Cuidador da infância

Cuidador da infância

O pediatra e presidente da Unimed Ribeirão Preto, Álvaro Truite, e a patologista Margarida Moraes revelam as nuances da profissão que contribuem na formação de um adulto saudável

Ajudar as pessoas a chegarem à vida adulta com saúde e conscientes de seus deveres e obrigações como cidadãos é o desafio da carreira do pediatra e presidente da Unimed Ribeirão Preto, Álvaro Afonso Truite. Tendo a convicção de que os bons exemplos são sempre o melhor caminho para atingir este resultado, o médico revela à patologista Margarida Maria Fernandes da Silva Moraes as ferramentas essenciais para trilhar seus objetivos. Apaixonado pela Medicina, Álvaro é cooperado da Unimed há 32 anos e encontrou na área administrativa sua segunda paixão profissional.

Na instituição, já ocupou diversos cargos e conhece os mecanismos de gestão, estando integrado nas suas melhorias. Para Margarida, a pediatria é uma área da Medicina extremamente exigente, em que os profissionais, com suas qualidades e defeitos, têm que defrontar grandes dificuldades para chegar ao diagnóstico e tratamento da criança. “Eles enfrentam muitas situações de perigo e merecem ser homenageados por meio desta entrevista”, aponta a médica. 

Apesar de ser uma especialidade exigente no seu dia a dia, Álvaro observa que a pediatria é também bastante prazerosa, no sentido de que o médico lida com uma fatia das patologias, que, na maioria dos casos, tem uma resolutividade muito boa no consultório mesmo. “Quando a criança está doente, ela demonstra seu estado e, quando a doença cede, ela também o demonstra de uma forma muito espontânea, ao contrário do adulto, que ainda reclama, fica com resquícios psicossomáticos, mesmo depois de curado”, conta Álvaro. Na entrevista a seguir, Margarida e Álvaro abordam estas e outras particularidades da Medicina.

Margarida: Fale da criança Álvaro. Conte um pouco da sua história.
Álvaro: Pertenço a uma família de classe média, com uma situação econômica boa, e tive uma infância tranquila. Até minha graduação em Medicina, só me dediquei aos estudos. Sempre estudei em escola pública, iniciando pelo jardim de infância e curso primário na Escola Estadual Fábio Barreto, ingressando em seguida, na Escola Estadual Otoniel Mota, onde completei o ginasial e colegial, hoje denominado Ensino Médio. O curso pré-vestibular fiz no Objetivo, ingressando então na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP. Ao contrário, minhas irmãs estudaram em colégios de freiras porque, na época, a tradição era esta: os homens estudavam em escola pública e as mulheres nas particulares.

Margarida: O que o estimulou a estudar Medicina?
Álvaro: A opção veio, talvez, por influência do meu pai, pois cresci ouvindo-o dizer que gostaria de ter feito Medicina e até teria conseguido se não fossem os tropeços da vida. Meu avô era agricultor na região de Bebedouro, cultivava café e meu pai estudava em internato, preparando-se para ingressar em um curso de Medicina. Só que, por volta de 1929, veio a crise mundial do café e os produtores brasileiros se viram em grande dificuldade, quando o produto passou a valer nada no mercado internacional. Diante deste cenário, os filhos dos fazendeiros tiveram que retornar às suas casas para ajudar no campo. Desta forma, meu pai acabou cursando a Escola Agrícola, onde exerceu a função de professor até a Escola ser transferida para Jaboticabal. O antigo local da Escola Agrícola passou a abrigar a faculdade de Medicina da USP, onde mais tarde ingressei para iniciar minha formação profissional.

Margarida: Como avalia a situação das crianças diante das novas tecnologias?
Álvaro: Precisamos analisar sob duas óticas. Eu não sou saudosista e acredito que a situação hoje é muito melhor que antigamente e o amanhã será melhor ainda e, assim, sucessivamente. Na minha infância, por exemplo, as brincadeiras eram andar de bicicleta, soltar papagaio, etc. Hoje, a pipa (como chamam o antigo papagaio) já vem pronta. Na minha época, a gente tinha de colher o bambu para fazer a vareta e a madeira para o carretel. Então, acredito que as coisas estão evoluindo sempre para melhor.

Margarida: Elas já incorporaram os avanços tecnológicos?
Álvaro: Sem dúvida. Hoje, a informática faz parte da nossa vida. Não conseguimos fazer nada sem ter conhecimento profundo de tecnologia, porque você precisa disso para exercer a sua profissão. As crianças já crescem sabendo usar essa tecnologia. Elas têm maior facilidade para usar um Smartphone do que um adulto e isso é uma grande evolução. Estas crianças terão, portanto, uma maior habilidade em aplicar esta tecnologia na sua vida profissional. Eu sou favorável e acho que está tudo bem quanto a esta questão.

