Como será amanhã?
Não tão animada ou subjetiva quanto na famosa música cantada por Simone, resposta para a pergunta ainda requer resiliência de Ribeirão Preto, que comemora 165 anos enfrentando a pandemia
Texto: MARINA ARANHA
O maior impacto da Covid-19 em todo o mundo é medido pelo número de vidas perdidas para a doença. Em Ribeirão Preto, até o fechamento desta reportagem, a cidade contabilizava mais de 2,4 mil mortes causadas pelo novo coronavírus desde o início da pandemia, em março de 2020. Viver, que já não era tarefa fácil, ficou ainda mais difícil.
Para quem tem sobrevivido à Covid-19, outros efeitos se abatem: perda de emprego, falta de dinheiro, fome, ansiedade, depressão. Todos esses ingredientes completam a receita de um cenário de tormenta, onde fagulhas viram incêndio e a há pouca esperança. Reerguer-se durante um período crítico como esse requer resiliência em níveis elevados.
É nesse momento que Ribeirão Preto chega aos 165 anos e há quem diga que não existem motivos para comemorar, já que a cidade vive dias de tristeza, com hospitais lotados e economia incerta. Quem guarda um pouco de esperança no bolso, no entanto, consegue ver sinais de superação, mesmo que a longo prazo e totalmente condicionados à vacinação em massa da população.
Até 14 de junho, 92.891 moradores de Ribeirão Preto haviam sido imunizados de forma completa, recebendo as duas doses da vacina contra a Covid-19. O número representa apenas 13% dos 711.825 ribeirãopretanos, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas a notícia recente dada pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), é animadora: segundo calendário previsto para recebimento de imunizantes, toda a população adulta paulista receberá pelo menos a primeira dose até 15 de setembro. Ainda restam três meses, mas já dá para pensar em fazer planos.
Com um olhar otimista — acreditando nos efeitos positivos da vacinação, especialmente a preservação de vidas —, a Revide celebra o aniversário de Ribeirão Preto destacando a resiliência de uma cidade e seus habitantes, que têm sobrevivido aos altos e (muito mais) baixos causados pela pandemia. Comerciantes que tiveram de fechar as portas, trabalhadores demitidos, famílias com fome e empresários endividados equilibrando-se no abre e fecha das atividades econômicas. Milhares de pessoas que, diariamente, buscam a reinvenção — não na conotação romântica que a palavra ganhou na pandemia, mas em sua forma bruta, árdua e intensa.
Nas próximas páginas, a equipe de reportagem da Revide apresenta um panorama do que foi, do que é e do que será Ribeirão Preto diante da Covid-19. Os impactos causados pela pandemia à cidade, em diversas áreas, e os indicadores daquelas que conseguiram se manter ativas e operantes — como o mercado imobiliário e o agronegócio.
No setor da saúde, a importância da retomada dos atendimentos de diversas especialidades, que, segundo os especialistas, jamais deveriam ter sido interrompidos, afinal, apesar do novo coronavírus, outras doenças continuam por aí.
Uma reflexão sobre os tempos atuais e futuros de uma cidade que completa 165 anos frente a desafios, mas sem esmorecer.
ATIVIDADES ECONÔMICAS
Texto: LIDIA MATTOS
A hora da virada


Ribeirão Preto sofre os impactos da Covid-19, mas indicadores já apontam para possível retomada econômica
Após a segunda onda da Covid-19, estados e municípios adotaram novas medidas de restrição para circulação de pessoas e atividades econômicas, seguindo o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), de que ambos poderiam ser mais restritivos que o governo federal.
Dessa forma, seguindo as diretrizes do governo do Estado de São Paulo, que preveem a retomada gradual das atividades econômicas, e após o aumento dos índices de contágio da doença, no dia 27 de maio, a Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto estabeleceu a Fase Emergencial Restritiva, permitindo que os estabelecimentos fizessem o atendimento somente via delivery ou take out.
Essas medidas que proibiam a abertura do comércio de rua, shoppings, supermercados, restaurantes, escolas, circulação de transporte público, entre outros, permaneceriam até o 31, mas a decisão foi prorrogada até 2 de junho. Entre os dias 3 a 6 deste mês, a Prefeitura permitiu que estabelecimentos reabrissem respeitando as restrições do fluxo de pessoas e cuidados de higiene já previstos no decreto.
Entre 7 e 13 de junho, o município passou a seguir o Plano São Paulo de forma integral e, desde o dia 14, as atividades econômicas foram retomadas até as 21h, adequando-se à ocupação máxima de 40% nos estabelecimentos e ao toque de recolher, das 21h às 5h.
