Com alma à brasileira

Com alma à brasileira

Maestrina ucraniana Viktoriia Ratsiuk leva bos imagens do Brasil


Um dos clichês mais famosos em relação à música remete à sua universalidade, sua capacidade de se fazer entender e sentir nas mais longínquas e diferentes culturas por onde soarem seus acordes. Mas, se tomarem como base as lições aprendidas pela regente e diretora de cena ucraniana, Viktoriia Ratsiuk, que chegou a Ribeirão Preto em julho deste ano, as pessoas chegarão à conclusão de que a alegria e a leveza também podem se tornar universais, capazes de conquistar e contaminar até os nativos de nações cujas histórias narram um cotidiano de guerras e de rivalidades.

Nascida em 1970, Viktoriia construiu uma bela carreira a partir de 1995: é professora e assessora científica da Academia Nacional de Música Piotr Ilich Tchaikovsky, da Ucrânia, formada em Regência Coral, Regência Orquestral e Direção de Cena. Muito atuante, já se apresentou em palcos na Ucrânia, na Rússia, na Alemanha, na Dinamarca, na Grécia, na Polônia e na Hungria. Organizadora da audição em seu país de origem para a Competição Vocal Internacional “Neue Stimmen”, na Alemanha, seus pupilos já se destacaram em grandes palcos operísticos pelo mundo.

Convidada pela Associação Musical de Ribeirão Preto a reger a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (OSRP), a maestrina procurou, com a ajuda da Internet, conhecer e estudar a política, a economia e a música brasileira, erudita e popular. Até então, o que conhecia do Brasil, além da famosa máxima “país das novelas, do carnaval e do futebol”, eram os nomes de Carlos Gomes e de Villa-Lobos, cuja importância transforma suas obras em objetos de estudo na Europa. “Mesmo estando lá, queria sentir a musicalidade do país. Depois que cheguei ao Brasil, queria demonstrar no primeiro concerto ao lado da OSRP, além de compositores russos e austríacos, alguma peça brasileira”, conta.

Isso ocorreu no dia 19 de julho, no Theatro Pedro II: juntos, executaram um repertório que incluía Tchaikovsky, Rossini, Glinka, Strauss e o brasileiríssimo Carlos Gomes, com sua “Lo Schiavo Alvorada”. Para reger a obra na terra natal do compositor, Viktoriia decidiu experimentá-la, no sentido literal. “Tenho um segredo: depois de decidido o repertório, eu levantava, aqui no Brasil, às 6h para ver a alvorada, imaginando como seria a música”, confidencia, acrescentando que ficou muito feliz durante a apresentação da série “Juventude tem Concerto”, projeto da Associação Musical destinado à formação de público, quando percebeu a harmonia e o entendimento do público em relação ao que quis demonstrar com a execução da peça de Carlos Gomes.

Da mesma forma que fez com a música, antes de reger no Theatro Pedro II decidiu conhecê-lo, o que transformou a plateia da famosa casa de ópera ribeirãopretana no primeiro ângulo conhecido pela regente.  “Assisti a um concerto. O Theatro tem uma acústica excelente e o ambiente, especialmente a plateia, é muito aconchegante, faz a gente se sentir acolhida, em casa”, afirma.

Como regente e diretora cênica, conheceu toda a Europa e vários teatros do mundo. Mesmo com as preciosidades em ouro e os afrescos que tornam esses redutos artísticos tão especiais naquele continente, Viktoriia diferencia o Theatro Pedro II pela aura de aconchego, uma característica fundamental para o público: na Europa, as pessoas deixam de ir ao teatro por não terem roupas apropriadas. “Aqui, a gente vê pessoas muito simples indo ao teatro, querendo conhecer a música, não se preocupando se estão ou não com a vestimenta adequada à ocasião. Essa comunicação entre público e orquestra é muito importante. Senti tal ligação nas minhas costas, enquanto conduzia o concerto, pela respiração da plateia”, conta a maestrina.

Aliás, a regente experimentou o acolhimento do público já no momento em que chegou ao Theatro para sua apresentação, “uma proximidade muito agradável”. Mesmo durante a primeira parte do espetáculo, começou a sentir a energia vinda da plateia, uma sensação que se intensificou na segunda parte do programa, quando o espetáculo ganhou um estilo mais teatral, e as diversas reações do público a diferentes peças tornaram-se evidentes.

Já em relação à própria experiência, a maestrina descobriu que há diferença entre reger uma orquestra brasileira e uma orquestra europeia, não em função das barreiras linguísticas e culturais, especificamente, mas das diferentes políticas e histórias dos países. O passado de países europeus como a Ucrânia guarda um histórico milenar de mortes e guerras. Por isso, o povo daquela região, quando executa as obras, deixa transparecer na música uma dor. No Brasil, a maestrina não sentiu essa mágoa, esse peso dos instrumentistas na execução das peças. “O que vejo é o sol, as pessoas felizes. Às vezes, tenho vontade de perguntar aos músicos daqui se eles choram. Eles conseguem interpretar a música dramática, mas não com a mesma intensidade do europeu”, pondera a regente.  

Para os músicos da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, o contato com a regente ucraniana tornou-se sinônimo de aprendizado. “Viktoriia é hiperativa, tem muitas ideias interessantes e demonstrou interesse em desenvolver um trabalho novo. Ela nos mostrou algo que até então não tínhamos tido a oportunidade de conhecer”, afirma o spalla da OSRP, Denis Usov. Conforme o presidente da Associação Musical de Ribeirão Preto, Cyrilo Luciano Gomes, apesar de breve, o período de convivência entre a maestrina ucraniana e os músicos da Orquestra está tendo um resultado muito positivo. “Os músicos experimentaram o contato com outra cultura e com outras visões da arte musical, o que sempre traz um proveito extraordinário”, pondera.

