Costurando sonhos

Costurando sonhos

Em um bate-papo com a jornalista Máisa Valochi, o estilista Junior Santaella salienta que sua principal missão é atender às expectativas de quem o procura

O porte pequeno, a discrição com que se movimenta e o tom de voz baixo são algumas das características do estilista Junior Santaella que revelam um contraste interessante com seu trabalho, sempre marcado por uma alta dose de sofisticação e de presença. Talvez tenha sido justamente o jeito discreto, juntamente com a dedicação extrema ao trabalho, que tenha o tornado um dos favoritos de noivas, mães e madrinhas. Em seu ateliê, na capital paulista, recebe clientes de diversos cantos de São Paulo e do Brasil, ao ponto de não ser capaz de atender a todas que o procuram para transformar o vestido dos sonhos em realidade. Apesar disso, garante que entre aquelas que nunca ficam de fora de sua concorrida agenda estão muitas ribeirãopretanas. 

Este foi um dos motivos que o fizeram aceitar o convite do amigo Renato Aguiar para participar da Semana de Noivas, que aconteceu no Shopping Iguatemi Ribeirão entre os dias 18 e 24 de julho. O evento, que foi um sucesso de público, teve como finalidade reunir diversos profissionais ligados ao universo dos casamentos para apresentar seu trabalho, ao mesmo tempo em que buscou facilitar a vida de quem está pensando em se casar e quer ficar por dentro das principais tendências do segmento. 

O estilista paulistano falou ao público no segundo dia da Semana de Noivas, mas, antes de seguir para o Shopping Iguatemi, foi recebido por Renato Aguiar em sua casa para um almoço surpresa. À sua espera, estavam diversas clientes e amigas do anfitrião e de seu ilustre convidado. Foi durante o almoço que o estilista recebeu a jornalista Máisa Valochi para uma conversa descontraída. 

Máisa: Antes de mais nada, o que o fez começar a costurar?
Junior:
Devo dizer que não sei exatamente como aconteceu o início da minha carreira. Eu acredito que todos nós temos um impulso interno que nos mobiliza em uma determinada direção. Os meus anseios me levaram a certas escolhas que me trouxeram até o lugar onde estou agora.

Máisa: Você é conhecido com o estilista das famílias tradicionais de São Paulo. Isso é verdade?
Junior:
Não acredito em definições dessa natureza, assim como não a considero verdadeira, simplesmente porque acho difícil definir exatamente a família tradicional paulistana. Além disso, aceitar essa associação significa se fechar em uma espécie de concha. O que é verdade a meu respeito é que não gosto muito de aparecer, não sou afeito a entrevistas e não incorporei as redes sociais na minha rotina. Só acompanho as notícias, tanto sobre mim quanto sobre as minhas criações, através de outras pessoas, que me trazem esse feedback.

Máisa: De qualquer forma, o reconhecimento que você conquistou é inegável. A que atribui esse sucesso?
Junior:
Às muitas horas que direciono ao trabalho, sempre com extrema dedicação e afeição. Nos períodos do ano de maior demanda, costumo trabalhar das 7h às 22h. Faço isso há 40 anos. Só consigo manter esse ritmo porque não me sinto melhor do que ninguém, nem bom o suficiente. Se este fosse o meu entendimento, provavelmente eu pararia de investir meu tempo nas minhas criações.

Máisa: Costuma acompanhar o trabalho da nova geração? Que nomes destacaria?
Junior:
Acompanho, sim, os profissionais que vêm surgindo, assim como me mantenho informado sobre as tendências da moda, especialmente, em relação à área em que atuo. Hoje em dia, é impossível não estar atento ao que está sendo feito, pois o acesso à informação é muito difundido e rápido. No entanto, não me sentiria à vontade para citar este ou aquele nome, pois o gosto é algo muito particular. No século XVIII, o filósofo Kant fez um estudo em que defende que o gosto não é universal. Ou seja, o que eu acho bonito pode ser feio aos olhos dos outros. Vale dizer, mais uma vez, que, na moda, o sucesso também é fruto do trabalho, da dedicação e do afeto que se coloca em cada peça. Essas são as matérias-primas que não podem faltar.

Máisa: Você acompanha esse movimento apenas a título de informação ou também traduz isso nas suas criações? 
Junior:
A moda é tirana. É preciso estar atento a ela e absorver o que se oferece de mais interessante, trabalhando com novos tecidos, outros acabamentos, diferentes padrões. A moda reflete a cultura e, inserido nesse contexto, não tenho como ficar indiferente às tendências.

Máisa: O que o inspira?
Junior:
Tudo à minha volta pode ser fonte de inspiração, a começar pela natureza e por todos os elementos que ela compreende. A natureza, a vida e até a relação afetiva que eu mantenho há 37 anos me inspiram. Antes de mais nada, a pessoa para quem eu vou fazer um trabalho é minha principal fonte de inspiração. A segunda é o tecido. 

Máisa: No seu ateliê, já recebeu muitos pedidos inusitados?
Junior:
Sim, diversos. No entanto, lido muito bem com eles. Quando jovens, as pessoas costumam ser mais autoritárias em relação ao seu gosto e às suas escolhas. Elas carregam em si uma verdade quase absoluta. Com o passar do tempo, vão ficando naturalmente mais flexíveis, maleáveis, entendo que o gosto é algo relativo. Posso dizer que, hoje, minha principal missão é atender às necessidades da pessoa que me procura. O meu maior desejo é prestar um serviço que satisfaça a cliente. 

