Como é bom brincar
Em homenagem à infância e Dia das Crianças, um trio de adultos entra na brincadeira, literalmente, revisitando o passado e trazendo à tona sua criança interior para destacar a importância de brincar
Atire a primeira pedra o adulto que nunca pensou como era bom ser criança; ou, então, a pessoa que não tenha desejado, vez ou outra, voltar no tempo e ser criança mais uma vez, podendo brincar sem grandes preocupações, a não ser se divertir. Pelo menos por um momento, essa volta ao passado foi possível para Alexandre Balbo, o Alê, Luiz Puntel e Maria Rosa Sciubba, a Rosinha, que aceitaram prontamente o convite da Revide para retomar as brincadeiras da infância, compartilhar suas memórias e comentar a importância dessa fase para o seu desenvolvimento.
Descontraído e devidamente paramentado — de bermuda, camiseta e boné —, com um ioiô recém-adquirido em mãos, Puntel chegou para a foto todo cheio de pose e alegria. “Tio, tio, é aqui que faz foto?”, brincou. A sessão foi rápida, tamanha a espontaneidade do garoto. O professor e escritor parece não crescer — no bom sentido, claro. Pertence ao seleto grupo das pessoas que experimentam a maturidade e as responsabilidades da vida adulta sem perder a alegria, a ternura e a imaginação. “Na minha infância, uma latinha de sardinha vazia, mais um taco e um prego virava, rapidamente, uma pá-carregadeira, assim como um pedaço de madeira se transformava no Chevrolet 39 de papai”, relembra Puntel.
Veja o making-off da produção da capa da Revide especial de Dia das Crianças:
No seu tempo de criança, antes da chegada da televisão, as brincadeiras mais comuns aconteciam na rua: pula-sela, boca de forno (também conhecida como “seu mestre mandou”), pique-esconde ou bétis, garrafão, futebol e peão. Também havia ioiô, que elevava o jogador mais habilidoso a um patamar superior. Nos jogos, relembra Puntel, havia a mesma disputa que há no mundo dos adultos. Para as crianças, o importante era ganhar, vencer e até blefar, se fosse necessário.
Em cada modalidade, havia sempre um que se destacava e conquistava a consideração do grupo. Um jogava bola melhor e fazia mais gols; o outro era bom com o taco de bétis, mandava a bola para bem longe, marcando mais pontos; um terceiro conseguia tirar mais peões do círculo, enchendo os bolsos de peças. Havia, ainda, aquele que não tinha medo de subir no galho mais alto da mangueira e o mais veloz no jogo do garrafão, que eliminava mais concorrentes. “Ao brincar, principalmente em jogos de grupo, a criança e o adolescente têm a oportunidade de socializar, de saber perder, de respeitar o outro, entre tantas ações que vão delineando o desenvolvimento humano. Como diz Machado de Assis, citando o poeta Wordsworth, ‘o menino é o pai do homem’. Ou seja, é na infância que modelamos o caráter que teremos quando adultos. As brincadeiras e os jogos são parte importante desse desenvolvimento”, afirma o professor.
Das lições da vida, as da infância também podem ser bastante duras. “No futebol e nas brincadeiras de correria, não era difícil alguém deixar uma lasca do pé, ter um dedão machucado em um chute bem dado em uma das saliências do paralelepípedo”, diverte-se em contar o escritor. Sem dúvida, um, entre tantos bons exemplos que as crianças podem dar, é que, ainda que correndo o risco de se machucar, elas nunca deixam de brincar.
Tal qual a namorada do Chico Bento, personagem da Turma da Mônica, a Rosinha da vida real também gostava muito de brincar. Adorava pular “amarelinha” e jogar “três marias”, os saquinhos de tecido recheados de arroz. Nos fins de tarde, a “queimada” ou “guerra” faziam a alegria das crianças da vizinhança. “Passa Anel”, “o dono da rua”, “balança-caixão” e jogos de tabuleiro também coloriram a sua infância. Até hoje, Rosinha conserva a alegria de brincar. Sorridente e divertida, foi, inclusive, dela mesma a ideia de se caracterizar. Conservar a meninice: eis ai uma bela forma de se eternizar. “Lembro da alegria de conviver com os amigos e conhecer novos colegas. Quando terminava a tarefa de casa, era um oásis sair para brincar. Voltava exausta, querendo dormir, só pensando em continuar a farra no dia seguinte. Fazíamos campeonatos e saíamos vendendo convites para os pais nos assistirem jogar queimada. Cobrávamos cinco palitos de fósforo de cada um”, recorda animada.
