Comandar para educar
Segundo especialistas, os pais têm que ter o controle da casa nas mãos se quiserem formar crianças cidadãs e saudáveis
Some à falta de tempo a culpa por não poder estar mais presente ou por estar cansado e não ter tanta disposição para dar a atenção devida aos filhos, a inexperiência e a dúvida em relação a como educar diante de uma sociedade que caminha à velocidade da net, formando pequenos sabe-tudo, que parecem estar sempre à frente dos pais, com uma questão desconcertante na ponta da língua, com a qual nem sempre é confortável lidar e terá, ao fim dessa equação, pais perdidos, inseguros e crianças cheias de si, sem norte nem limites.
Diante desse cenário, educar se tornou um grande desafio. Birras infindáveis, um embate incessante e enervante de forças, imposição dos próprios desejos, incapacidade de respeitar a vontade e os limites do outro são comportamentos infantis que desafiam o bom-senso e a paciência dos pais. Até que, em dado momento, percebem que sozinhos não estão conseguindo lidar com a situação.
A pequena Elizabeth (para preservar as famílias, os nomes dos pais e das crianças são fictícios) tem cinco anos, mas desde os dois se comporta de forma bastante impositiva, tem dificuldade em seguir regras, gosta de fazer as coisas à sua maneira, uma forma de agir que se tornou um ponto de conflito e de desgaste na relação com a mãe, Mariângela, uma empresária de 29 anos.
Para uma mãe preocupada em preparar a filha para a vida, é frustrante não conseguir fazê-la entender a necessidade de seguir certas regras. Como já estava tendo dificuldades em colocar limites em casa, Mariângela decidiu conversar na escola e a professora da menina relatou o mesmo problema: que Elizabeth sai muito da sala, não se concentra na lição, fica observando a dos colegas e quer jogar conforme suas próprias regras. Foi quando a diretora indicou uma especialista. “Achei que seria bom para o desenvolvimento dela e para a nossa relação”, conta a empresária.
Para Mariângela, parte do comportamento de Elizabeth é uma característica da personalidade, uma tendência natural à liderança e ao centro das atenções, características positivas quando bem trabalhadas. “Porém, por ser filha e neta única, e por eu ter me separado quando ela era muito pequena, acabamos cedendo, muitas vezes, às vontades dela. Para facilitar a rotina, para diminuir os atritos cotidianos, alargamos os limites, e ela se acostumou com isso”, explica a mãe, cuja relação com a filha acaba se desgastando, deixando-a cansada e sem paciência antes mesmo de iniciar a conversa com a filha.
Agora que iniciou o tratamento, está otimista quanto à relação entre elas. “Espero que minha filha exercite mais a obediência, entenda a necessidade de seguir algumas regras, de respeitar os limites e a autoridade dos adultos. Também espero que eu, com as orientações da terapeuta, consiga ajudá-la a desenvolver as melhores características e educá-la para ser uma mulher confiante, segura, feliz, melhor enquanto ser humano”, ressalta Mariângela, com a esperança de que possam aproveitar mais os momentos em que estiverem juntas.
A empresária Gabrielle, 35 anos, é casada há 10 anos e tem dois filhos, entre eles, a pequena Paula, uma menina de personalidade forte. “O que mais incomodava era uma criança de três anos querer as coisas do jeito dela”, conta a mãe, explicando que, diferente do que era antigamente, as crianças de hoje enfrentam os adultos, têm a resposta na ponta da língua, querem saber o porquê de tudo e são tratadas como adultos. “Eu fiz muito isso com ela: dava explicação de tudo, parecia que ela era a mãe. Totalmente errado”, conta Gabrielle.
Há um ano e meio em tratamento, a mãe de Paula já observou uma grande mudança: sua filha hoje ouve e respeita mais, está mais humilde, carinhosa, obediente, o que facilitou a convivência. “Recomendo aos pais que têm problemas com seus filhos que procurem um especialista. No meu caso, foi excelente. A convivência é superbacana e tenho certeza de que quando a Paula estiver maior, vai me agradecer por essa decisão”, comenta a empresária, que foi orientada a procurar ajuda pela coordenadora da escola.
Muitos pais acreditam que o problema de seus filhos seja passageiro, mas, na visão de Gabrielle, o mundo de hoje torna as crianças cada vez mais exigentes em relação a presentes, roupas e calçados de marca, amadurecendo-as prematuramente, inclusive em relação à sexualidade, que é despertada antes da hora, pela TV, um prato cheio de cenas e assuntos impróprios para o público infantil.