Essas restrições afetaram diversos setores econômicos, principalmente os que sofrem mais restrições à própria natureza, como bares, restaurantes e eventos, que dependem da presença de clientes. Segundo o secretário Municipal de Inovação e Desenvolvimento, Eduardo Molina, esses estabelecimentos são a maior preocupação, caso seja necessário mais um lockdown ou a volta da Fase Restritiva. “Não há dados municipais que permitem a plena análise de cada segmento econômico, mas, a partir das informações disponíveis, é possível analisar que a economia está em um processo de recuperação e que diversos setores se adaptaram e encontraram formas de manter seus negócios ativos”, destaca.
Analisando a arrecadação tributária como base do comportamento da economia, observa-se que, em valores nominais, comparando o primeiro quadrimestre do ano com o mesmo período do ano passado (no início da pandemia), houve aumento de 18,98% no repasse da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o que pode indicar retomada do consumo. Também houve crescimento de 13,41% na arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS), refletindo uma recuperação dos serviços especializados formais, além de 39,56% de acréscimo no repasse do Imposto sobre os Produtos Industrializados (IPI), dado alinhado ao bom desempenho geral da indústria.
A expectativa para o futuro é de que as empresas se adaptem ao processo de transição digital, do comércio eletrônico e do home office, aumentando a resiliência a cenários de crise como o causado pela Covid-19. “Acreditamos que há uma grande energia econômica e de consumo represadas, e que quando houver um cenário de normalidade, haverá uma explosão temporária de consumo ligado à retomada do convívio presencial”, conclui Molina.
Depois do prejuízo
Enquanto a retomada não vem, a maior dificuldade experimentada pelo empresário Leandro Souza Bolsoni, proprietário de uma lanchonete em Ribeirão Preto, foi a perda de matéria-prima e de produtos causada pelo fechamento dos estabelecimentos, determinado por decretos municipais. “Depois de uma semana, resolvemos dar férias para os funcionários. Com isso, não ficaram sem receber durante a pandemia, no entanto, infelizmente, dispensamos os colaboradores que estavam em período de experiência”, afirma Leandro, que acredita estar mais preparado caso haja nova necessidade de fechamento das unidades.
Apesar das turbulências, o empresário está otimista. “O retorno do comércio, apesar dos aumentos nos produtos de 30% a 40%, já tem cerca de 70% do movimento. Acredito que, após julho, com maior número de pessoas vacinadas e o retorno das férias escolares, deva melhorar ainda mais”, destaca.
PLANO SÃO PAULO
(14 a 30 de junho)
• Atividades comerciais
Atendimento presencial
entre 6h e 21h
• Atividades religiosas
Atividades presenciais individuais e coletivas
• Restaurantes e similares
Consumo local entre 6h e 21h
• Atividades culturais
Atendimento presencial
entre 6h e 21h
• Academias de esporte
Atendimento presencial
entre 6h e 21h
• Salão de beleza e barbearia
Atendimento presencial
entre 6h e 21h
Recomendações
Até 40% da capacidade de ocupação do estabelecimento
Toque de recolher: 21h às 5h
Teletrabalho para atividades administrativas não-essenciais
Escalonamento do horário de entrada e saída de atividades do comércio, serviços e indústrias
COMÉRCIO e SHOPPINGS
Texto: MARISSA MENDONÇA Fotos: LUAN PORTO
Para fechar a conta
Comércio segue enfrentando desafios para arcar com despesas, manter empregos e permanecer em atividade durante a pandemia

Em números absolutos, Ribeirão Preto está recuperando a força de trabalho, com atual saldo positivo de 1,79% na criação de vagas de emprego. Contudo, o comércio sente os efeitos como setor mais prejudicado pela pandemia de Covid-19, apresentando variação negativa de 0,14% nas oportunidades em 2021, mesmo após datas comemorativas que tradicionalmente movimentam o setor.
Por outro lado, a quantidade de empresas abertas na cidade segue, mês a mês, superior ao número de empresas fechadas, conforme avalia Renan Rocha, economista da Associação Comercial e Industrial (Acirp). Os dados indicam que, de janeiro a abril, Ribeirão Preto registrou 7.062 novos negócios abertos, enquanto 2.349 precisaram fechar as portas. “Desde o início da pandemia, a cidade nunca teve mais empresas fechadas do que empresas abertas, porém, isso não significa que o município não sentiu os impactos da pandemia, somente que, em números absolutos, não foi suficiente para fechar mais empresas do que abrir. Alguns setores sofreram mais: comércio ligado a vestuários, bares e restaurantes, e negócios relacionados a eventos”, pontua Renan.
