Comemoração em dose dupla
Prestes a completar mais um ano, Ribeirão Preto se torna “A casa da França” durante a Copa do Mundo

No dia 19 de junho, Ribeirão Preto completa 158 anos. Nesse período, a cidade recebeu diversos títulos que contam um pouco de sua trajetória. “A capital do café”, por conta da prosperidade que a cultura cafeeira alcançou nas terras férteis da região, e “A capital do chope”, pela instalação da Companhia Cervejaria Paulista, em 1910 e, posteriormente, a inauguração da famosa choperia Pinguim, são alguns dos mais significativos. Em seguida vieram “A capital do Açúcar e do Álcool”, quando, após o declínio do café, o cultivo da cana-de-açúcar dominou e alavancou as indústrias, “A Califórnia Brasileira”, no fim da década de 80, época em que o Município passou por uma forte evolução em diversos aspectos que refletiram diretamente na economia, e, mais recentemente, “A Capital Brasileira do Agronegócio”, sediando, inclusive, a maior e mais completa feira de tecnologia agrícola do país, a Agrishow.
Agora, bem próximo de seu aniversário, o Município vive mais um importante momento, que deve conquistar um lugar de destaque nesse histórico. Durante a realização da Copa do Mundo FIFA de Futebol, Ribeirão Preto é “A casa da França”. A escolha da sede foi anunciada em junho de 2013, antes mesmo da equipe garantir sua vaga no Mundial, e reiterada no início de dezembro, logo após o sorteio dos grupos.
A prefeita Dárcy Veraacompanhou de perto todas as tratativas. Ainda no dia 13 de dezembro do ano passado, aproveitou um encontro com o presidente francês, François Hollande, um material informativo sobre o município. Dias antes, uma comissão francesa já havia estado na cidade para acertar detalhes para a instalação da delegação francesa por aqui. “Sempre acreditamos que Ribeirão Preto poderia receber uma seleção como a da França”, afirmou a prefeita.
Segundo os dirigentes da Federação Francesa de Futebol (FFF), a localização estratégica da cidade e a infraestrutura oferecida foram os fatores determinantes para a decisão. “A delegação francesa foi rigorosa em seus critérios de avaliação. Por isso, ficamos honrados e orgulhosos quando eles nos notificaram que ficariam aqui. Também tivemos sondagens de outros interessados, como Coreia do Sul, Suécia, Bélgica, Honduras e Suíça. Isso mostra que somos capazes de promover grandes eventos de padrão internacional”, comenta o secretário de Turismo, Tanielson Campos.
Para acolher os “Les Bleus” durante a Copa, os jornalistas e os turistas, público que deve girar em torno de 15 a 20 mil pessoas — de acordo com as estimativas da Prefeitura —, Ribeirão Preto passou por uma série de aprimoramentos. “Essa passagem deixa legados benéficos. Tanto a FIFA quanto a FFF investiram em melhorias que ficarão para a cidade, como a sinalização das vias e a modernização do Estádio Santa Cruz. Notamos, ainda, o crescimento e o fortalecimento de vários setores, como hotelaria, bares, restaurantes e serviços em geral. As vagas de emprego aumentaram, assim como a capacitação dos profissionais, gerando renda e desenvolvimento para a população”, revela Tanielson.
Depois de tantos preparativos, a Seleção Francesa finalmente chegou no dia 9 de junho. A apresentação oficial aconteceu no dia 10. O técnico, Didier Deschamps, e os jogadores fizeram um treino aberto e concederam uma coletiva de imprensa. O clima de entusiasmo com os atletas e com a cultura francesa é visível. Porém, essa admiração vem de longa data. Ribeirão Preto já foi chamada de “Petit Paris”, ou seja, a Pequena Paris, nas primeiras décadas do século 20. O apelido foi motivado, principalmente, por causa da arquitetura do Município.
A pesquisadora Elaine Cristina Caun explica que essa inspiração teve um forte incentivador: Antônio Soares Romêo, que atuou como engenheiro municipal durante a administração dos ex-prefeitos Joaquim Macedo Bittencourt e João Rodrigues Guião. O assunto foi tema da dissertação de mestrado de Elaine, “O Engenheiro Antônio Soares Romêo e a Belle Époque em Ribeirão Preto (1913-1923)”, defendida na Unesp. “Para acompanhar o desenvolvimento da cidade, Antônio buscou novas referências urbanísticas e adotou elementos que eram vistos nos projetos da Cidade Luz”, conta a especialista. Um dos maiores exemplos dessa relação é o Palácio Rio Branco, hoje sede do governo municipal. O prédio foi construído seguindo o modelo do Palácio Campos Elíseos, em São Paulo, que, por sua vez, teve como fontes o Hôtel-de-Ville e a Ópera Garnier, de Paris. Os olhares atentos conseguem enxergar essas influências espalhadas pelas construções até nas obras atuais.