A empresária ressalta que é muito difícil saber que a maioria dos problemas dos filhos vem dos pais. “Todos os dias, tento me controlar e me policio para não fazê-los sofrer. Sempre fui uma mãe brava, quando tenho que ser, dou palmadas, chamo a atenção e me privo de várias coisas para não prejudicá-los, mas também sento no chão para brincar, assisto aos filmes, vou ao cinema com eles, conto história e, ainda assim, aprendi que tenho muito a aprender”, reconhece Gabrielle.
Assim como a empresária, o engenheiro agrônomo Carlos chegou à conclusão de que precisava de ajuda para lidar com o filho, Paulo. Adotado quando tinha um ano, junto da irmãzinha, um ano mais velha, o menino que inicialmente apresentava problemas de interação, com o tempo, começou a expressar seus desejos e a mostrar irritação quando não era atendido. Segundo o engenheiro, como ele e a esposa eram pais de primeira viagem, tinham dificuldade em definir quando deveriam responder afirmativa ou negativamente aos desejos da criança. “Eu me sentia muito mal com a situação. Voltar para casa era mais estressante do que o trabalho. Enfim, um problema que parecia não ter fim. O que mais incomodava eram as birras e o fato de Paulo usar a flexibilidade maior do pai contra a menor da mãe”, esclarece Carlos.
De um lado, o engenheiro achava que a esposa era muito intolerante; de outro, ela pensava que ele estragava as crianças. Carlos relata que foi essa divergência que os induziu a procurar um especialista. “Queríamos um juiz ou árbitro. Como eu ficava muito tempo longe deles, quando estava perto, acabava sendo muito flexível e os tirava da rotina e do processo de educação que a mãe conduzia. Isso criava atrito entre mim e ela. Eu ficava com a parte boa da relação, era o legal, e a mãe acabava ficando com o papel da chata. Na verdade, quem apresentava problemas éramos nós, em boa parte do tempo. Tínhamos opiniões diferentes do que podia e não podia”, explica o pai do menino.
Conforme a advogada Eliana, ex-esposa de Carlos, os problemas de comportamento começaram a surgir em torno dos quatro anos. “Ele não obedecia regras, desafiava o tempo todo e eu me sentia impotente, sem saber o que fazer”, comenta, observando que, para ela, foram os traumas passados por Paulo antes da adoção que originaram o problema. Com o tratamento, os pais entenderam que mesmo tendo opiniões diferentes sobre determinadas situações, as crianças precisavam de uma decisão que fosse seguida por ambos e que o mérito dessa decisão deveria ser discutido entre eles, a portas fechadas, e modificada em conjunto, quando necessário.
Com o tratamento, Paulo começou a perceber que sua insistência não mudaria a decisão dos pais. “Creio que aprender a dosar o castigo seja o aprendizado mais difícil para os pais. Exceto em casos de agressão física, mesmo que sua esposa ou marido esteja exagerando em um castigo, punição ou chamada de atenção, não discorde na frente do seu filho. Dê apoio e discuta a situação em outra hora, bem longe das crianças. Uma divergência entre os pais é pior que o eventual exagero”, acrescenta Carlos, destacando que procurar ajuda não é demérito para os pais, mas um ato corajoso de ir ao encontro da solução de um problema.
Hoje, aos 14 anos, Paulo já aprendeu que sua insistência não mudará a decisão dos pais. “Ele ficou menos agressivo e passou a se controlar mais”, analisa Eliana. Para Carlos, houve um ganho substancial na relação: “Ele e a irmã são bem próximos de nós, são muito carinhosos. Hoje, conseguimos conversar melhor e eles conseguem compreender com mais facilidade nossas decisões”, explica o pai.
A IMPORTÂNCIA DA PARCERIA
A orientadora educacional na Educação Infantil e Ensino Fundamental I do Colégio Auxiliadora de Ribeirão Preto, Gislaine Cristina Silva Fernandes, tem 19 anos de experiência na área da educação. De acordo com ela, a necessidade em se manter no domínio das situações, a dificuldade em ceder, ouvir orientações, aceitar dividir com os colegas, a intolerância a possíveis frustrações e atitudes agressivas podem caracterizar dificuldades importantes de convivência em grupo. “A consequência é a falta de limites ou de disciplina que acarretará, se não trabalhada, em dificuldade em construir vínculos duradouros e estáveis, birras, isolamento e baixa autoestima”, explica a orientadora.
Segundo Gislaine, para ajudar os pais na difícil missão de educar, a escola precisa conhecer a dinâmica familiar do aluno, observá-lo em grupo e individualmente e estar sempre em contato com os pais para informá-los sobre o comportamento e reações de seus filhos frente aos desafios e frustrações que o convívio em grupo produz. “É preciso orientar os pais sobre como reagir para que família e escola falem a mesma língua, pois as crianças precisam, pedem regras e uma disciplina eficaz na hora de aplicar limites é o mais importante na formação da criança. Assim, ela saberá exatamente o que se espera dela, conseguindo entender que o motivo da regra, muitas vezes, é prevenir situações perigosas para si e para outros. Assim, ela se sentirá mais disposta em cumpri-la”, esclarece a pedagoga.
