Conectado com a evolução

Conectado com a evolução

Em recente trabalho realizado durante a Paris Fashion Week, Gilson Julio compreendeu o quanto é importante, hoje, estar conectado às informações e buscar evoluir profissional e pessoalmente

Em 1978, foi ao ar o primeiro episódio de Dancin’ Days, novela global dirigida por Gilberto Braga que influenciou hábitos — de comportamento e de consumo — de muitos telespectadores. Um dos influenciados foi Gilson Julio, que, na época com sete anos, acompanhava o movimento das três irmãs se arrumando conforme as referências da novela. “Eu era criança e via as arrumações, as maquiagens, os bobes, o glitter usado pela atriz Sonia Braga e ficava encantado. Não tinha como ir para outro lugar”, afirma. 

Cabeleireiro e maquiador autodidata, começou trabalhando em casa, mas depois viu que precisava se profissionalizar e buscou recursos. A primeira escola foi o Senac Ribeirão Preto. Foram dois anos de estudo intensivo. Depois, foi para o Senac São Paulo. A partir daí, vieram inúmeros outros cursos. Afinal, a área da beleza é muito dinâmica e exige atualização constante. “A minha formação é em cabelo e maquiagem. Cheguei a estudar Arquitetura por dois períodos, mas vi que o meu universo era a beleza. Agora, também estudo fotografia”, conta.

Hoje, aos 47 anos e com 20 de profissão, Gil é bastante conhecido em Ribeirão Preto e muito respeitado pelo trabalho que realiza. Porém, para ele, isso não é o suficiente. Em uma recente experiência em Paris, constatou que ainda tem muito a aprender. O contato próximo com digital influencers mostrou muito mais a ele do que se pode ver pela tela do celular. A seguir, Gil detalha esse momento transformador em sua vida.

Em setembro, você esteve em Paris, realizando um trabalho ligado ao Paris Fashion Week. Como aconteceu essa oportunidade?

Esse convite veio através de um primo que também é cabeleireiro e tem um salão em Ribeirão Preto, o Edgar Ferreira. Ele tem dez anos de Fashion Week, no Brasil e no exterior. É muito importante falar do Edgard porque foi ele quem viabilizou essa oportunidade por já estar inserido nesse universo. Ele já tinha essa agenda e me apresentou, pelo Instagram, para as digital influencers com quem ia trabalhar e elas me aprovaram. Essa relação que tenho com o meu primo é muito bacana. Nós iniciamos no universo da beleza juntos e não nos tratamos como concorrentes.

Camila Almeida foi uma das influencers que Gil atendeu em ParisCom quais influencers vocês trabalharam?

Atendemos cinco digital influencers: Chris Pitangy, Lari Duarte, Dandynha Barbosa, Paula Torres e Camila Almeida. Elas gostam dos profissionais brasileiros porque somos rápidos, tanto no atendimento quanto na locomoção. Nós sabemos andar de metrô, chegar rápido aos locais e fazer um cabelo ou uma maquiagem em 30 minutos. O Edgar fazia o cabelo e, na sequência, elas já me apresentavam a proposta de maquiagem. Em 30 minutos, meu trabalho estava finalizado e eu seguia para o próximo atendimento, em outro hotel. Às vezes, se a agenda delas exigisse, fazíamos isso novamente no fim do dia, para os eventos da noite. Imagine que, se elas têm um desfile da Chanel ou da Hermès, é como se fossem para o tapete vermelho, então, precisam de uma nova produção. 

Vocês também tiveram acesso a algum desfile?

A moda é para todos, mas os desfiles são exclusivos. O acesso é muito restrito. Eu ficava impressionado ao ver os convites chegando. Esses estilistas são gênios, trabalham brilhantemente. Os diretores de arte iam pessoalmente levar os convites para as influencers. Nós só fomos às portas dos desfiles para ver as referências. 

Quais foram as principais referências que vocês viram e aplicaram?