O presidente da Acirp, Dorival Balbino, afirma que um dos maiores desafios enfrentados pela entidade nesse período tem sido oferecer suporte com informações e conteúdos relevantes e seguros para que o empresário se adaptasse às mudanças fiscais, trabalhistas e sanitárias. “Houve um grande desgaste junto ao poder púbico ao defendermos soluções de urgência máxima, como prorrogação de impostos, flexibilização trabalhista, criação de linhas de crédito especiais, reivindicação de aumento de horários de atendimento a fim de evitar aglomerações e pedidos constantes de fiscalização e de soluções para o transporte coletivo urbano”, afirma Dorival.
Paulo César Garcia Lopes, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto (Sincovarp), compartilha dos desafios enfrentados por Dorival. “Reconhecemos que a situação da Covid-19 é crítica, mas não podemos ficar sem trabalhar. Desde o começo da pandemia, defendemos uma conciliação entre proteger vidas e fazer a roda da economia continuar a girar”, destaca. Paulo, que também é presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas da cidade, ressalta que efeitos como a escassez de crédito emergencial, renegociação de aluguéis, pagamento de impostos e incerteza sobre o cenário econômico foram — e têm sido — comuns.
Na prática
Nathalia Aguiar é proprietária de uma loja de vestuários femininos. Para ela, a fase atual tem sido transformadora, alterando perspectivas e reiterando a necessidade de reinvenção. “Procuro ver as possibilidades e as oportunidades que a pandemia trouxe ao invés de focar nas dificuldades. Dessa forma, estamos conseguindo ganhar espaço no mercado. Como iniciamos a loja justamente nesse período, direcionamos o maior foco para o trabalho on-line, que é onde as pessoas estão mais presentes. Assim, foi possível proporcionar toda a experiência da loja por meio de nosso trabalho nas redes sociais”, conta.
Nathalia ainda afirma que enfrentou dificuldades para estruturar o atendimento. “O principal desafio foi em relação à capacidade de atender à demanda que tínhamos de forma on-line, pois sabíamos que o presencial poderia se abalar com a atual situação, então, tivemos que nos reorganizar e nos preparar cada vez mais para atender no WhatsApp e no Instagram. Na loja física, continuamos prezando por segurança e seguindo todos os protocolos propostos pelo governo, até em relação ao envio de encomendas pelo correio”, ressalta.
Para quem não tem o costume do atendimento on-line, o cenário é ainda mais desafiador. É o caso de Danilo Targa, proprietário de uma cafeteria e lanchonete que fornece coffee-breaks para eventos corporativos e, diariamente, café da manhã e lanche da tarde. A localização do estabelecimento é emblemática: um edifício comercial, onde, na pandemia, muitas empresas aderiram ao home office, afastando os clientes fixos do local. “Neste período, investimos na nossa área de coffee-breaks e no fornecimento diário de café da manhã e lanche da tarde para as empresas, contratando mais um profissional para a equipe e adquirindo um veículo para entregas. Agora, além do atendimento presencial, também temos a possibilidade de estarmos presentes nas empresas da região”, afirma Danilo. Para ele, apenas em 2022 será possível recuperar os prejuízos, de forma gradual, e só então retomar os investimentos para expandir o negócio.
SHOPPINGS
Desde o primeiro decreto que restringia as atividades comerciais em Ribeirão Preto, em março do ano passado, foram cerca de 180 dias de restrição absoluta e mais de 200 dias funcionando com algum tipo de flexibilização de horário ou capacidade.
Nesse período, reforçar a segurança sanitária foi mais do que necessário e se transformou em condição fundamental para que lojas seguissem funcionando. Segundo Vander Giordano, vice-presidente institucional da Multiplan (administradora do RibeirãoShopping e do ShoppingSantaÚrsula em Ribeirão Preto), os centros de compras receberam certificação do Hospital Sírio-Libanês, sendo considerados ambientes seguros e controlados. Ainda assim, a Multiplan continua investindo em equipamentos de proteção individual (EPIs), ampliação dos pontos com álcool em gel, sanitização dos ambientes e na realização de mais de 900 testes de superfície que deram 100% negativos para a presença de vestígios do novo coronavírus em todos os shoppings da rede. “Vale lembrar que, se comparados a outros ambientes, os shoppings possuem corredores mais amplos e pé direito mais alto, e cada loja é um ponto adicional de controle. Após um ano de pandemia, a estrutura pública deveria estar mais preparada para atender a população e a atividade produtiva não deveria ser penalizada por conta disso”, observa Vander.