Máisa: Entre as suas criações, alguma o marcou de forma especial?
Junior:
Não, todos os vestidos me marcaram profundamente, uma vez que todos eles foram feitos com muito amor. Eu presto um serviço e todos os vestidos que desenvolvo fazem parte da minha da vida. Cada peça que produzo depende de muito esforço, não fica pronta facilmente, pois passa por muitas etapas. Assim, não dá para valorizar mais uma criação ou outra, até porque, quando uma cliente me procura, já recebo isso como um elogio ao meu trabalho, então, devo tratá-la com todo carinho. Para mim, todos os vestidos são igualmente especiais.

Máisa: O mercado brasileiro de tecidos supre bem as necessidades da alta costura?
Junior:
Não. Infelizmente, o mercado têxtil do Brasil, que já foi muito bom, parou no tempo. Quando eu comecei a trabalhar, o mercado era maravilhoso, mas hoje, por aqui, não se investe em maquinário ou em novidades de maneira geral. Sem sombra de dúvidas, já vivemos tempos melhores.

Máisa: Onde você busca as matérias-primas que utiliza nas suas criações?
Junior:
Procuro como uma raposa por todos os lugares que frequento. No país inteiro, se uma região me inspira, vou lá buscar o que puder encontrar de mais inspirador. Como já disse anteriormente, a cliente é minha primeira inspiração, mas o tecido é a segunda, de fundamental importância.

Máisa: Para encontrar as matérias-primas adequadas, o que você procura?
Junior:
Não há um elemento específico ou restrições. Posso dizer que estou sempre procurando por matérias-primas com um toque de originalidade.

Máisa: O que você diria que caracteriza o seu trabalho? Há um elemento que seja como uma assinatura?
Junior:
Não consigo fazer essa leitura. Acho que as minhas clientes é que poderiam responder essa pergunta com mais propriedade. Da minha parte, posso dizer que a minha maior preocupação é atender às expectativas de quem me procura. Eu não posso frustrá-las.

Máisa: Tem alguém que você gostaria de vestir e ainda não vestiu?
Junior:
Não. Eu não tenho musas e nunca pergunto o sobrenome das pessoas que me procuram. Aliás, a correria do dia a dia não deixa espaço para isso. Busco minha motivação no andamento de cada trabalho, na direção de realizar sonhos. 

Máisa: Consegue atender a todos os clientes que o procuram?
Junior:
Infelizmente, não. Aliás, administrar a agenda é uma das tarefas mais difíceis. Isso porque há meses de altíssima demanda e outros meses, mais tranquilos. Preciso organizar minha vida toda em função dessa sazonalidade do segmento em que atuo. Hoje em dia, isso já se tornou um pouco mais fácil, mas, ainda assim, é complicado.

Máisa: O resultado final do seu trabalho depende do desempenho de outros profissionais, como cabeleireiros e maquiadores. Como é a sua relação com eles?
Junior:
É sempre bom ter esse contato com outros profissionais. Geralmente, esse relacionamento se estabelece em função de cada cliente, que faz questão de alinhar o trabalho dos profissionais envolvidos na sua produção. De fato, esse é o melhor dos mundos, uma vez que o batom errado pode estragar o resultado final. De forma geral, gosto de trabalhar com outros profissionais, quando compartilhamos da mesma dedicação.

Máisa: Você já confessou que não é muito afeito a entrevistas ou redes sociais. Como faz para mostrar seu trabalho?
Junior:
Não faço muito. O meu trabalho circula por onde vão as pessoas que o vestem. Minhas criações têm endereço certo: as pessoas que me procuram. Acho que esse é o único modelo que me agrada. Não sei se conseguiria fazer um desfile, por exemplo, porque cada vestido é feito para uma pessoa, uma ocasião. Para mim, não faz sentido tirá-lo do contexto.

Máisa: O que o fez aceitar o convite do empresário Renato Aguiar para participar da Semana de Noivas e o que pretende abordar na sua palestra?
Junior:
Tenho muitas clientes ribeirãopretanas e é sempre um prazer ter a oportunidade de reencontrá-las. Na palestra, procurarei mostrar que a moda possui um viés um pouco mais profundo que o comprimento da saia, que este assunto não é uma bobagem. Fiquei feliz com a receptividade desse almoço e, principalmente, com o convite em participar da Semana de Noivas. 

O azul da serenidade

“Quando se falava em Junior Santaella, o homem que assina os vestidos de noiva mais desejados do país, surgia na minha mente a imagem de uma figura irreverente, daqueles estilistas únicos, cuja presença se nota por um quê de inovação. Eu estava totalmente enganada. Junior Santaella é o oposto disso. É uma pessoa discreta, tímida, daquelas que fazem questão de passar despercebidas. É um homem alinhado, mas sem nenhum traço que ajude a definir sua profissão — e seu talento — pela forma como se veste. Não é à toa que Junior se apresenta como uma surpresa. Pesquisando sobre o estilista, é raro encontrar uma foto dele ou alguma entrevista que ele tenha concedido. Eu tive a sorte de conseguir. Devo confessar que ele é arredio e tentou escapar da conversa algumas vezes, mas, quando se sentou ao meu lado, falou com a mesma naturalidade com que conduz o seu trabalho e, ao que tudo indica, sua vida. Em poucos minutos, percebi que Junior Santaella é mesmo admirável e cativante, seja pelo talento que faz as noivas suspirarem pelas suas criações, seja pela humildade e pela simpatia implícitas na sua conduta e nas suas palavras. Sem contar que ele tem um belo par de olhos azuis, daqueles que transmitem uma serenidade ímpar, iguaizinhos aos que meu avô tinha.” Máisa Valochi, jornalista.

Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Julio Sian

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