Combate às varizes
Mudanças de hábitos e tratamentos médicos ajudam a minimizar os efeitos negativos provocados pela deformação das veias dos membros inferiores e suas complicações
Muitas pessoas encaram as varizes como um simples incômodo, algo que compromete o visual das pernas e prejudica a autoestima. No entanto, essas veias dilatadas e tortuosas são um indício de que algo não está funcionando como deveria no sistema circulatório. A Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), inclusive, elaborou uma campanha de conscientização para orientar a população sobre o problema, que pode ser mais sério do que se imagina e vai além da questão estética. É uma doença crônica, que impacta a saúde do indivíduo e, portanto, precisa ser avaliada e tratada por um médico especialista.
Segundo estatísticas da mesma instituição, cerca de 38% dos adultos sofrem com as varizes. Na faixa etária dos 70 anos, 70% têm algum grau do quadro conhecido por insuficiência venosa crônica. Apesar da alta prevalência, ainda existem diversas dúvidas em relação ao tema. Na entrevista a seguir, o cirurgião vascular Wagner Ferreira explica quais são as principais causas e os sintomas desse distúrbio. Formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), com especialização no exterior e mais de 40 anos de atuação na área, o especialista também enfatiza a importância do diagnóstico precoce para evitar possíveis complicações e discorre sobre as opções de tratamento.
O que são varizes?
As varizes são veias superficiais anormais e dilatadas nas pernas. O processo inicia com pequenos vasos, chamados de teleangiectasias. Geralmente, surgem no período dos primeiros ciclos menstruais, mas, em casos raros, são vistas ainda na infância. A presença delas indica uma alteração funcional da circulação venosa do organismo, ou seja, mostra que o sangue não está seguindo o curso esperado no caminho de volta para o coração. Se pensarmos na anatomia, com uma pessoa em pé, é possível observar: o sangue das artérias flui do coração para as extremidades e o sangue das veias flui das extremidades para o coração. Para vencer a força da gravidade, as veias dos membros inferiores contam com as válvulas e com o empuxo da musculatura da panturrilha, “o coração das pernas”. Essas válvulas podem apresentar desgastes, o que faz com que o sangue não seja totalmente impulsionado ou, então, que retorne e acabe se acumulando em certos pontos, dando origem às varizes. A partir desse ponto, começa uma reação em cadeia, fazendo com que várias válvulas se deteriorem e mais sangue se concentre, desencadeando problemas como manchas, trombos, embolias e feridas.
Como diferenciá-las dos vasinhos?
Os vasinhos são o início do processo. Nessa fase, o prejuízo é mais estético, mas, com o passar do tempo, tende a evoluir, provocando alterações que levam ao aparecimento de varizes maiores e de suas consequências.
Quais são as principais causas?
Vários fatores são predisponentes. A genética é um deles. Algumas pessoas têm uma tendência maior a desenvolver alterações na estrutura do colágeno da parede do vaso. Essa condição é ativada por genes que são transmitidos aos filhos, passando de geração em geração. A idade também influencia. À medida que envelhecemos, as veias perdem a elasticidade e o sistema de válvulas enfraquece, o que eleva o risco de sofrer com deformações características das varizes. Por conta da intensa variação hormonal, as mulheres são mais suscetíveis. Além disso, a questão postural/profissional deve ser considerada. Funções que demandam que o indivíduo fique horas em pé ou sentado, sem mobilidade, contribuem para o surgimento do problema. Outras causas são o sedentarismo, pelo enfraquecimento da musculatura, e a obesidade. A falta de atividade física favorece o ganho de peso e esses quilos extras sobrecarregam os vasos responsáveis por transportar o sangue das pernas de volta ao coração. O tabagismo e o consumo de álcool não estão diretamente relacionados à questão, mas, de modo geral, são hábitos que favorecem a piora do quadro, principalmente com a ocorrência maior de eventuais trombos.
Existem alguns mitos associados à doença?
Sim. Não há, por exemplo, nenhuma indicação de que o uso de salto alto ou de calças apertadas atrapalhe o funcionamento dos ductos sanguíneos. Estudos chegaram a investigar se a depilação causava algum tipo de impacto e não encontraram nenhuma evidência. O costume de ficar com as pernas cruzadas também já foi apontado, erroneamente, como um estímulo para o aparecimento das varizes.
Além da evidência visual, esse problema se manifesta de alguma outra forma?
O aspecto visual é significativo, pois gera uma diminuição da autoestima. A pessoa chega a modificar as vestimentas para esconder o problema e esse descontentamento com o corpo acaba motivando outros descuidos, como uma alimentação desregrada e o sedentarismo. No entanto, antes das varizes se tornarem perceptíveis, os pacientes relatam sintomas como cansaço e peso nas pernas, especialmente no fim do dia. Posteriormente, a doença se manifesta por meio de manchas verdes ou roxas, que se expandem aos poucos. Pode provocar, ainda, dor, inchaço, coceira e uma sensação de queimação. Com o passar do tempo, as varizes pioram e o sangue “parado” dentro delas pode coagular, o que desencadeia um quadro de tromboflebites. Se esses trombos atingirem veias mais profundas, causam a trombose venosa profunda. Em casos raros, felizmente, deslocam-se para o pulmão, levando a uma embolia pulmonar.
