Cultura miscigenada

Cultura miscigenada

Com dez anos de carreira, o Teatro Mágico inova em suas produções levando arte, cultura e política aos palcos do Brasil

Notando a possibilidade de diálogo entre a música, a arte, a cultura e a paixão, o músico, ator e compositor Fernando Anitelli iniciou com, a ajuda de outros artistas, o Teatro Mágico.

Trabalhando sempre de forma independente, ou seja, sem o apoio de gravadoras, O Teatro Mágico gravou um CD e criou um espetáculo onde fica clara essa fusão. Resultado: atingiu marcas históricas com as vendas dos CDs e músicas baixadas na internet, além de conquistar um público fiel, que acompanha a banda em diversos shows.

Por ser considerada uma banda independente, é difícil escutar as músicas do Teatro Mágico nas rádios ou acompanhar a trupe em programas televisivos. Para atender os fãs, a banda mantém um site onde é possível ver a agenda de shows, notícias, fotos e baixar todas as músicas gratuitamente. Outra forma de adquirir os CDs é durante as apresentações, onde os álbuns geralmente são vendidos a R$ 5,00 tornando-se acessíveis para todos.

Em entrevista para o portal da Revide, Fernando Anitelli conta como surgiu O Teatro Mágico e a polêmica criada ao disponibilizar os álbuns da banda para downloads na internet.

Como surgiu a ideia de montar um grupo que iria reunir tantas linguagens?
Fernando Anitelli - A ideia surgiu há dez anos, a partir da proposta de mesclar variadas linguagens no mesmo palco. Eu frequentava sempre saraus e percebia que tudo dialogava, podia ser uma piada, uma música, o silêncio, alguém contato uma história, tudo tinha um diálogo, então pensei porque não levar essa fusão de coisas para cima de um palco? Poderia ser uma coisa muito interessante.

Assim que você projetou o grupo, já pensou em convidar outros artistas?
Fernando Anitelli - Na época foi o que eu fiz, convidei um monte de gente, gravei o CD, montei um grupo para poder executar o CD ao vivo e o que era para ser um CD solo de voz e violão virou O Teatro Mágico Entrada para Raros, e assim O Teatro se transformou numa companhia artística.

O Teatro Mágico trabalha com uma linguagem que reúne circo, música, literatura... Como é unir esses elementos?
Fernando Anitelli - A cada álbum é uma galera distinta, como se fosse uma peça de teatro, é um elemento diferente. Nós sempre buscamos amadurecer circensemente, textualmente e musicalmente até chegar aqui.

As dificuldades estão presentes a cada criação, como foi para a trupe passar por elas?
Fernando Anitelli - Já são dez anos de erros e acertos, coisas bacanas e dificuldades em todos os níveis. Geralmente você vivencia a dificuldade relativa a proporção em que está. Assim, se você é pequeno, tem dificuldade em encontrar um bar para tocar, quando cresce um pouco, surgem as burocracias, e assim continuamente. Mas nós sempre compreendemos isso e superamos cada dificuldade.

Você acha que o fato de ser um grupo independente influência ao passar por essas dificuldades?
Fernando Anitelli - Não. Nós criamos a nossa base, a nossa força, e sempre soubemos que a nossa raiz tinha que ser não com os produtores, divulgadores ou gravadora, mas com o público. A gente tem um pacto com o público, eles são a extensão da trupe, então, desde sempre, conversamos de uma maneira muito próxima com todo mundo sobre o projeto. Essa relação de tirar o atravessador cultural, aquele que engordura todos os processos, foi maravilhoso, o que criou entre nós e o público uma empatia excelente, o público sabe que ele dá sobrevida para a gente.

O Teatro Mágico busca tratar de assuntos relacionados ao cotidiano do seu público, como é isso?
Fernando Anitelli - Sempre pensamos em falar sobre assuntos pertinentes a nossa realidade, falar sobre a questão da mulher, do negro, do homossexual, das lutas no campo e é isso que fazemos. Está tudo nas letras, se você pegar os álbuns do Teatro você vê a diferença da música, o amadurecimento das letras, mas vê também o DNA da trupe, um fio condutor disso tudo, essa disposição em tratar de coisas próximas, em tratar dessa humanização do ser humano. São letras onde, no final, você pode olhar a moral da história.

O último trabalho de vocês Recombinando Atos revela um grupo mais maduro com novas características, você tem receio de mudar?
Fernando Anitelli - Nunca, é exatamente essa a nossa ideia. Tem muito artista que vive hoje fazendo cover dele mesmo, o cara tem um CD que foi legal, faz o segundo e o terceiro igual. Acho que a gente, que trabalha com composição, com produção artística, tem que estar incomodado constantemente, tem que sair da zona de conforto. Sabe, se nós acreditarmos que somos um fenômeno da internet, e que isso está bom, acabou. Já não tem mais nada.

Então essa vontade de algo novo é uma das fortes características do Teatro Mágico?
Fernando Anitelli - Sim, a constância do Teatro Mágico é a nossa mutação, o artista tem que estar sempre experimentando, ousando. Temos vários exemplos de camaleões como o Ney Matogrosso, Tom Zé, Madonna... É isso que eu acho fabuloso, isso que me instiga.

Como é a relação de vocês com o público?
Fernando Anitelli - O Teatro Mágico já passou por várias fases. Quando começamos, éramos uma banda Cult, e ai esse público foi sendo constituído de universitários, jovens, movimentos estudantis, e esse público começou a levar os sobrinhos, os priminhos, os avós e hoje as famílias comparecem. Não temos um público específico, nos nossos shows você vai encontrar, as duas namoradinhas, os dois namoradinhos, o cara que gosta de rock pesado, outro que gosta de reggae, o senhorzinho e a senhorinha, a criança que fala poesia junto comigo e eu acho isso fabuloso, você poder abrir um menu de possibilidades de diálogo e acessar essas pessoas com assuntos do cotidiano.

Uma das políticas do Teatro Mágico é disponibilizar as músicas para downloads gratuitos, por que vocês optaram por essa ferramenta?
Fernando Anitelli - Há mais de trinta anos o artista não ganha com a gravação de CD, a não ser alguns claro, mas a grande massa dos músicos vivem de shows, e a tecnologia cada vez mais acessível torna possível mensurar minimamente onde esta seu público, quem está ouvindo o que, aonde está chegando sua música, isso é formidável. Nós não tínhamos, até então, uma ferramenta capaz de possibilitar a gente se comunicar com quem está interessado no que fazemos, só que isso também não basta, apenas pegar a sua música e deixá-la acessível, você tem que ter um trabalho de personalidade, de qualidade, responsabilidade.

Qual a sua opinião sobre as oportunidades para os novos grupos?
Fernando Anitelli - Tem muita gente fazendo coisa legal, muitos grupos de circo, teatro, bandas, mas quase sempre ficamos reféns de edital. Muitos desses editais são feitos especificamente para aquele grupo fechado, a rede de festivais no país só tocam rock ou outros estilos e apenas duas ou três bandas, que fazem sucesso, conseguem viajar. A Lei Rouanet, por exemplo, dá milhões para trazer um circo para o Brasil e cobra R$ 300,00 o ingresso. Ela é importante claro, olhe o nosso encarte e confirme isso, mas eu não acho que deveria ser assim, acho que uma porcentagem deveria ser para fomentar novos grupos, festivais, trabalhos, oficinas, isso é fundamental, até porque a cultura de hoje é o folclore de amanhã, se nós não cuidarmos disso, não vai existir, ele vai ficar a esmo e desaparecer.

Revide Online
Texto: Pâmela Silva
Fotos: Carolina Alves

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