Combate à desnutrição
Desenvolvido em Ribeirão Preto através de estudos de zootecnia, nutrição e saúde, o leite funcional fornecerá uma quantidade maior de nutrientes
Pesquisadores do Polo Centro Leste da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (APTA) e da Universidade de São Paulo (USP-RP) trabalham em parceria num programa de pesquisa entitulado “Leite Funcional”.
Desenvolvido em Ribeirão Preto através de estudos de zootecnia, nutrição e saúde humana, o leite funcional fornecerá uma quantidade maior de nutrientes ao consumidor. O resultado é fruto de uma suplementação de óleo vegetal, selênio e vitamína E à dieta dos bovinos leiteiros.
Segundo José Roberto Scarpellini, diretor do Polo Centro Leste - APTA, a adição direta de suplementos no leite é mais fácil, no entanto a popolução tem optado cada vez mais por alimentos naturais ou orgânicos. “É neste nicho que se encaixa o leite funcional”, explica.
O primeiro experimento com o leite funcional foi realizado no final de 2009, na Fazenda Experimental de Zootecnia do Polo Centro Leste, com apoio e financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapesp). O rebanho foi alimentado com uma dieta adicionada de óleo vegetal, selênio e vitamina E. “O óleo vegetal foi incluído para alterar o perfil dos ácidos graxos do leite a fim de que ele contivesse gordura mais saudável para o nosso organismo”, explica a pesquisadora Márcia Saladini Salles, uma das autoras do projeto.
O leite funcional obtido através do primeiro experimento foi consumido por crianças do ensino integral público da cidade de Casa Branca (SP), que tiveram o crescimento e parâmetros bioquímicos no sangue avaliados e foram verificados aumentos nas concentrações de selênio e vitamina E no sangue das mesmas. Scarpellini friza que os estudos foram autorizados pelos pais das crianças.
A segunda fase do trabalho testou o leite em 130 idosos da Casa do Vovô e da Amizade de Ribeirão Preto, com início em setembro de 2012 e término em dezembro do mesmo ano. Os testes em idosos na Casa do Vovô foram coordenados por Karina Pfrimer, pesquisadora do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e a condução animal, processamento do leite e envio ao local para teste foi de responsabilidade da pesquisadora Dra. Márcia Saladini Salles.
Scarpellini revela que a saúde das crianças e dos idosos que consumiram o leite está sendo avaliada. “Os resultados das pesquisas serão publicados e encaminhados ao governo, discutidos com municípios, no sentido de se utilizar o leite na dieta das crianças. Incluir na merenda escolar seria uma boa opção”, afirma o diretor.
Benefícios
Segundo José Roberto Scarpellini o desenvolvimento do projeto do Leite Funcional beneficiará toda a rede produtiva leiteira. A começar pelos animais, que terão a possibilidade de melhorar o sistema imunológico e diminuir a incidência de doenças, como a mastite (inflamação da glândula mamária). O produtor rural terá um leite de melhor qualidade e de maior valor agregado. Para os processadores e distribuidores da cadeia de produção, será gerada a oportunidade de vender um produto diferenciado. E para os consumidores, o benefício de consumir um produto mais nutritivo e saudável.
Embora os estudos estejam em fase avançada, e com uma parceria com a Cooperativa Nacional Agro Industrial (COONAI), fornecedora de leite do programa estatal Viva-leite, Scarpellini afirma que “ainda não há uma produção comercial que utilize o método”.
Alimentos bioforticados
A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) também tem produzido alimentos enriquecidos de micronutrientes. Conhecidos como Alimentos Biofortificados.
Diferente do leite funcional, os alimentos biofortificados são conseguidos através de um processo chamado melhoramento genético convencional, que consiste em um cruzamento de plantas da mesma espécie, gerando cultivares mais nutritivas.
Alimentos como o feijão, mandioca, batata-doce e arroz foram enriquecidos de micronutrientes. O feijão, por exemplo, teve a quantidade de ferro aumentada de 50g para 90g, a mandioca foi enriquecida com o antioxidante betacaroteno, que antes do enriquecimento era encontrado numa quantidade de 9mg e após o processo ficou com 1g, o mesmo vale para a batata-doce, que saltou de 10mg/g para 115mg/g de betacaroteno. O arroz teve o elemento zinco aumentado e passou a conter 18mg, antes do processo de enriquecimento o produto possuía 12mg de zinco.
Marília Nutti, pesquisadora da Embrapa Agroindústria de Alimentos e líder da rede BioFORT, ressalta que os alimentos já estão sendo implantados nos estados do Piaui, Maranhão, Sergipe, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Goiás, Rio Grande do Sul e Paraná.
Destinados, inicialmente, à agricultura familiar e merenda escolar, a estimativa é que até 2014 15 mil famílias possam cultivar estes alimentos. A pesquisadora conta ainda que existem compromissos firmados com prefeituras nos munícipios de Itaguaí e Rio da Ostras no Estado do Rio de Janeiro, Juiz de Fora e Ubá em Minas e Alegre no Espirito Santo. Além de outros municípios que estão em processo de avaliação, para que os alimentos possam ser introduzidos na merenda escolar.
Marília Nutti acredita que os alimentos biofortificados devem se tornar uma tendência, pois é uma medida que utiliza a agricultura para combater o problema da nutrição e da saúde no país. “É uma alternativa saudável e sustável para o combate à deficiência de micronutrientes”, conclui.
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Texto: Bruno Silva
Fotos: Divulgação