Das palavras para as flores

Das palavras para as flores

Sofia Wadhy Rebehy fala sobre flores, tendências e emoções em uma entrevista concedida de coração aberto à Marcela Mariani


Quem vê a empresária Sofia Wadhy Rebehy tão íntima das flores mal pode imaginar que a primeira pretensão profissional foi com as palavras. Sofia chegou a se formar em jornalismo, mas nunca exerceu a profissão. Cursou a faculdade na Unaerp, numa época em que as mulheres, prioritariamente, faziam o chamado curso normal, hoje conhecido como magistério.

Apesar de não ter trabalhado diretamente na área em que se formou, a empresária acompanha de perto a profissão. Seus principais ícones na área são Alexandre Garcia, que considera o dono da palavra, e Danuza Leão, que referencia como genial, principalmente pela mudança de vida a que se propôs passar, por ter sido engajada com a história do país e fazer, hoje, um trabalho jornalístico tão interessante.

Porém, mesmo atenta ao mundo das notícias, é com as flores — e também com os móveis — que Sofia fica bem à vontade. Nascida, em Patrocínio, em Minas Gerais, ela chegou a Ribeirão Preto com 15 anos e aqui fez a sua história. Ao lado das irmãs, Valéria e Nelita, criou a primeira floricultura da cidade e aqui construiu a sua história de sucesso.

No meio da trajetória, Nelita faleceu. Como ela sempre foi a precursora de uma forte vontade de criar algo interessante e prazeroso para as três, Sofia e Valéria seguiram adiante com os negócios. Essas e outras passagens são contadas na entrevista a seguir, concedida a Marcela Mariani, a Tchela, amiga da família e grande admiradora do trabalho desenvolvido por Sofia.

Marcela: De onde surgiu a ideia para criar uma floricultura?
Sofia: A Donaflor nasceu de um sonho de três adolescentes que, dentro de Ribeirão Preto, tinham poucas perspectivas de realização. Cada uma atuava em uma área: Nelita saiu de uma multinacional, Valéria deixou a enfermagem e eu larguei uma empresa familiar para montar o nosso negócio. Nessa busca, percebemos que éramos extremamente ligadas à casa. Antes de tudo, somos mineiras, bastante apegadas à família. Então, fomos atrás de algo que buscasse o nosso papel de dentro de casa para fora dela. Como as flores já eram um ponto também muito familiar, decidimos por elas. Em São Paulo, percebíamos o crescimento do uso de flores, embora elas não façam parte da “cesta” de consumo dos brasileiros, da mesma forma que na Europa. Assim, resolvemos fazer das flores o nosso, inicialmente, hobby. Fomos para São Paulo, onde aprendemos muito com um grande designer de flores, fizemos cursos e, desta forma, trouxemos a primeira floricultura para Ribeirão Preto.

Marcela: Como foi o início de tudo?
Sofia: Tínhamos como slogan “A flor presente”. Isso me acompanha até hoje. Pode estar desatualizado, mas é exatamente isso: a flor está presente na nossa vida, numa recepção, numa mesa de jantar, em nós mesmos, através de seu perfume.

Marcela: Quando as flores deixaram de ser um hobby e passaram a ser, realmente, um trabalho?
Sofia: Com o tempo, percebemos que isso era sonho e era reconhecido pelas pessoas. Fomos atrás de alguém que cuidava de flores naturais e que trazia, na época, muitos produtos importados, que não tínhamos aqui. Então, imagine que, se eu quisesse um vaso de barro, não tinha nada a disposição aqui. Como temos outra irmã que é uma ceramista nata — adora tintas, barras, foi uma grande pintora de racu e fazia cerâmica branca —, pedimos para que ela fizesse algumas peças para nós. No início, ela se recusava. Depois, acabou cedendo. Hoje, essa irmã só se dedica ao que a gente desenha, imagina e sonha. Costumo dizer que acabamos com todo o tempo dela. Foi assim que iniciamos com uma linha de oito modelos de vasos e hoje estamos com 380.

Marcela: O sonho começou em três e, de repente, passou para duas. Se você tivesse que pontuar um momento muito marcante na sua vida, esse seria um dos mais difíceis?
Sofia: Com certeza. Porém, todo mundo passa por isso e, eu certamente, ainda não passei todas as minhas vezes. Quando perdemos a Nelita, tínhamos um casamento muito grande para cuidar. Nós três planejamos tudo juntas e, no meio de tudo, ela se foi. Faltavam 15 dias para o casamento. Eu e a Valéria nos olhamos e ela me perguntou: “Vamos?” Eu respondi: “Vamos!” E demos conta de tudo. Quando a festa acabou, nós sentamos na grama, nos olhamos novamente e percebemos que tínhamos conseguido. Seguimos a partir dali. Até hoje, em hora nenhuma, eu me esqueço dela. Às vezes, até peço algumas inspirações divinas. Esse foi um momento muito difícil, mas vejo como um desafio que tínhamos que passar. Para nós, por tudo o que enfrentamos, devo dizer que tivemos a prova de ter encontrado bons amigos.

Marcela: Como você e a Valéria encontraram o ponto ideal de trabalho?
Sofia: Nós temos personalidades opostas e que se complementam. Apesar de sermos tão diferentes, nosso gosto e nosso modo de pensar são muito próximos. As atitudes são diferentes.

Marcela: Além da inspiração divina que você citou, o que mais incentiva o seu trabalho?
Sofia: O que também me dá muita segurança e uma visão mais apurada é que, através do nosso outro segmento, com a Casa de Família Móveis, temos a preocupação com o design. Estamos sempre de olho nas tendências europeias. Isso nos dá, antecipadamente, um norte do que vamos usaremos em determinado momento. Estar muito próximos de pessoas que têm esse conhecimento permite colocar, com um pouquinho de antecedência, o que virá a seguir.

Marcela: Isso também é válido quando você tem que pensar em como vai desenvolver a próxima coleção de cerâmica?
Sofia: Para a coleção de cerâmica, busco inspiração em livros e em filmes. Você lembrou bem de algo que acontece com frequência: tenho momentos de inspiração em cenas de algum filme. Além disso, a moda da casa está vinculada à moda do vestuário e isso também inspira.

Marcela: Na moda, existe uma cartela de cores. O hemisfério Norte determina o que se vai usar e, no semestre seguinte, o hemisfério Sul também usa. Na moda da casa também acontece isso? Existe uma cartela de cores?
Sofia: Sim. Eu lembro quando lançamos o azul turquesa na coleção de vasos. Foi um sucesso! Através da participação em feiras, com outros lojistas, percebemos que um produto leva um ano para amadurecer, no Brasil ou fora daqui. É preciso esse tempo para madurecer, para o mercado e os formadores de opinião falarem sim e aquilo realmente virar tendência. Hoje, não acredito muito em referências duradouras. Acredito muito mais em produtos que são afirmados por pessoas que têm peso na opinião e que assinam embaixo do que vai ficar no mercado ou não. Eu tenho muita experiência de produtos que lanço e sei que vão durar um ano. Às vezes, a compra é apenas imediata; em outras, ela se repete durante algum tempo. E tem a questão do perfil do consumidor também. Eu sei direitinho o que vou vender para o Nordeste e o que vai para o Sul.

Marcela: Já que você tem o privilégio de saber o que está por vir, quais serão as próximas apostas na área do mobiliário e da decoração?
Sofia: Estou vendo uma forte tendência, que vem a partir deste verão, que é a volta das madeiras bem naturais. Também deve haver um uso maior do mobiliário clássico. Não me refiro a essa decoração clássica em que se usam peças desde o século XII até o século XX. Acredito que seja forte e muito bem-vindo o uso de alguns objetos e do mobiliário clássico junto com o que é extremamente contemporâneo.

Marcela: Você sabe muito da arte de bem receber. O que não pode faltar na mesa em uma recepção?
Sofia: Na minha cabeça, tem uma listinha. Vou começar por um bom guardanapo de linho, de 50 centímetros. Depois, um bom faqueiro, de preferência, de prata. Não sou fanática por esse tipo de coisa; a pessoa não é obrigada a ter um faqueiro desses, mas acho agradável usar talhares de prata. Se não for possível, um excelente faqueiro de inox cumpre o papel. Na lista, também estão um bom vinho e um bom pão. Para finalizar, um lindo arranjo de flores.

Marcela: Voltando ao assunto das flores, se eu fosse lhe dar um arranjo, o que você gostaria que ele tivesse?

Sofia: Eu gosto muito de rosas, de tulipas, das folhas, da mistura de itens secos, tão pouco explorados no Brasil. Essa mistura forma arranjos geniais.

Marcela: Se você pudesse escolher algum jardim, no mundo inteiro, para cuidar, qual seria?
Sofia: Não vou partir para o mundo, não. Vou para bem perto. Se pudesse fazer isso, seria na minha praça, que está em frente à Donaflor. Eu sou a mulher das praças: minha casa e minhas lojas ficam em frente a praças. E, como as praças são lugares de convivência, são benefícios que o Município oferece para os moradores, eu proporcionaria muito lazer para o usuário da praça. Então, colocaria plantas, sombra, sol, bancos e brinquedos para crianças. Esse é o meu sonho, meu maior sonho: arrumar esta praça e a que fica em frente a minha casa. Esses são os jardins que eu gostaria de fazer. Tenho uma alegria muito grande que foi, após o falecimento da Nelita, ver uma amiga nossa colocar o nome dela em uma praça. Tentei, muita vezes, arrumar aquela praça, mas não consegui. Gastei fortunas para cuidar daquilo, mas não tem manutenção.

Marcela: Entre todas essas frentes em que você atua, qual a que mais traz realizações?
Sofia: Pode parecer que não é verdade, mas estou dizendo do fundo do meu coração. Em tudo isso, busco um resultado de alegria, de felicidade, seja para o cliente ou para mim ou para minha família. Todas as áreas me proporcionam realização. É um prazer ouvir alguém dizer que se sente extremamente confortável na minha loja, da mesma forma que acontece, quando no fim de uma festa, o cliente vem me dizer o quanto ficou feliz com o nosso trabalho.

Marcela: Como você se organiza com tantas atividades? Como é o seu dia a dia?
Sofia: Às vezes, fica difícil, mas é incrível como dá tempo de fazer tudo. Meu dia começa às 5h30. Às 6h30, já estou na academia. Agora, voltei para o Pilates. Tentei fazer de tudo e acabei voltando para esta modalidade. Não dá para abandonar os exercícios físicos porque o corpo precisa disso. Depois, tenho um encontro marcado todas manhãs: tomar o café com minha mãe e meus irmãos. Éramos seis irmãos e agora somos quatro, mas fazemos questão de manter a tradição. Esse é o momento em que contamos o que fizemos no dia anterior e o que pretendemos para o dia que se inicia. Cada um leva um pão, um bolo, uma história. Nesse momento, trocamos alegrias e tristezas.

Marcela: Como reuniões, tanto com a família quanto com amigos, geralmente acontecem ao redor de uma mesa, apreciando um bom prato, qual culinária você elencaria como a sua favorita? E qual é o prato que você cozinha melhor?
Sofia: A italiana. E ela responde às duas questões. Sou mais apaixonada pela massa de fita do que pela recheada, gosto muito do molho de tomate elaborado em casa e do prato finalizado com um bom parmesão. Acompanhada de um vinho e uma excelente companhia, não precisa de mais nada. A comida árabe é rica e saborosíssima, porém muito difícil de fazer. Então, entrego a palma de ouro para a minha mãe, que faz pratos árabes deliciosos. A comida italiana eu sei fazer e gosto de comer. Não me dedico muito à culinária, mas me aventuro nele. Como recebo bastante as pessoas em casa, às vezes, vou para a cozinha. Gosto de experimentar o novo, fazer o que nunca fiz e até mesmo o que nunca vi. Entre erros e acertos, acho que acerto bem. Isso, para mim, é uma alegria: ver que experimentei algo novo e que deu muito certo. Estou indo fazer um curso de italiano com culinária, em Firenze, na Itália. Será o meu mês sabático.

Marcela: Qual foi a viagem da sua vida?
Sofia: As três que fiz para Londres, onde fiz cursos de flores. Outra viagem muito interessante, em que me senti muito bem, foi para São João Del Rei. Estive em uma indústria de estanho e ali descobri o que podia agregar de valor ao barro, à cerâmica, à terracota e ao metal. Isso, para mim, foi uma experiência muito boa. Como já disse, eu adoro experimentar.

Marcela: O que é luxo para você?
Sofia: Tempo. Este ano, eu me programei por três vezes para viajar e ainda não consegui. Precisava de férias, de dar uma escapada e ainda não foi possível. Precisava ir ver o meu filho e consegui por dois dias. E então, vejo que o tempo, hoje, é realmente um luxo. Por outro lado, acho que andamos muito desleixadas, pois nós é que fazemos o tempo. Eu tenho tanta gente capacitada ao meu lado que tenho certeza de que, na minha ausência, eles fariam o trabalho certinho e eu deveria me dar ao luxo de fazer o que tanto programo.

Marcela: Tem algum livro que tenha marcado a sua história?
Sofia: Eu leio mais jornais do que livros. Provavelmente, devo ter algum livro que tenha me marcado, mas vou citar um que estou lendo agora e é sensacional. É o livro que conta a vida do Steve Jobs. Ele é o máximo, um guerreiro. É o meu livro atual.

Marcela: Se a sua vida tivesse uma trilha sonora, quem cantaria nela?
Sofia: Chico Buarque. Posso falar que eu também colocaria Roberto Carlos? Ultimamente, estou gostando só de ouvi-lo, mas já gostei muito de vê-lo também.

Marcela: O que é essencial na sua vida?
Sofia: O café da manhã com minha família e o bom dia dos meus filhos.

DUAS EM UMA

“Eu admiro a Sofia não só porque ela é essa máquina nos negócios, à frente de empresas tão sólidas, mas porque também tem êxito na sua vida pessoal. Ela tem dois filhos educadíssimos e com carreiras bem-sucedidas. Tem duas Sofias que as pessoas precisam conhecer: a mãe e a empresária. E essas duas versões se misturam em uma só, com quem eu tenho o prazer de conviver.”
Marcela Mariani, publicitária 

Texto: Máisa Valochi
Fotos: Carolina Alves

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