Conduzindo o tempo
Roberto Minczuk e João Carlos Martins se encontram em apresentação histórica para comemorar os 90 anos do Theatro Pedro II
Texto: Marina Parada
No livro ‘Os Velhos Marinheiros’ de Jorge Amado, literatura querida por João Carlos Martins, “todos os ventos do mundo se uniram para salvar um sonho.” Naquele porto onde não havia vento nem chuva, depois que todos riram do marinheiro e protagonista Vasco Moscoso de Aragão pela falta de experiência como capitão de mar, cai uma tempestade que leva todos os barcos e o único sobrevivente é o dele, já que três âncoras ao fundo do mar o seguraram.
João Carlos Martins, para alcançar seus objetivos, correu muito atrás dos sonhos. Pensou em desistir, mas continuou correndo. No último fôlego dessa conquista, quando menos esperava, a situação se inverteu e os sonhos é que começaram a correr atrás dele. “Eu digo que corri atrás do meus sonhos, sem parar, com 24 operações cirúrgicas que fiz durante a minha vida. Nunca desisti e, de repente, na regência, eu vejo os sonhos correndo atrás de mim, realizando o meu ideal. Por isso, sempre digo que a música venceu”, conta o maestro.
Os ventos e a chuva, antes escassos, vieram como uma tempestade para o maestro que tinha seus objetivos claros e ancorados. A ascensão na carreira veio através de seu talento nato, que conquistou muitos corações e postos na música, inicialmente ao piano, instrumento que o acompanha a vida toda e onde realizou a gravação completa da obra de Johann Sebastian Bach, e mais tarde como regente, onde concretizou seu sonho na música.
O maestro costuma dizer que “a música é a régua do mundo”, e sua vida certamente está afinada. Depois de 20 anos com os movimentos das mãos comprometidos, João Carlos Martins volta, em 2020, a encostar os dez dedos nas teclas do piano novamente, graças ao designer conhecido como Bira, que desenvolveu uma luva biônica e possibilitou a volta da mobilidade das mãos que tocavam 21 notas por segundo. “Não vou ser o pianista de antigamente, mas posso tocar algo que traga emoção ao meu coração, ao meu cérebro e a minha alma”, relata o maestro.
Glenn Gould (1932-1982), pianista canadense é considerado por João Carlos Martins o maior e melhor intérprete de Bach do mundo. Porém, ao final de um recital na sala de espetáculos Carnegie Hall em Midtown Manhattan, na cidade de Nova Iorque, no final dos anos 60, o maestro recebeu um conselho do pintor surrealista Salvador Dalí (1904-1989): “diga a todos que você é o maior intérprete de Bach, algum dia vão acreditar. Faz muitos anos que digo ser o maior pintor do mundo e já há gente que acredita”.
Gould e Martins, as grandes personalidades do piano, quando conversaram por telefone, falaram apenas 10 minutos sobre Bach e passaram quatro horas e cinquenta minutos falando sobre bolsa de valores. Ainda assim, construíram uma amizade e se conectaram. Quando Gould faleceu, com apenas 50 anos, em outubro de 1982, o maestro João Carlos inaugurou seu memorial, o Glenn Gould Memorial Foundation em Toronto, em 1983. “Os pais dele pediram para eu inaugurar, estava em plena forma”, relembra o maestro.
DA TROMPA PARA O MUNDO
Roberto Minczuk começou a estudar trompa aos nove anos. “Foi o principal instrumento da minha carreira. Toquei bombardino, trompete, piano, bandolim, mas a trompa foi o instrumento que me abriu as portas do mundo”, conta Minczuk. Na vida profissional da música desde os 12 anos, aos 13, Roberto já era o primeiro trompista do Theatro Municipal de São Paulo, onde hoje rege a Orquestra Sinfônica como maestro titular. Aos 14 anos, foi estudar trompa em Nova Iorque na Juilliard School e, desde então, Roberto Minczuk cruza o mundo por amor ao ofício.
A trompa, um dos instrumentos mais difíceis de tocar, possibilitou ao maestro a leitura de todas as claves, que servem para dar o nome e a altura da nota. “É um instrumento que demanda muito do instrumentista e foi um excelente preparo, também, para essa minha jornada de maestro”, conta Minczuk. “Comecei praticamente aos 12 anos quando meu pai me incumbiu de ser maestro. No meio de um ensaio, ele me disse ‘um dia você vai ser maestro, você vai assumir’, e assim o fiz”, relembra Roberto Minczuk. Seu pai era regente do coro da Polícia Militar de São Paulo.
