Conversa, lousa e giz

Conversa, lousa e giz

Essas são as principais ferramentas que Fernando Gelfuso utiliza em sala de aula, onde ensina gerações há mais de 25 anos

Quem já assistiu a uma aula de Fernando Antônio Gelfuso provavelmente não imaginou que este professor já fez de tudo antes de descobrir o talento para ensinar. Em meio a passagens por cursos de Farmácia e Bioquímica, Ciências Biológicas e Direito, também trabalhou como bancário, vendedor de cachorro quente, auxiliar de farmácia e revisor de um jornal. Tudo isso, para garantir o sustento da família e conseguir recursos para se formar. Depois de muita persistência, encontrou-se nas Ciências Sociais e descobriu um talento: ensinar com a mesma paixão com que foi contagiado por seus professores. Dessa maneira, despertou admiração em centenas de alunos. Entrevistado por sua ex-aluna e jornalista Luiza Meirelles, o professor revela sua trajetória e avalia a educação atual. O bate-papo foi acompanhado pela jornalista Mariana Secaf.

Luiza: Qual a sua relação com Ribeirão Preto?
Gelfuso: Sou nascido em Ribeirão Preto e fiz tudo aqui. O pouco que saí para estudar é insignificante perto do tempo que passei aqui. Fiz três faculdades, na Barão de Mauá e na Unaerp. Minha relação com a cidade é a mesma que um filho tem com a sua casa, com o ambiente familiar.

L: Como começou a trajetória que o transformou em professor?
G: A ideia de ser professor surgiu a partir do momento que eu conheci Gilberto Abreu, Melhen Adas e José Dantas. Digo sempre que eles são minhas referências. Sempre tive grandes professores, sou um privilegiado. Dentro da minha área de atuação, gosto de Ciências Sociais, História e Geografia. Esses três amigos, mais do que referências, sinalizaram que eu seria um bom professor e, com eles, percebi que queria fazer isso. Além deles, a vida familiar despertou meu interesse pela história. Dois tios, irmãos da minha mãe, foram importantes nesse processo: Reinaldo Mestriner, que era jornalista e Ramildo Mestriner. Eles tinham uma história mais intensa de militância política, pois Reinaldo era atuante no Partido Comunista aqui no Brasil e militou em movimentos armados. Por isso, ficou autoexilado no Chile, em 1970. Eu tinha uma admiração muito grande por Reinaldo, que participou da minha vida desde fazer as pipas na infância até o encaminhamento literário e político. A mesma coisa com o Ramildo.

L: Por que acabou optando pela história?
G: Naquela época, a ditatura militar era muito dura, pesada e a meninada da minha geração tinha pouca informação a respeito disso. A fase mais difícil, do governo Médici, de 70 até 74, a garotada desconhecia o que se passava no país, mas eu tinha todas as informações por causa dos meus tios. Um estava exilado e outro preso. Na minha casa, esse tema fervilhava e era permanente. Minha mãe sofria muito com a ausência dos irmãos, as cartas chegavam violadas. Eu conheci esse drama de perto. Então, já tive esse contato desde muito cedo, com as informações que recebia.

L: Você já está na sala de aula há mais de 20 anos. Consegue apontar mudanças significativas na História que você ensinava lá trás para a de hoje?
G: Há diferenças de conteúdo, mas não na sistemática de ensinar História. A geração de professores que me formou já era engajada na nova metodologia da História. Na década de 80, o Gilberto Abreu, o Melhem Adas e o José Dantas, já eram revolucionários naquilo que faziam, tinham uma proposta de ensino de História e de Geografia que estava adequada ao que viria. Eles fugiam da norma padrão de ensinar História no regime militar. Quando comecei a dar aulas, com a minha referência e inspiração, já encaminhei para essa vertente nova da História. O que mudou hoje? A forma de se trabalhar com a História, que tem muito a ver com a nova proposta de ENEM. Nesses últimos tempos, a ciência está assumindo nova roupagem, mais interpretativa. O vestibular está mais voltado para a capacidade de interpretar um texto de História e entende-lo.

L: Em relação aos alunos, que mudanças destacaria?
G: Os alunos mudaram muito e negativamente do ponto de vista da humanidade. Acho que, de alguns anos para cá, principalmente depois da década de 80, houve uma desumanização das relações sociais. Essas relações têm sido desumanizadas na medida em que o mundo mercadológico e tecnológico substitui a relação humana. A educação me preocupa. Temos que repensar as próximas gerações e o próprio futuro da civilização. Estou radicalizando, mas acho que o que realmente está em jogo nesse modelo de sociedade que temos é o futuro da civilização, a desumanização, provocada pelas novas formas de comunicação, muito impessoais. Isso se reflete na escola e, ao mesmo tempo, é produto da forma como a escola foi conduzida nos últimos 30 anos, pois se valorizou muito o que é técnico.

L: Você acredita e adota novas tecnologias pedagógicas ou confia mais na lousa, no giz e na fala?
G: Ainda acredito que a figura do professor é insubstituível, porque educar é um ato de humanidade. A prática da educação é humana. Não desconsidero as ferramentas tecnológicas, que também são fundamentais. Não dá para falar de qualquer tema, mesmo da História, sem usar um recurso de mídia, sem usar a internet. Agora, a formação, a sala de aula, a escola, o ambiente escolar só existem por conta da ação do professor. O ato de educar é uma atitude fundamentalmente humana. O professor, para ensinar, tem que estar próximo do aluno. Essa aproximação sensibiliza o outro ser humano para receber a informação.