Elas gostam de pele muito trabalhada e, ao mesmo tempo, aspecto bem natural, com pouquíssima maquiagem nos olhos. Em nenhuma delas vi a necessidade de fazer uma maquiagem forte ou com design diferente. A extravagância não cabe ali, pois acaba ficando até indelicado, já que a atenção é toda para o desfile. Percebi também que elas estão apavoradas com cabelos ondulados. Todas preferem cabelos lisos. Na maquiagem, zero cílios postiços. A moda vem agressiva: cabelo liso, maquiagem leve e cílios pequenos. Os cabelos estão com raízes mais naturais, não muito marcadas. Elas se fecharam para o exagero. 

Além do conhecimento na sua área, o que trouxe de experiência na bagagem?

Fiquei impressionado ao vê-las falando fluentemente mais três idiomas: inglês, francês e italiano. As cinco falavam. Isso me assustou um pouco porque pude ver que estou cansado antes da hora. Falo só mais um idioma. Tudo é venda e elas estão muito bem preparadas, apesar de serem jovens. Notei também o tanto que é preciso estar disponível para os clientes. Não tem mais espaço para o estrelismo. Vi homens fantásticos, que dirigem grandes empresas, indo pessoalmente até elas para levar um convite, como se fossem secretários.


Nessa próxima temporada fora, já vou com um tanto de francês na bagagem e quero aprender outros idiomas também


Essas percepções provocaram alguma mudança em você?

Eu tenho que me preparar para o futuro. Tenho 47 anos e preciso falar no mínimo três idiomas. Elas têm 25 e falam fluentemente. Cheguei de viagem e já comecei a estudar francês porque em fevereiro do próximo ano estaremos em Paris novamente e queremos fazer a Milão Fashion Week com essa turma também. Já temos dez influencers fechadas e a possibilidade de negociar com outras duas de grande destaque. Nessa próxima temporada fora, já vou com um tanto de francês na bagagem e quero aprender outros idiomas também. 

O que a experiência internacional proporciona que vai além do que se aprende no seu país?

Como eu não tinha conhecimento, pensava que essa profissão era fútil, mas elas estão muito preparadas, têm conhecimento, são conscientes e estratégicas. Elas estão trabalhando para tudo e nos influenciam a todo momento, não só na moda. Eu sou o próprio exemplo disso: voltei desesperado para estudar outras línguas. Tenho que estudar por respeito às marcas. Eu não tinha essa consciência por viver só aqui em Ribeirão Preto. Estudei nos Estados Unidos também, que é muito parecido com aqui. Esses anos em que estive lá estudando foram incríveis, mas, na Europa, o ritmo é outro. Eu me senti em desvantagem com o mercado. É importante sair da ilha para conhecer a ilha. Tenho 20 anos de profissão, sou referência e muito conhecido na minha cidade, mas lá eu não era nada.

As incluencers também atuam como uma espécie de vitrine do seu trabalho?

Muito. A minha visibilidade também mudou. O primeiro story que a Chris Pitanguy fez comigo rendeu mil novos seguidores no meu perfil em meia hora. Meu Instagram pirou. Ela é uma mulher fantástica, não só por essa proporção que traz, mas pela educação, elegância e respeito ao profissional. Todas elas pagaram pelo meu trabalho e ainda fizeram posts e stories. Então, a experiência vale também pela visibilidade. Além disso, conheci hotéis espetaculares, de R$ 20 mil a diária, um universo totalmente desconhecido para mim. Ficamos oito dias lá, trabalhamos bastante e aprendemos muito. Só não tivemos muito tempo para passear, a não ser a visita que fizemos à exposição do Van Gogh. Foi importante ver outra Paris, que eu só conhecia pelo turismo. Vi uma cidade muito mais bonita. Tudo ali é uma aula de bom gosto. 

Gil: “O mundo da internet faz parte das relações e estar inserido nele é fantástico”Vocês pretendem ampliar a atuação em outras semanas de moda?

