Combate à apneia do sono
Otorrinolaringologista coordenador de procedimento inédito em Ribeirão Preto para combater a Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono, Gabriel Santos de Freitas detalha ação realizada na Santa Casa
A Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) é uma doença crônica e evolutiva com alta taxa de morbidade e mortalidade, podendo atingir de 3% a 7% da população mundial. Quem sofre com essa síndrome tem a qualidade de vida e a saúde comprometidas de diferentes formas, apresentando grande variedade de sintomas, como ronco (90% dos casos), sonolência diurna excessiva, irritabilidade, dor de cabeça, impotência sexual e queda do rendimento intelectual. O fato de o ar parar de fluir para as vias aéreas, mesmo que temporariamente, provoca uma privação de oxigênio no organismo, o que sobrecarrega o Sistema Nervoso Central e eleva os riscos de Hipertensão Arterial Sistêmica, Acidente Vascular Cerebral (AVC) e Infarto Agudo do Miocárdio.
Apneias e hipopneias são caracterizadas, respectivamente, pela parada e pela redução da passagem de ar pelas vias aéreas superiores (VAS), com duração mínima de 10 segundos, ocorrendo várias vezes — e exclusivamente durante o sono.
No caso da SAOS, a obtenção de um histórico completo e preciso é, muitas vezes problemático, em razão da ocorrência noturna dos sinais da síndrome, sendo, muitas vezes, percebidos somente por algum acompanhante.
Aliado a tais dificuldades, vários métodos de avaliação subjetiva foram desenvolvidos na tentativa de elucidar o diagnóstico da SAOS, contribuindo, de fato, com a avaliação da polissonografia hospitalar e ambulatorial.
Existem várias medidas que ajudam a minimizar esse problema: redução de peso associada à atividade física, dormir de lado, colocar bolinhas de tênis nas costas, tratar o refluxo e as doenças nasais — como a rinite alérgica e a sinusite — e diminuir o uso de medicamentos indutores de sono e relaxantes musculares são algumas delas. Há, também, protocolos específicos, para diferentes graus de apneia e para roncadores primários (aquele que ronca, porém não apresenta a síndrome). Os tratamentos incluem terapias fonoaudiológicas, dilatadores nasais, implantes palatais, dispositivos intraorais, linguais, ou o que por muito tempo foi o principal tratamento, o uso de pressão positiva contínua, feito com um equipamento conhecido como CPAP. No entanto, quando o diagnóstico apontar uma questão anatômica como origem ou como agente potencializador do transtorno, o que acontece na maioria das vezes, a indicação é cirúrgica.
Recentemente, a Santa Casa de Ribeirão Preto realizou um procedimento até então inédito na cidade, associando a técnica de faringoplastia latero-expansiva com a glossectomia de linha média com coblation, uma ablação controlada, para o combate à apneia do sono. O otorrinolaringologista Gabriel Santos de Freitas (CRM: 162.963), especialista em Medicina do Sono e Cirurgia Crânio-Maxilo-Facial, coordenou a ação e, na entrevista a seguir, detalha melhor como funciona esse tipo de intervenção.
De que maneira esse método cirúrgico contribui para acabar com a apneia do sono?
A faringoplastia lateral-expansiva é uma técnica cirúrgica que combina dois procedimentos distintos e amplamente disseminados pelo mundo: a faringoplastia lateral e a expansiva. Essa abordagem modifica as funções dos músculos da garganta, diminuindo o colapso da via aérea superior e combatendo a apneia do sono. Nesse caso específico, associamos, ainda, a glossectomia, que é a cirurgia de base de língua, com a tecnologia coblation, que envolve a criação e a aplicação de um campo de energia chamado ‘plasma de descarga luminosa’. Esse plasma é produzido por uma corrente que flui entre eletrodos bipolares espaçados. A corrente forma um campo de energia de alta densidade que vaporiza rapidamente uma fina camada de líquido condutor (solução salina ou solução de lactato de Ringer) na superfície do eletrodo em um plasma de descarga luminosa de íons e de elétrons. Os dispositivos estabelecem uma camada de partículas reativas que, por meio de um processo químico, interrompem as ligações moleculares orgânicas no tecido alvo, resultando na remoção volumétrica de tecido precisa, com danos mínimos ao tecido saudável adjacente.
