Corrida como meta

Corrida como meta

Conhecida como o esporte mais democrático, a corrida leva milhares de praticantes às ruas, guiados por distintas motivações

Embora corredores de rua compartilhem a mesma paixão, as motivações para aderirem à prática são distintas. A corrida leva milhares de adeptos às ruas brasileiras. Estudo apresentado à Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, denominado “Corrida de rua: um fenômeno sociocultural contemporâneo”, as corridas surgiram com mensageiros, gregos e romanos. Ao final do século XVIII, em virtude de boas estradas, as notícias não eram mais levadas a pé e mensageiros transformaram-se em corredores. História à parte, afinal, o que leva tantas pessoas a correrem? “Embora as motivações para correr sejam inúmeras, o espírito competitivo está dentro de cada um”, afirma o medalhista olímpico Vanderlei Cordeiro.

A corrida, para a analista financeira Marília Trevisani, sempre foi um esporte interessante por permitir que metas pessoais pudessem ser alcançadas e pela diversão que a modalidade proporciona. Em 2012, divorciou-se, pediu demissão e mudou de cidade. Marília viu no esporte uma forma de reconquistar o equilíbrio emocional. ''Nunca busquei performance, não sou competitiva, mas encontrei na corrida alívio para minhas angústias. Correndo, eu me livro dos sintomas da ansiedade, alinho meu raciocínio e encontro energia para um bom dia de trabalho. Costumo dizer que a corrida é meu antidepressivo natural", enfatiza.

“Nunca busquei performance, não sou competitiva, mas encontrei na corrida alívio para minhas angústias”, afirma Marilia

A corrida, se executada regularmente, eleva os níveis de serotoninérgica e noradrenergético no cérebro. Isso justifica o que Marília sente. Segundo Enrico Puggina, professor da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto, da USP, a corrida, assim como qualquer atividade física, induz a vários fatores imprescindíveis ao sistema nervoso central. “Alguns neurotransmissores, fatores endócrinos e hormonais. A serotonina entra como importante agente neurotransmissor, que dá uma sensação de bem-estar”, esclarece. 

Herói olímpico

Quem não se lembra da emblemática cena de um atleta corredor nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, sendo agarrado por um manifestante irlandês. O episódio marcou a história do esporte e o consagrou como herói olímpico, garantindo a ele a medalha de bronze em uma das principais competições esportivas do planeta. Vanderlei Cordeiro de Lima, de 48 anos, encerrou a carreira e, hoje, pratica a corrida em busca de qualidade de vida. Perguntado sobre os benefícios que a corrida proporcionou a ele ao longo dos anos, não hesita em responder. “Trouxe disposição, porte físico e autoestima. Hoje tiro proveito de toda herança da minha carreira esportiva. As sensações de prazer e bem-estar são únicas”, completa o atleta.

O medalhista olímpico, que desde a adolescência corria em colheitas de café e cana-de-açúcar para chegar à escola, chamou a atenção de um treinador, que o convocou para o atletismo. Mal podia imaginar que a corrida proporcionaria a ele bons frutos que até hoje podem ser colhidos. “Saí de um esporte competitivo, mas jamais o esporte vai sair de mim”, garante Vanderlei. O ex-atleta fundou, em 2008, o Instituto Vanderlei Cordeiro de Lima, com sede em Campinas, que atende a 220 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social e ainda oferece a chance desses jovens a terem acesso ao esporte.

Razões para correr

De acordo com Puggina, a razão de correr é curiosa e bastante complexa. Pensando no perfil das pessoas, há indivíduos que buscam a prática por saúde ou por gosto. Ainda há aqueles que a procuram porque querem superar obstáculos e reduzir as próprias marcas. "Primeiro se busca algum benefício, depois, esse benefício é deixado de lado. Em seguida, a pessoa quer encontrar aquilo que é capaz de fazer", observa o professor.

A educadora física e atleta ultramaratonista Flávia Nitolo Corrêa dos Santos, aos poucos, tomou gosto pela corrida. Recentemente foi campeã da UAI Ultramaratona dos Anjos Internacional, realizada em Passa Quatro, Minas Gerais. Pode parecer brincadeira, mas entre estradas de terra nas montanhas mineiras, ela correu 135 km em 24 horas e 47 minutos. Sua próxima meta é participar da BR-135, considerada a ultramaratona mais difícil do Brasil. O percurso é pelas montanhas da Serra da Mantiqueira. “Treino de 3 a 4 vezes por semana. Agora quero correr 217 km. A corrida vicia. Quero sempre desafiar meu corpo e minha mente", acrescenta. Esse comportamento pode ser benéfico, mas a prática viciante da corrida já foi abordada sob outro aspecto num estudo do Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina, que analisou perfis de maratonistas brasileiros. A pesquisa revelou corredores com sintomas de abstinência. Ansiedade, sentimentos de culpa e depressão eram fatores desencadeados pela falta do exercício regular. 

Flávia correu 135 quilômetros em 24 horas e 47 minutos, e foi campeã da UAI Ultramaratona dos Anjos Internacional

Enrico salienta que a corrida deve se tornar uma atividade prazerosa, uma vez que ela é uma das modalidades que o indivíduo consegue ter mais gasto energético e rápidos benefícios, comparados a outras atividades, como natação ou ciclismo. Para exemplificar a afirmação, o professor cita adaptações musculares e centrais. A primeira refere-se ao aprimoramento muscular, que proporciona ganhos a curto prazo; já a segunda faz alusão à parte cardiovascular, redução de batimentos cardíacos por minuto, facilidade de entrada de O2 no músculo e saída de CO2. Essas adaptações são mais demoradas.

