Conscientização e respeito à mulher
Mauro Casanova comenta as principais etapas que a família vivencia durante a gestação

Conscientização e respeito à mulher

Essas são as premissas do Parto Adequado, projeto que incentiva o empoderamento feminino na hora de dar à luz e resgata a valorização do parto normal

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada 100 mulheres que dão à luz, apenas 15 têm a real necessidade de se submeterem a uma cesariana. O Brasil, no entanto, registra índices que passam bem longe dessa meta. O país é o segundo com maior percentual de partos realizados por cirurgia — 55,6% — perdendo apenas para a República Dominicana, onde a taxa chega a 56,4%. A situação é ainda mais preocupante no âmbito da medicina privada. Dados divulgados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram que 85,5% dos atendimentos feitos no sistema particular são cesarianas, quando o ideal seria algo entre 25% e 30%. 

Os números bem acima do estipulado — associados a relatos de desrespeito à gestante antes, durante e depois do trabalho de parto — fizeram com que o Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o Institute for Healthcare Improvement (IHI) e o Hospital Israelita Albert Einstein lançassem o Projeto Parto Adequado. O objetivo é reverter esse quadro, estimulando o parto normal e acabando com a banalização da cesariana. O plano é conscientizar a mulher sobre a importância desse momento e garantir que ela tenha a melhor experiência possível, preservando a segurança, o bem-estar e a saúde da mãe e do bebê. O ginecologista e obstetra Mauro Casanova (CRM: 92426), médico cooperado coordenador do programa Parto Adequado e do programa de gestantes da Unimed Ribeirão Preto, explica como funciona essa iniciativa e reforça que a conduta já tem sido adotada na cidade.

A mulher precisa redobrar os cuidados com a saúde quando decide aumentar a família?

Sim. A primeira orientação que passamos no consultório é que, três meses antes das tentativas começarem, a paciente inicie o consumo diário de ácido fólico. Normalmente, ingerimos doses muito pequenas dessa vitamina no nosso dia a dia, mas ela é essencial para o fechamento correto do tubo neural, que dará origem ao cérebro e à medula espinhal do bebê. Por isso, além dessa suplementação, recomendamos que a mulher reforce a dieta com alimentos como lentilhas, brócolis, espinafre e verduras com as folhas verdes escuras no geral. Exames pré-concepcionais também são solicitados. Os principais são Papanicolaou, hepatites B e C, HIV e sífilis, entre outros. Para contribuir com a saúde e o bem-estar da paciente, incentivamos a prática de uma atividade física regular. Vale a pena investir em exercícios de baixo impacto, como hidroginástica, pilates, ioga e caminhada. Ainda ressaltamos que, nesse período, o ideal é eliminar, totalmente, o álcool e o fumo. Não há nenhum relato na literatura médica de que um bebê tenha desenvolvido algum tipo de problema porque a mãe tomou apenas uma taça de vinho, mas a nossa orientação é álcool zero. É preciso ter bom senso. Em relação ao tabagismo, no entanto, há comprovação científica de que esse hábito provoca sérios prejuízos na circulação do sangue na placenta. Por fim, ações básicas que nunca são descartadas: a aplicação de protetor solar, para evitar manchas na pele, e de repelente, para eliminar as ameaças do Zika Vírus. 

É importante cumprir, rigorosamente, o cronograma do pré-natal?

Não existe gestação sem risco. Por isso, o acompanhamento minucioso é indispensável para assegurar a saúde da mãe e do bebê. No caso de uma gravidez de baixo risco, as consultas são mensais. Com a proximidade da data estimada do parto, tornam-se semanais. Quando o risco é maior, os encontros são quinzenais. Muitas vezes, nos últimos meses, o controle passa a ser diário. Assim, caso haja algum contratempo, conseguimos montar uma estratégia para solucionar a questão rapidamente. Existem exames e testes específicos para primeiro, segundo e terceiro trimestres. Os dias de ultrassonografia costumam ser os mais aguardados. Através desse recurso, observamos o desenvolvimento do bebê e avaliamos a vitalidade fetal. Em torno da 40ª semana, indicamos a realização da cardiotocografia, que monitora os batimentos cardíacos do bebê, movimentos fetais e também as contrações uterinas da mãe.

Durante essa fase de espera, os pais — seja os de primeira viagem ou não —, devem se preparar para lidar com a responsabilidade que a chegada de um filho demanda?