Para a empresária, esse período da vida, onde as crianças vivenciam a fase da socialização, de autoconhecimento e de conhecimento do outro, constitui o primeiro momento de firmarem suas opiniões e se preparar para se tornarem adultos mais seguros. A brincadeira e o convívio são bastante significativos nesse processo e a esses estímulos Rosinha atribui grande parte da criatividade de que se utiliza no trabalho. “Com os jogos on-line, as crianças perderam o contato presencial das brincadeiras. Com ele, foi-se também o encantamento e a emoção da convivência. Tenho a impressão de que sentem receio de se expor. Brincar é um exercício que todas as famílias devem fazer pensando em contribuir para que seus pequenos sejam adultos mais seguros e preparados para a vida”, define.
Outros tempos
Alê Balbo sabe bem o que isso significa. Os brinquedos eletrônicos entraram em sua vida por volta dos 15 anos — Tele-jogo, Odessy e Atari 2600, com os jogos preferidos Pitfal, River Raid e Enduro —, mas, antes disso, ainda pôde experimentar andar de bicicleta, skate e carrinho de rolimã livremente pelas ruas de Ribeirão Preto. “Eram momentos tranquilos, sem as paranoias que vivemos hoje em relação à segurança. A molecada toda se reunia à tarde e aos finais de semana nas praças dos bairros. Muitas histórias da minha infância estão ligadas à Brandani, primeira pista de bicicross da cidade. Foram muitas pedaladas até lá, pois morava do outro lado da cidade. Nesse trajeto, sempre parávamos para tomar Baré ou Guaraná de Maça em um bar da Lagoinha”, recorda.
Com os filhos, a história foi diferente. Os computadores e videogames já haviam invadido e dominado boa parte das diversões. As ruas, também, já estavam começando a se tornar perigosas e as praças já não eram tão iluminadas, seguras e com os jardins bem tratados de antigamente. O jeito foi improvisar. “Sempre estive muito perto dos meus filhos e inventava várias brincadeiras para animar a noitada antes de dormir, como futebol de bichos, jogo da memória, probleminhas, entre outros”, comenta o empresário.
Para Alê, brincadeiras e diversão são também excelentes ferramentas para alcançar objetivos. “As pessoas estão mais intolerantes, mais nervosas e estressadas. Vejo muitos pais sem paciência com os filhos, colocando interesses próprios em primeiro plano, sem perceber que brincar, parar por alguns momentos, permite clarear a visão para conseguir alcançar o que se deseja”, afirma. O empresário acredita que uma das formas de o ser humano aprender e se desenvolver é brincando, de forma divertida, vivenciando um mundo lúdico e de fantasia.
De acordo com a psicanalista Guiomar Papa de Morais, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, Alê está certo, pois quanto mais diferenciados os estímulos que a criança recebe, mais possibilidades de desenvolvimento e expansão ela poderá ter. “Muitos fatores definem a personalidade. Eu diria que as características individuais precocemente definidas determinam as preferências por brincadeiras e jogos. O bom para o desenvolvimento é fazer um pouco de cada tipo de brincadeira, respeitando as preferências e a indicação para cada faixa etária”, afirma Guiomar.
Como explica a psicanalista, o ser humano é um ente simbólico. Do homem das cavernas ao ser ultratecnológico da atualidade, seu desenvolvimento é a expressão desta capacidade simbólica, para o bem ou para o mal, sendo esse o grande diferencial que tem garantido sua sobrevivência como espécie. “A capacidade simbólica é inata, deve ser desenvolvida, o que decorre da qualidade de interação com o ambiente, o que determinará o desenvolvimento intelectual, emocional e a adaptação como um todo”, ressalta Guiomar.
Ainda segundo a profissional, o melhor que uma criança pode receber é um ambiente que se dispõe a se relacionar com ela, não apenas cumprir mecanicamente as tarefas dos cuidados próprios de cada idade. As possibilidades de estímulo decorrem desta relação diferenciada e o brincar surge como uma atividade espontânea, acompanhando as condições do momento e as etapas do desenvolvimento. “Pouco importa se um bebê tem uma colher de pau para segurar, bater no chão ou um chocalho caro e sofisticado. O que importa para a criança é estar cercada de gente que a acompanhe, disposta a interagir com ela de forma criativa e lúdica, proporcionando ainda, com essa interação, uma referência de limite e de realidade”, relaciona Guiomar. A psicanalista faz um alerta com relação a tudo o que seja feito de forma exagerada ou desmedida, o que não considera saudável.
Do seu ponto de vista, são necessários cuidados com as brincadeiras e jogos repetitivos, que estimulam pouco a criatividade e o faz de conta, isolam a criança da convivência com a família e a afastam do contato com outras crianças e do contato com a realidade. Nesse contexto, os limites são igualmente essenciais ao desenvolvimento do indivíduo, tanto quanto a brincadeira, porque dessa dualidade surge o equilíbrio necessário à vida adulta. “O oposto do brincar não é o sério, mas sim o real, a realidade”, conclui Guiomar.