O inchaço, ou edema, pode ter outras causas?
Sim. O edema está relacionado a diversas causas, como problemas cardíacos, de tireoide, de anemia e postural. Existem situações menos recorrentes, como a compressão de veias dentro do abdome, que pode originar um edema de perna. Nesses casos, corrigimos a disfunção colocando um stent para abrir a veia, permitindo que o sangue flua livremente.
Se houver algum indício que desperte preocupação, como a pessoa deve proceder para obter o diagnóstico?
A doença começa antes dos sintomas aparecerem, então, é importante procurar um especialista o mais cedo possível. Hoje em dia, com a evolução da tecnologia e da Medicina, temos à disposição um enorme arsenal de diagnóstico. Durante a própria consulta, com uma análise clínica, já conseguimos identificar o problema. Utilizamos exames complementares, como o ultrassom, e recorremos a outros tipos de equipamentos, com ênfase nos que usam raios infravermelhos e realidade aumentada, para detectar mínimas alterações e danos internos. Com essas informações, o tratamento fica mais acurado, o que contribui para alcançar excelentes resultados.
Atualmente, quais são as opções de tratamento?
As intervenções para acabar com as varizes também evoluíram. Em certos quadros, a solução é cirúrgica. Por meio de pequenas incisões na pele, os vasos que estão doentes são extraídos. A intervenção pode ter complicações como edema, cicatrizes e lesões de nervos ou linfáticos. As alternativas menos invasivas são as técnicas de ablação por laser, radiofrequência e cola. Essa última ainda não foi aprovada no Brasil, apresenta resultados piores que o laser e deixa um resíduo no local que pode ser incomodo e inestético. Vale ressaltar que os métodos minimamente invasivos não exigem repouso. No mesmo dia do procedimento, o paciente pode caminhar e, no dia seguinte, retomar as atividades normalmente. Outra conduta terapêutica envolve a aplicação de uma substância com aspecto de espuma densa diretamente nas regiões afetadas. Esse tratamento traz riscos como manchas, alergias, flebites — que são inflamações das veias provocadas pela formação de coágulos de sangue — e tromboses. Já existem casos em que esse recurso, mal empregado, levou até a embolia pulmonar. Portanto, a indicação médica deve ser precisa, em casos bem selecionados e onde não há preocupação estética. O emprego indiscriminado e por profissionais não habilitados está gerando consequências perigosas.
O tratamento é doloroso?
Atualmente, o tratamento não é doloroso. O procedimento para as veias maiores é feito com anestesia local sob sedação ou sob anestesia peridural. O pós-operatório também é tranquilo, tanto que os pacientes reassumem as atividades no dia seguinte. O tratamento das teleangiectasias é feito em conjunto. Depois, vem a complementação para acabar com as teleangiectasias que ainda não desapareceram. Usamos um equipamento que abaixa a temperatura da pele, fazendo com que a dor seja muito diminuída e bem tolerada.
Quando não tratadas corretamente, as varizes podem gerar complicações?
Sim. Na fase avançada da doença, os pacientes podem apresentar úlceras varicosas na pele, que são dolorosas e de difícil cicatrização. Flebites, tromboflebites, tromboses e embolias são outros agravantes. O tratamento é longo e, muitas vezes, demanda atenção permanente. Por isso, deve ser feito por especialista com conhecimento e experiência, tanto no diagnóstico, quanto na aplicação das técnicas.
Quem sofre com essa condição tem que ter cuidado redobrado com um voo prolongado?
Sem dúvida. A estase provocada pelas varizes, associada à baixa pressurização da cabine, o espaço estreito entre as poltronas e o longo período do voo, onde o passageiro fica em uma posição sentada por dez até 20 horas, pode estimular a formação de coágulos dentro das veias, levando a uma trombose ou a uma embolia pulmonar. A condição é chamada da Síndrome do Viajante ou Síndrome da Classe Econômica. Quem tem esse problema precisa buscar orientação e passar por uma avaliação médica com antecedência.
Existe alguma maneira de prevenir o surgimento das varizes?
Não. Essa é uma condição hereditária. No entanto, há medidas adotadas no sentido de minimizar os sintomas, como a prática regular de exercícios físicos. Movimentar-se contribui para combater a obesidade. Além disso, fortalecer a panturrilha e os demais músculos, o que é essencial para aprimorar o fluxo sanguíneo. Colocar um calço nos pés da cama para que as pernas fiquem um pouco mais elevadas, ajuda no funcionamento do sistema circulatório para quem tem inchaço ou dificuldade de retorno do sangue. Medicamentos flebotônicos também são aliados. Esses produtos, cuja utilização pede orientação médica, aumentam o tônus dos tubos sanguíneos e têm propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. Há, ainda, a meia elástica de compressão. O uso contínuo da peça — sendo do tipo e com a compressão certos — reduz a dor e o inchaço ao final do dia, apesar de ser difícil usá-la nesse clima tropical. Porém, antes de tudo, o primeiro passo deve ser sempre a consulta com um especialista, já que o checkup vascular, feito periodicamente, possibilita o diagnóstico correto do quadro, seguido pelo tratamento precoce e individualizado.