Cultura em pauta

Cultura em pauta

Um bate-papo enriquecedor entre duas pessoas que respiram arte

Um bate-papo cultural é sempre atrativo e enriquecedor. Quando pessoas como o produtor cultural Odônio dos Anjos e Sérgio Lago se unem, não resta dúvida de que muita história virá à baila, não só pelo conhecimento que possuem na área, mas pela experiência que têm em criar meios fecundos para que o universo cultural se expanda e alcance pessoas das mais diferentes comunidades.

Pouca gente sabe, mas muitas das iniciativas culturais que ocorreram na cidade tiveram esses homens em seus bastidores. Os dois agitadores culturais, que já foram parceiros na promoção da cultura, agora se juntam para uma entrevista, que foi acompanhada pela jornalista Carla Mimessi, em que Sérgio conta a Odônio sua trajetória, composta pela longa experiência adquirida no Sesc e em secretarias municipais, analisa o cenário ribeirãopretano e revela os momentos mais significativos de sua própria história.

Odônio: Fale sobre a sua atuação e trajetória na área da cultura.
Sérgio: Fiz três anos de medicina, parei e ingressei no curso de serviço social. Minha formação acadêmica é como assistente social, porém, quando foi legalizada a profissão de sociólogo, quem desenvolvia certo tipo de trabalho poderia se candidatar ao título junto ao Ministério do Trabalho, pela qualidade e pela função desenvolvida. Devido à minha atuação no Sesc, tornei-me sociólogo. Depois, evidentemente, minha formação na área da sociologia foi muito mais direcionada à cultura, tanto no Sesc, quanto na Secretaria de Cultura de Ribeirão Preto e de Araraquara, onde também atuei.

Odônio: Quando começou sua carreira no Sesc?
Sérgio: Entrei em 1972 e lá permaneci por 32 anos, até 2004. O Sesc, atualmente, ainda tem uma grande turma daquela época. Era um momento de muita ebulição social, política e cultural — os anos de chumbo da ditadura — e entraram pessoas muito boas e capacitadas que foram transformando o Sesc, aos poucos, até que ele chegasse ao que chegou, a partir de 82, com a inauguração da unidade da Pompeia. Em 1982, o Sesc  começou a se transformar em uma grande instituição da cultura no Estado de São Paulo. Em 1985, vim para Ribeirão Preto e consegui, trazendo um pouco dessa inquietação paulistana, fazer com que o Sesc aqui também começasse a realizar alguns trabalhos como os desenvolvidos em São Paulo. A partir dos projetos que começamos a realizar, outras unidades do interior começaram a se mobilizar, pois, até então, os serviços prestados pelo Sesc eram muito restritos aos associados. A instituição passou, então, a se ampliar e acabou atendendo à cidade inteira praticamente. Esse é o cenário atual do Sesc no Estado: uma programação cultural ótima e não apenas isso, mas também nas áreas do esporte, da saúde e da alimentação. A cultura aparece mais porque atrai bastante atenção da mídia, mas o trabalho de base no Sesc é muito consistente.

Odônio: No Sesc, você começou como sociólogo?
Sérgio: Não, como orientador social. O próximo passo foi ser assistente técnico e depois gerente adjunto. Em Ribeirão Preto, comecei como assistente técnico; em 1998, fui para a unidade de São Carlos, permanecendo por lá até 2000, quando, como gerente, fui inaugurar a unidade de Araraquara. A experiência foi extremamente interessante porque era uma época em que a unidade tinha total autonomia. De Araraquara, vim para Ribeirão Preto, em 2003, e fiquei até me aposentar, no ano seguinte. Depois disso, a convite do prefeito de Araraquara, Edinho Silva, tornei-me secretário da Cultura, cargo que ocupei até 2007, retornando, posteriormente a Ribeirão Preto.

Odônio: O Sesc envolve o público, mas é administrado como entidade à parte, sem se deixar envolver com as questões político-partidárias. Por isso, sua fórmula é de sucesso? 
Sérgio: O Sesc não é público, mas recebe uma participação de comerciantes e prestadores de serviço através da folha de pagamento: 1,5% do gasto com pessoal dessas áreas é direcionado ao Sesc e 1%, ao Senac. O Sesc não está ligado a governos, mas é gerido pela Federação do Comércio, com seu presidente, que também é presidente do Sesc. O Sesc e o Senac têm seus diretores regionais.