Gislaine trabalha diretamente no atendimento e na orientação aos pais, acompanha de perto os alunos em seus grupos e percebe que as famílias têm demonstrado a preocupação em procurar escolas que incorporem em sua filosofia valores éticos e cristãos, visando ao apoio na formação integral de seus filhos. “Os pais têm percebido que determinar limite na fase de formação do individuo é fundamental para ostentar um relacionamento estável na família e, posteriormente, na sociedade. A nossa escola trabalha em conjunto com a família para que ela perceba que o limite é um fator fundamental para a saúde mental da criança e do futuro adulto”, assegura a educadora.
Para obter êxito, os professores da escola participam da Formação Salesiana, que objetiva desenvolver o Sistema Preventivo de Dom Bosco, ou seja, os prepara para olhar além do aluno dentro do ambiente escolar e que possam perceber possíveis alterações no comportamento, trabalhar na prevenção dos conflitos, promovendo a cultura da paz por meio do diálogo, da escuta ativa e da firmeza carinhosa, uma característica do colégio na inserção de regras e de limites no processo escolar. “Essas ações definem o que chamamos de regras do ouro para uma boa convivência”, conta Gislaine, argumentando que é imprescindível nesse processo mostrar à criança que a desaprovação está relacionada ao seu comportamento e não a ela.
Um dos desafios enfrentados por quem lida com a educação de crianças é neutralizar a lacuna que tende a se formar entre a família e a escola. A criança que não possui uma disciplina regular dentro de casa, não só provoca a impaciência nos pais, mas apresenta dificuldade em seguir regras em outros contextos, portanto, é fundamental que os pais vejam a escola como sua aliada e que escutem os relatos e as orientações dela advindos. A relação de cumplicidade entre família e escola proporciona a formação de um indivíduo capaz de refletir sobre seus valores, diretos, deveres e obrigações, primeiramente, na família e, posteriormente, na sociedade. Quanto maior a congruência de ideias e ideais, melhor o desenvolvimento da criança em sua totalidade.
FORMANDO SERES HUMANOS
O comportamento impositivo, assim como outras tendências, pode ser inato, mas a educação, se conduzida de forma inadequada, pode reforçar a formação de pequenos ditadores. Conforme Dâmaris Simon Camelo Borges, mestre em psicologia e doutora em psicologia escolar e do desenvolvimento humano e coautora da obra ”Alfabetização e Valores Humanos - Um Método para o Ensino de Habilidades Sociais”, o parâmetro norteador de uma relação é o direito do outro. “Se a criança entra em uma sala de televisão, faz a família mudar o canal e a família cede, o que está se dizendo a ela em termos de atitudes é: ok, só você tem direitos, você manda!”, destaca a especialista.
Assim como a intolerância se aprende, sobretudo, pelo exemplo, a frustração e a falta de limites estão relacionadas à permissividade: pais muito condescendentes dão espaço a filhos sem limites e frustrados. “Pode parecer um paradoxo, mas é assim que funciona. A criança sem limites tem que tomar decisões por si mesma o tempo todo e ainda não tem maturidade nem experiência suficientes para isso. Então, ela se ressente da falta de balizas para nortear o seu comportamento”, verifica Dâmaris, ressalvando que que essas condições nem sempre são determinantes, mas que os filhos são altamente influenciados pelas atitudes dos pais.
A pedagoga lembra que nem sempre a vida será condescendente à semelhança dos pais, o que pode acarretar, futuramente, consultórios de psicólogos e psiquiatras lotados de pessoas frustradas, insatisfeitas, e de jovens em constante confronto com a justiça por estarem acostumados a fazer valer a sua vontade acima de qualquer regra. Dâmaris aponta que é preciso se questionar se a maneira como as crianças estão crescendo e aprendendo a se relacionar com o mundo será capaz de ajudá-las a manter um emprego ou um relacionamento afetivo saudável. “Quando satisfazemos os desejos das crianças, nem sempre estamos fazendo um bem a ela. Se começarmos a pensar que, às vezes, um não é saudável e vai fazer nossos filhos mais felizes e realizados, nós conseguiremos modificar o nosso modo de educar”, acrescenta.
