Conquistando Território

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Ao mesmo tempo em que o futebol americano ganha notoriedade no país, o time local, o Ribeirão Preto Challengers, chega à elite do esporte

Quem assiste a uma partida de futebol americano pela primeira vez pode até ficar confuso e ter dificuldade para entender as regras e a dinâmica do jogo. No entanto, quem se dedica a conhecer melhor a modalidade garante que esse é um esporte fascinante. Com uma divulgação cada dia maior, o futebol americano tem ganhado espaço no Brasil. Aqui na cidade, por exemplo, o Ribeirão Preto Challengers faz história. Formado por atletas amadores, que conciliam a vida profissional e pessoal com os treinos, o time conquistou uma vaga na primeira divisão do Campeonato Brasileiro de Futebol Americano, a Liga Brasil Futebol Americano (BFA). Na entrevista a seguir, o educador físico, especialista em treinamento desportivo e técnico principal da equipe, Francisco Nasser Araujo Zelesnikar, relembra a trajetória do grupo, explica a importância da estratégia para alcançar resultados positivos e adianta as expectativas para a competição, que começa este mês.

O Ribeirão Preto Challengers está prestes a estrear no Campeonato Brasileiro de Futebol Americano, a Liga BFA, principal competição da modalidade no país. Como estão os preparativos para encarar essa jornada?

Estamos muito animados e confiantes no trabalho que vem sendo desenvolvido. Tivemos uma temporada brilhante em 2018, quando conquistamos os títulos de Campeão Paulista e de Campeão da Liga Nacional, que é a segunda divisão do brasileiro, com 13 jogos invictos no ano. Vamos estrear no dia 28 de julho, contra o São Paulo Storm, que é um time forte e bem organizado taticamente. Depois, temos o Galo FA (Atletico Mineiro), o Macaé Oilers, o Lusa Lions, o Corinthians Steamrollers e o Flamengo pela frente. A competição é árdua e longa: vai até novembro. 

Como se envolveu nesse universo?

Eu me interessei por esse esporte na juventude, acompanhando alguns lances em filmes, jogos de videogame e programas na TV. Em 2007, descobri pelo Orkut, principal rede social daquela época, que tinha um grupo treinando futebol americano aqui em Ribeirão Preto, na Cava do Bosque. Fui até lá para conhecer. A equipe estava bem no início e reunia poucas pessoas, sem uniformes e sem os equipamentos necessários para a prática da modalidade. Mesmo assim, havia ali um entusiasmo que me contagiou. Entrei para o time e, logo no primeiro dia, tive a certeza de que era aquilo o que eu queria fazer para o resto da minha vida. Dia após dia, buscava aperfeiçoar meus conhecimentos sobre a parte tática do jogo e intensificar a dedicação à academia e aos treinos. Com isso, acabei me tornando treinador de ataque e Quarterback — o lançador —, posição mais famosa do esporte, com representantes como Tom Brady, Aaron Rodgers e Phillip Rivers, por exemplo. Continuei estudando, sempre em busca da evolução da equipe. Com o objetivo de me capacitar para trabalhar profissionalmente com o futebol americano, cursei Educação Física. Todo esse envolvimento me levou ao posto de Head Coach, ou seja, treinador principal. Consegui conciliar as funções de jogador e de treinador por um bom tempo. No ano passado, decidi manter meu foco exclusivamente no comando do grupo.

De que maneira vocês conseguiram viabilizar o projeto para alcançarem a elite do esporte?

Conseguimos esse feito porque somos comprometidos e apaixonados pelo que fazemos. Como disse anteriormente, o Challengers começou de forma muito informal, como uma reunião de amigos que gostavam da modalidade e queriam treinar. A partir daí, surgiu a ideia de montar uma equipe mais estruturada, com o intuito de disputar campeonatos. No início, cada jogador se responsabilizou por comprar seus equipamentos e uniformes. Também arrecadávamos verba para as inscrições e as viagens com ações como vendas de rifas, de pizzas e de produtos do time, entre outras. Hoje, mesmo com patrocinadores e parcerias, ainda não temos recursos suficientes para sustentar os altos custos da temporada e dependemos da mensalidade paga pelos jogadores. Vale lembrar que todos os jogadores são amadores e conciliam a vida profissional e familiar com a rotina da equipe. Por isso que faço questão de reforçar: há muito comprometimento e paixão nesse projeto. 

Formado por atletas amadores, o time disputa, nessa temporada, o Campeonato Brasileiro de Futebol Americano | Foto: Angelo Zaroti - Estudio ZQual é o trabalho do Head Coach?