Pretendemos fazer Milão também, que acontece antes de Paris. Além disso, o Edgar me convidou para fazer a próxima São Paulo Fashion Week, que acontece em outubro, mas eu já estava com a agenda comprometida com minhas clientes. É preciso se preparar com antecedência. Ele já faz o evento aqui há dez anos e, com a experiência em Paris, meu desejo de participar também foi despertado.

Antes desse trabalho, você já tinha envolvimento com a moda?

Sempre tive interesse pela moda, mas nunca imaginei que sairia do meu país para trabalhar com isso. Antes, eu não tinha ideia de como era profissional esse universo. É possível mudar a sua carreira com a postagem de uma influencer dessas. A vitrine não vende sozinha mais. O mundo da internet faz parte das relações e estar inserido nele é fantástico. Temos que fazer parte da mudança. Essa experiência abriu a minha cabeça. 

Quais os trabalhos mais significativos que você já realizou?

O primeiro foi quando fiz uma apresentação de corte de cabelo nos Estados Unidos. Foi há uns dez anos, no auge da minha carreira. Eu me apresentei ao vivo para 600 pessoas. Essa experiência em Paris foi o segundo grande momento da minha vida. Foi um trabalho oficial, não um curso. Foi um trabalho na rede, que é o grande acontecimento de hoje. É um mercado impressionante, onde não tem espaço para amadorismo, para gente despreparada. As influencers são rápidas, educadas, dinâmicas, mas com muito respeito. Todas trabalham incansavelmente ao telefone. É incrível o poder que elas carregam nessa influência. Isso me educou um pouco. Assim, posso me posicionar dessa forma aqui também. É uma aula de evolução.

Em Ribeirão Preto, quais são as influencers com quem trabalha?

Aqui, trabalho com Maê Guiguet, Jeje Meyer e Fe Camarero. Tenho sorte nas minhas experiências com elas. Como sou muito conhecido na cidade, elas me procuram e fazemos parceria. Já passaram algumas com o ego meio afetado, mas as atuais são ótimas. Entendo que uma mulher para ser bonita não precisa ser chata, metida, arrogante. Veja o exemplo da Chris Pitanguy: uma referência de beleza, uma mulher conhecida em todo lugar, linda, legal, gente boa, simpática, sobrinha-neta do Ivo Pitanguy e simples. As de Ribeirão Preto também estão bem conscientes. Elas só não têm o selo azul ainda (indicativo de que a conta foi verificada oficialmente pela rede social). 


Sempre tive interesse pela moda, mas nunca imaginei que sairia do meu país para trabalhar com isso


Como você define seu atual momento na carreira?

Antigamente, eu tinha pressa para ganhar dinheiro. Agora, eu quero qualidade. Quero realização. Eu me realizei muito fazendo esse trabalho em Paris. Entendi que é preciso estar disponível e trabalhar duro para alcançar o sucesso. Vi mulheres maravilhosas, preparadas e engajadas, mas com saudade de casa, dos filhos, resolvendo os problemas pelo celular. Eu fiquei realmente espantado de ver como as pessoas estão se capacitando mais. Isso veio no momento certo. Aqui, no salão, eu dou aulas, tanto para formação profissional quanto Masterclass, para profissionais cabeleireiros e maquiadores já formados. Agora, tenho condições de repassar isso para meus alunos.

Além das experiências práticas, de que maneira enriquece os seus conhecimentos?

Estou sempre fazendo cursos porque é uma profissão muito dinâmica. Além disso, leio bastante. Até abri a uma conta no Kindle para estudar, ler mais. É bom entender o quanto é importante ser humilde e estar em atualização constante. Não podemos parar. Não dá mais para ficar fútil e idiota. Não é bacana fazer grosseria. A gentileza é muito importante para o futuro para as profissões. 

Texto: Máisa Valochi Fotos: Julio sian 

Compartilhar: