Das bolhas às massas

Das bolhas às massas

Historiador Felipe Ziotti Narita explica como as redes sociais e os algoritmos interferem no comportamento social quando se trata de eleições e do futuro da sociedade

Texto: Marina Parada


O cenário atual mostra diferentes facetas da política, que refletem diretamente nas eleições e no comportamento social. Felipe Ziotti Narita, graduado em história pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), pós-doutor em Sociologia Histórica pela Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de São Carlos (UFScar), pesquisador e escritor de livros internacionais, explica, por meio da história, as cenas que podemos rever no presente e no futuro quando se trata de eleições, transformações da sociedade, a ascensão do populismo e o impacto das redes na polarização política.

O populismo vem crescendo e tomando proporções consideráveis. Quais os riscos?

O populismo mobiliza o ressentimento popular e geralmente carrega uma forte conotação moral contra o establishment, visto como corrupto ou distante das necessidades populares. Isso indica uma crise de representação, na medida em que os cidadãos perdem confiança nos partidos e na política tradicional. Há uma percepção difusa de que o sistema e a burocracia encastelam uma elite dissociada das demandas do povo. O populismo reforça a dicotomia povo-elite ao traduzi-la em conflito político. O líder populista utiliza o discurso de ser o porta-voz direto do povo para atacar as instituições e o pluralismo. O perigo para os regimes liberais e representativos é que essa postura tende a reforçar uma política em que o líder tensiona as instituições e incentiva sua desmoralização.

A internet e, principalmente, as redes sociais, têm colaborado para a polarização política através dos algoritmos e bolhas sociais. Como isso reflete no resultado das eleições?

Os meios de comunicação de massa tradicionais transformaram a política do século XX, a internet e as redes são os novos universos do século XXI. As eleições dependerão cada vez mais do ativismo digital dos cidadãos. As redes nos aproximam de preferências e gostos semelhantes, reforçando nossas crenças e nossa adesão a ideias. Antes de qualquer discussão, as pessoas já têm certeza de que suas posições são melhores do que as outras. Em contextos de crise e desconfiança em relação à democracia liberal, isso alimenta a sensação de polarização, pois as redes também ampliam os contatos, permitindo que os indivíduos se engajem em debates diversos já com opiniões fechadas.

Neste ano de 2020, em razão da pandemia e da virtualização das campanhas, pessoas que não têm acesso ao recurso, de idosos a vítimas da desigualdade social, serão prejudicadas. De que maneira isso afeta as eleições e o futuro da cidade?

Nossa época é marcada por reivindicações e movimentos sociais que trazem demandas morais, ou seja, reconhecimento de dignidade e de cidadania. A força da retórica anticorrupção e as manifestações de 2013 atestam isso. A percepção de desigualdade social é um desses temas morais, sobretudo, por ter sido escancarada pela pandemia. A cidade, onde o cidadão sente na pele as condições de vida, deve lidar com todas essas vulnerabilidades. Para tanto, nas eleições em curso é fundamental a consideração dessas assimetrias.

A Justiça Eleitoral proibiu o disparo de mensagens em massa via WhatsApp durante a eleição. Como é feita a fiscalização e quais as dificuldades desse tipo de prática?

O foco é combater campanhas de desinformação, uso de robôs para mensagens de ódio e fake news, que, de fato, são obstáculos à esfera pública democrática. O Tribunal Superior Eleitoral abriu um canal para denúncias, de modo que a fiscalização depende muito do controle das candidaturas e da proatividade dos cidadãos. Especialmente no WhatsApp, as dificuldades são enormes, pois ele opera de modo diferente das redes sociais abertas, então é mais difícil controlar um conteúdo que não fica exposto. Por isso, além da política pública e da parceria com as empresas contra a desinformação, fundamental é o apoio da imprensa séria para reforçar o uso ético das redes e orientar os eleitores em meio a um volume inumano de dados.

O que podemos esperar das eleições municipais de 2020 com uma variedade tão grande de candidatos e o cenário política atual marcado pelo populismo e pela tensão? 

Com a pulverização de candidaturas, Ribeirão Preto segue a tendência de muitos municípios em 2020. Isso pode ser um efeito do fim das coligações na eleição proporcional para vereador (emenda constitucional de 2017), pois os candidatos só são eleitos se participarem em chapa única no partido ao qual são filiados. Então os partidos parecem apostar nas muitas candidaturas de prefeitos para tentar puxar votos pela legenda. Parece que a mudança na legislação e a pulverização tendem a fragmentar o eleitorado da oposição. As pautas nacionais ecoam na política municipal, sobretudo porque a disputa presidencial de 2022 está aberta, de modo que o tema da gestão da pandemia talvez possa ser mais vulnerável à polarização do âmbito nacional, especialmente em São Paulo, onde o governo tem feito contraponto às políticas federais.

Qual a importância do debate entre os candidatos e como isso reflete nos eleitores que estão assistindo?

Em uma sociedade polarizada, muitos eleitores já têm suas opções independentemente dos debates, mas uma parcela considerável espera propostas e debates para tomar decisões. A democracia depende da abertura ao contraditório, ou seja, a confrontação de visões diversas move a esfera pública. Além disso, com um tempo de campanha menor, pois afetado pela pandemia, o debate é ainda mais importante para não prejudicar tanto os nomes novos nem os partidos menores.

Qual a perspectiva futura para a sociedade quando se trata de política, polarização e discursos populistas e afirmativos?

Um clássico do pensamento político moderno, Maquiavel, ensinou que a política é o campo do conflito. Muitas democracias hoje atravessam crises institucionais e desconfiança, sobretudo, em decorrência das transformações culturais e da precarização da situação econômica, com o achatamento das classes médias e a crescente percepção das desigualdades de renda. Uma equação importante será a relação entre sistema democrático e mercado: os processos de financeirização das últimas quatro décadas impõem limites e disciplina aos sistemas políticos e afetam a distribuição de recursos conforme a lógica da concorrência e da competição. Isso implica distorções graves pois, na prática, a percepção do cidadão de alienação em relação a esse sistema que parece autônomo e se elitiza em sua reprodução é um dos principais componentes da crise de representação política. 

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