Conteúdo além do papel
Diante da mudança de comportamento dos leitores, algumas ações buscam incentivar a manutenção do hábito e mostram que há caminhos alternativos até para driblar a crise no mercado editorial
Em meio ao comércio agitado e o corre-corre das pessoas em uma manhã ensolarada no bairro Campos Elíseos, mais precisamente na Rua Amazonas, um comerciante abre o estabelecimento e espera que, durante o dia todo, alguém possa fazer uma visita para comprar obras de um vasto acervo de conhecimento, espalhado pelas prateleiras abarrotadas de livros ou até mesmo adquirir um exemplar grátis. Essa é a rotina de Carlos Severino, homem que leu a primeira obra aos 24 anos, quando ainda terminava o supletivo na cidade de São Paulo. Nessa época, queria ter o próprio negócio e construir algo que pudesse influenciar a cultura das pessoas. Foi aí que decidiu criar um sebo.
Quando já possuía cerca de dez caixas de livros, comprados em bazares beneficentes, viu que era hora de realizar o grande sonho. Logo percebeu que já não possuía mais espaço para tantas doações de obras e, assim, veio para Ribeirão Preto, onde a família já residia. “Montei uma loja no Centro, sem experiência. Não sabia nem colocar preços nos livros. Fiquei um ano com a loja aberta e senti uma grande diferença da capital. Em São Paulo, as pessoas têm mais consciência cultural, fazem circular os livros”, pontua Carlos. De lá para cá, o livreiro, como gosta de ser chamado, teve que conviver com o avanço das novas tecnologias. Essa simbiose, entre livraria física e on-line, fez com que Carlos se adaptasse aos dois espaços e, mesmo que o primeiro não traga tanto retorno financeiro, ele insiste em continuar no local, porque sente falta do contato com as pessoas e acredita que dessa forma pode continuar mantendo projetos sociais pela cidade e incentivando a prática de leitura.
A Saraiva e a Cultura, duas das maiores redes de livraria do Brasil, entraram em recuperação judicial e anunciaram o fechamento de lojas pelo país. A indústria livreira passa por um momento complexo que exige reflexão e a busca de saídas de contornar a crise. Acende-se o alerta para outras redes, que devem se reinventar para atrair mais leitores. As dívidas da Livraria Cultura, de acordo com informações publicadas, são estimadas em pelo menos R$ 285 milhões. A Saraiva, principal concorrente, está com dívidas na casa dos R$ 675 milhões.
Há cerca de cinco anos instalada no RibeirãoShopping, a Livraria da Travessa parece seguir na contramão da crise. Em 2018, a rede registrou crescimento de 30% nas vendas, em relação ao ano anterior. O ambiente, que chama atenção pela estrutura, a cada ano se renova para atender os leitores. “A proposta, desde o início, foi colocar as pessoas em contato com a livraria, ler uma obra aqui dentro. Já participamos de Feira do Livro, sempre em conexão com os autores. Nossos destaques são o acervo e o atendimento humanizado. Posso dizer que crescemos ano a ano e, mesmo em um momento de crise no país, a livraria não ficou vazia”, ressalta Alex Caixe, gerente do estabelecimento, que faz questão de dizer que a rede expandirá o número de livrarias este ano, com uma loja em São Paulo e outra em Lisboa.

Algo a mais
Se, em meio a uma crise, a alternativa mais viável é a reinvenção, a Travessa mostra que não é apenas com livros que se atrai uma boa clientela. O Zine Travessa, por exemplo, surgiu em novembro de 2016, com o intuito de eleger um tema para ser trabalhado em um fanzine. O jornalista e fanzineiro Angelo Davanço sempre teve a ideia de criar um núcleo de produção, com quadrinistas e pessoas que pudessem desenvolver atividades como elaboração de roteiro, poesias e crônicas. O criador do zine “A Falecida” lembra que diversificar o local com assuntos que tenham a ver com o propósito da livraria só vem para somar. “Fazer fanzine é uma terapia, fugimos de coisas ruins do dia a dia. É o momento que criamos um meio de comunicação. Estamos relançando essas publicações no ambiente on-line para expandir ainda mais esse público da internet. Utilizar essa ferramenta, aliada aos meios tradicionais, só vem para agregar”, observa o fanzineiro.