Outro toque francês que está presente no cotidiano dos ribeirãopretanos é o idioma. Há 25 anos, quando inaugurou a Bonjour Paris ao lado de sua esposa, Suraya Philbert Saba,Valter Silva Júnior não imaginava que o interesse da população seria tão significativo. “Na época, atuava como técnico em produção audiovisual na USP. Porém, através do convívio com um grande amigo francês e, especialmente, com a Suraya, que já era professora quando começamos a namorar, acabei me apaixonando por essa cultura deslumbrante. Durante cinco anos, tentei conciliar as duas atividades, mas chegou um momento em que a escola cresceu de forma substancial e exigiu minha atenção completa”, lembra. Ainda segundo Valter, a procura vem se intensificando nos últimos tempos. Devido à globalização, o francês está em alta. Afinal, é uma língua falada nos cinco continentes, em mais de 50 países. O idioma é um enriquecimento pessoal e um diferencial no currículo de qualquer profissional.
A vinda dos “Les Bleus” para Ribeirão Preto colaborou para que essa tendência ganhasse proporções ainda maiores. Mais de 600 pessoas, de áreas distintas, como jornalistas, comerciantes, empresários, taxistas, funcionários de hotéis, policiais, atendentes de shopping centers, entre outros, tiveram a oportunidade de aprender noções básicas de conversação em cursos oferecidos pela Prefeitura de Ribeirão Preto. “A nossa escola também está atendendo a diversas empresas. Isso reflete na autoestima e na qualificação dos colaboradores que, devidamente preparados, geram novos negócios, parcerias e experiências para os empresários”, ressalta Valter. Para o diretor da Bonjour, essa aproximação será muito positiva, não só para os brasileiros. “Os franceses estão em uma cidade muito calorosa e receptiva. Certamente, serão cativados pela simpatia e pela hospitalidade do nosso povo”, finaliza.
Há mais gente empenhada em mostrar para a população de Ribeirão Preto e região o que a França tem de melhor. É o caso de Paula Chateaubriand. Seus laços com o país são de origem familiar. “Minha bisavó era francesa e sua cultura foi passada de geração em geração. Quando fui a Paris pela primeira vez, tive uma identificação indescritível. A cidade é deslumbrante nos mínimos detalhes: as ruas, as vitrines, o povo em si e sua forma de falar, de se vestir, de aproveitar cada momento. Morei lá por três anos, enquanto finalizava minhas especializações e sempre que posso faço uma nova visita. Ao voltar para o Brasil, decidi trazer um pouco dessa atmosfera para o nosso contexto”, relata a empresária e educadora, que possui amplo domínio sobre a língua e cultura francesa, graduada em História da Arte pela Universidade Sorbonne de Paris. E foi assim que, há dois anos, surgiu o L’atelier.
O espaço escola conta com uma proposta diferenciada: permitir que crianças e adolescentes tenham novas experiências pedagógicas, de acordo com o estilo de vida típico dessa nação europeia. “Os conceitos são apresentados gradativamente, respeitando o tempo de cada um, em aulas divertidas. Nada é imposto. Aos poucos, os alunos vão se familiarizando com o idioma e com os costumes estrangeiros enquanto cozinham, escutam música, leem e brincam. Nosso objetivo é que eles aprendam de uma maneira natural e prazerosa. É um estímulo para que as crianças expandam seus limites intelectuais e sociais. Os resultados são incríveis”, afirma Paula.
Não se pode falar sobre a França sem citar a sua famosa gastronomia. Requinte e sofisticação fazem das refeições um verdadeiro espetáculo, conquistando até para os paladares mais exigentes. Katharine Gonçalves Fiorotto foi até lá para conferir tudo de perto. “Esse é o país que mais influenciou a culinária e a sua transformação ao longo dos séculos. Desenvolveu uma excelência na área realmente incomparável, com técnicas de preparação revolucionárias. O alimento é valorizado, degustado, tratado como uma espécie de obra de arte. O comércio é bem segmentado: uma loja vende queijo, a outra peixe, outra frutas e verduras, e assim por diante. Isso garante o frescor dos ingredientes e, consequentemente, a qualidade dos pratos”, revela Katharine. Por isso, ao decidir que queria ser uma chef confeiteira, ela foi buscar conhecimento em Paris.