Sem dúvida. O nascimento de um bebê muda a vida do casal. Quanto mais preparados os pais estiverem para enfrentar os desafios que surgirão pelo caminho, mais vão curtir esse momento. Nas consultas do pré-natal, o obstetra realiza um trabalho esclarecedor nesse sentido, mas, para quem quer se aprofundar no assunto, vale a pena buscar outras fontes confiáveis de informação. A espera de um filho, geralmente, aguça a ansiedade das mulheres. Com a sensibilidade elevada por conta dos hormônios, elas têm que encarar uma série de incertezas. O grande questionamento, na fase intrauterina, é se o bebê está se desenvolvendo sem nenhum tipo de anomalia ou má formação. Depois, há a preocupação de como será a realidade com o novo membro da família. O parceiro também sente o impacto dessas transformações. Com o objetivo de suavizar o peso dessas expectativas, a Unimed Ribeirão Preto, através do Núcleo de Atenção à Saúde (NAS), criou um curso gratuito que dá suporte às gestantes conveniadas. Nas reuniões, uma equipe multiprofissional aborda temas que contemplam as diversas especialidades envolvidas na gestação e no cuidado com o recém-nascido, como Pediatria, Obstetrícia, Enfermagem, Psicologia, Nutrição, Fonoaudiologia, Odontologia e Fisioterapia, entre outras. Essas reuniões têm despertado cada vez mais o interesse dos usuários. Este mês, atendemos 50 casais. 

Na rede suplementar, o número de partos normais subiu de 5% para cerca de 28% depois da adoção do projetoNesse processo todo, a hora do parto, geralmente, é a mais temida. Como saber se a melhor opção é a cesariana ou o parto normal?

Não temos como definir, previamente, se a paciente terá parto normal ou cesariana. É errado tomar essa decisão com base em rótulos pré-concebidos. Ela é muito baixa, muito nova ou muito magra, entre outros “achismos”, não entram nas indicações e nos parâmetros obstétricos. O medo da dor também não. A mulher precisa entrar em trabalho de parto. Esse é o sinal de que o bebê está pronto para nascer. Acompanhamos a evolução do quadro e se tudo correr dentro do esperado, seguimos com o parto normal, que é o método mais natural, fisiológico. Recorremos à cesariana quando a vida da mãe ou a do bebê está em perigo. Esse procedimento não deve ser agendado com antecedência e nem feito desnecessariamente como vem acontecendo no Brasil. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estipula que a cada 100 mulheres que dão à luz, apenas 15 realmente precisam passar pela cesariana. No nosso país, ao juntarmos os atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e da rede suplementar de convênios, essa estatística chega a 57%, em média. 

Por que esse número é tão alto?

No decorrer dos últimos 30 anos, criou-se uma cultura equivocada de que a cesariana é a melhor maneira para todas as mães terem os seus bebês. Fizeram com que o parto normal se transformasse em um cenário de horror e de sofrimento. A cesariana é uma cirurgia, portanto, os riscos são maiores. Sete camadas são abertas e, depois, suturadas. O útero é cortado e isso pode trazer repercussões em uma próxima gravidez. A recuperação é mais lenta e dolorida. No parto normal, muitas vezes, a paciente não precisa de nenhum tipo de intervenção, nem a episiotomia, pequena incisão conhecida popularmente como pique. Com isso, a tendência é que se restabeleça de forma rápida e tranquila. As vantagens ainda se estendem para o bebê. Ao passar pelo canal do parto, ele entra em contato com bactérias dessa região que são benéficas para o seu sistema imunológico. A literatura médica nos mostra que esses bebês serão crianças e adultos menos propensos à obesidade, a problemas cardíacos e a disfunções respiratórias. No âmbito da Psicologia, os estudos revelam que quem nasce de parto normal tende a ser mais autônomo, decidido e independente por ter tido essa conquista de passar pelo canal do parto. Fora isso, tem a amamentação. A mulher que vivencia todo o processo de trabalho de parto tem mais chances de amamentar o bebê de maneira fluida. Assim, dificilmente uma mãe, munida de todas essas informações, opta por ter uma cesariana. 

Existe uma movimentação para reverter esse quadro? O Projeto Parto Adequado contribui para isso?