Ali, num refúgio de calmaria no meio do movimento de um centro de compras, os leitores se sentem à vontade para sentar e folhear as páginas impressas dos livros. Uma pesquisa aqui, outra ali e logo a obra já está em mãos. O “Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder, está entre as preferida das estudante de 16 anos, Maria Eduarda Piozizan Barbeti. Filha de pais incentivadores da leitura, a garota é frequentadora assídua de livrarias, além de possuir um grande acervo de livros em casa. “Nunca gostei de ler em formato PDF, por exemplo. Acho mais confortável sentir o livro, pois isso me traz mais segurança. Toda leitura é uma bagagem que trazemos para a vida. Quando leio, entro em meu mundo e esqueço de tudo à minha volta: é como se eu vivesse o que a pessoa vivencia naquela história. No espaço da livraria, sinto paz, uma sensação rara na era digital”, revela a estudante.
Hora de reinventar
Segundo Dirceu Tornavoi de Carvalho, professor de administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo- FEA/USP, com especialidade em comportamento do consumidor e pesquisa de mercado, pode-se enxergar a situação das grandes livrarias sob uma perspectiva de curto prazo, relacionada, talvez, às falhas administrativas. Contudo, mudanças no comportamento dos consumidores ao longo do tempo podem interferir nessa questão. “Não acho que seja uma crise do setor, se fosse, todas estariam quebradas. As grandes livrarias se tornaram supermercados de livros, perdeu-se aquela orientação de atender bem o cliente, faltam pessoas que conversem e indiquem obras, bem como é preciso ter um espaço para que os indivíduos interajam com as obras, a fim de estimular o diálogo”, argumenta o docente.
A venda de produtos por meio do e-comercce é cada vez mais tendência. A gigantesca Amazon é um império construído por Jeff Bezos, homem mais rico do mundo, e vende desde livros até panelas e sapatos. Outro ponto destacado por Dirceu é que essa organização oferece ao público a possibilidade de que o livro seja impresso assim que o pedido é feito pelo cliente. Isso evita que o capital fique preso aos estoques, bem como existam excedentes de obras. “É preciso criar formas de experimentação nos estabelecimentos, o que chamamos de infoprodutos. Você libera o acesso gratuito por um tempo, para vender cultura e informação, porque a pessoa não sabe avaliar com antecipação alguns produtos”, elucida.
Aos poucos se adaptando às transformações do mercado, o livreiro Carlos pretende continuar com a loja física, criada em 2015, porque dessa forma pode manter alguns projetos sociais espalhados pela cidade, além de compartilhar experiências com os leitores. “Posso dizer que 70% das minhas vendas, hoje, são on-line. Os sebos não sobreviveram sem essa plataforma. Isso tudo envolve questões tecnológicas. Hoje, as pessoas saem menos e esperam a mercadoria chegar em casa. A crise não está ligada à falta de leitores, mas a ausência de propósito. É preciso ter algo a mais para transmitir”, reforça Carlos, que, mesmo resistente com o espaço físico, aproveitou a oportunidade de se reinventar.

Entre o conforto e praticidade
Ela preferiu ganhar de presente uma estante de livros a um ar-condicionado. Deixou de lado as altas temperaturas da cidade para realizar o desejo de expandir o acervo no quarto. Já no Ensino Fundamental, a estudante de Arquitetura e Urbanismo Tainah Mogno Melchior dos Reis, de 20 anos, foi estimulada a ler por uma professora de português. “No começo, eu sentia que era uma obrigação e depois descobri meus gostos”, relata Tainah. Apaixonada por sebos, a ex-funcionária de Carlos faz questão de enfatizar que poucas vezes frequentou as livrarias da cidade, porque sabe que os preços não são tão acessíveis. Diante de uma rotina de estágio e estudos, ela viu na tecnologia uma grande aliada. “Não dava para carregar muitos livros na bolsa, porque sempre tinha que dividir com outros da faculdade. Isso pesava em minhas costas. Há cerca de três anos, ganhei um Kindle dos meus pais. Jamais substituirá o livro físico, contudo, é mais prático”, conta. O dispositivo é um leitor de livros digitais que permite ao usuário comprar, baixar, pesquisar, assim como ler livros digitais, jornais, revistas e outras mídias via rede sem fio.