Odônio: Qual a diferença de trabalhar em uma entidade autônoma, com uma política independente, e em secretarias de Cultura? 
Sérgio: Poderia dizer que a secretaria me ajudou a atuar melhor no Sesc porque aprendi a trabalhar politicamente a gestão de uma instituição de cultura. No Sesc, eu era mais independente e não tinha muita explicação a dar, a não ser para os meus superiores. No âmbito público da cultura, você tem que prestar contas à população, principalmente. Tem a questão política, às vezes até partidária, que demanda por negociações, mas a prestação de contas maior é à população. No Sesc, tínhamos mais autonomia para fazer a programação; na secretaria, é preciso obedecer alguns cânones políticos de atendimento à população mais direcionado, que limitam um pouco. Outra questão é a financeira: ficava brincando, dizia que as secretarias da Cultura e a de Esportes tiravam par ou ímpar para ver qual teria o menor orçamento a cada ano. Num ano, era a de Cultura e no outro a de Esportes, mas sempre os menores orçamentos, o que deve se manter até hoje. Precisávamos que correr, desenvolver projetos em conjunto com a Cohab ou com o Daerp. Tivemos também muita ousadia naquela gestão, pois fizemos alguns projetos, em 1993 ou 1994, que continuam até hoje, como o “Café da Manhã no Museu”, uma marca daquela gestão que foi uma ideia do Márcio Coelho. Outro projeto, que teve a participação da Adriana Silva, foi o “Grandes Empresas na Literatura: em três anos, editamos 13 livros através de concurso público. Abria-se o edital, as pessoas se inscreviam, mandavam suas obras e quando os trabalhos eram escolhidos por comissão, eram publicados.

Odônio: O que significa a Feira do Livro na cena cultural ribeirãopretana atual?  
Sérgio: A Feira do Livro é o projeto mais importante da cidade na área de cultura, tendo se solidificado nos últimos anos. Acredito que isso se deva muito à Isabel de Farias, que realmente deu um upgrade no evento e conseguiu fazer com que a Feira crescesse através dos shows. Na medida em que o público se consolidou, o dinheiro dos shows foi sendo canalizado para outras atividades que fizeram com que a Feira se expandisse bastante. Acho que o evento está, agora, em seu melhor momento. A primeira vez em que colaborei com a Feira do Livro, em 2009, foi meio tumultuada, pois alguns vereadores tinham instaurado uma CPI. Eu tinha acabado de chegar de Araraquara, achei que deveria colaborar com a programação e fiquei em 2009 e 2010. Quando a situação acalmou, eu saí. Agora, voltei também no momento em que o evento estava passando por um processo complicado, com a saída da Isabel: o Edgard de Castro assumiu e deixou a vice-presidência vaga. Quando fui apresentado ao Conselho, fiz até uma brincadeira: disse ‘olha, estou vindo para a vice-presidência da Fundação Feira do Livro, assim como a Isabel está indo para a Prefeitura, para tapar buraco: é um contrato de jogador de futebol, vale por uma temporada’. Agora estou saindo e acho que eles têm condições de achar alguém mais capacitado do que eu até a próxima Feira. O evento, além de ser o grande incentivador da cultura ribeirãopretana, presta um importante serviço ao desenvolver trabalhos na periferia. Os Jovens Protagonistas, por exemplo, realizado no Quintino Facci, é muito bom e está trazendo a juventude para a área da cultura. O projeto deve ser ampliado. Hoje, praticamente todas as casas de Ribeirão Preto tem um livro e, algum dia, alguém fará uso dele. O acesso ao bem cultural é uma frase de discurso, mas é preciso trabalhar para facilitá-lo, até porque uma obra só se concretiza quando é consumida. Um livro que ninguém leu não tem significado cultural, é um enfeite de estante. A Feira do Livro possibilita que as instituições que trabalham com a cultura possam ter uma visibilidade maior dentro da comunidade. A Feira mobiliza a cidade.

Odônio: Nem sempre o ribeirãopretano tem noção do que acontece na área cultural na cidade. O que acha de nossa produção cultural?
Sérgio: Não conheço a produção cultural de outras cidades, mas, comparada com outros municípios de mesmo porte, a quantidade de atividades culturais em Ribeirão Preto é ímpar, muito difícil de ser equiparada. Tenho um amigo que reclamava que aqui não tinha o que fazer e eu respondia que era ele que não sabia aonde ir.