Hoje, 73% das mulheres que engravidam optam pelo parto normal. Infelizmente, ao longo do pré-natal, nem todas mantêm essa decisão, mas, aos poucos, os números estão crescendo. O Projeto tem um papel importante nessa mudança, pois conscientiza as mulheres e desmistifica esse temor do parto normal. Essa iniciativa foi motivada após a divulgação de um estudo chamado “Nascer no Brasil”, em 2013/2014. A pesquisa — que entrevistou 27 mil gestantes, tanto da rede de convênios, quanto da rede do SUS em todo o país — comprovou a precariedade desse setor. As pacientes vinham sendo desrespeitadas em todos os aspectos, desde a chegada à maternidade até a alta hospitalar. Isso inclui a alimentação, o direto a um acompanhante, a posição que ela gostaria de parir, o uso ou não de ocitocina sintética e a realização ou não da episiotomia, por exemplo. Esse contexto alarmante mostrou que era hora de fazer algo. O objetivo do Projeto Parto Adequado é identificar modelos inovadores para esse momento, fazendo com que as mulheres tenham a melhor experiência de parto possível dentro dos seus desejos e das suas condições. A ação trabalha com a valorização do parto normal, estimula que a mulher assuma esse protagonismo, mas prega, acima de tudo, o respeito, o cuidado e a humanização no trato com a família.

Segundo o obstetra, a cesariana é indicada apenas quando a vida da mãe ou a do bebê está em perigoQual a participação das operadoras de saúde na implantação desse projeto?

As operadoras, assim como nós, médicos, preocupam-se com o bem-estar e com a segurança da paciente. Quando olhávamos em direção ao futuro, existia um receio em torno da possibilidade de uma população nascida, exclusivamente, através de cesariana. Quais seriam as repercussões disso? Com base na Medicina de evidência, sabemos que o protocolo obstétrico mais indicado é o parto normal. Algumas operadoras, então, começaram a incentivar, entre os seus cooperados, esse resgate do parto fisiológico, que envolve a liberação de hormônios, o contato pele e pele, o aconchego do colo materno nos primeiros instantes de vida do bebê, ações que compreendem essa chamada “Golden Hour”, e o estímulo à amamentação. Para que isso aconteça, o envolvimento de todos é essencial. As instituições têm colaborado, investindo em aprimoramentos na estrutura física e em recursos que facilitam o processo, como quartos equipados com chuveiro, bola suíça de pilates e banquetas. Outro elemento fundamental é o suporte psicológico e emocional, garantido pela presença do acompanhante o tempo todo e, muitas vezes, pela assistência das enfermeiras obstétricas e das doulas, que auxiliam no combate da dor com métodos não farmacológicos. Cercada por esses cuidados, a mulher se sente acolhida, confiante e segura. Toda paciente também conta com o respaldo burocrático, com o cartão da gestante adequadamente preenchido, com o plano de parto e com o partograma, que é um registro que relata a evolução do trabalho de parto.

De que maneira esse trabalho tem sido desenvolvido em Ribeirão Preto?

O projeto foi implementado na Maternidade Sinhá Junqueira. Tudo o que mencionei acima tem sido aplicado por aqui. Nós, da Unimed Ribeirão Preto, fazemos a nossa parte, desde as orientações com o curso para gestantes até o cuidado no pós-parto com o projeto Acalentar. Promovemos a integração da equipe, já que médicos, enfermeiras obstétricas e doulas trabalham em conjunto com a gestante e com os familiares. Ainda encontramos certa resistência, mas os resultados começam a aparecer. Na rede suplementar, tínhamos uma estatística de 5% de parto normal. Agora, com o Parto Adequado, esse índice gira em torno de 28%. Isso pode parecer pouco, mas já é uma conquista muito grande.

Ainda existem outras ações previstas pela frente?

Estamos na segunda etapa do projeto. Sabemos que existe potencial para alavancar ainda mais o número de partos normais realizados aqui na cidade. Para isso, vamos adotar diferentes abordagens e métodos para transmitir nossa mensagem. Montamos um diagrama direcionador com estratégias para trabalhar não somente com a mulher, mas com toda a comunidade, com os familiares e com os médicos obstetras. Promoveremos oficinas, rodas de bate-papo e encontro com profissionais para levar informações confiáveis à população. É um trabalho lento, difícil, mas incrivelmente recompensador. Continuaremos empenhados nessa missão e, com certeza, teremos mais resultados positivos para compartilhar pela frente.

Mauro Casanova | Texto: Paula Zuliani | Fotos: Julio Sian

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