Margarida: Qual o impacto que isso pode acarretar no futuro dessas pessoas?
Álvaro: A única ressalva que faço, em relação ao uso exagerado de diversão com aparelhos tecnológicos, é que os pais descuidam um pouco da prática de atividade física dos filhos. Hoje, vejo no consultório que a obesidade infantil é um grande problema e as famílias não dão o devido valor à questão. Eles veem isso como um fato passageiro na vida da criança, mas se esquecem que ela podem vir a se tornar um adulto obeso, que brigará a vida inteira com seu peso.

Margarida: Qual a sua orientação em relação ao problema?
Álvaro: Eu falo muito sobre isso no consultório, mas a criança não dá atenção porque ainda não tem muita consciência de imagem corporal. Isso só vai aparecer de forma bastante intensa na adolescência, quando começar a ter interesse sexual. Então, são os pais que precisam se conscientizar de que a obesidade se previne desde o nascimento, a partir do aleitamento materno e através de uma alimentação adequada e balanceada. O pediatra vai orientar a introdução do alimento na hora certa, não acostumando a criança desde cedo com paladares de alimentos calóricos. Claro que nós sabemos que vai chegar uma hora em que não teremos mais o controle sobre o que eles vão consumir, mas, enquanto esse momento não chega, orientar sobre uma dieta equilibrada é essencial para a saúde da criança.

Margarida: Como controlar a exposição das crianças a situações violentas na internet?
Álvaro: Este é outro grande problema da sociedade moderna. A internet tem a parte positiva e a negativa, e acredito que a maioria dos pais não controla o acesso dos filhos à rede. Às vezes, eles nem têm noção do que o filho está vendo no computador. Pensam que a criança está estudando ou pesquisando e ela está em salas de bate-papo ou jogando. As famílias precisavam se inteirar mais sobre a rotina dos filhos e suas ações no dia a dia.

Margarida: Quanto à formação educacional, os pais têm a real noção do papel da escola?
Álvaro: Esta é outra confusão que se faz em relação às obrigações da escola e da família. Os pais consideram que a escola tem que dar educação e isso não é real. A educação é dada em casa, pela família. À escola cabe o papel de ministrar conhecimento. A função de um professor é transmitir conhecimento à criança e torná-la um adulto culto. Lugar de educação é dentro de casa, com os pais dando bons exemplos, ensinando valores positivos para que o filho se torne um cidadão consciente de seus deveres e obrigações para com a sociedade.

Margarida: Como podemos impactar as crianças positivamente?
Álvaro: A maior contribuição que podemos dar é o exemplo. As crianças observam muito e têm a tendência de seguir aquilo que veem, principalmente dentro de casa. Isso é gratuito. Outro fator é o que ela vê, por exemplo, na televisão. Como a criança não tem uma personalidade formada, de repente, pode achar que aquelas cenas exemplificam o comportamento correto que se deve ter na vida real. Elas assistem àqueles relacionamentos conturbados, cheios de falsidades, traições e violência que, muitas vezes, favorecem o mau exemplo em detrimento do personagem de boa índole. Como as crianças são muito imitativas, podem interpretar estas situações como padrões para sua própria vida. Portanto, o melhor caminho ainda é o bom exemplo dentro e fora de casa. Acredito que essa é a grande contribuição que nós, adultos, podemos dar. Outro ponto assertivo são os trabalhos voluntários, que devem ser incentivados desde cedo.

Margarida: O país está perdendo seus talentos?
Álvaro: Sem dúvida, principalmente pelo que temos visto na TV sobre a classe política. Vai ser muito difícil o Brasil conseguir níveis adequados de serviços públicos e ter política de valorização das pessoas que investem no seu conhecimento. Quando elas veem o insucesso do resultado de seus esforços, frustram-se e, muitas vezes, saem do país em busca de novas oportunidades e valorização profissional. Isso é triste para um país em desenvolvimento como o Brasil.

Margarida: O que o levou a se dedicar à área administrativa na Unimed?
Álvaro: Assim que terminei a faculdade e a residência médica, ingressei diretamente na Unimed Ribeirão Preto. O primeiro paciente que atendi era cliente da Cooperativa e, a partir daí, nunca atendi outro convênio médico. Naquela época, bastava ter uma residência médica reconhecida pelo MEC para se associar à UNIMED. Paguei as cotas e as taxas necessárias e, desde então, sou um médico cooperado.

Margaria: Quais os passos que o levaram à presidência da Cooperativa?
Álvaro: Fui, inicialmente, convidado pelo Dr. Antonio Alberto de Felício, presidente, e pelo Dr. José Vitor Nonino, superintendente, para fazer parte de uma comissão de perícia médica que estava se formando na época. Sempre participei das reuniões e das assembleias e, a partir daí, com o Dr. Paulo Mello Soares, que era o coordenador da auditoria médica, implementamos esse o trabalho. Fui várias vezes membro dos conselhos fiscal, técnico e de administração, auditor médico, superintendente e, agora, presidente, cargos que muito me honram.