Existem publicações científicas sobre o assunto?
Existem inúmeros estudos e artigos sobre o tema em revistas especializadas. O último texto que tive a oportunidade de escrever, com meu mentor e professor José Antonio Pinto, foi ‘Lateral-Expansion Pharyngoplasty: Combined Technique for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea Syndrome’, publicado na International Archives of Otorhinolaryngology 2020. Entre as divulgações mais importantes que abordam o assunto, destaco a ‘Innovative technique for lingual tonsillectomy and midline posterior glossectomy for obstructive sleep apnea – 2007’. Escrito por Tucker Woodson MD, esse trabalho inicia a ideia de cirurgia de base de língua com coblation. O futuro da cirurgia de apneia do sono está avançando. Hoje em dia, já realizamos cirurgias com neuroestimuladores e operamos com auxílio de robôs. Cada vez mais temos novas tecnologias para melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Como definir as áreas que serão trabalhadas durante o procedimento?
Iniciamos a avaliação no consultório, onde o paciente responde a questionários de avaliação subjetiva do sono, voltados à tentativa de elucidar o diagnóstico da SAOS, contribuindo, de fato, com a avaliação da polissonografia hospitalar e ambulatorial. Questionários de autoavaliação podem fornecer dados subjetivos em relação à intensidade de sonolência diurna. Após esse passo, seguimos ao exame físico completo, onde é avaliado desde o peso, altura, circunferência cervical e abdominal. O paciente é submetido à Nasofibrolaringoscopia específica para determinar o local da obstrução na via aérea superior. Já no centro cirúrgico, minutos antes da cirurgia, é realizada a sonoendoscopia, um exame feito sob sedação padronizada, capaz de reproduzir o relaxamento muscular que ocorre durante o sono e esse exame é comparado com as análises e exames anteriores, sendo reproduzido com muito mais fidedignidade do que somente no consultório. Com a utilização de uma pequena câmera introduzida pelo nariz, é possível avaliar tanto a vibração quanto a obstrução da passagem de ar e, com base nessas informações, traçamos uma estratégia personalizada para cada paciente.
A operação realizada na Santa Casa é pioneira em Ribeirão Preto?
Sim. Na cidade de São Paulo, esses procedimentos já são uma realidade há algum tempo, porém, com certas variações técnicas. Por estar em um serviço de referência em medicina do sono, realizei por aproximadamente quatro anos tais procedimentos e nada mais justo do que trazer para um centro de referência como Ribeirão Preto o que há de mais moderno no tratamento da SAOS. No último semestre, conduzi três procedimentos inéditos na cidade e na região, todos realizados na Santa Casa, com melhora expressiva na qualidade de vida dos pacientes.
Quais são os diferenciais desse método em relação aos protocolos convencionais?
Baixo risco de sangramento, mais segurança, melhora na cicatrização, redução das complicações pós-operatórias, menor tempo de recuperação e melhora dos índices de apnéia quando comparados ao tratamento convencional.
Qual o tempo de recuperação?
A média de recuperação é de dez dias, porém esse tempo varia de acordo com cada paciente, com o limiar de dor e com a qualidade da cicatrização de cada indivíduo em questão. Notadamente, é uma cirurgia extremamente personalizada e única.
Quais são os benefícios da cirurgia para pacientes portadores da Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono?
Os benefícios vão desde a redução ou cessação do ronco e da apneia até um aumento da qualidade de vida, reduzindo problemas cardiovasculares e metabólicos. Costumo dizer aos pacientes que, após o procedimento, eles ganham vários anos de vida, o que é comprovado na bibliografia mundial.
O custo para a realização do procedimento é mais alto que dos convencionais?
Por ser uma tecnologia nova, com uso de material especial, o valor é um pouco mais elevado do que o convencional.
Há previsão de novas cirurgias?
Sim. Já tenho alguns procedimentos agendados para os próximos meses, na Santa Casa de Ribeirão Preto.