O lugar da criança é o mundo e ela precisa aprender a esperar, saber que não vai ter tudo o que quer sempre e a incorporar as regras básicas de convívio. “Não acredito em castigos físicos. Eles amedrontam e intimidam, mas não educam. A criança continua a pensar e agir do mesmo jeito, desde que tenha certeza de que não será punida, ou vai se tornar um adulto intimidado. O pedido de desculpas mostra ao outro que você o considera uma pessoa de respeito, é importante, mas, não resolve. A questão é saber o que será feito para que a situação não se repita. Reparar o dano causado ao outro é uma ação educativa efetiva”, argumenta a pedagoga.
Educar alguém é ter consciência que se tem à frente um ser integral que pensa, sente e tem que ser responsabilizado desde a mais tenra idade por suas ações. Se o adulto não ensinar, a criança não vai aprender, e ela precisa querer realizar a ação e ser capaz de autorregular as próprias emoções para conseguir se dominar e realizar o que for necessário. A resposta a essa sociedade que está próxima de ser regulada pela “lei das selvas”, onde o que prevalece é a vontade daquele que pode mais, seja economicamente, politicamente ou agressivamente, é a educação. Conforme Dâmaris, se não estamos satisfeitos com esse tipo de vida, temos que mudá-lo e a melhor forma é educar seres humanos que cresçam aprendendo a respeitar o próximo, sem perder de vista os próprios direitos.
COM AS RÉDEAS DA CASA
Os adultos de hoje não estão permitindo que as crianças lidem com frustrações, estão incentivando seus filhos a pensarem que têm que ter destaque sempre, um pensamento muito perigoso para um mundo onde nem sempre é possível brilhar. Ao primeiro sinal de menos luz, o resultado pode ser adolescentes à beira da depressão porque os pais não permitiram que seus filhos perdessem ou que fossem menos, nem mesmo em alguns momentos.
Conforme Denise Dias, terapeuta infantil, autora dos livros “Tapa na Bunda” e “Filhos Perdidos” e colunista de revistas e rádio, há uma grande diferença entre autoridade e autoritarismo: lares muito rígidos, onde a criança não tem voz e sua vontade nunca é respeitada, passam à criança a ideia de que limite equivale a medo, a pavor, não a respeito. Em contrapartida, quando há flexibilidade com os desejos e necessidades da criança, diariamente, ela entende o que é limite com afeto, amor, cuidado e preocupação, o que não quer dizer largar as rédeas da casa. “Quando a criança se impõe demasiadamente e percebe que de forma agressiva não tem seu desejo atendido, começa a entender que não vale a pena. Isso faz com que, automática e inconscientemente, ela se acalme, mude o modo de se comunicar e de expressar seus desejos”, explica a terapeuta infantil.
Passar por uma punição quando necessário, ter que se desculpar com alguém que ela feriu, com ofensa ou com agressão física, faz parte de um processo positivo, saudável e equilibrado de educação. “Se até nós passamos por castigos quando agimos de forma inadequada, por que as crianças que são projetos de gente, estão em formação de caráter e de personalidade, não vão passar por eles? É importante que isso ocorra durante a estruturação de valores, de humanização e conscientização sobre os limites a serem seguidos, sobre as figuras de autoridade e o ambiente social familiar”, esclarece Denise.
A especialista ressalta que a escola ensina e a família educa e que os pais de hoje depositando na escola toda a responsabilidade pela educação e pela estruturação de valores da criança, sendo que valores e respeito em relação à figura de hierarquia vêm de dentro de casa. “O papel principal na educação de uma criança, de fazê-la enxergar que há um comportamento padrão dentro de uma sociedade, primordialmente, é dos pais, e não da escola”, esclarece Denise, ressaltando que, atualmente, sobretudo nas escolas de classe média alta, há uma tendência de os pais argumentarem que pagam pela escola e não permitem que a instituição puna seus filhos.
A criança passa a acreditar que os pais vão protegê-la de tudo e impedir que o mundo a condene por algo. Quando as crianças não conseguem elaborar as perdas porque não sabem lidar com nãos, geralmente, a culpa é dos pais, segundo a terapeuta infantil. Denise ressalta que é imprescindível à boa formação que a família opte por uma instituição de ensino com valores condizentes com os que ela prega dentro de casa e que esteja aberta a intervenções que a escola, muitas vezes, precisa fazer para o benefício do futuro cidadão. “Os pais não devem se esquecer de que são os grandes dentro de casa, que eles é que mandam. Quando é cuidada por um adulto seguro do que fala, a criança cresce se sentido amada porque ele sabe pegar as rédeas nas mãos e educá-la. Não existe essa igualdade utópica e ilusória de que pai e mãe são iguais aos filhos. Esse pensamento é o que está causando essa disfunção familiar na nossa sociedade. No dia que pais e mães se colocarem como tais, os filhos se colocarão como filhos e a sociedade entrará mais no eixo”, conclui.
Texto: Carla Mimessi
Fotos: Julio Sian e Ibraim Leão
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