A experiência como músico de orquestra expandiu os conhecimentos de Minczuk. Passou pelo Brasil, pelos Estados Unidos e pela Alemanha. “Você aprende mais observando e tocando com um maestro do que nas aulas de regência. Isso, para mim, foi um aprendizado essencial”, afirma. Essa experiência o levou a ser convidado pelo maestro alemão Kurt Masur, com quem trabalhou na Alemanha, a concorrer um concurso para regente assistente da Orquestra Filarmônica de Nova Iorque.
Concorrendo com outros sete candidatos vindos da França, Coréia, Alemanha, Estados Unidos, o brasileiro Roberto Minczuk representou a terra do Guarani e foi escolhido pelos músicos da Filarmônica, onde mais tarde foi convidado pelo maestro Lorin Maazel a ser regente associado. “Fiquei muito feliz, pois o último maestro associado da Filarmônica foi o legendário Leonard Bernstein”, relata Minczuk, que se sentiu honrado em receber o posto tão almejado e idealizado por tantos músicos e maestros amantes da profissão.
O maestro começou a correr atrás dos sonhos com pouca idade. Desde os seis anos de idade, o pai de Minczuk o prepara para a vida musical por meio de aulas de teoria, percepção musical solfejo, que é a arte de cantar os intervalos musicais, seguindo as respectivas alturas e ritmos anotados em uma partitura, de todas as formas. “Ele já vinha me preparando para que um dia eu fosse maestro”, conta Roberto. Ele recebeu a notícia do pai de que seria um futuro maestro durante um ensaio na igreja em que tocava, aos 12 anos.
HISTÓRICO
Em 2020, o Theatro Pedro II completa 90 anos. A majestosa estrutura em estilo eclético, inspirada na Ópera Garnier de Paris recebe, no dia 31 de outubro, os dois maestros — Roberto Minczuk e João Carlos Martins —, para um concerto de comemoração, às 20h, que será transmitido on-line. Segundo Mariana Jábali, presidente da fundação Pedro II, haverá um coro na plateia e músicos de máscara no palco, seguindo todas as recomendações de distanciamento e segurança sanitária devido à pandemia do novo coronavírus.
Os maestros que moram no mesmo edifício em São Paulo, no bairro Jardins — um no sexto e o outro no oitavo andar — admiram imensamente um ao outro. “Temos um relacionamento muito próximo, de visitar um ao outro quase que diariamente. Conversamos sobre música, sobre a paixão que temos pela música, pelo Brasil, pelos músicos que tocam conosco”, conta Roberto Minczuk. Para João Carlos Martins, Minczuk é um grande maestro. “Ele é um exemplo de regência, musicalidade, de tudo”, relata o maestro.
Durante a pandemia, o maestro João Carlos tem estudado muito e nem vê a hora passar. Com o novo formato on-line de apresentações, ele resolveu também se engajar nas redes sociais e tem publicado vídeos e fotos em seu perfil do Instagram a fim de interagir com seus seguidores e se aproximar do público que o acompanha há tanto tempo. “Se eu estou no Carnegie Hall, numa favela, numa teatro ou numa live, na hora que você faz música e você quer que o seu coração chegue no coração de quem está ouvindo presencialmente ou virtualmente, você dá a vida para aquele minuto. Quero chegar no coração de todos”, relata João Carlos.
Ambos os maestros já pisaram inúmeras vezes no palco do Theatro Pedro II. “Um grande artista nunca será completo sem pisar no palco do Theatro Pedro II. Eu considero um dos maiores teatros do Brasil”, afirma João Carlos Martins, que no concerto do dia 31 tocará o Concerto para piano n.º 5 de Beethoven em comemoração, também, aos seus 80 anos de vida.
Roberto Minczuk foi regente titular da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto por cinco anos — de 1995 a 2000, e voltou a reger no Theatro outras vezes após sua saída. “Tive o prazer de reinaugurar o Theatro Pedro II regendo os primeiros acordes da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, em 1996. Espero que Deus me dê saúde e vida para que daqui há 10 anos eu possa celebrar os 100 anos do Theatro Pedro II”, finaliza o maestro.
O CONCERTO
Em comemoração aos 250 anos do compositor alemão Ludwig van Beethoven e aos 90 anos do Theatro Pedro II, a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto apresenta a 9ª Sinfonia de Beethoven em concerto on-line, com regência de Roberto Minczuk e participação especial do maestro João Carlos Martins ao piano, executando o Adágio do Concerto nº 5 – Imperador, de Beethoven. Serão solistas a soprano Lina Mendes, a mezzo-soprano Carla Rizzi, o tenor Anibal Mancini e o barítono Wladimyr Carvalho.
O concerto, em 31 de outubro, às 20h, será transmitido por Facebook, Instagram e canal no Youtube do Theatro Pedro II.