O vice-presidente institucional da Multiplan acredita que as oportunidades e os encontros gerados nos shoppings não são substituídos pelo relacionamento 100% on-line. Contudo, uma palavra tem sido fundamental para o grupo nesse momento: omnicanalidade. O conceito se refere à integração de todos os canais de contato disponíveis, de modo inter-relacionado. Assim, o cliente pode iniciar a comunicação com a empresa por um canal e finalizá-la por outro. Por isso, pode ser que o drive thru e o contato via WhatsApp permaneçam.
Vander afirma estar otimista para o retorno das atividades e afirma que há a demonstração de uma demanda reprimida por parte dos consumidores, que querem retornar, com segurança, à rotina. “Nossos shoppings já fazem parte do cotidiano das pessoas. No primeiro trimestre de 2021, por exemplo, os shoppings da companhia operaram por 63% do horário regular, enquanto as vendas dos lojistas alcançaram 72,3% dos resultados do primeiro trimestre de 2020”, argumenta.
BARES E RESTAURANTES
Texto: PAULO APOLINÁRIO
O tão aguardado brinde
Setor de bares e restaurantes busca em 2021 a estabilidade que não teve durante o ano passado; avanço da vacinação é esperança para o segmento em Ribeirão Preto
Previsibilidade. Essa é a palavra de ordem para os donos de bares e restaurantes em Ribeirão Preto. Desde o início da pandemia e das medidas de restrição, o segmento tem passado por idas e vindas. Inicialmente, com as atualizações semanais do Plano São Paulo em 2020, os empresários não conseguiam estabelecer um planejamento a longo ou médio prazo. Além disso, a situação fora de controle da pandemia fez com que o município permanecesse cerca de 60 dias na fase vermelha, a mais restritiva. Contudo, as mudanças nas regras de transição pelo governo estadual ofereceram um pouco mais de previsibilidade aos donos de bares e restaurantes. Com a criação da fase de transição e uma ampliação no período entre as atualizações, os empresários podem atuar com um pouco mais de segurança em relação ao que ocorreu em 2020.
A situação seria “melhor” para o segmento se não fosse o agravamento da pandemia no Estado. No dia 9 de junho, o governador João Doria (PSDB) prorrogou até o dia 30 a fase de transição. Antes do anúncio, havia promessa do relaxamento das regras da quarentena a partir do dia 14 de junho. Com isso, bares e restaurantes ficam com o atendimento permitido entre 6h e 22h, com e 40% da capacidade máxima. O atendimento em pé e as pistas de dança seguem proibidos. Apesar da recuperação do segmento estar aquém do que era esperado, segundo pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), ainda não há dados que comprovem uma recuperação robusta, contudo a expectativa é positiva. O estudo revelou que 53% dos bares e restaurantes operam no prejuízo — e para 52% deles o faturamento está abaixo da expectativa na retomada. Em setembro, com a extensão do horário de funcionamento em algumas capitais, houve ligeira melhora nas receitas. Mesmo assim, 56% dos empresários dizem estar faturando menos da metade do que no mesmo período do ano passado.
Segundo Dorival Balbino, presidente da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp), um dos maiores desafios para os empresários foi manter os empregos e conseguir pagar as despesas necessárias para continuarem abertos. “O comércio teve de se adaptar às diversas formas de vendas durante os períodos de restrição e uma das estratégias mais importantes foi a ampliação do marketing digital, do uso das redes sociais e de aplicativos para vendas e delivery”, destaca. Todavia, Balbino ressalta que mesmo os que conseguiram fazer a transição para as plataformas digitais tiveram seus faturamentos diminuídos drasticamente. “Foi e tem sido uma situação lamentável para todo o país, que terá que se reerguer com um plano estruturado político e econômico”, acrescenta o presidente da Acirp.
NOVOS MODELOS
Como destacado por Dorival Balbino, o comércio digital foi um artifício utilizado por diversos segmentos para se manterem funcionando durante a pandemia. Rodrigo Lima de Almeida, sócio proprietário do Chopp Time, conta que a tecnologia ajudou a empresa nesse período. “Quando percebemos que iria começar o fechamento, já tínhamos uma certa visibilidade na parte do delivery. Investimos mais ainda nele, com a contratação de motoboys, ativação de aplicativos e a criação do nosso próprio aplicativo. Abrimos o leque de possibilidades”, explica. Outro fator que auxiliou os bares foi a criação de aplicativos e serviços especializados na entrega de bebidas. Paixão do ribeirãopretano, o chope tem sido entregue com rapidez na casa dos clientes. A tecnologia também fez com que bares com públicos tradicionalmente de meia idade pudessem ter aderência nas camadas mais jovens.