L: De que forma você busca ferramentas para manter uma boa relação com os estudantes de hoje?
G: Primeiro, mostro-me próximo do aluno. Isso envolve uma porção de coisas, como deixar o academicismo de lado e conversar a língua do estudante. A conversa gira em torno de um tema com base científica, mas a transmissão tem que ser feita na língua do jovem. Também é preciso estar próximo, em todos os sentidos, inclusive fisicamente, demonstrar preocupação enquanto professor com o cotidiano dele, mesmo fora da escola e mostrar que a vida é feita a partir das relações humanas e não mercadológicas e tecnológicas.

L: Qual a importância da sua família na sua trajetória?
G: Na minha vida pessoal, a minha mulher sempre foi a pessoa mais importante. Estou casado há 32 anos e nós temos três filhos. O último tem uma diferença para o primeiro de 14 anos, pois a minha vida foi muito difícil em um determinado período. Quase não participei da formação dos mais velhos, pois viajava muito para dar aulas, trabalhava em muitos lugares. Assim, foi a Ana quem fez tudo para mim e quem permitiu que eu estudasse. Fiz quase todas as minhas faculdades depois de casado e ela, além de me incentivar, foi muito companheira. Mesmo em casa, muitas vezes, eu ficava por conta de estudar e de trabalhar. Meus filhos são o alimento para isso tudo, aonde eu busco energia.

L: Dos seus três filhos, dois viraram professor. Você imaginou que eles seguiriam o mesmo caminho que você?
G: Nunca. Enganei-me em tudo. Eu imaginava que o Guilherme faria Direito ou Jornalismo, pois ele escreve muito bem, mas prestou Farmácia. Foi uma surpresa, pois eu nunca perguntei, nunca interferi. Lembro-me que, na época, eu confidenciei à Ana que não ia dar certo, mas deu. Ele passou nas melhores faculdades, optou em ficar aqui mesmo e é apaixonado pelo o que faz. O segundo, Fernando Henrique, eu tinha a certeza de que faria algo ligado a Marketing, pois era comunicativo e adorava organizar festas e encontros da turma. No dia em que ele foi fazer inscrição no vestibular, disse que ia fazer História. Falei para ele pensar bem, observar a vida que eu levava, mas ele disse que tinha certeza da escolha. O mais novo, ouço que quer engenharia, mas também vou esperar que ele decida no tempo dele.

L: Você imagina que influencie também a escolha de seus alunos em sala de aula?
G: A experiência mostra que sempre inspiramos. O professor é uma figura de identificação. Tenho colegas aqui que foram meus professores e são pessoas que até hoje lembro dando aula. Tenho medo de errar, por isso, procuro manter a minha conduta de professor dentro e fora da escola. Nesse aspecto, aluno é como filho, faz tudo igual. Portanto, devemos ensinar com menos palavras e mais exemplos.

L: O que falta para que a educação deslanche no Brasil?
G: Falta muito. Eu peço licença para outros amigos professores que lerão isso, mas creio que falta o professor também assumir a responsabilidade por aquilo que ele faz. Não acho que temos que esperar decisões do Governo Federal, do Governo Estadual e do Município. Como eu nunca esperei que os patrões dos lugares onde trabalhei, em escola pública ou privada, dissessem o que eu deveria fazer dentro da sala de aula. Não acho que possa depender do que eles querem que eu faça. Se esperarmos alguém dizer o que deve ser feito, estaremos sempre ligados ao mundo mercadológico, ao bem-estar financeiro da empresa ou do Estado. Educação não é isso. Professor precisa trabalhar com a consciência de que está formando seres humanos, de que ele é agente de manutenção da civilização e da elaboração de um novo projeto de sociedade. Hoje, o professor tem que ter isso na cabeça, pois competimos com a televisão e isso não é brincadeira. Se o aluno tiver que escolher entre ficar em casa vendo televisão ou ver o Gelfuso falar de múmia e História, vai escolher a televisão.

L: Que fato histórico você acha que merece estar nos livros didáticos, mas que foi preterido?
G: Antes, muitos fatos eram omitidos. Todos os temas da História ainda apresentam algo a ser refeito. A História foi meio mentirosa, mas de 30 anos para cá, vem sendo reescrita. Personagens que não faziam parte da história antigamente hoje fazem, como o operariado que lutou, não só reis e príncipes. Mas existem algumas passagens não muito bem estudadas, pois História é uma ciência que precisa de documentação. Ainda quero ver um capítulo da história do Brasil sobre a proclamação da República, destacando o papel de Chiquinha Gonzaga. Não como a primeira maestrina brasileira, como autora do Abre Alas ou como uma música extraordinária, mas como uma ativista política importante para o processo de proclamação da República. A Chiquinha Gonzaga liderou uma revolta no Rio de Janeiro, chamada Revoltada do Vintém, movimento que assustou as autoridades da época, no Império. Ela foi uma ativista republicana muito importante, só que isso não está nos livros.

L: Que acontecimento você ainda quer ver registrado na História do Brasil?
G: A erradicação da pobreza, do analfabetismo e o nascimento de uma geração muito consciente enquanto ser social, como agente de inserção de outros seres humanos na sociedade.


Contador de História

“Profissionais que cumprem seu papel com paixão nunca passam despercebidos. Quando estão diante de uma sala de aula, então, são capazes de marcar uma fase da vida. Na minha trajetória escolar, tive a sorte de cruzar com vários professores apaixonados pela atividade e um deles foi o Gelfuso. Talvez pela afinidade com a disciplina, a memória de suas aulas no colégio particular de São Joaquim da Barra continua fresca, apesar da passagem dos anos. Com passos firmes, gestos expressivos e fala segura, tinha o poder de envolver os alunos do ginásio e do colegial. Talvez, de uma certa maneira, eu deva a ele, entre outros, um pouco da responsabilidade pela minha escolha profissional: contar histórias.”
Luiza Meirelles, jornalista


Fotos: Júlio Sian

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