Odônio: Que avaliação faz das políticas e leis de incentivo cultural desenvolvidas?
Sérgio: A priori, acho boas as leis que incentivam as atividades culturais. Agora, como não há mecenato privado com grande força, o patrocínio público tem que acontecer. Isso se solidificou com a normatização de leis de apoio cultural, como a Lei Rouanet, o PROAC e o PIC, iniciativas muito bem-vindas. Antigamente, as ações eram mais ou menos políticas: quem tinha indicação ganhava um dinheirinho aqui ou ali, mesmo que não fosse suficiente para produzir o espetáculo. Com essas leis, a situação se tornou normativa: é preciso ter o edital e prestar contas, ações que podem ter burocratizado o caminho para as verbas, mas que permitem a todos o acesso ao dinheiro público. Agora, foi implantado o vale-cultura, que ainda não pegou, mas certamente vai funcionar porque, a partir do momento que o cidadão tiver algum dinheiro para gastar em iniciativas culturais, irá participar dos eventos e passará a ser um consumidor de cultura, o que ajuda a mudar sua forma de ver o mundo. O Brasil vai crescer muito com isso.

Odônio: O que o marcou mais em sua trajetória?
Sérgio: Gosto sempre falar nas coisas que são mais ou menos permanentes. Embora não tenha sido exatamente na minha gestão, já que começou um pouco antes de eu entrar na Secretaria de Cultura, mas recebeu todo o meu apoio, gosto muito do “Café da Manhã no Museu”, que se tornou perene. Outros acabaram, embora tenham durado bastante tempo, como a Galeria de Arte a Céu Aberto, que era um projeto daquela época. Depois, vieram projetos com bastante impacto na comunidade cultural, como os festivais de blues, como o “Sesc’n Blues”, que hoje chama “Sesc Jazz and Blues”, que começou aqui. Outro projeto que gostei muito de fazer, dessa vez em São Carlos, foi o “Cinco no Palco”, uma reunião em que cinco músicos se juntavam e improvisavam: Lenine, Chico César, Zeca Baleiro, Moska e Marcos Suzano. Eles ensaiaram somente uma semana e a apresentação ficou maravilhosa. O Sesc TV tem a gravação feita no Sesc Pompeia. Pensamos em fazer um CD, mas a gravadora do Lenine não topou. Inicialmente, eles iriam fazer três shows em São Carlos, mas a apresentação acabou indo para outras unidades, inclusive Ribeirão Preto, onde aconteceu um show na Cava do Bosque com um público enorme. Pela diversidade do tema, gostei também do “Festival de Teatro Grego”, em que levamos sete ou oito mil pessoas para o Teatro de Arena. Fizemos umas cinco edições em que até teatro grego em grego chegava a dar público de cinco mil pessoas. Veio um grupo do Esporte Clube Pinheiros e fez a peça toda em grego. Como as pessoas conheciam a história, acompanhavam, foi fantástico. O festival acabou porque o número de peças em cartaz era muito pequeno, não conseguíamos renovar as apresentações.

Odônio: O que você tem consumido de cultura?
Sérgio: Acabei de ler “O Cachorro Amarelo”, do Georges Simenon. Em relação à música, estou escutando meus vinis em uma aparelhagem de som que consegui montar. Tenho muito blues, jazz e tantas outras coisas. Também tenho ido muito ao cinema e a apresentações da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto. Ao teatro, faz tempo que não vou. Fui ver, no final do ano passado, o Museu Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais, que é maravilhoso. Fui e levei boa parte da família. Somente a parte botânica já vale à pena, mesmo para aqueles que não gostam de arte.

UM HOMEM QUE DEIXOU SUA MARCA

“Um papo com Sérgio Lago sempre nos enriquece com valiosas dicas culturais. Sérgio foi forjado no Sesc, em um time que banhou o Estado de São Paulo, nas décadas de 1970 e 1980, com atividades sociais e culturais. O trabalho da Unidade Móvel de Orientação Social (UNIMOS) atingiu, principalmente, as cidades que não possuíam unidades do Sesc, com pouco acesso a atividades sociais e culturais. Até levantamento de tipo sanguíneo essa turma deixou de legado em algumas cidades. Tive a oportunidade de trabalhar em parceria com o Sérgio promovendo cultura na área de atuação da Cohab de Ribeirão Preto. Sérgio também deixou sua marca nas secretarias de Cultura onde atuou. É sempre um prazer desfrutar da convivência com um protagonista da área cultural.”
Odônio dos Anjos, produtor cultural

Texto: Carla Mimessi
Foto: Carolina Alves 

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