Passado o período de fechamento, os estabelecimentos tiveram que se reinventar para manter o atendimento ao cliente e se adaptar às novas regras. “Adotamos os cardápios digitais. A pessoa aponta o celular para um QR Code na mesa e já tem a possibilidade de ver o cardápio e até a fazer o pedido pelo próprio celular”, conta Rodrigo. Por outro lado, os clientes também sofreram uma mudança nesse período. O presidente da Acirp acredita que ainda haverá um “novo consumidor” no pós-pandemia. “Muito mais dinâmico, conectado e que preza por novos valores nas relações de consumo. Também verificamos uma adesão maior a comércios de bairro, o que pode ser interessante ao analisarmos a necessidade futura de implantação de conceitos de cidades inteligentes”, argumenta Balbino.
EXPECTATIVAS
Com o avanço da campanha de vacinação e a previsão de imunizar a população adulta do Estado até setembro, o setor dos bares e restaurantes enxerga, pela primeira vez, uma luz no fim do túnel da crise. “Caminhamos para uma resolução do problema, não para a normalidade como era antes, porém, muito melhor do que estamos atualmente. É uma luz no fim do túnel para que as coisas melhorem”, avalia Almeida. Para Dorival Balbino, a retomada econômica mais consistente deve acontecer após a vacinação com duas doses em todos os adultos brasileiros. “Porém, embora a imunização em massa venha acontecendo a passos lentos e a massa salarial seja menor do que no início de 2020, a demanda reprimida pode gerar um salto no consumo, o que exige muito cuidado para evitar também um aumento ainda maior da inflação”, alerta.
AGRONEGÓCIO
Texto: ENRICO MOLINA Foto: Elza Fiúza/ Agência Brasil

Colheita resiliente
O agronegócio, tradicional setor da região de Ribeirão Preto, mantém produtividade em alta durante o período adverso da pandemia e projeta desafios para as safras posteriores
Um dos setores mais tradicionais da região de Ribeirão Preto, o agronegócio destacou-se pela resistência do segmento frente ao período atípico de pandemia e às pressões econômicas decorrentes das medidas sanitárias necessárias para combate à doença, que chegou oficialmente ao Brasil em fevereiro do ano passado.
Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) nacional recuou 4,1% em 2020, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre os principais setores da economia brasileira somente o agronegócio registrou alta, com avanço recorde no PIB de 24,31% segundo cálculos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), realizados em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
O diretor técnico da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (UNICA), organização representativa do setor de açúcar e etanol no Brasil, Antonio de Pádua Rodrigues, explica que o agronegócio brasileiro, além dos impactos da pandemia, superou desafios relacionados à situação econômica internacional. “O ano de 2020 apresentou desafios para o setor sucroenergético e, com a pandemia, os efeitos se multiplicaram. Com preços menores estimulados pela queda no valor do petróleo, a competitividade do etanol diante da gasolina foi bastante afetada no início da safra. O mercado conseguiu se reequilibrar, mas certamente foi um ano em que o setor demonstrou excepcional resiliência às adversidades”, avalia o diretor.
Setor de resistência
Em publicação da UNICA de abril, no relatório de avaliação da safra 2020/2021 que considera a produção de 269 unidades processadoras de cana da região Centro-Sul, sendo 140 no Estado de São Paulo, foi registrada uma elevação de 43,5% na produção de açúcar, em comparação com a safra anterior, totalizando 38,4 milhões de toneladas do subproduto da cana.
Ainda segundo o relatório, o volume da moagem da cana também assinalou aumento na região Centro-Sul, alcançando 605 milhões de toneladas entre as safras de 2020 e 2021, representando 2,5% de aumento em comparação com os números de 2019/2020.
Na cidade de Ribeirão Preto, segundo o detalhamento da produção paulista, o aumento no volume da moagem da cana-de-açúcar foi de 3%, quando comparada com a safra anterior, com 96 milhões de toneladas. Com a expansão da moagem e consequente maior disponibilidade do produto, a produção do açúcar em Ribeirão Preto registrou 39% de aumento, chegando a 7,6 milhões de toneladas. “Na cidade e na região, a importância do setor é muito grande, apesar de não ser o principal. Na última safra, o preço do açúcar esteve mais atrativo e isso ajuda bastante o setor, impacta no desempenho, por exemplo, de Sertãozinho, que é um grande fornecedor de produtos, máquinas e equipamentos. Muitas pessoas trabalham de forma direta fornecendo serviços para o setor sucroalcooleiro, então a importância é relativamente grande”, explica o economista Luciano Nakabashi, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-USP).
