Da idade média aos tempos atuais
Juliana Vendruscolo acredita no profissional cuidador, independente de gênero

Da idade média aos tempos atuais

A psicóloga Juliana Vendruscolo discorre sobre o papel da mulher na saúde, desde tempos antigos, quando havia muita repressão

As mulheres, historicamente, ocupam espaço nas áreas da saúde. Segundo o Conselho Nacional de Secretarias Municipais da Saúde (Conasems), mulheres são a maioria nos serviços e na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS), representando 65% dos mais de 6 milhões de profissionais nos setores público e privado. Segundo dados do Censo do IBGE, em profissões como Fonoaudiologia, Nutrição e Serviço Social, as mulheres alcançam quase a totalidade do protagonismo, ultrapassando 90% de participação. Em outras áreas, como Enfermagem e Psicologia, elas continuam imbatíveis: são mais de 80% nas profissões. As mulheres dominam e fazem a gestão e o trabalho nas áreas da saúde de forma efetiva e em larga escala — estão em todos os lugares e crescem cada vez mais.

Os dados se refletem não só atualmente. Desde muito tempo, o protagonismo feminino na saúde é visível e destacado: atendimento especial, cuidado e sensibilidade. Mulheres que zelam, cuidam, recuperam, atendem e, também, dão vida. Do parir ao amparar, as parteiras são relatadas já na Idade Média, quando assistiam mães tendo filhos, auxiliando na melhor maneira de fazê-lo. As curandeiras, tão bem lembradas nos dias de hoje, eram chamadas de bruxas em tempos sombrios de repressão ao gênero feminino, que queimava na fogueira quem ousasse a fazer o que não era considerado certo — ser livre, ler, aprender, ter conhecimento e curar pessoas. Já nas guerras mundiais, as enfermeiras cuidavam dos soldados feridos.

A evolução das profissões da saúde quando se trata de mulheres cresceu para ambas as partes: para quem atende e para quem é atendida. Abordar o feminino na saúde é também tratar dos cuidados que mulheres têm consigo mesmas, o que, por muitos e muitos anos, foi inibido e tratado como tabu, como algo errado. O autoconhecimento proporcionou às mulheres novas dimensões de si mesmas — inclusive, o protagonismo em áreas para além da saúde, como jornalismo, Direito e nos negócios, onde as mulheres se espalham, se fortalecem e têm se unido de forma imensurável, conquistando espaços e ajudando umas às outras.

O bem-estar da mulher envolve não apenas a área da saúde, mas, também, a liberdade do ir e vir, sem que “seja queimada em uma fogueira”. Segundo o Anuário de Segurança Pública, o Brasil tem um estupro a cada oito minutos. Durante a pandemia de Covid-19, em razão do isolamento social, a violência contra a mulher aumentou. Em setembro de 2020, foi registrado um aumento de 40% nas ligações para o 180 — número para denunciar violência contra mulheres. Saúde da mulher é poder estar bem onde estiver e, quando quiser, ser cuidada, também, por mulheres capacitadas.

A psicóloga Juliana Vendruscolo, mestre, doutora e pós-doutora pela USP Ribeirão Preto e especialista em Psicologia Hospitalar, Psicologia Clínica e Fenomenológico-Existencial, é docente na Universidade de Ribeirão Preto e explica sobre o histórico da mulher na saúde — da Idade Média aos tempos atuais. Os desafios que são enfrentados, muitas vezes pelo simples fato de ser mulher, e também as conquistas e o prazer em ser e estar mulher, de todas as formas. Juliana acredita que, na área da saúde, deve ser exercido o papel de cuidar, cientificamente, respaldado por competência e ética.

Qual o papel das mulheres na saúde?

Considero que o papel do profissional da saúde seja de sempre cuidar, independente do gênero, cientificamente, e respaldado por competência e ética. Porém, ao longo da história, a mulher tem sido associada à maternagem e ao cuidado com o outro. No mundo contemporâneo, vejo que nós temos essas duas perspectivas ligadas uma à outra.

Historicamente, as mulheres se relacionam com a busca por melhores condições de saúde, em várias vertentes da área. Essa busca pode influir no cuidado com um paciente?

O profissional da saúde deve ter sempre, em sua atuação, a meta do cuidado, independente do gênero. Isso envolve a assistência direta às situações de adoecimento e, também, o direcionamento para a busca e a manutenção da saúde com ações de prevenção de doenças e promoção de saúde. Acredito que a dimensão do feminino pode ter dado início nesse processo, que, atualmente, é ampliado e deve continuar a se ampliar para os profissionais de modo geral.

As mulheres atuam na saúde há muito tempo. Há relatos de parteiras na Idade Média, exemplo de profissão que sempre foi um símbolo da história do feminino. Por quais evoluções a prática da saúde, por mãos femininas, passou?

Se considerarmos que foi destinado à mulher, ao longo da história, um espaço de opressão e, muitas vezes, de subjugação, também encontramos a reação a tal situação. O estudo, por muito tempo, não era destinado a nós. Então, foi preciso aprender com os recursos possíveis de serem criados naquele contexto, e fizemos. Contudo, recebemos, na Idade Média, o nome de ‘bruxa’. Com essa nomenclatura, vieram novas formas de opressão e associação com o mal, o pecado e a magia. Certamente, o avesso dessas atribuições era o desejo, a liberdade e o cuidado com o outro. Partimos dos encantamentos e de poções para a compreensão científica, mas, nessa trajetória, tentamos preservar um modo mais aberto de lidar com as dimensões do cuidar — ou, pelo menos, tentamos.

Qual a importância de ser atendida e atender mulheres?

Adoraria responder que a importância está no fato de as mulheres serem empáticas umas com as outras e, por isso, compreendem com mais facilidade as necessidades femininas. Porém, atuando na área da saúde há muito tempo, eu me espanto com as situações em que ocorre exatamente o oposto. Uso a expressão com meus alunos de que parece haver um ‘trote’. Quantas vezes vejo mulheres, profissionais da saúde, serem absolutamente intolerantes às queixas de outras mulheres em relação à dor, por exemplo, e naturalizar a situação com a ideia de que ‘eu já passei por isso, tem de aguentar’. Obviamente que isso não pode ser generalizado, e muitas mulheres assumem uma atitude diferente. Porém, acho que essa falta de parceria entre nós, mulheres, ainda tem ocupado mais espaço do que imaginamos. O que é muito triste. Não somos rivais, estamos todas no mesmo lado.

As profissões na área da saúde são compostas por muitas mulheres. A que isso se deve?

Historicamente, a mulher ocupa um lugar de cuidadora, de maternagem e imagino que esse aspecto foi se formalizando na profissionalização desses cuidados.

As mulheres participam da saúde não só como profissionais, mas, também, como pacientes. Qual a importância do cuidado à saúde física e mental?

Seja como profissional ou como paciente, independente de como me identifico em termos de gênero, cuidamos de existir a todo instante, até quando nos descuidamos. Especificamente como mulheres, esse cuidado, físico e mental, assume uma necessidade constante — cuidamos de nossos ciclos e do modo como lidamos com eles. Precisamos, a cada dia, cuidar, também, de ocupar nosso lugar na sociedade de maneira integrada, para que, respeitando, nós nos façamos respeitar. Enfim, cuidamos de ser mulher, que, para mim, é a melhor experiência possível.

Compartilhar: