De olho na dengue
Dengue: a doença transmitida pelo Aedes aegypti já é considerada epidemia em Ribeirão Preto
Dor de cabeça e nas articulações e manchas pelo corpo colocaram os moradores da casa de Luciana Scandiuzzi, de Bonfim Paulista, em alerta. Na mesma semana ela e a filha, Ana Carolina Ribeiro, foram infectadas pelo vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti.
Essa situação já não é rara em Ribeirão Preto. Só em março, foram registrados 1.944 casos de dengue por aqui, totalizando 3.049 infectados no primeiro semestre do ano. Esses números levaram à cidade para a lista de municípios que estão em alerta, situação caracterizada, segundo a Secretaria de Saúde, por uma incidência superior a dois mil casos.
O vírus causador da dengue possui quatro sorotipos: DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-4, todos já registrados no Brasil. A dengue tipo 4 foi novamente verificada no país, em 2013, depois de mais de 28 anos de ausência. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), os quatro tipos do vírus não são mais ou menos perigosos entre si. O problema é que, com a volta da infecção pelo tipo 4, existe um novo microrganismo a ser combatido. “O sarampo e a catapora, por exemplo, são contraídas apenas uma vez, pois o corpo cria imunidade a essas infecções. Com a dengue, acontece a mesma coisa, no entanto, há quatro tipos de vírus. Se uma pessoa é contaminada pela dengue tipo 1, poderá, ainda, contrair os vírus tipo 2, 3 ou 4”, explica Silvia Nunes Szente Fonseca, gerente médica do hospital São Francisco. Para que um paciente fique completamente imune ao vírus da dengue, ele deverá passar pelos quatro tipos da doença.
A dengue pode se apresentar de quatro maneiras diferentes, desde a forma inaparente — em que, apesar da pessoa estar com a doença, não há sintomas —, até quadros de hemorragia, que podem levar o doente ao choque e ao óbito.
Preste atenção aos sintomas
Suspeita-se de dengue nos casos de doença febril aguda com duração de até sete dias e que se apresente acompanhada de, pelo menos, dois dos seguintes sintomas: dor de cabeça, dor atrás dos olhos, dores musculares, dores nas juntas, prostração e vermelhidão no corpo.
Geralmente, os sinais da dengue iniciam de uma hora para outra e duram entre cinco e sete dias. A pessoa infectada tem febre alta (39° a 40°C), dores de cabeça, cansaço, dor muscular e nas articulações, indisposição, enjoos, vômitos, manchas vermelhas na pele, dor abdominal (principalmente em crianças), entre outros sintomas. Os sinais da dengue clássica duram até uma semana. Depois deste período, a paciente pode continuar sentindo cansaço e indisposição.
No caso da dengue hemorrágica, os sintomas se diferenciam pelos sangramentos, comuns depois do terceiro ou do quarto dia de evolução da doença. Eles acontecem em virtude do sangramento de pequenos vasos na pele e nos órgãos internos. A dengue hemorrágica pode provocar hemorragias nasais, gengivais, urinárias, gastrointestinais ou uterinas. Assim que os sintomas de febre acabam, a pressão arterial do doente cai, o que pode gerar tontura, queda e choque.
Uma questão cultural
Em apenas um dia, o mosquito transmissor da dengue pode contaminar até 300 pessoas. A forma mais simples de prevenir a doença é evitar o seu nascimento, já que não existem vacinas ou medicamentos que combatam a infecção. Para isso, é necessário eliminar os criadouros do Aedes aegypti. Os locais mais apropriados para a reprodução do mosquito, que acontece rapidamente, são aqueles que acumulam água limpa, com latas, caixas d’água, pratos de vasos, etc. Depois de depositado, o ovo do transmissor pode sobreviver até 450 dias, mesmo se o local for seco posteriormente. Portanto, é preciso estar constantemente atento. Além das iniciativas governamentais, a participação da população é muito importante para interromper o ciclo de transmissão e contaminação da doença.

Estudo em andamento
Pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba, desenvolvem uma técnica que pode trazer bons resultados no combate à dengue. Por meio de radiação, o mosquito transmissor do vírus da doença, Aedes aegypti, torna-se estéril AP. Para isso, os estudiosos, coordenados por Valter Arthur, irradiam a pupa, como é chamada a fase jovem do inseto. Com uma baixa dosagem de radiação gama, que tem como fonte o Cobalto 60, o inseto macho fica incapaz de fecundar a fêmea.
Ao liberar massivamente os mosquitos estéreis (produzidos em laboratório) na natureza, de preferência em localidades onde a infestação é maior, os pesquisadores esperam reduzir a quantidade de machos com capacidade de copular.
Na primeira fase do estudo, concluída em três meses, os pesquisadores conseguiram determinar o nível de radiação para impedir a proliferação do mosquito. O próximo passo será o “teste de compatibilidade”, quando tentarão o cruzamento dos insetos. A expectativa do coordenadora da pesquisa é que o trabalho esteja concluído em aproximadamente dois anos.
Segundo Valter, estudos com radiação em insetos são feitos há mais de 30 anos. O pesquisador esclarece, porém, que a técnica não será capaz de erradicar totalmente a transmissão da doença. Irá apenas diminuir a um nível que não seja epidêmico”, afirma. Por isso, a prevenção à dengue continuará sendo fundamental.

Texto: Mariana Secaf, com reportagem de Bruno Silva
Diagramação: Marcelo Mantovani
Ilustrações: Caetano Cury https://opanca.blogspot.com