Perspectiva desafiadora
Apesar de figurar entre os setores mais sólidos e participativos da economia brasileira, o agronegócio projeta desafios a serem enfrentados nos próximos semestres, especialmente relacionados à possibilidade de crise hídrica. “Há um problema hídrico, que também ajuda a entender o aumento de preço de alguns produtos agropecuários, além da questão da produção de energia, já que a principal matriz energética do Brasil vem das hidrelétricas. Certamente terá um aumento nos custos da produção de energia elétrica e esse aumento tem reflexos sobre a atividade econômica”, ressalta Nakabashi.
Antonio de Pádua Rodrigues, integrante da equipe da UNICA desde 1990, ressalta que a tendência de queda na produtividade já vem sendo observada desde o ano passado. “As condições climáticas favoráveis para colheita na safra 20/21 prejudicaram o desenvolvimento da cana que seria colhida no atual ciclo 21/22. O desenvolvimento da cana não se deu de forma ampla em algumas regiões. A queda na produtividade já é uma realidade e deve perdurar ao longo desta safra, pois a baixa nos índices pluviométricos começou no ano passado e perdurou ao longo deste ano. Isso deve impedir que tenhamos a queda nos preços do etanol. São Paulo, em especial, é o Estado mais afetado pela falta de chuvas, com quebras agrícolas superiores a 10%”, explica o diretor.
OBRAS
Texto: Paulo Apolinário
Indo e vindo
Programa Ribeirão Mobilidade teve início em 2017 com a promessa de modernizar o transporte coletivo da cidade; em 2021, Prefeitura enfrenta dificuldades para entregar as obras no prazo
No dia 23 de novembro de 2017, foi assinado o acordo para a liberação de R$ 310 milhões provenientes do Plano de Aceleração do Crescimento II (PAC) de Mobilidade Urbana para obras em Ribeirão Preto. Na ocasião, o prefeito, Duarte Nogueira (PSDB), garantiu que, com as obras entregues, a meta era de que qualquer ribeirãopretano chegasse ao seu destino em até 30 minutos, em qualquer ponto da cidade. Além de ter como objetivo oferecer melhor fluidez ao trânsito e maior eficiência no transporte coletivo, o programa Ribeirão Mobilidade também mira a economia. Com as obras, o governo municipal espera melhorar o deslocamento de trabalhadores e mercadorias pela cidade, além de alicerçar o plano internacionalização do Aeroporto Leite Lopes.
Por meio de nota, a Prefeitura informou que além dos recapeamentos já realizados no entorno do aeroporto, investe na infraestrutura da avenida Thomaz Alberto Whately. Contudo, as obras na região do Aeroporto ilustram um cenário pouco desejado pela administração municipal durante o anúncio em novembro de 2017. O viaduto da Avenida Mogiana deveria ter sido entregue em janeiro deste ano, segundo prazo estipulado em contrato. No momento, segundo o site Ribeirão Mobilidade, a obra está apenas 60% concluída. Já o serviço na Thomaz Alberto está em 40% e com a previsão de ser entregue em julho. Pela cidade, é possível ver obras atrasadas, paralisadas e que precisam passar por reparos logo após a entrega — como foi o caso do Viaduto Profissionais da Saúde, na avenida Maria de Jesus Condeixa, sobre a Francisco Junqueira.
As mais importantes obras que se encontram paralisadas no momento — os dois viadutos na avenida Brasil e o túnel na avenida Nove de Julho — estão nessa situação devido a um pedido de reajuste contratual pela empresa vencedora da licitação. Uma alta no preço de insumos, principalmente o aço, elevou os custos das obras, segundo as empreiteiras. “Está previsto em contrato, em razão da alta do aço no mercado nacional. Encontra-se em análise pela Secretaria de Justiça”, declarou o secretário municipal de Obras, Pedro Luiz Pegoraro. Segundo o contrato, o reajuste deverá adotar o Índice Nacional de Custo da Construção do Mercado (INCC-M), desde que corridos 12 meses da obra. Caso concedido, o reajuste levará em consideração a data de apresentação da proposta.