Formada pela renomada Le Cordon Bleu, a confeiteira está à frente da La Sucreria. No local, encontra-se um cardápio variado, com delícias características de dar água na boca, como o mil-folhas, o ópera, os tartelletes e os macarons. “Temos uma clientela fiel, que viaja bastante e sabe o que é bom. Com certeza vale a pena provar os sabores e desfrutar de tudo mais o que a cultura francesa tem a oferecer”, conclui Katharine.![]()
Noêmia Klafke se encantou pela língua francesa logo no seu primeiro contato, durante a faculdade. A partir daí, buscou saber mais e se maravilhou com suas descobertas. “A França é fascinante. Cada região tem seu charme, seus hábitos e seus costumes. Sempre que posso, visito os amigos dos tempos em que morei lá. Em todas as oportunidades, sou muito bem recebida. Geralmente, basta falar que sou brasileira para conquistar um sorriso. Eles adoram nosso país e gostam de conversar sobre futebol, carnaval, política, clima, praias, etc”, revela. A identificação foi tão intensa que Noêmia decidiu transformar a paixão em profissão. Ela trabalha como tradutora e professora de francês, ajudando a disseminar essa rica cultura. A notícia da vinda dos “Les Bleus” para a cidade durante a Copa do Mundo foi recebida com comemoração. “A França já tem uma presença forte aqui, como uma fonte de inspiração. Podemos notar isso na fachada de prédios, no nome de lojas e nos pratos que recheiam os cardápios de vários restaurantes”, enfatiza. Para quem quiser estabelecer uma comunicação com os estrangeiros e desempenhar a função de bom anfitrião, Noêmia dá algumas valiosas dicas.

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A população se preparou e deu as boas vindas aos visitantes. Do outro lado do Oceano Atlântico, a recíproca é verdadeira. Anualmente, diversos brasileiros desembarcam em terras francesas, seja para turismo, para negócios ou para estudos e são muito bem recepcionados. Gustavo Martelli Palomino, por exemplo, saiu de Ribeirão Preto em setembro de 2010 com destino a Paris. O biólogo foi contemplado com uma bolsa de pós-graduação pelo Programa Capes-Cofecub. Ao chegar, porém, a primeira impressão não foi a esperada. “Foi uma situação atípica. Uma amiga me buscou no Aeroporto e fomos até a estação pegar o trem que leva ao centro da cidade. Na época, havia uma tensão no ar, pois o senado estava aprovando leis que limitavam o uso da burca em locais públicos, para a segurança de civis. Isso gerou uma revolta, principalmente dos muçulmanos extremistas. O risco de um atentado terrorista era iminente. Bem naquele dia, uma mochila foi deixada no trem. Os militares, usando armamentos pesados, impediam o embarque. Vi que estava entrando em uma realidade muito diferente da de Ribeirão Preto”, comenta. Depois do susto, aos poucos, Paris revelou seu charme. Gustavo aponta a vida cultural agitada, com shows, espetáculos, óperas, teatros e museus, para todos os estilos, como um dos pontos fortes. “Estamos falando de uma metrópole com séculos de história, que reúne uma miscelânea de povos”, enfatiza. Os parques também receberam elogios, assim como o transporte público e a temperatura amena. Ao encerrar o doutorado, pela Universidade Paris Diderot, ele retornou para casa em fevereiro de 2012, mas por pouco tempo. Em outubro de 2013, estava na França, novamente para aproveitar uma oportunidade de crescimento profissional. A estimativa é ficar por lá mais dois anos, realizando um trabalho de pós-doutorado pelo programa do Governo Ciências sem Fronteiras. Gustavo sente falta das pessoas que deixou aqui e da alegria dos seus compatriotas. Sobre essa vinda dos “Les Bleus”, vê o intercâmbio com bons olhos. “A troca de cultura entre os países é sensacional, mas nem tudo o que vem de fora é melhor. Temos o infeliz hábito de incorporar tudo o que nos chega. É preciso aprender a valorizar nossa própria história”, encerra.
Texto: Paula Zuliani
Fotos capa: Carolina Alves
Produção de moda: Marcela Versiani e Mel Cândido
Estagiária de produção: Julia Verzola
Modelo: Vitor Galo (dotmarketing.com.br – tel.: 16 3446.5742)
Agradecimento: Uniforme da França (A Esportiva – www.aesportiva.com.br – tel.: 16. 3623.4721)