Um mundo de possibilidades
Uma entre as muitas alegrias de ser criança está, sem dúvida, em poder brincar e, nesse sentido, as opções são muitas. Há um abecedário de brincadeiras disponível não só para as próprias crianças, mas principalmente para os pais. Afinal, brincar junto fortalece os vínculos afetivos e a relação de confiança.
Pensando em ajudar nessa tarefa, que de árdua não tem nada, além das brincadeiras relembradas por Alê, Puntel e Rosinha, a Revide também convidou o casal Antonio Pedro Junior e Roberta Neves Pedro, que transformou a brincadeira em negócio de família, para contar quais são as atividades preferidas. Entre elas, uma brincadeira comum a ambos, durante a infância, era empinar pipa. “Lembro bem desses momentos. Meu pai comprava todo o material, fazíamos as pipas e depois soltávamos. Eram horas de muita alegria, prazer e divertimento. Cheguei até a participar de um concurso na escola, que ganhei por ter feito a maior pipa”, recorda a empresária.
De geração para geração, Pedro e Roberta seguem a tradição em família, vivenciando novamente esses momentos, mas, agora ao lado dos filhos, Lorenzo e Carolina, que adoram ajudar e ficam encantados quando a pipa fica pronta e vai para o ar. “Acho muito importante os pais participarem das brincadeiras com os filhos, principalmente, para tirá-los um pouco da TV e dos jogos eletrônicos. Brincamos muito com as nossas crianças ao ar livre, vamos aos parques, jogamos bola, pescamos e passeamos no bosque. São momentos relaxantes para nós também, que permitem esquecer de tudo e mergulhar no mundo deles, com brincadeiras e criações. Nada é mais contagiante do que a alegria de uma criança quando brinca junto com os pais”, conclui Junior.
O que acontece quando uma criança brinca
Segundo Guiomar de Morais, baseada em seus trabalhos, Melanie Klein, psicanalista contemporânea de Freud, começou a observar o brincar dos próprios filhos e a atender crianças. Nessa atividade, descobriu que essa ação, para a criança, tem uma importância equivalente ao sonho noturno para os adultos na manutenção e no desenvolvimento da capacidade de simbolizar e pensar. Brincar seria o sonho diurno: a criança não precisa dormir para sonhar, mas quando ela brinca ela sonha e faz muito mais:
• expressa seus desejos e necessidades
• faz tentativas de elaboração de angústias e sofrimentos mentais
• representa situações da realidade externa e interna, exercitando e expressando a própria interpretação de percepções e de vivências
• exercita a função simbólica, à medida que cria, imagina, experimenta, toma contato com o sentir, expandindo a possibilidade de operar com símbolos, que é a matéria-prima para o desenvolvimento da capacidade de pensar — ou seja, encontrar soluções abstratas e elaboradas para problemas reais sejam eles externos ou internos
Fáceis e divertidas
Para resgatar o valor de brincar, este momento sagrado na vida da criança — e importante para os adultos também —, confira algumas dicas
• Bolinha de gude
Bolinhas coloridas, feitas de vidro, são jogadas num circulo feito no chão. O objetivo é bater na bolinha do adversário e tirá-la de dentro do círculo para ganhar pontos ou a própria bola do colega.
• Corre-cotia
A brincadeira é um tipo de pega-pega em forma de ciranda, onde as crianças formam uma roda e uma delas fica de fora, com um lenço na mão, e segue circulando ao ritmo de uma cantiga até o momento em que o lenço é deixado atrás de uma delas; esse novo jogador precisa pegar a outra ou perde o lugar na roda.
• Esconde-esconde
Uma criança permanece de olhos fechados e conta até 10, enquanto as demais se escondem. Após a contagem, essa criança sai em busca das outras e precisa encontrar todos e correr para a base para ganhar a brincadeira.
• Estátua
Os jogadores formam uma roda e cantam uma cantiga. Na hora combinada, todos escolhem uma posição para ficarem estátuas. O mestre começa a provocar e, quem se mexer, sai. Ganha quem for mais resistente, que será o próximo mestre.
• Passa-anel
As crianças são colocadas em roda com as mãos fechadas em forma de concha. Uma delas segura um anel entre as palmas, de modo que as outras não possam ver quando e para quem será passado. Ganha o mais resistente, que será o próximo mestre.
• Pega-pega
Essa brincadeira envolve muita atividade física. Uma criança precisa correr para tocar a outra e ficar livre. A que for tocada passa a ter que correr atrás das outras.
Texto: Yara Racy
Fotos: Júlio Sian e divulgação