HISTÓRICO
No dia 6 de março de 2013, antes mesmo do anúncio oficial do Ministério das Cidades, a ex-prefeita Dárcy Vera garantiu que Ribeirão Preto receberia R$ 350 milhões provenientes do PAC para obras de mobilidade urbana. Na ocasião, a ex-prefeita foi convidada pela ex-presidente Dilma Rousseff para o anúncio oficial, em Brasília, do repasse de verbas federais aos municípios para obras de mobilidade.
Para que o dinheiro fosse entregue à cidade, seria necessário negociar uma contrapartida. Como a Prefeitura não conseguiu um acordo nem com a Câmara dos Vereadores, nem com o governo federal, e três anos depois estouraria a Operação Sevandija, a cidade ficou com esse possível investimento na “gaveta”. Em novembro de 2017, já no mandato de Duarte Nogueira, houve um acordo com o Banco do Brasil para que o investimento retornasse a Ribeirão Preto. Com a promessa de adotar medidas de austeridade e honrar os pagamentos, Nogueira conseguiu o recurso. Dessa vez, o montante caiu de R$ 350 milhões para R$ 310 milhões — e a contrapartida da Prefeitura seria de R$ 31 milhões, pagos em cinco anos. Com isso, foi criado o programa “Ribeirão Mobilidade”. Além do investimento do PAC pelo Banco do Brasil, o governo também tem créditos com o programa de Financiamento à Infraestrutura e ao Saneamento (Finisa) da Caixa Econômica Federal, no montante de R$ 120 milhões.
OBRAS ENTREGUES
• Adequação viária do antigo “balão da Portugal”
• Extensão da Av. Coronel Fernando Ferreira Leite
• Viaduto Profissionais da Saúde (reparos sendo feitos)
• Pontes sobre a Av. Francisco Junqueira entre as ruas Visconde de Inhaúma, Barão do Amazonas e José Bonifácio
• Ponte entre a rua Pompeu de Camargo e Av. Fábio Barreto
• Recuperação de trecho da Estrada do Piripau
• Corredor de ônibus e ciclovia na Av. do Café
• Duplicação da Av. Profª. Avenida Dina Rizzi
OBRAS EM ANDAMENTO
• Viaduto Av. Brasil sobre a Av. Mogiana: 60%
• Corredor de ônibus nas avenidas D.Pedro I e Saudade: 45%
• Viaduto Av. Brasil sobre a Av. Thomaz A. Whately: 40%
• Duplicação e implantação de ciclovia Av. • Adelmo Perdizza: 40%
• Corredor de ônibus Norte/Sul 2 e 3 (avenidas Mogiana, Paschoal Innechi, Meira Jr. e Independência: 15%
• Túnel Av. Independência x Av. Presidente Vargas: 13%
• Corredor de ônibus Norte/Sul 1 (avenidas • Recife, Thomaz Alberto e Brasil): 5%
• Corredor de ônibus Av. Presidente Vargas: 1%
• Passarela Av. Jerônimo Gonçalves: 1%
AINDA NÃO SAÍRAM DO PAPEL
• Ponte sobre o córrego Ribeirão Preto, ligando a rua Antônio Milena à Via Norte
• Ponte sobre o córrego Ribeirão Preto, ligando a rua Dom Pedro II, a Via Norte e a rua São Francisco
• Ponte sobre o córrego Ribeirão Preto, ligando a Av. Rio Pardo à Via Norte
• Ponte sobre o córrego Retiro Saudoso, ligando a Av. Presidente Kennedy à Av. Alzira Couto Machado
• Pontes sobre o córrego Retiro Saudoso e adequação viária nas intersecções da Av. Maurílio Biagi com a Av. Leão XIII e ruas Domingos Canesin e Olderige Margarido
• Pontilhão sobre a linha férrea da Fepasa, na Rua Campinas
SAÚDE
Texto: GABRIELA MAULIM
NÃO PODE PARAR
Hospitais de Ribeirão Preto se adaptaram para receber pacientes com Covid-19 sem deixar de lado o tratamento de outras doenças
Além de ser considerada um polo na área da saúde, Ribeirão Preto é a cidade com maior infraestrutura da região para atendimento em diversas especialidades — inclusive, Covid-19. Por aqui, passam pacientes de diversas regiões do país que realizam tratamentos e procedimentos que vão desde quimioterapia a transplantes de órgãos.
Por conta disso, os hospitais da cidade precisaram se adaptar à nova rotina estabelecida pela pandemia para continuar o atendimento às patologias. O Grupo São Lucas, que administra três hospitais na cidade — o Ribeirania, o São Lucas e o Especializado — se readaptou com agilidade nesse cenário. Segundo o diretor presidente do grupo, Dr. Pedro Palocci, logo no início da pandemia, em março de 2020, foi definido que o Hospital Ribeirania seria utilizado para todos os atendimentos de pacientes com suspeita de Covid-19. O São Lucas e o Especializado continuaram atendendo pacientes para cirurgias e internações, com outras doenças não relacionadas à pandemia.
