez uma viagem à Europa em 1997, iniciou o hábito de colecionar bolachas de chope devido à beleza exótica que cada uma possuía. De lá para cá, eles começaram a pedir e guardar todas as bolachas de bares e restaurantes que frequentavam. E, além das 340 bolachas, Grillo passou também a colecionar tampinhas de cerveja. “A bebida alcoólica que mais gosto é a cerveja e por esta razão sempre fui atrás de descobrir novos sabores com as cervejas gourmets”, explica o diretor de arte. A coleção conta com 250 tampinhas de várias marcas e diferentes rótulos.
Da mesma forma que pai iniciou a coleção de bolachas de chope, Grillo herdou parte deste gosto por juntar itens. Para ele, as duas coleções fazem com que ambos estejam sempre unidos em diversos momentos. “Sempre estamos comprando umas cervejinhas num happy hour, claro, conseguir uma nova tampinha para a coleção”.
Casos como o de Jeff e Bruno Grillo não são únicos – e se assemelham a muitos outros personagens. A paixão por algum tema sempre foi o pontapé inicial para que colecionadores começassem a guardar itens, e isso varia de gosto para gosto. O estudante Leonardo Oliveira dos Santos, 19, é apaixonado por futebol, prova disso, são os álbuns de figurinhas de Campeonatos Brasileiros, Copas do Mundo e escudos de clubes que ele mantém há dez anos. “O primeiro álbum a fazer parte da coleção foi o do Campeonato Brasileiro 2003”, conta o jovem, morador de Sertãozinho. “Os da Copa do Mundo de 1958 e Escudos dos Maiores clubes do Mundo ganhei de herança de um tio”.
Já a paixão pelas micaretas fez com que o engenheiro agrônomo Matheus Maziero iniciasse uma coleção um tanto excêntrica. “Comecei a colecionar abadás desde 2004, quando fui ao meu primeiro show da Ivete Sangalo em São Paulo”, diz. Aos 24 anos, ele possui uma média de 40 abadás que conseguiu colecionar desde aquela primeira micareta. Maziero explica que o motivo é simples: cada abadá representa um momento. “Existe a emoção de cada show, a alegria, o som, a voz, a música, a magia de toda a festa que a micareta consegue transmitir”.
Algumas coleções são montadas aos poucos, item por item, sempre almejadas com esforço e muita paciência. Isso faz com que alguns colecionadores aguardem tempo indeterminado para adquirir um objeto, tanto que algumas levam anos para ganhar, de fato, tal denominação. Foi o que aconteceu com a coleção de Roberto Coelho dos Santos Jr.
Admirador da marca estadunidense Coca-Cola, Santos Jr. possui uma estante recheada com, aproximadamente, 650 itens do refrigerante, que vão de latas e garrafas até brinquedos, bonés, relógios e demais acessórios. Na casa do bibliotecário de 51 anos, a coleção é fonte de grande orgulho. “Em 2002, a Coca-Cola lançou uma série especial comemorativa, onde as latas vinham decoradas com fotos do Pelé. Eram latas maiores”, relembra. “Sobre a minha mesa de trabalho havia ficado uma lata dessas. Fiquei olhando e analisando o produto”.
Foi a partir de então que ele começou a colecionar tudo o que envolvesse a marca. O bibliotecário explica que grande parte do componente foi presente de amigos e parentes. “Minha afetividade não é exclusiva com o produto, mas com o poder da marca”, revela.
Já a coleção de folhas de fichário de Murilo César de Oliveira Silva, 23, resume uma lembrança da escola que ele preferiu guardar. “Lembro com muito carinho de cada folha, de quem eu pedi e quem foi o amigo que me deu”, conta o estudante de Enfermagem, morador de Taquaritinga.
Silva mantém em casa cerca de 200 papéis entre cores e desenhos variados, que coleciona desde 2001. O interesse pelas folhas começou na 5ª série do Ensino Fundamental, refletido na admiração pelos blocos de folhas de fichário que fez enorme sucesso na época. “Juntei até a 8ª série, quando estacionei minha coleção”.
Enquanto muitos colecionadores, aos poucos, montam coleções, há também quem investe pesado nelas. No caso do advogado Luiz Edmundo Janini, 30 anos, a coleção de cartas de ‘Magic: The Gathering?’ (jogo de cartas conhecido também como MTG) recebeu um pomposo investimento monetário ao longo de 12 anos. “Acredito ter investido até hoje cerca R$ 4 mil em minha coleção, e que a mesma, hoje, tenha um valor entre R$ 7 mil e R$ 8 mil”.
As cartas que compõem a coleção do advogado são de um jogo de RPG de estratégia, onde cada jogador monta um baralho com as cartas que possui. Além de o jogo ser um hobby, as estampas das cartas chamaram a atenção de Janini, o que fez com que ele montasse uma coleção composta hoje por 3 mil cartas. “Minha coleção é parte de minha história e também um hobby que valorizo muito”, finaliza.
Depoimentos como os anteriores retratam a diversidade de gostos entre as pessoas, mas que em suma, estão ligadas pelo mesmo ideal: a paixão por colecionar. Em 2003, o historiador alemão Philip Blom, autor do livro ‘Ter e Manter – Uma História Íntima de Colecionadores e Coleções’, afirmou em entrevista à revista ÉPOCA que os colecionadores foram os primeiros enciclopedistas, sendo estes uns ‘loucos de paixão’.
O fato de querer ter, conhecer e amar o acúmulo de objetos acabou por influenciar a Arte e a Ciência. Porém, não há uma data certa na linha da História Humana que explique quando e como o homem começou a colecionar; a teoria mais aceita se vale aos homens pré-históricos que guardavam objetos que poderiam ter um uso posterior.
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Texto: Fernando Belezine (Colaborador)
Fotos: Ibraim Leão, Julio Sian e arquivo pessoal dos colecionadores