De carona com o blues

De carona com o blues

Em entrevista concedida ao produtor artístico e musical Alê Balbo, Fred Sun Walk conta como descobriu e se apaixonou pelo blues, tornando-se uma das referências mais fortes no cenário contemporâneo

Falar em Alê Balbo e em Fred Sun Walk quando o assunto é o cenário cultural ribeirãopretano é mera redundância, afinal, são personagens que movimentam o circuito musical. Antes de se tornar produtor musical e dar visibilidade aos artistas com eventos realizados em variados espaços, como o Studio Kaiser e o Milwaukee American Bar, por meio da Matahari Produções Artísticas, e pelas produções feitas no MGB Studio, do qual é proprietário,  Alê foi baterista, dos 12 aos 29 anos, e chegou a lançar CD com a Banda Serafins. Na área de eventos, administra o Clube Magic Gardens, gerenciando, também, outros dois espaços: o LECOQ e a Mansão Galo Bravo, atuando como produtor artístico em ambos.  Em sua carreira de produtor de eventos, que se iniciou em 1999, já trouxe para Ribeirão Preto Tom Zé, Arnaldo Antunes, Ira, B-Negão, Nação Zumbi, Palavra Cantada, Sepultura, Detonautas, Dead Fish, além de inúmeras bandas independentes e nomes nacionais e internacionais da cena eletrônica.

Com Fred Sun Walk não é diferente. A virtuosidade na guitarra e as composições envolventes transformam o artista em um dos principais nomes do blues contemporâneo nacional. Com cinco CDs e um DVD lançados, Fred já participou dos mais importantes festivais de blues e jazz do Brasil, como o extinto Natu Blues Festival, o Sesc’n’Blues, o Festival Internacional de Rio das Ostras, e se apresentou ao lado de feras como Carey Bell, Phil Guy, The Teardrops, além de abrir shows para Buddy Guy, Jimmy King e Eric Gales.

Se antes Fred e Alê atuavam em pontas opostas do processo musical, o primeiro compondo, tocando e cantando, e o segundo divulgando e produzindo em estúdio ou em eventos os trabalhos de artistas da área, agora, suas carreiras têm mais um ponto em comum: desde o ano passado, Fred está à frente da produção do “Arena Blues Festival”, que acontece anualmente em Ribeirão Preto, no Teatro de Arena, e traz à cidade atrações internacionais do blues. Respondendo às questões de Alê, o músico conta sobre sua carreira, a relação com a música e outros assuntos afins. O bate-papo foi acompanhado pela jornalista Carla Mimessi.

Alê: Você já teve outra profissão além da música?

Fred: Já fiz umas coisas engraçadas. A minha primeira profissão foi aos 13 anos; eu era office-boy e trabalhava em uma imobiliária, fazendo, também, vistoria, com o Henrique e o Egídio Fogaça. Depois, para comprar instrumento musical, trabalhei em uma loja de departamentos, vendendo fogão, sofá e geladeira. Atuei, também, como repositor, no Macro, e em uma pousada como garçom. Enfim, fiz diversos trabalhos. A música começou a gerar dinheiro em 1997. Até então, tive que trabalhar em outras atividades para pagar minhas as contas.

Alê: Qual foi o estímulo que o fez buscar a música em sua vida e por que o blues?
Fred: Tudo começou com as influências direta e indireta da família. Meus pais e meus avós sempre escutavam muita música, gostavam de cantar, apesar de nunca terem feito isso profissionalmente. Meu pai sempre foi um fã muito grande de rock e eu e meus irmãos pegamos os vinis dele e começamos a escutar rock inglês — Led Zeppelin, Deep Purple, Rolling Stones — enfim, o rock anos 70. Dentro daquele repertório que ouvíamos, víamos que tinha alguns blues, como o Led Zeppelin cantando “I can’t quit you baby”. Aquele ritmo mexeu muito conosco e começamos a buscar alguns autores, querer saber quem era Willie Dixon, quem era Muddy Waters, e foi quando começamos a comprar os vinis de blues. Chegamos, então, do BB King ao Buddy Guy, ao Albert Collins, e a uma infinidade de outros nomes. A partir desse momento, a atração pela guitarra ficou mais forte porque, quando eu era moleque, escutava uma guitarra e me ligava no som dela, mas, nesta fase, aos 16 ou 17 anos, comecei a tocar violão, era um autodidata, e comecei a tirar uns blues.

Alê: Quais são as suas inspirações no mundo da música?
Fred: Ainda escuto muito blues, mas, depois de certo tempo, abri um pouco o leque. Teve uma época bem transformadora, que foi quando comecei a escutar jazz porque, até então, eu era bitolado no blues. Quando comecei a escutar John Coltrane, Miles Davis e Charlie Parker, meu repertório se ampliou. Consegui compreender a raiz da música negra americana e suas vertentes; passei a escutar mais funk, mais soul. Porém, basicamente, minhas maiores inspirações continuam vindo da música negra americana e de guitarristas consagrados, como Eric Clapton, Stevie Ray Vaughan e Jimi Hendrix.

Alê: A sua primeira banda foi a Fred Sun Walk and The Dog Brothers, que montou com seus irmãos?
Fred: Não. Na primeira banda, eu tocava contrabaixo. A banda era de punk rock e se chamava Alister. Ensaiávamos no estúdio do Joca Vita, da banda Motormama. Acho que fiquei tocando com os caras por uns seis meses, depois montei minha própria banda.

Alê: Como foi montar a banda com seus irmãos?
Fred: O Xandi é dois anos mais velho que eu, nós sempre fomos muito ligados. Começamos a escutar muita música juntos e quando ele viu que eu realmente estava decidido a tocar guitarra, resolveu partir para o contrabaixo. Começamos a tocar juntos, a ensaiar e a procurar um baterista. Foi quando o Michel entrou, em 1994.