Viktóriia já conhecia a orquestra ribeirãopretana graças aos vídeos de apresentações que Denis postou no Youtube. Ao ouvi-los, sentiu que os músicos eram mais abertos, mais felizes e menos travados que os europeus, e isso a atraiu. “Estava ansiosa para trabalhar com essa orquestra, pois gostei dela. Quando, enfim, fiquei frente a frente com o grupo, a primeira coisa que fiz foi olhar nos olhos dos músicos e não me decepcionei, porque seus olhos mostravam interesse em trabalhar, em executar as obras. Naquele momento, senti que o trabalho daria certo”, ressalta a maestrina.

Quanto à qualidade musical, Viktoriia ressalta que concorda com duas frases do regente italiano Arturo Toscanini: a primeira diz que não existem orquestras ruins, mas maestros ruins; a segunda afirma que a orquestra executa o programa como o maestro o ouve e, por consequência, responde à forma do maestro fazer música. Para ela, a OSRP é ideal nesse sentido, pois reage muito bem à expectativa de quem a conduz.

O fato é que, ao conhecer Ribeirão Preto, a maestrina descobriu que a visita poderia render muito mais do que aprendizado e experiência musical: recém-chegada a uma cidade ainda envolvida pelo clima e pelo entusiasmo da Copa do Mundo, Viktoriia deparou-se com um povo de peito aberto à naturalidade, ao ufanismo e à paixão, uma característica que a seduziu e a conquistou. “Vi todas as emoções, o calor do brasileiro, o povo com as cores do Brasil e me senti junto com esse povo. Aprendi a assistir ao jogo de futebol na TV por causa dos amigos brasileiros. Em alguns momentos, até me esqueci de que era ucraniana”, relata Viktoriia.

Entusiasmada, a maestrina destaca as impressões que está absorvendo do Brasil, a surpresa positiva em relação às pessoas — para ela, “abertas, felizes e verdadeiras” — e a descoberta de um dos lados negativos: com olhar estrangeiro, de quem está habituada a grandes prédios abertos, surpreendeu-se ao ver as casas por trás de grades e cercas elétricas. Quando soube que isso ocorria em função da violência e da criminalidade, a primeira ideia que teve foi juntar todos os bandidos e começar a educá-los por meio da música — pena que não terá tempo de testar este projeto, pois retornará à Ucrânia em 19 de agosto.

Apesar disso, a visão que Viktoriia tem levado aos amigos e seguidores através do Facebook prova que retornará à Ucrânia com mais impressões boas do que ruins sobre o país. “Natureza e pessoas maravilhosas, comida extremamente gostosa,  música popular muito interessante, um povo curioso que quer aprender mais, sempre se educando e progredindo”, lista a maestrina. Como se pode perceber, muitos adjetivos foram acrescentados à ideia original da regente sobre o Brasil, que se resumia a novelas, carnaval e futebol.

A visitante ilustre retornará ao país de origem com gosto de quero mais. Segundo ela, voltaria para cá com o maior prazer se fosse novamente convidada. “Fiquei viciada com o que aprendi no Brasil. É como se fosse outra vida: uma antes de conhecer o país e outra agora, após o desembarque. A vida é uma só e passa muito rápido. Estou muito feliz em viver essa segunda vida que aprendi a ter aqui”, acrescenta.

Ela se refere ao fato de os brasileiros externarem suas emoções, tê-las à flor da pele, exprimi-las com transparência e clareza, saber receber e cumprimentar efusivamente, com o calor do beijo ou do abraço.  “Acostumei tanto com isso que não sei como vou fazer quando voltar à Ucrânia. Por isso, não tenho dúvida de que a alma brasileira, essa energia e esse espírito, é o que de mais precioso vou levar na minha bagagem”, conclui.

MAIS TEATRAL

Diante da primeira experiência com o público ribeirãopretano, Viktoriia decidiu, em conjunto com a diretoria da Associação Musical, realizar o segundo concerto de outra maneira: mais voltado a um espetáculo do que a uma audição. A intenção da regente é também dar oportunidade a estrelas locais, cantores líricos como a mezzo-soprano Cristina Modé, as sopranos Juliana Starling e Carla Barreto e o barítono Wladimyr de Carvalho.

Outra novidade no espetáculo dos dias 16 e 17 de agosto, respectivamente, às 20h e às 10h30, no Theatro Pedro II, será a participação do presidente da Associação Musical de Ribeirão Preto, Cyrilo Luciano Gomes, que já se apresentou em vários eventos eruditos como tenor. Segundo a maestrina, essa participação é significativa.

“Como presidente de uma associação artística, é importante que viva as situações relacionadas à OSRP para entender o que os músicos e o maestro passam durante um concerto. É preciso que sinta, como nós, as emoções, as alegrias e as tristezas”, afirma. O Coro da Escola de Canto Coral da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto fará parte do concerto e interpretará textos em russo. Para tanto, está sendo preparado pela regente Snizhana Drahan. “A Snizhana está desenvolvendo um ótimo trabalho. Na apresentação, além de cantar, terão que atuar. Pelos ensaios que temos realizado, acho que estão gostando da experiência”, ressalta Viktoriia. 

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Ibraim Leão 

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