Para Enrico, outra questão importante é a ação que o exercício, em especial a corrida, tem na modulação da variabilidade da frequência cardíaca

Em se tratando de quem pode ou não correr, o profissional reforça que, não havendo restrição ortopédica ou de qualquer outra natureza, qualquer pessoa pode começar. A diferença, de acordo com ele, está na maneira como as pessoas são treinadas. O iniciante deve ter uma orientação técnica especial. Um treino mal feito pode ocasionar lesões ou piorar problemas cardíacos pré-existentes. Vanderlei Cordeiro, que não tem um longo histórico de lesões, diz que isso foi resultado do bom trabalho desempenhado por sua equipe de profissionais ao longo dos anos. Para ele, a pessoa que não segue orientação, planilha de treinamento e já quer correr de imediato, certamente, terá consequências graves.

Corrida em números

 Para Gerso correr se transformou em um estilo de vida  Dados da Federação Paulista de atletismo revelam que, em 2016, houve 906.930 participações em corridas de rua, com 529.340 homens e 377.590 mulheres. Embora esse número seja expressivo, a quantidade de praticantes dessa modalidade em Ribeirão Preto ainda é baixa, quando comparada a outras atividades físicas. Pesquisa com 400 entrevistados, realizada pelo Instituto Engrácia Garcia em fevereiro de 2018 mostra que, dos 57% dos que praticam exercícios físicos em Ribeirão Preto, apenas 7% correm. Cerca de 27% dos entrevistados preferem frequentar as academias e outros 23% realizar caminhadas. O proprietário do instituto, Gérson Engracia Garcia, acrescentou que os adeptos da corrida costumam praticar atividade pelo menos três vezes por semana. “Hoje, correr e participar de provas virou um estilo de vida”, observa Gérson.   

Para a aposentada Cirlei Aparecida Vanni Saraiva, que pesava 112 kg e há cerca de um mês está na casa dos 103 kg, a corrida foi motivo para devolver o sorriso que há muito tempo havia perdido, após entrar em depressão devido à perda dos pais. O uso demasiado de antidepressivos e de calmantes ajudou no processo de ganho de peso. Atualmente, pratica corrida uma vez por semana. "De um ano para cá, minha vida mudou. Estou muito feliz. Sinto paz interior. É uma superação de obstáculos", completa a aposentada. 

Cirlei pesava 112 Kg e, com a corrida, chegou aos 103 kg em aproximadamente um mês

Ainda de acordo com a pesquisa do instituto, 15% dos entrevistados que praticam exercícios físicos ainda disseram que a corrida eleva a autoestima e representa um estilo de vida. Para a biomédica Muriel Berti, a busca pela estética foi um fator relevante. "Costumo dizer: corro para comer pão de queijo", brinca. Hoje, pratica o esporte de três a quatro vezes por semana. "Com a corrida, tenho fôlego para aguentar o dia a dia. A melhor sensação é depois. A endorfina liberada me dá um bom relaxamento”.

“Com a corrida, eu tenho fôlego para aguentar o dia a dia”, diz Muriel

Benefícios para o coração

São várias vantagens que a corrida traz a esse órgão. De acordo com o cardiologista Paulo Roberto de Alvarenga, o indivíduo que corre melhora a parte muscular e circulatória do coração. A prática, assim como outras modalidades esportivas, faz com que ele fique mais adaptado às atividades do dia a dia. “É sabido, ainda, que, a corrida, além de atuar no coração, melhora a parte psíquica — inclusive, é indicada para pacientes com depressão e ansiedade. Os níveis de serotonina no cérebro são controlados”, sustenta. Ainda segundo o médico, a corrida faz oxigenar melhor o músculo, melhora a circulação das artérias coronarianas, evita a formação de placas e obstruções no coração, prevenindo, por exemplo, o infarto. Melhora, também, a condição de indivíduos hipertensos, diabéticos e obesos. Outra questão importante destacada pelo professor da USP é a ação que o exercício tem na modulação da variabilidade da frequência cardíaca, ou seja, quem se exercita e pratica, por exemplo, a corrida, tem mais facilidade de regular essa frequência. Se a corrida proporciona tantos benefícios à saúde, vale a pena seguir os conselhos de um dos grandes ícones do esporte nacional. “A corrida de rua é o esporte mais democrático. Não depende de lugar específico para ocorrer e o ambiente é o mais diferenciado de outras modalidades esportivas. Um conselho que dou é que nunca é tarde para correr. Vive melhor e vive mais. Eu agradeço a Deus, porque o esporte mudou minha vida”, encerra Vanderlei Cordeiro de Lima. 

“É sabido, ainda, que a corrida melhora a parte psíquica, inclusive, é indicada para pacientes com depressão e ansiedade”, ressalta Dr. Paulo

Hora do exercício
*Porcentagem referente à parcela da população ribeirãopretana que pratica exercícios físicos.

Academia - 47%
Caminhada - 40%
Corrida - 13%

Ponto de vista 

“Saí de um esporte competitivo, mas jamais o esporte sairá de mim.”
Vanderlei Cordeiro de Lima, um dos maiores corredores do atletismo brasileiro.




Texto: Bruna Romão
Fotos: Júlio Sian e Ibraim Leão

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