Alê: Quando vocês se apresentaram pela primeira vez?
Fred: A primeira apresentação que fizemos tinha somente quatro músicas. Foi em um bar chamado Sociedade Alternativa. Comecei cantando a primeira música, desafinei e no resto da noite acabei fazendo só música instrumental. Depois, fomos para a Bahia e a partir daí que começamos a nos consolidar na música e nos tornamos profissionais. Isso aconteceu em 1997, mesmo ano em que o Danilo entrou para a banda. Aí, começamos, de fato, a viver da música. Em 1998, com a entrada do Leonardo, meu outro irmão, formamos a Fred Sun Walk and The Dog Brothers.

Alê: Nessa formação da banda, sua e de seus irmãos, quantos CDs  gravaram?
Fred: Gravamos quatro CDs com a Fred Sun Walk and The Dog Brothers. Na carreira solo, eu lancei mais um CD e um DVD.

Alê: Você já compôs muitas músicas. Como funciona o seu processo de criação?
Fred: Geralmente, quando componho uma música, ela flui de forma muito natural. Às vezes, componho também por partes, faço a parte A e a B, e deixo a C para depois. Uma hora essa parte C acaba vindo. Na maioria das vezes, faço a música primeiro, depois componho a letra e a melodia acaba surgindo junto com a harmonia. Começo a compor a harmonia e a cantarolar, criando a melodia, e depois escrevo alguma coisa que tenha relação com aquilo que eu senti.

Alê: Qual é a diferença entre o blues feito no Brasil em relação ao resto do mundo?
Fred: Tem alguns artistas que trabalham fazendo uma mescla do blues com outros gêneros, como o Blues Etílicos, o Jefferson Gonçalves, o Artur Menezes. Tem outro pessoal que é um pouco mais purista, que faz o blues como ele é, como é o caso do Igor Prado, o meu caso. Existem essas duas vertentes, mas, quando você escuta um músico brasileiro tocando blues, desde que ele não tenha partido para essa linha de abrasileirar o blues, muitas vezes, nem percebe que é um músico brasileiro, porque, geralmente, toca muito bem.

Alê: Analisando o cenário mundial atual, que tendências imagina para o blues? O clássico vai sempre prevalecer ou existe uma diversidade muito grande do blues, hoje, que pode suplantar essa prevalência?
Fred: Quando o artista é influenciado pelo blues, independentemente do que ele faça, sua música terá sempre um toque de blues. A vertente cresceu muito. Hoje em dia, as pessoas conseguem mesclar uma batida de blues com um soul, um jazz, um funk, um hip-hop. O próprio Eric Gales tem um trabalho nesse estilo. A tendência é, realmente, acontecer esse mix.

Alê: Mesmo as bandas de rock, inclusive as mais antigas, têm essa influência do blues, como Deep Purple, Led Zeppelin e Black Sabbath.
Fred: Nos primeiros discos do Rolling Stones, só dava blues. Todos esses músicos nadaram nessa praia. Dizem que o blues é o pai do rock e é verdade. O Chuck Berry e o Little Richard conseguiram trazer o blues para uma levada mais rock. Além do blues ser o pai do rock, é uma música com uma personalidade muito forte, que vai continuar influenciando outros artistas. O blues é imortal.

Alê: Acabamos de perder BB King, uma fortíssima referência no seu trabalho. Como é saber que a Lucille, a guitarra do Rei do Blues, jamais será tocada?
Fred: BB King está eternizado, ele é uma representação do blues, afinal, foi o responsável por levar o blues a todo o mundo. Eu acredito que Lucille, agora, vai, também, descansar em paz. Porém, com a morte dele, os dois se eternizaram juntos.

Alê: Você já realizou um festival de blues em Ribeirão Preto, neste ano e no ano passado, o “Arena Blues Festival”. Como foi essa experiência de, além de tocar, produzir o evento?
Fred: O secretário da Cultura, Alessandro Maraca, convidou para produzir um festival. Eu e a Gláucia, minha esposa, abraçamos essa ideia. Acredito que pelo fato de trabalharmos nesse meio, de conhecermos as pessoas e termos participado de muitos festivais, tínhamos essa visão, o espírito da coisa. Eu fiquei mais na produção musical e artística. Foi realmente um aprendizado, um trabalho que gostei muito de fazer. Como a experiência foi muito boa, queremos fazer esse projeto dar certo. O objetivo é realizar o festival anualmente ou até mais de uma edição por ano.

Alê: Eventos é sempre uma área na qual se pode agregar: além de favorecer o seu contato com a música, ainda pode dar um retorno financeiro. É uma área interessante para você?
Fred: Sem dúvida.

Alê: Quais são os próximos passos de Fred Sun Walk?
Fred: Quero lançar um trabalho inédito, se possível ainda este ano, já que são cinco anos sem fazer um novo trabalho. Em julho, lançarei o DVD que gravei no fim de 2012, em duas noites em que toquei no Vila Dionísio.  Estou pensando, também, em produzir um material audiovisual para disponibilizar na web, um áudio para download.

UM ÍCONE DO BLUES

“Foi com muito prazer que recebi o ribeirãopretano Fred Sun Walk, um ícone do blues no Brasil, aqui no MGB Studio para um bate-papo sobre diversos assuntos, desde a música, o trabalho, os projetos futuros, a família e o que acontece no dia a dia desse grande artista que, desde criança, juntamente com seus irmãos, começou a vida na música e pela música. Com uma história extremamente rica nas mais diversas experiências, conhecer um pouco mais de sua formação como pessoa e o que já fez e faz, além da música, não é apenas muito divertido, é uma grande honra.”
Alê Balbo, administrador e produtor artístico

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Júlio Sian

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