Criatividade aguçada
Atrás de um simples copo de cerveja estão ingredientes diversificados e um longo processo de fabricação
Produzir cerveja é um processo relativamente simples, mas que exige apurada técnica e criatividade nos detalhes. Segundo, Tio Limongi, chef internacional, sommelier, sócio e mestre cervejeiro da Cervejaria Kraken, na Argentina, e da Cervejaria SP 330, em Ribeirão Preto, destaca que é possível apontar se uma cerveja tem qualidade conhecendo o processo de produção da bebida. “A cerveja pode ser boa ou ruim, independentemente se é artesanal ou industrial”, salienta.
Antes de olhar para a produção da cerveja, no entanto, é importante frisar que é possível encontrar diversas variedades da bebida. A classificação depende de fatores como método de produção, ingredientes usados, sabor, cor, aroma, receita, história, origem, entre outros. Além disso, as cervejas estão classificadas em inúmeras categorias e estilos ,que resultam nas famílias Lager, grupo das cervejas mais consumidas do mundo, Ale, associada a cervejas com sabores e aromas complexos, e Lambic, separada das anteriores pelo tipo de fermentação, que é espontânea.
Outras nomenclaturas, como Trapista, Abbey, Rauchbier, Fruit Beer e Temperadas, também permeiam o universo cervejeiro. “A grande diferença entre cada uma delas está nas matérias-primas usadas, nos processos, no tempo e no local da elaboração”, ensina o mestre cervejeiro. Processo que Tio Limongi explica bem, enfatizando que, no caso da cerveja artesanal, existem duas condições muito importantes: higiene e processo. “Tem uma velha frase que diz que os cervejeiros só misturam os ingredientes e que a cerveja se faz sozinha.
Porém, não podemos esquecer que se trata de um alimento, um produto saudável”, pontua.
Como a produção não é automática, os mestres cervejeiros precisam acompanhar o processo continuamente, por meio de planilhas, respeitando normas de segurança e todas as recomendações dos órgãos fiscalizadores. Por isso, na hora de produzir a cerveja artesanal, um dos itens cruciais é o tempo. “Sem tempo, é impossível fazer uma boa cerveja”, garante o especialista. 
Tio revela que, entre as etapas que mais aprecia em seu trabalho, o desenvolvimento das receitas merece destaque. “A quantidade de maltes e de combinações é gigante. Esses fatores vão determinar a densidade, o corpo, o estilo, o sabor e a cor da cerveja”, comenta. Antigamente usado pelas propriedades conservantes e para agregar amargor, hoje o lúpulo é uma parte fundamental da cerveja, aportando, além do famoso amargor, muito sabor e aroma à bebida.
Deve ser combinado, ainda, o fermento, usado para converter o mosto em cerveja. As leveduras podem ser mais neutras, mais frustradas, sulforosas ou ácidas. “Imagina a quantidade de maltes, lúpulos e fermentos que existem? As combinações possíveis, portanto, são milhares e milhares. Hoje, existem perto de 200 estilos de cerveja dentro do Beer Judgement Certified Program (BJCP) e mais de mil subestilos. Nessa história, o pior é que ainda tem pessoas que só conhecem a cerveja Pilsen”, lamenta o mestre cervejeiro.
Ingredientes inusitados
Especialmente no Brasil, além dos componentes típicos da cerveja, a variedade de ervas, frutas, especiarias, madeiras, entre outras matérias-primas disponíveis, estimula a
criatividade dos fabricantes de cerveja. “Há dois anos, Pete Slosberg — uma das referências mundiais no mundo da cerveja artesanal — destacava a quantidade de cervejas criativas que havia experimentado. Hoje, essas cervejas ganharam o mercado. Perguntei a ele qual havia sido a mais esquisita e ele destacou uma Porter (estilo clássico inglês) com tinta de lulaquesegundoele, ficou horrível”, lembra Limongi.
A verdade é que na produção e na harmonização desses ingredientes, o que manda é a criatividade. “Destaco essa características nos mestres cervejeiros brasileiros que, no dia a dia, esforçam-se para melhorar o produto e criar novas receitas e tendências em um mercado que precisa de apoio e crescimento”, finaliza.
A preferida do mestre
Cerveja Californication, American Pale Ale criada especialmente para o clima de Ribeirão Preto. “A Californication é uma cerveja para beber e ser saboreada. Apesar do teor alcoólico de 6,5% e do amargor de 65 IBUs, é uma bebida de alta ‘drinkability’, com sabor refrescante, de final seco e agradável, remetendo ao maracujá e frutas cítricas”, sugere Tio.
Artesanais x Industriais
Tio Limongi aponta as principais diferenças na produção de cervejas artesanais e industriais
Matéria-prima:
Artesanais: água, malte, lúpulo e levedura. Às vezes, uma proteína natural é utilizada para decantar.
Industriais: estratos de malte e lúpulo, cereais (milho, arroz), produtos químicos para acelerar a fermentação, antioxidantes e conservantes.
Processos:
Artesanais: manual, o que exige acompanhamento do processo completo
Industriais: automático, com mínima participação de pessoas
Tempo:
Artesanais: de três ou quatro semanas para ficar pronta
Industriais: Artesanais: de três ou quatro semanas para ficar pronta
Onde é produziada:
Artesanais: o local da cervejaria é conhecido e, muitas vezes, pode ser visitado; lá, geralmente é possível conhecer os donos e o mestre cervejeiro
Industriais: a fábrica poucas vezes pode ser visitada e os proprietários não costumam se envolver no processo de produção em si