Margarida: Como dirigente da Unimed, de que forma poderá melhorar o atendimento à saúde dos cidadãos?
Álvaro: Acredito que uma das contribuições será nosso hospital e tive a oportunidade de participar das duas fases do projeto. A primeira, como superintendente, sob a presidência do Dr. Antonio Luiz Chaguri, em cuja gestão se iniciou a construção. Agora, como presidente, terminaremos a construção física da obra e passaremos para a seguinte, que é equipá-lo e colocá-lo em funcionamento. Hoje, a nossa diretoria executiva é composta por quatro membros, todos com alto grau de vivência e conhecimento técnico na atividade cooperativa. Fazem parte dela, além de mim, os doutores: Luis Donizeti da Silva Stracieri, vice-presidente, Aiodair Martins Júnior, superintendente, e Sylvester Milan Alexander Janowski, diretor administrativo. Há também que se destacar o brilhante trabalho de coordenação da construção do hospital pelo Dr. Percival Martineli. Acreditamos que esta equipe e o Conselho de Administração se encontram preparados para colocar nosso hospital em funcionamento.

Margarida: A unidade vai atender somente o cliente Unimed?
Álvaro: Concebido para realizar procedimentos de alta complexidade, será um hospital aberto a todo quadro associativo, com seus mais de 900 médicos cooperados. Em relação aos pacientes, será aberto aos clientes Unimed, mas também aos particulares e de outros convênios. Como Ribeirão Preto é polo regional de saúde, temos uma grande demanda de pessoas de toda a região, que aqui vêm em busca de tratamento. Temos um corpo clínico de primeiríssima qualidade, muitos deles sendo referência nacional nas especialidades em que atuam. Tudo isso gera demanda de serviços médicos e nosso hospital vem se somar aos já existentes, ampliando a oferta de leitos hospitalares.

Margarida: Como você consegue administrar seu tempo de trabalho com lazer?
Álvaro: Algumas coisas me apaixonam: viagens, leitura, cinema e corridas nos parques da cidade. Apesar de uma carga horária de trabalho bastante intensa, encontro tempo suficiente para me dedicar a cada uma dessas atividades. As viagens enriquecem o ser humano, possibilitando conhecer não apenas as belezas do seu próprio país, como também o modo de vida de outras culturas. A leitura e os filmes nos enriquecem culturalmente e, ao mesmo tempo, são uma fonte de entretenimento. As corridas no Parque Luis Carlos Raya ajudam a manter a forma física e a combater o estresse, a que nós, médicos, estamos diariamente expostos. Temos o hábito de sempre prescrever aos nossos pacientes o combate ao sedentarismo e, também neste aspecto, devemos ser os primeiros a dar o exemplo.

Margarida: Quais são os seus sonhos para a cidade em que vivemos?
Álvaro: Ribeirão Preto é uma ótima cidade para se viver. Além de ser um polo cultural muito importante devido ao grande número de faculdades aqui existentes, destaca-se também no setor de serviços, um ramo importante na geração de empregos. É uma cidade diferenciada, que proporciona aos seus moradores e visitantes tudo o que os melhores centros nacionais e internacionais oferecem. As opções de lazer são inúmeras. Os shoppings centers se destacam entre os melhores do país e, como sabemos, temos uma reconhecida gastronomia local, representada por excelentes e renomados restaurantes. Culturalmente, um de nossos patrimônios históricos, o Quarteirão Paulista, é sinônimo de beleza arquitetônica e contempla o Theatro Pedro II, considerado um dos melhores da América Latina. Todos estes exemplos, que são orgulho da nossa cidade, só me fazem sonhar e desejar que essa evolução, historicamente triunfante, continue e seja referência à atual e às futuras gerações para que Ribeirão Preto seja sempre exemplo de cidade onde a força do trabalho, aliada à educação de alto nível e a uma excelente qualidade de vida, impere para o seu constante progresso.

GESTOR NATO

“Nada me comove mais do que o sofrimento de uma criança. Na minha infância, um médico, Dr. Constantino Galizia, clínico geral na pequena cidade do interior, mas, sobretudo, um grande pediatra, foi minha primeira inspiração para a trajetória na Medicina. O carinho e a dignidade com que tratava seus pequenos doentes ficaram em minha memória para sempre. Mais tarde, meu querido sogro, Dr. Tito Moraes, em Piracicaba, um dos únicos pediatras na cidade em boa parte de sua carreira, mostrava a mesma luz e dedicação aos seus doentinhos. Assim é que, no Dr. Álvaro Truite, procuro prestar uma homenagem aos pediatras da minha vida, cuidadores ou não da minha família e que costumo chamar de os ‘heróis da Medicina’. Então, eu, curiosa sobre sua vida, sua pessoa e suas motivações, aproveitei este espaço para conhecer um pouco mais sobre este médico que, no decorrer da carreira, apresentou-se um gestor nato.”
Dra. Margarida Maria Fernandes da Silva Moraes é patologista e proprietária do MM Laboratório de Patologia e Citologia

Texto: Rose Rubini
Fotos: Luiz Cervi

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