Para que um time jogue em alto nível, é preciso muita preparação nos treinos e, também, estudos de vídeos e de jogadas. O treinador tem que ter esse conhecimento para preparar os jogadores, tomando decisões importantes antes e durante a partida. Fora essa parte tática e técnica, tem o aspecto psicológico e comportamental dentro do grupo, pois são mais de 60 pessoas convivendo, buscando o mesmo objetivo, competindo por uma posição dentro da equipe, buscando a vaga como titular, sacrificando o dia a dia para seguir a rotina pessoal e profissional. Mesmo cada um tendo sua forma de pensar, no final, todos devem estar coesos com o time para que entrem em campo unidos e buscando a vitória.

Para quem ainda não está familiarizado, qual é a dinâmica do jogo?

A meta desse esporte é ganhar território. O time que tem a bola está no ataque e precisa avançar até o final do campo adversário, a end zone, para marcar o Touchdown, maior pontuação do jogo, que vale seis pontos. Se isso acontecer, ganha o direito de atacar novamente. Outra forma de pontuar é o Field Goal, quando o jogador chuta a bola no Y, que é o ‘gol’ do futebol americano, somando três pontos. Já a equipe que está na defesa tem de conter a movimentação do outro grupo. Para isso, deve derrubar o atleta com a bola, sempre respeitando as regras da modalidade. Se impedir que o rival percorra dez yards, medida que equivale a, aproximadamente, nove metros, em quatro jogadas, esse time recebe a posse de bola. São quatro períodos de 12 minutos cada. Ao final, quem tiver o placar mais alto vence. Essa é uma explicação bem simples e resumida de uma partida.

De que maneira o time é formado? Cada jogador cumpre uma função específica?

As equipes possuem uma média de 60 a 70 jogadores. Em campo, sempre temos 11 jogadores de cada time, mas, dentro da equipe, são 11 só para atacar, 11 só para defender e mais 11 chamados de especialistas, que entram em situações pontuais durante a partida, como o field goal e o kickoff, fora os reservas. Tanto no ataque, quanto na defesa, existem posições específicas, com atribuições bem definidas a serem cumpridas. O futebol americano é uma engrenagem complexa. Para alcançar resultados positivos, é essencial que todos façam a sua parte dentro do plano que foi traçado. Temos, por exemplo, posições que exigem força física e resistência, enquanto outras demandam rapidez e agilidade. Por isso, temos atletas com diferentes biótipos e habilidades. Utilizamos essa variedade para criar a melhor formação para cada situação. É um verdadeiro jogo de xadrez. 

Então, o estereótipo de um esporte bruto, de certa maneira violento, está equivocado? 

Sem dúvida. O físico é importante e faz a diferença, porém, muito mais pela exigência de alto rendimento do que pela força bruta em si. O esporte, de fato, demanda o máximo do nosso corpo, seja de força, de resistência ou de velocidade, mas, de nada adianta esse poderio se não tivermos inteligência e estratégia. Cada partida é muito bem pensada, estudada e planejada. São diversos jogadores, opções de formações, jogadas e situações de jogo. O time que estiver mais preparado diante de todas essas circunstâncias vai tomar as melhores decisões em campo.

O futebol americano tem ganhado cada vez mais espaço no Brasil nos últimos anos. Que fatores contribuem para essa popularidade?

Sem dúvida, a notoriedade relativamente recente do esporte no país é motivada pelo crescimento da divulgação nas mídias especializadas. Com a transmissão da National Football League (NFL), a liga esportiva profissional de futebol americano dos Estados Unidos, o canal ESPN teve um aumento de 800% na audiência e se tornou líder aos domingos. A atenção fica ainda maior na época do Super Bowl, jogo em que o campeão da temporada é definido, que se tornou um grande espetáculo. Isso acaba contribuindo para despertar o interesse das pessoas, que passam a conhecer, a acompanhar, a torcer e até a praticar a modalidade, fortalecendo os investimentos nos times nacionais. No Brasil, temos, hoje, mais de 200 times e esse número aumenta a cada ano.

O comandante destaca a importância da estratégia no jogoQuais são os próximos planos do Ribeirão Preto Challengers?

Nesse momento, nosso foco é, realmente, o Campeonato Brasileiro. Queremos fazer uma boa campanha, representando a nossa cidade na elite do esporte. Para os próximos anos, temos alguns projetos que podem elevar ainda mais o nível da equipe, tanto na parte estrutural e administrativa, quanto na performance dentro de campo. Estamos trabalhando para que dê tudo certo e que esses planos saiam do papel. 

Texto: Paula Zuliani Foto: Julio Sian

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