Ele explica que essa foi a rotina durante vários meses. “Quando chegava algum caso suspeito de Covid-19 no Pronto Atendimento do São Lucas, imediatamente o paciente era encaminhado para o Ribeirania. Lá criamos Comitê de Contingência e ministramos diversos treinamentos das equipes multidisciplinares. Como estávamos num período de reformas e ampliações estruturais no Ribeirania, aproveitamos e fizemos, na época, dois Pronto Atendimentos (PAs), um denominado Corona Center, para casos suspeitos de Covid-19, e outro PA, com estrutura física e equipe separada para atendimento das outras doenças, que continuam acometendo as pessoas, independente da pandemia”, comenta Dr. Pedro Palocci.
Com o aumento de infecções pelo novo coronavírus nos últimos meses, o grupo precisou reduzir os atendimentos a outras patologias e optar por dedicar o Ribeirania a esses pacientes, com 20 leitos de UTI. “Com a explosão de casos, como já tínhamos uma laje com previsão de ampliação, construímos outra CTI, com mais 20 leitos, em apenas 45 dias. Em setembro, houve uma redução no número de casos e voltamos a atender pacientes com outras doenças, em centro cirúrgico, ala de recuperação e equipe multiprofissional separadas”, explica o diretor.
Para suprir a demanda dos hospitais, foram criados 30 novos leitos durante a pandemia, sendo 20 de UTI e 10 de enfermaria. Atualmente, o Ribeirania possui 92 leitos, 52 de enfermaria e 40 de UTI. Fora isso, foram disponibilizados no PA quatro leitos de UTI para o paciente aguardar em condições adequadas o leito de internação. “Com a chegada da segunda onda em dezembro, nós dedicamos, mais uma vez, o Ribeirania para atendimento exclusivo para pacientes com Covid-19. Com a ampliação dos leitos de UTI e de enfermaria, no começo deste mês voltamos a atender pacientes com outras doenças, com total segurança, em enfermaria e centro cirúrgico totalmente separados dentro de uma ala exclusiva do hospital”, afirma.
De acordo com Palocci, suprir a demanda relacionada a outras doenças é extremamente necessário, pois, caso não sejam tratadas no tempo correto, elas podem se agravar, muitas chegando a ser fatais. “Pessoas com doenças que têm tempo de evolução, como câncer, por exemplo, se não tratadas adequadamente e no tempo certo, têm o quadro agravado. O paciente que tem obstrução coronária ou o paciente que tem problemas respiratórios, também. Quanto mais tempo se protela o tratamento, o quadro é agravado. É importante fazermos os atendimentos adequados, pois em todas as áreas os pacientes não deixam de ficar doentes”, finaliza o médico.
A Nova Bene Ribeirão Preto é outro hospital da cidade que precisou se adaptar para continuar os atendimentos de saúde durante a pandemia. Atualmente, a instituição realiza atendimentos de urgência, emergência e os casos clínicos que necessitam de continuidade de tratamento, como Oncologia, Hematologia e retornos pós-cirúrgicos. A unidade também manteve a realização de exames de imagem, laboratorial e alguns exames como biópsia, endoscopia, colonoscopia e cateterismo. “Devido à alta demanda relacionada à Covid-19, os atendimentos eletivos diminuíram — tanto internações, quanto cirurgias e consultas. Dentre as principais mudanças causadas pelo período, podemos citar a questão de disponibilidade de medicamentos, recursos humanos e os elevados preços de mercado para todos os insumos hospitalares. A nossa média de realização de procedimentos cirúrgicos está em torno de 75% do que fazíamos em 2019”, comenta o presidente do hospital, Ricardo Marques.
De acordo com o presidente, a Nova Bene vem passando por melhorias nos aspectos assistencial, estrutural e organizacional para suprir toda a demanda dos outros atendimentos de saúde durante a pandemia. “Nos adequamos ainda mais para um atendimento de excelência, com equipes altamente qualificadas e resultados altamente positivos. Atualmente, estamos ampliando nosso centro cirúrgico e em breve será inaugurada a nova clínica ambulatorial de múltiplas especialidades, a MEDCLIN, que inicialmente contará com 19 consultórios, já com projetos de ampliação. Muitas outras novidades estão acontecendo e novos projetos serão apresentados em breve”, finaliza Ricardo.