Para a pedagoga e mestranda em Educação, Laura Soares Abbad, o gosto pelos livros vem desde muito cedo. Com um ano, ganhou uma coleção de obras infantis e, de lá para cá, não parou mais de navegar pelas páginas impressas. A apaixonada por literatura, Laura, que trabalhou dez anos na Feira do Livro, tenta encontrar tempo para praticar seu hobby e se dedicar à vida acadêmica. “Eu entro em uma livraria e me perco com tantos títulos interessantes. Se há crise do livro, acho que não tem crise da literatura. As livrarias devem pensar em quais assuntos as pessoas gostariam de ler e se reinventar daqui para frente”, frisa Laura. Questionada se ainda permanecerá fiel às páginas impressas, a pedagoga fica em dúvida. “Pela internet, temos a comodidade. Estou ensaiando para comprar um Kindle, porque é prático, não tenho mais espaço para comprar tantos livros”, conclui.

O consumo sempre existirá, o que muda com o passar do tempo é a maneira como as pessoas buscarão por determinado produto. É certo que o momento exige reflexão e uma boa dose de criatividade pode garantir êxito nos negócios. “Acho que as livrarias físicas não morrerão, apenas serão reduzidas de tamanho. Esse, talvez, seja o modelo de sucesso das menores, porque gera custos pequenos. Não penso que haja uma crise do livro, mas do modelo de livrarias atualmente”, reforça Dirceu.

Mais que livros
Foi-se o tempo em que os frequentadores chegavam a uma biblioteca e encontravam apenas livros. Um novo modelo, mais interativo e dinâmico será apresentado à população ribeirãopretana em 2019. A Biblioteca Altino Arantes, destaque da área central da cidade, foi construída para se tornar residência de Francisco Maximiano Junqueira, o coronel Quito Junqueira, e Theolinda de Andrade Junqueira, mais conhecida como Sinhá Junqueira. Após a morte de Sinhá, surgia uma biblioteca, de estilo neocolonial, que agora está sendo restaurada e ampliada para aumentar o impacto sociocultural no município. Cursos, café, salas com computadores, ar-condicionado, calendário de eventos, ambientes para convivência e espaço para crianças — repletos de programações gratuitas — farão parte do novo local, com previsão de entrega para dezembro deste ano. Mantida pela Fundação Educandário Coronel Quito Junqueira, a casa, que possuía 600 m², passará a ter cerca de 1.000 m². O prédio será revestido de vidro e com iluminação noturna, um empreendimento arquitetônico que mesclará traços antigos à modernidade. “O acervo será renovado, todo moderno, com livros que as pessoas queiram ler. A biblioteca atenderá quem não tem acesso a esse tipo de serviço gratuito.
Pretendemos criar um acervo virtual, para atingir o público que está na internet. Serão investidos cerca de R$ 10 milhões e nosso custo mensal girará em torno de R$ 90 mil”, acrescenta Marcos Awad, presidente da biblioteca. A verba é proveniente da Fundação Educandário Coronel Quito Junqueira e da Lei Rouanet.

Corrente do bem
Dois projetos abastecidos pelo Sebo e livraria de Carlos são a “Geladeiroteca” e o “Cultura no Ônibus”. O primeiro consiste em usar geladeiras usadas, que posteriormente serão customizadas, para serem doadas às escolas da cidade e demais instituições. O “Abra e Consuma sem Moderação”, nome dado à iniciativa, foi implantado em 2014.

Mauro Porto, coordenador do projeto e presidente do Rotary Club de Ribeirão Preto-Oeste, comenta que a intenção é levar cultura pela cidade. A ideia inicial foi elaborada por um bibliotecário da Cooperativa dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo – Copercana, de Sertãozinho. Já o “Cultura no Ônibus” busca estimular o gosto pela leitura dentro do meio de transporte, com uma estante de livros à disposição. A ação, lançada em agosto de 2018, foi implantada na linha circular 199, que tem um percurso de 34 km, o que faz com que o passageiro navegue pelas páginas dos livros por mais tempo. “Precisamos expandir o projeto, porém necessitamos de mais livros. Queremos levar conhecimento à sociedade. Não posso garantir que leram, mas 700 livros foram e não voltaram”, garante Marcelo Brito, gerente de recursos humanos da Transporte Urbano de Ribeirão Preto (Turb) e coordenador do projeto no município.

Texto: Bruna Romão | Fotos: Ibraim Leão e Julio Sian